terça-feira, 19 de outubro de 2010

"TV" Contra Impugnantes: o mérito sobrenatural

Sidney Silveira
Veja-se neste trecho de aula qual é a noção analógica de "mérito sobrenatural". Ou seja: o que é propriamente um mérito, de onde provém e a que bens encaminha, de acordo com a doutrina de Santo Tomás.

sábado, 16 de outubro de 2010

"TV" Contra Impugnantes: a instância inexpugnável da liberdade

Sidney Silveira
Aproxima-se o momento em que o primeiro DVD do curso A Síntese Tomista ficará pronto. Como tira-gosto do material que vamos disponibilizar, escolhi um pequeno trecho de aula em que se fala sobre a vontade como sede inexpugnável da liberdade humana. A propósito do que se diz ali sobre a vontade, vale remeter-nos ao texto sobre a Premoção divina, onde se mostra que Deus, embora não coaja a vontade, pode movê-la necessariamente.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Sobre as coisas políticas (VI): a política sem rumo, sem Deus

[Encerraríamos ontem a série de textos sobre a política eleitoral. Mas em razão da quantidade de comentários que temos recebido de alguns católicos (a maioria da melhor cepa liberal, dada a sua idéia do que seja a política), resolvemos continuar. Estão preocupadíssimos com a Agenda comuno-abortista-gayzista-narcoterrorista-colombiano-iraquiana — na incrível expressão de um deles! — de uma das facções em luta, que, em seu aterrorizado parecer, seria mais danosa do que as demais. Reiteremos, antes de tudo:


1- Não estamos eu e o Nougué fazendo campanha pelo voto nulo; apenas votaremos nulo por falta de opção do ponto de vista da fé, e expressar isto de público remetendo-nos a princípios desde sempre defendidos pela Igreja é, em si, um serviço, ainda que os nossos opositores não enxerguem isto no calor da véspera das eleições. Estão cegos pela paixão política e não compreendem a coincidentia oppositorum dos partidos hoje em disputa pela Presidência, ambos a serviço de Belial;

2- Perdoem-nos, mas que iletrados nos chamem de ‘covardes’, aduzindo argumentos que mostram não terem estudado absolutamente nada sobre as relações Igreja-Estado, é algo que revela apenas o grau de embotamento a que, mesmo entre católicos, chegamos. A propósito, os ‘linhas-médias’ são os primeiros a correr na hora do pau. São flexíveis com relação aos princípios e, por conseguinte, também o serão na hora de defender a fé à custa dos próprios interesses. Entre abraçar o martírio para não perder a fé e abjurá-la para viver num ambiente político hipoteticamente melhor, certamente escolherão o ‘mal menor’ no plano natural — a menos que se dê um milagre;

3- Se quiserem discutir em qualquer foro público, estamos dispostos a fazê-lo].


Sidney Silveira

Uma coisa parece absolutamente monocórdica entre católicos que atacam o voto nulo nestas eleições presidenciais como se fora ‘imoral’, ou coisa que o valha: no discurso de todos eles não há sequer resquício do vínculo necessário existente entre o fim último do homem (Deus) e o fim da política (o bem comum da Cidade). Desconhecem este liame inextricável defendido solenemente pelo Magistério tradicional da Igreja como norma pétrea, e também ignoram que os atos propriamente humanos — atualizados pelas potências superiores da alma, a inteligência e a vontade — são meritórios ou demeritórios com relação a Deus, mas nem sempre o são com relação à Pólis, como ensinara Santo Tomás no clássico De Regno. Em resumo, antes de tudo, o católico* ordena-se a Deus como a seu fim próprio, seja sob a tirania de um Calígula, de um Stalin, ou então sob a proteção do rei São Luís de França. Em qualquer destes casos, atuar no plano político justifica-se apenas se for para auxiliar a Igreja a lograr os seus fins de ordem superior, sem os quais a Pólis, como diz o Pe. Calderón num de seus belos escritos, transforma-se em pasto de demônios santarrões.

