sábado, 9 de outubro de 2010

O raciocínio de São Bernardo para a hora presente...

Sidney Silveira
Acato aqui a sugestão de um leitor: remeter-nos a um texto do Contra Impugnantes de janeiro deste ano (O dilema de São Bernardo). Em dado trecho, ele é bem a propósito do que se disse sobre as coisas políticas, no tocante ao milenarismo de católicos que parecem pôr a sua esperança no vale-tudo das promessas de campanha às vésperas da eleição... Pobres homens que, mesmo amando as coisas espirituais, não conseguem ver que, do ponto de vista da fé, não há o menos ruim na política brasileira atual; todas as correntes em disputa chafurdam na mais hedionda demagogia — como se pode observar na propaganda que começou neste segundo turno. É a mentira política contada maquiavelicamente por quem quer o poder a qualquer preço.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Ateísmo anticivilizacional

Sidney Silveira
Eram mais ditosos os ateus de antanho! Aqueles da época em que a Cristandande cobria o mundo com a sua sombra terrivelmente benévola, que remetia os homens ou à perfeita felicidade ou a suma dor em que consistiam o céu e o inferno — o prêmio e o castigo divinos. Mesmo grandes cristãos, como por exemplo Santo Anselmo, jamais conseguiriam conceber em seu tempo um ateísmo brutal como o que hoje fornece o pano de fundo das sociedades: o ateísmo de homens para quem o simples conceito de Deus e de religião é absurdo, uma superstição social a ser atacada de todas as formas, uma fantasia a ser reprimida com vigor, uma idéia a ser colocada à margem das leis. A propósito, no Proslogion, obra em que compôs o famoso argumento depois chamado de “ontológico” por Kant, Santo Anselmo supunha que a simples menção do nome de “Deus” levava todos, inclusive os ímpios, a pensar no ser acima do qual nada pode ser pensado (nihil maius cogitari potest)*.
O ateísmo, qualquer que seja a sua forma, traz embutida uma conclusão que, na prática, é o cume de um processo racional mal formulado. Não se conhece nenhuma teoria atéia que não possua um grande erro filosófico em suas premissas básicas, em geral fruto de uma atitude prévia de negação. A propósito, o cardeal Louis Billot, referindo-se a ateus adultos, distinguia entre adulti ætatis e adulti rationis: os primeiros são os que carecem de luzes intelectuais mínimas para sair de sua situação e conceber um adequado conceito de Deus, razão pela qual a sua ignorância é quase invencível; os segundos são os propugnadores do ateísmo teórico. Somente estes últimos podem ser considerados propriamente culpáveis, segundo Billot. E o podem porque cegaram a inteligência com erros apaixonados que poderiam muito bem ser evitados.
Cornelio Fabro, por sua vez, afirma em L’Uomo e il rischio di Dio que a pretensão da etnologia materialista e evolucionista de colocar, no princípio da história, um homem sem religião ou um politeísta foi desmentida por vários estudos sérios do último quartel do século XX, que descobriram o seguinte: as formas mais primitivas de religião são monoteístas, sendo o politeísmo um fenômeno degenerativo do monoteísmo originário, e o ateísmo simplesmente inexistente ou, então, uma reação às absurdidades ou inconveniências das práticas politeístas.
Em suma, o ateísmo jamais representa o movimento natural da alma humana na inquirição da natureza das coisas. Daí afirmar Aristóteles no livro que os medievais traduziram por De cælo et mundo (I, 3, 270b): “Os homens têm a profunda convicção de que os deuses existem”. Podemos, a partir daí, trazer à luz outra verdade: “Não existem povos sem religião”.
O ateísmo é na prática uma espécie de válvula de escape, uma fuga que acaba por justificar determinadas maneiras de atuar no mundo. Em suma, para o ateu é psicologicamente confortável pensar que Deus não existe, e a partir desta negação radical não apenas manter-se à margem dos problemas éticos fundamentais e constitutivos da natureza humana, mas também, por conseguinte, dar razões às suas imposturas perante o mundo. Já muito se escreveu sobre a impossibilidade do ateu ético; foi preciso separar a ética da moral, após Kant, para minimizar o funesto antinaturalismo que está na gênese de todo ateísmo e conceber éticas sem nenhuma referência a Deus.
No seio das sociedades sempre houve posturas de alguma maneira atéias, é verdade. Mas nunca foram prevalecentes da forma como hoje o são. Ademais, muitas vezes elas simplesmente confundiam-se com idéias errôneas ou vagas a respeito de Deus, razão pela qual alguns estudiosos católicos — como o próprio Cornelio Fabro, acima citado — qualificaram como formas de ateísmo as filosofias e religiões de fundo naturalista, na Índia antiga: a filosofia samkhaya, o jainismo e o budismo em sua forma originária, ou seja, antes de Buda ser “divinizado”; etc.
Para o grego dos primórdios, a impiedade era punível com a pena capital; para o judeu, representava a estupidez máxima que descambava em idolatria; para o cristão, a desesperança, como diz São Paulo na Epístola aos Efésios. Mas para o homem contemporâneo, forjado no ceticismo e no materialismo anticristãos, a maior impiedade é crer.
Na verdade, mais do que ateísmo, hoje o mundo vive uma espécie de antiteísmo. Deus é o grande fora da lei, razão pela qual as sociedades caminham para a mais retumbante dissolução civilizacional de que se tem notícia.
* Não custa dizer, a propósito, que essa suposição é o erro capital entre as premissas do argumento anselmiano, fato que Santo Tomás aponta dizendo o seguinte: houve pensadores no passado que pensaram ou creram ser Deus matéria ou corpo (crediderint Deum esse corpus). Em suma, não é verdadeiro que, ao pensar em Deus, de imediato o homem conceba-o como o ser acima do qual nada pode ser pensado. É uma pressuposição sem fundamento.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Sobre as coisas políticas (IV): “presumivelmente” estuprados