Convém relembrar que a ordem sobrenatural está para a natural assim como o ato está para a potência, pois não haveria todo o conjunto de entes naturais sem a existência de uma realidade supra naturam que lhes desse o suporte metafísico. Se assim não fosse, como se mostrou alhures, a natureza seria autocausada, o que é absurdo. Portanto, todos os bens naturais — entre os quais se insere o bem comum político, alcançável por potências inscritas na natureza humana — estão subordinados aos bens sobrenaturais, de que a Igreja é custodiadora. Tendo, pois, em vista esta subordinação necessária do natural ao sobrenatural, não há simpliciter gradações de mal entre duas ou mais facções políticas que, formalmente, contrariem em pontos essenciais a fé (a qual é virtude sobrenatural infusa, lembremos), da mesma forma como não há o mais ou menos herético, o mais ou menos cismático. A escolha parece ser entre ir para o inferno de trem-bala ou montado num jegue; entre Barrabás e Barrabás do B.

Alguns de nossos opositores, entre os mais cultos, arrolam documentos da Igreja do começo do século XX ou do final do XIX em que notáveis Papas propugnaram a escolha do mal menor político, mas deixam obviamente de aduzir que o conselho aplicava-se, sem dúvida, aos casos de necessidade absoluta. Para aqueles Papas, a separação entre a Igreja e o Estado, hoje consagrada mundo afora, seria não menos que diabólica; ademais, tal princípio para eles jamais implicaria que o sujeito devesse despir-se do catolicismo para eleger esta ou aquela corrente política, razão pela qual certamente nem Leão XIII nem São Pio X apoiariam candidatos que assinassem normas técnicas propiciando o aborto com recursos materiais subministrados pelo Estado ou, então, criassem escolas que são fábricas de militância gayzista, como é o caso do candidato escolhido por parte dos nossos católicos como a salvação da pátria brasileira. Nunca dos nuncas estes grandes Papas incentivariam o voto em políticos frontalmente contrários à lei natural! Pressupor que o fizessem é jogar no lixo os princípios norteadores do seu pontifício conselho de escolha do mal menor político...

Em suma, se o mal menor é, também ele, essencialmente, anticatólico (ainda que sob uma fisionomia menos contundente e tendo por trás de si um grupo político menos organizado) devemos escolhê-lo? Ou, por outra: vale escolher o mal menor por razões meramente políticas? Vale porventura ignorar as duras exigências do princípio de adesão à integralidade da fé para salvar algo da configuração política? Aqui, façamos outra observação: entre um socialismo com tirânicas pretensões continentais e um socialismo enrustido, mas igualmente nefasto em seus princípios, a diferença é de grau, e não de gênero. O que estes amigos não enxergam é que o socialismo enrustido prepara o terreno ideológico para o socialismo tirânico (hoje, ambos travestidos de ‘democráticos’), e dentro em breve o mal menor nos levará ao exato ponto em que estamos. Quem, afinal, é ingênuo? Nós ou o sujeito que não enxerga a perfeita harmonia e complementaridade entre as forças em luta?

Entre dois movimentos que se orientam a um mesmo fim — como o PT e o PSDB —, não há propriamente uma contraforça, mas, no caso de que se trata, apenas diferenças quanto à velocidade da marcha rumo ao brejo, e à configuração em que isto se dará. A real contraforça poderia vir ou da Igreja mesmo (acontece que ela simplesmente abdicou à sua supremacia no plano político) ou, então, da criação de uma corrente política efetivamente católica, que, a médio e longo prazos, se colocasse como alternativa aos infernos que se avizinham. Várias vezes, em desalentadoras conversas, indagamos eu e o Nougué se não seria conveniente, dado o dramático tempo em que vivemos, a criação de uma nova Ação Católica, com vistas a atuar ou plano político ou no infrapolítico. Mas neste ambiente da democracia liberal, será?

Outra coisa: quando os nossos liberais católicos desfraldam com o peito aberto o anátema papal aos que aderem ao comunismo, fingem esquecer-se de que o liberalismo (em que a sua mentalidade está imersa, numa louca mornidão) foi igualmente anatematizado. Ademais, nenhum dos nossos críticos parece opor-se, por princípio, à democracia liberal que torna possível a situação política do mundo contemporâneo e, a fortiori, do Brasil de hoje.

* Consciente ou inconscientemente, na verdade todos os homens ordenam-se a Deus como a seu fim próprio, mas aqui quer-se apenas enfatizar que o católico de boa formação sabe disto.

P.S.1. Desfraldem as bandeiras, valorosos defensores da democracia! Recebi de fonte segura (afinal, sou jornalista profissional e trabalhei com cobertura de política durante bom tempo) a seguinte informação: a próxima pesquisa, a ser divulgada amanhã, registra uma diferença de algo em torno de 4,5% entre um candidato e outro. E nos bastidores já se sabe que a tendência de Dilma é de queda livre, justamente nestes últimos dias de campanha...

Adendo (trecho de uma resposta do Carlos Nougué a um amigo católico, com uma pequena adaptação): “Digo apenas duas coisas: a) apesar de quanto eu disse, não é um “pecado” votar em Serra, sobretudo porque os católicos não temos acúmulo de discussão suficiente para que decretemos tal caráter “pecaminoso”. É questão muito complexa, sobretudo ante a pergunta: do ângulo católico é Serra efetivamente menos indigno ou mal menor que Dilma? Não se repitam, porém, os argumentos dos liberais: se o PT é, pouco mais ou menos, o que você diz, foi todavia no governo FHC que: 1) mais o MST recebeu verbas estatais; 2) se normatizou legalmente o aborto; 3) se estimulou inicial e grandemente o gayzismo. Ademais, Serra fundou a primeira escola gay para adolescentes. Isso clama ao céu por vingança, como diria S. Pio X (cf. Catecismo Maior). E mantenho: tal como está sendo feito, o apoio dos melhores católicos a Serra joga água no moinho do social-liberalismo e terá como conseqüência o aumento do câncer liberal entre esses mesmos católicos. Um dos pressupostos para o seguro apoio dos católicos a qualquer candidato menos indigno é que eles estejam tão seguros de seu catolicismo e tão firmemente dirigidos por um firme episcopado, que não sejam tragados pelo fluxo das coisas. Se porém se tratasse, pelo menos, de um candidato que defendesse claramente alguns importantes itens da lei natural, os danos de que tal fluxo tragasse os católicos seriam menores. Mas imagine, amigo, um apoio católico a um Serra abortista e defensor do gayzismo como uma espécie de assinatura num cheque em branco ou numa ação ao portador não preenchida: uma catástrofe, cujas conseqüências logo advirão”.

Adendo 2: notícia publicada hoje em vários jornais: Serra diz ser favorável à união civil entre homossexuais. Bem, isto de fato pode não importar a quem, de tão embebido na política deste mundo, parece não distinguir entre o homo catholicus e o catholicus 'homo' que tanto envergonha hoje a Igreja, como o provam vários escândalos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Breve carta aberta ao Prof. Antonio Angueth

[O texto a seguir é uma resposta agradecida ao que o querido amigo Angueth publicou ontem em seu blog]

Sidney Silveira

Caro Angueth, assumir uma posição e dela não arredar, ainda quando a grande maioria vai contra, é um ônus que se carrega somente quando não se tem mais a sombra dos respeitos humanos a pairar sobre a cabeça. Não se chega a tal ponto sem sofrimento, ou por outra: pelo sofrimento rompemos verdadeiramente os laços do mundo e temos a noção efetiva da inanição de todas as coisas em relação a Deus. Quem, portanto, nunca foi exposto a uma situação vexatória e por ela conheceu a desonra; quem nunca viu os seus projetos mais queridos ir por água abaixo; quem nunca foi traído por pessoas a quem amava; quem nunca teve uma grande perda na vida; quem nunca saiu do doce refestelo das comodidades materiais; quem nunca sentiu a aridez do espírito que traz consigo a dor de saber-se irremediavalmente só; em suma, quem não passou por nada disso não poderá amar a verdade a ponto de sacrificar por ela os seus interesses. E é a isto o que todos somos chamados por Deus, embora tantas vezes nos sintamos fracos para lográ-lo.

Quando digo “sacrificar” (sacrum facere), refiro-me antes e acima de tudo a dar testemunho. A propósito, como você bem sabe, é muito bonita a etimologia da palavra “testemunho”: vem do grego martyrion. Ou seja: martirizar-se é, na acepção da palavra, dar o testemunho da verdade. Decerto tal martírio nem sempre nos cobra a própria vida, mas no mínimo cobra-nos o que temos de bom na vida. E na imensa maioria das vezes é preciso perder o que temos de bom na vida para saber valorizá-la, encará-la em sua radical beleza — que é ser uma dádiva do Criador. E uma dádiva que nos torna semelhantes a Ele.