Sidney Silveira

No texto anterior se disse que, graças a José Serra, há exatos 12 anos mulheres presumivelmente estupradas podem abortar no SUS, ou seja, abortar com o patrocínio do Estado brasileiro. Lendo isto, alguém mandou-me um email: “Pô, presumivelmente estupradas?". É assim mesmo, meu caro. Basta à mulher com interesse em fazer o aborto chegar a uma unidade do SUS e dizer que foi estuprada, para então realizar o que os textos oficiais chamam, com intenções eufemísticas, de “interrupção da gravidez”.

Não é preciso, portanto, que a mulher apresente uma prova do estupro do qual diz ter sido vítima, antes de iniciar os procedimentos abortivos. Nem mesmo uma ocorrênciazinha policial... Isto porque alguns documentos são “recomendados” à postulante ao aborto no Sistema Único de Saúde, sim, mas não são em absoluto obrigatórios. Em resumo: no Brasil de hoje, só não aborta com o dinheiro do contribuinte quem não quer. E graças a uma “Norma Técnica” assinada pelo então ministro José Serra.

Sem dúvida, o chamado princípio da adesão ao mal menor político (defendido por São Pio X, embora num contexto histórico totalmente diferente do atual) continua válido. Até porque se trata de um princípio. Ocorre que mesmo um princípio precisa de mínimas precondições para aplicar-se, em dado momento. E o que tentamos mostrar é o seguinte: sequer do ponto de vista da lei natural há diferença entre os dois candidatos a presidente da República remanescentes do primeiro turno do pleito, assim como entre as correntes políticas que eles representam, todas caudatárias do ideário esquerdista. Daí recorrermos à comparação: para um cristão, eleger um deles é algo semelhante a escolher, entre dois deuses pagãos, o menos pior para acender-lhe um incenso.