Ora, como dizia Santo Tomás, existem duas formas de semelhança: semelhança de vestígio e semelhança de imagem. A primeira delas é a que se dá entre uma causa e seu efeito, nos casos em que o efeito não possui a mesma forma da causa, mas é um signo dela: assim, a fumaça é um vestígio do fogo, e as pegadas na areia são o vestígio de que algum animal passou por ali. A semelhança de vestígio nos permite conhecer a existência da causa e certas propriedades que possui. Por sua vez, a semelhança de imagem se dá quando coisas distintas se assemelham a partir de três características: unidade de forma, comunidade de espécie ou, por fim, de algum acidente metafísico. Quanto a estas semelhanças só nos interessa, por ora, apontar que todas as criaturas corporais se assemelham a Deus como vestígios; enquanto o homem se assemelha a Ele também como imagem, dada a sua diferença específica em relação aos outros entes compostos de matéria e forma: entender e querer.

Para chegar à compreensão disto e extrair dela todos os corolários para a vida prática, é preciso sofrer a ponto de ver cristalinamente o que ensina num lindo sermão o Pe. Antônio Vieira, maior escritor da língua portuguesa: entre o pó que fomos e o pó que havemos de ser, há um pó muito mais difícil de perceber — o pó que somos.

Pois bem, neste caminho de pó a pó que é a nossa vida, a grande conquista é desvencilharmo-nos dos laços do mundo, com a ajuda de Deus, ainda que com marchas e contramarchas, quedas e soerguimentos. E sem dúvida um desses laços pode ser o das coisas políticas, quando a nossa opção acaba por se transformar na justificativa do injustificável.

Tendo isto em vista, a única coisa que se quis mostrar nos textos a que você se referiu foi a seguinte: não havendo entre os candidatos à Presidência (e as correntes políticas que representam) o mal menor do ponto de vista da fé, a opção dos eleitores católicos até pode ser por um em detrimento de outro, mas nunca, jamais, omitindo alguma parte essencial da verdade ou transfigurando-a, para defender o voto. Pois, à imitação de Cristo, somos chamados a dar o testemunho da verdade.

Pois não foi o Nosso Senhor quem disse (cfme. Jo. XVIII, 37) ter nascido e vindo ao mundo justamente para dar testemunho da verdade? Despeço-me com um fraternal abraço, Sidney.

Adendo importante: Não se pense que no primeiro parágrafo me refiro a mim mesmo. Não! Sofri muito menos do que mereço (dados os meus muitíssimos pecados). Apenas remeto-nos ao modelo que a Igreja sempre nos propôs para fugirmos aos laços do mundo, da carne e do demônio e amarmos a verdade como Deus quer que a amemos: sofrer, e sofrer em Cristo. Neste sentido, o milenarismo criticado nos textos sobre as coisas políticas é, sem dúvida, um grande risco para as almas. Por fim, ainda que estejamos todos incomensuravelmente distantes do modelo de perfeição cristã, isto não quer dizer que devamos jogá-lo no lixo...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Sobre as coisas políticas (V): quando a escolha do suposto mal menor pode perverter a alma

Sidney Silveira

Em teologia moral, a doutrina da restrição mental é de forte sabor agostiniano, pois nos livros Sobre a Mentira (“De Mendacio”) e Contra a Mentira (“Contra Mendacio”) Santo Agostinho deixara-nos claro que a inteligência, ao expandir-se, busca naturalmente a verdade. E a mentira, por sua vez, seria um dito contra mentis, ou seja, um movimento contrário à inclinação natural da mente. Em resumo: para o Santo de Hipona, quando alguém conta uma mentira restringe — no ato — essa expansão natural da inteligência rumo à verdade. Muitos séculos depois de Agostinho, alguns dos mais notáveis teólogos da Igreja adotarão a expressão restrição mental — classificando-a como estrita (ilícita) ou lata (lícita, nos casos em que uma pessoa restringe a mente para omitir algo da verdade que, em dada ocasião, não está obrigada a revelar).

Após definir o mentiroso quanto ao caráter, Santo Agostinho enumera as mentiras com relação aos graus, chegando à conclusão de que a pior de todas é sem dúvida a mentira religiosa, por ser frontalmente lesiva ao fim último do homem. Ora, se, como pode-se deduzir, a classificação das mentiras tem como objeto especificante o bem que cada uma delas contraria, a mentira política será, com certeza, uma das mais nefandas de todas, na medida em que contraria o bem comum da Cidade, instrumento para a consecução da felicidade perfeita, no Céu. Advirta-se no entanto que a conquista do Céu não depende do bem-estar político, pois Deus pode, de potentia absoluta, salvar a quem quiser. Ocorre que, como sempre ensinaram os grandes Doutores da Igreja, Deus ordinariamente move o mundo por causas segundas, de acordo com os desígnios de Sua inescrutável Providência. E quis Ele mostrar aos homens que todo poder terreno provém do alto (Jo. XIX, 11)*.

Pois muito bem: nas democracias liberais, legítimas herdeiras d’O Príncipe de Maquiavel, a mentira política é condição sine qua non da luta intestina pelo poder. Não há partido ou candidato que não a pratique sem o menor constrangimento, sobretudo às vésperas de eleições. E não poderia ser diferente, pois a democracia normalmente entroniza um tipo a que Platão chamava “Demou Eros”, o adulador serpentino cujo objetivo é seduzir a multidão para manter-se no poder a qualquer custo. Profética visão do grande filósofo grego! Se ele acordasse hoje veria, com assombro, quão acertada estava a sua tese de que a democracia engendra a pior das tiranias. Isto porque os amantes da sabedoria são inúteis para a multidão que a democracia alça ao poder. A propósito, pôr representantes da multidão no poder é algo análogo à atitude do capitão do navio que, detendo perfeitamente a ciência da navegação, rogasse a ineptos marinheiros que assumissem o leme (República, VI, 489c)**.

Qualquer pessoa com mínima formação intelectual e moral não consegue ver o horário político eleitoral, ou então um debate entre candidatos a qualquer cargo executivo, sem sentir certo nojo. Não há nessas horas como não ser tomado por uma desesperança profunda com relação ao nosso futuro político imediato. Neste contexto, na tentativa de usar do direito ao voto para escolher o mal menor político, não devemos fazê-lo em detrimento das potências superiores da alma, a inteligência e a vontade, para — sob o pretexto de realizar uma boa ação — não pervertermos o dom maior que recebemos de Deus: entender a verdade e querer o bem.

Assim, se alguém pensa em votar em José Serra contra o presumível mal maior representado pelo PT de Dilma Roussef, pode fazê-lo perfeitamente. Mas fazê-lo com argumentos que, pelo menos assintoticamente, se aproximem de alguma verdade; caso contrário cai-se na restrição mental estrita, acima citada: a omissão (ou torção) da parte mais importante do discurso de forma ilícita, mesmo que sem a perfeita consciência do ato.

Um exemplo? Bem, como a questão do aborto virou um chavão deste segundo turno da campanha eleitoral para presidente da República, vale dizer algumas coisas. A primeira delas é que não se sustenta de maneira alguma dizer que José Serra, não sendo jurista, ao assinar a Norma Técnica do Aborto se deixou enganar pela idéia de que o aborto é “legal” quando a gravidez resulta de estupro. E isto por uma simples razão: a defesa da vida é um dos mais importantes tópicos da lei natural, e não é necessário ser jurista para captar os princípios da lei natural, pois estes são alcançáveis pela sindérese, que é, como demonstrou Tomás de Aquino de forma apodítica, a captação dos primeiros princípios da ordem moral inscrita em nossa forma entis (ver De Veritate, q. 16).

Também não é defensável argüir que Serra não foi o autor da Norma Técnica do Aborto, mas apenas assinou-a. E assinou-a sem ter pleno conhecimento de suas reais implicações. Quer dizer então que, como ministro, ele era um simples fantoche a fazer a vontade dos técnicos? Ademais, se nem mesmo a Igreja julga de foro interno (pois só Deus vê os corações dos homens), só podemos julgar uma ação por sua extrínseca visibilidade e pelos efeitos diretos que acarreta, sejam próximos ou distantes. E, no caso de que se trata, os efeitos são os milhares de abortos praticados com a anuência do Estado brasileiro, nos últimos 12 anos — graças ao jamegão de Serra num documento ministerial.

Não vou aduzir aqui a criação, no governo Serra, em São Paulo, da primeira escola gay para adolescentes na América Latina, pois este é outro assunto e mereceria um longo preâmbulo com a explicação das premissas... De toda forma, se alguém vai mesmo votar nele para evitar o mal maior, que o faça apesar de todas estas coisas, e não com argumentos que parecem justificá-las sob algum aspecto. Seria como justificar o pecado perante Deus.

* Sendo assim, a Cidade deve, por dever de Justiça, prestar o culto devido a Deus e lembrar-se de que as leis que a governam têm n’Ele o seu fundamento primevo.

** A certa altura do Livro VIII da República, Platão nos dá mais uma visão de caráter profético acerca do ambiente democrático: “Tais discursos [democráticos] são os que prevalecem no combate [de idéias]: ao pudor eles chamam 'idiotice', lançando-o fora e convertendo-o em desonroso fugitivo [da Pólis]; ao autocontrole [dos apetites sensitivos, ao qual os cristãos chamarão castidade] chamam ‘falta de virilidade’, injuriando-o e desterrando-o. (...). Reintroduzem a desmesura, a anarquia, a prodigalidade e o despudor (...); elogiam-nos e chamam, eufemisticamente, de ‘cultura’ a toda sorte de desmesuras; de ‘liberalidade’ à anarquia; de ‘grandeza de espírito’ à prodigalidade; e de ‘virilidade’ à impudicícia”. (República, VIII, 560, d-e). Em síntese, a palavra transformada em fetiche no ambiente democrático é liberdade; ela será a reitora das leis, e não a Idéia do Bem. Recorramos ainda a Platão: “Num Estado democrático ouvirás, seguramente, que a liberdade é tida como a mais bela das coisas, e que, para quem é livre por natureza, este é o único Estado digno sob o qual se deva viver. (...) No entanto, o desejo insaciável de liberdade e o descuido das coisas mais importantes [típicos das sociedades democráticas] altera esse regime político e o predispõe à tirania. (República, VIII, 561, c-d).

P.S. Sei perfeitamente que eu e o Nougué, que anularemos o voto, estamos angariando a antipatia de muitos amigos católicos. Mas não podemos calar ao saber que vários padres ligados a movimentos tradicionais estão simplesmente fazendo panfletagem a favor de José Serra, omitindo não obstante os pontos fundamentais de sua atuação política recente e induzindo vários católicos ao milenarismo condenado desde sempre pela Igreja.

sábado, 9 de outubro de 2010

O raciocínio de São Bernardo para a hora presente...

Sidney Silveira
Acato aqui a sugestão de um leitor: remeter-nos a um texto do Contra Impugnantes de janeiro deste ano (O dilema de São Bernardo). Em dado trecho, ele é bem a propósito do que se disse sobre as coisas políticas, no tocante ao milenarismo de católicos que parecem pôr a sua esperança no vale-tudo das promessas de campanha às vésperas da eleição... Pobres homens que, mesmo amando as coisas espirituais, não conseguem ver que, do ponto de vista da fé, não há o menos ruim na política brasileira atual; todas as correntes em disputa chafurdam na mais hedionda demagogia — como se pode observar na propaganda que começou neste segundo turno. É a mentira política contada maquiavelicamente por quem quer o poder a qualquer preço.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ateísmo anticivilizacional

Sidney Silveira
Eram mais ditosos os ateus de antanho! Aqueles da época em que a Cristandande cobria o mundo com a sua sombra terrivelmente benévola, que remetia os homens ou à perfeita felicidade ou a suma dor em que consistiam o céu e o inferno — o prêmio e o castigo divinos. Mesmo grandes cristãos, como por exemplo Santo Anselmo, jamais conseguiriam conceber em seu tempo um ateísmo brutal como o que hoje fornece o pano de fundo das sociedades: o ateísmo de homens para quem o simples conceito de Deus e de religião é absurdo, uma superstição social a ser atacada de todas as formas, uma fantasia a ser reprimida com vigor, uma idéia a ser colocada à margem das leis. A propósito, no Proslogion, obra em que compôs o famoso argumento depois chamado de “ontológico” por Kant, Santo Anselmo supunha que a simples menção do nome de “Deus” levava todos, inclusive os ímpios, a pensar no ser acima do qual nada pode ser pensado (nihil maius cogitari potest)*.
O ateísmo, qualquer que seja a sua forma, traz embutida uma conclusão que, na prática, é o cume de um processo racional mal formulado. Não se conhece nenhuma teoria atéia que não possua um grande erro filosófico em suas premissas básicas, em geral fruto de uma atitude prévia de negação. A propósito, o cardeal Louis Billot, referindo-se a ateus adultos, distinguia entre adulti ætatis e adulti rationis: os primeiros são os que carecem de luzes intelectuais mínimas para sair de sua situação e conceber um adequado conceito de Deus, razão pela qual a sua ignorância é quase invencível; os segundos são os propugnadores do ateísmo teórico. Somente estes últimos podem ser considerados propriamente culpáveis, segundo Billot. E o podem porque cegaram a inteligência com erros apaixonados que poderiam muito bem ser evitados.
Cornelio Fabro, por sua vez, afirma em L’Uomo e il rischio di Dio que a pretensão da etnologia materialista e evolucionista de colocar, no princípio da história, um homem sem religião ou um politeísta foi desmentida por vários estudos sérios do último quartel do século XX, que descobriram o seguinte: as formas mais primitivas de religião são monoteístas, sendo o politeísmo um fenômeno degenerativo do monoteísmo originário, e o ateísmo simplesmente inexistente ou, então, uma reação às absurdidades ou inconveniências das práticas politeístas.
Em suma, o ateísmo jamais representa o movimento natural da alma humana na inquirição da natureza das coisas. Daí afirmar Aristóteles no livro que os medievais traduziram por De cælo et mundo (I, 3, 270b): “Os homens têm a profunda convicção de que os deuses existem”. Podemos, a partir daí, trazer à luz outra verdade: “Não existem povos sem religião”.
O ateísmo é na prática uma espécie de válvula de escape, uma fuga que acaba por justificar determinadas maneiras de atuar no mundo. Em suma, para o ateu é psicologicamente confortável pensar que Deus não existe, e a partir desta negação radical não apenas manter-se à margem dos problemas éticos fundamentais e constitutivos da natureza humana, mas também, por conseguinte, dar razões às suas imposturas perante o mundo. Já muito se escreveu sobre a impossibilidade do ateu ético; foi preciso separar a ética da moral, após Kant, para minimizar o funesto antinaturalismo que está na gênese de todo ateísmo e conceber éticas sem nenhuma referência a Deus.
No seio das sociedades sempre houve posturas de alguma maneira atéias, é verdade. Mas nunca foram prevalecentes da forma como hoje o são. Ademais, muitas vezes elas simplesmente confundiam-se com idéias errôneas ou vagas a respeito de Deus, razão pela qual alguns estudiosos católicos — como o próprio Cornelio Fabro, acima citado — qualificaram como formas de ateísmo as filosofias e religiões de fundo naturalista, na Índia antiga: a filosofia samkhaya, o jainismo e o budismo em sua forma originária, ou seja, antes de Buda ser “divinizado”; etc.
Para o grego dos primórdios, a impiedade era punível com a pena capital; para o judeu, representava a estupidez máxima que descambava em idolatria; para o cristão, a desesperança, como diz São Paulo na Epístola aos Efésios. Mas para o homem contemporâneo, forjado no ceticismo e no materialismo anticristãos, a maior impiedade é crer.
Na verdade, mais do que ateísmo, hoje o mundo vive uma espécie de antiteísmo. Deus é o grande fora da lei, razão pela qual as sociedades caminham para a mais retumbante dissolução civilizacional de que se tem notícia.
* Não custa dizer, a propósito, que essa suposição é o erro capital entre as premissas do argumento anselmiano, fato que Santo Tomás aponta dizendo o seguinte: houve pensadores no passado que pensaram ou creram ser Deus matéria ou corpo (crediderint Deum esse corpus). Em suma, não é verdadeiro que, ao pensar em Deus, de imediato o homem conceba-o como o ser acima do qual nada pode ser pensado. É uma pressuposição sem fundamento.