Li de alguém — provavelmente um jovem imberbe — que quem anula o voto não tem, ou não deveria ter, direito a opinião política... Para dizer uma coisa dessas é preciso estar totalmente chafurdado na mentalidade liberal que, depois de alguns séculos de predomínio no Ocidente, incutiu entre nós o fetiche do voto e, principalmente, a idéia de que as coisas políticas só o são se se inserem em alguma instância do poder, na ocupação de cargos legislativos ou executivos por alguma das facções em luta intestina. Isto é de uma estreiteza sem tamanho! Para perpetrar tal opinião é preciso não ter lido nada do que disseram Aristóteles, Platão, Santo Agostinho e Santo Tomás sobre a política, só para ficarmos com estes quatro gigantes, incomensuravelmente superiores a todos os teóricos da política a partir de Maquiavel.

Esbocemos, pois, uma definição de “ação política”, para clarear um pouco as coisas:

Uma ação é propriamente política se defende, no seio da Pólis, os princípios e valores que devem reger as coisas humanas em vista do bem comum.

Em suma, este é o predicável “próprio” da política, a sua propriedade mais eminente: ser uma ação ordenada ao bem comum da comunidade humana. Por isso, sem o bem comum, não há política; pode até haver “políticos” profissionais, sobretudo nas demagógicas democracias atuais, mas não política, em sua real acepção. E a proposição contrária também é verdadeira: mesmo entre não-políticos profissionais, uma ação será integralmente política se for ordenada ao bem comum.

O que acham, ora pelotas, que são o Contra Impugnantes, a editora Sétimo Selo e o Instituto Angelicum? Exercício de diletantismo? Ou a tentativa de — com grande sacrifício de tempo e de dinheiro — remeter quantas pessoas pudermos à filosofia e à teologia deste gigante que foi Santo Tomás? Não duvidem: esta é uma ação fundamentalmente política, tanto intra como extra Ecclesiam. Aliás, superiormente política, se pensarmos que visa a nos levar ao conhecimento da teoria (referendada oficialmente pela Igreja) em vista da qual as práticas políticas devem orientar-se, como instrumentos adequados à consecução do fim último do homem: a perfeita bem-aventurança. Enfim, fomos feitos para a felicidade, e a política não deve ser um empecilho para esta finalidade querida por Deus para os homens.

Outra coisa: em qualquer sociedade e em qualquer tempo histórico, o “bem comum” político será sempre um bem objetivo de usufruto de todos os cidadãos. Assim, por princípio, uma lei que protege a vida não se destina a proteger a deste ou a daquele cidadão, mas a vida de todos; uma via pública não deve servir apenas à passagem de automóveis de meia dúzia de apaniguados do Estado, mas de automóveis de quaisquer pessoas. Como se vê, o bem comum é o ente de razão que atua como causa final das coisas políticas. Por isso, só as comunidades de entes com potências intelectivas (ou seja, as humanas, pois aqui não me refiro aos anjos) podem lograr o bem comum político, pois este é sempre um ente de razão. Neste contexto, uma leoa que defende os filhotes nem por isso instaura uma Pólis, pois a primeira característica eminente de uma República digna deste nome, como ensinara Platão, é a Justiça — e esta é uma aquisição da inteligência, e não dos instintos. O leãozinho mais forte vai sempre mamar mais, vai sempre comer mais, sem com isso suscitar quaisquer dilemas éticos na leoa sua mãe.

Como se pode observar, o bem comum é algo bastante claro, simples, e não uma quimera, uma metáfora inalcançável, como acreditam alguns teóricos atuais inspirados pelo liberalismo clássico, que, por sua vez, é caudatário do maquiavelismo e também da desconfiança nas “instâncias do poder” herdada de Locke e Montesquieu.

Reitero, por fim, que não fazemos eu e o Nougué apologia do voto nulo. Apenas não vamos dar o nosso voto a nenhum dos candidatos à Presidência que sobraram, Dilma e Serra. Isto para não estuprar (não presumível, mas efetivamente) a nossa consciência católica.

Quem pensa diferente sinta-se à vontade para apresentar as suas objeções, o sed contra. Só não venha dizer que a nossa postura não é válida para estes sombrios tempos; e a quem o fizer, peço que prove com razões suficientes.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Sobre as coisas políticas (III): parênteses para o segundo turno das eleições presidenciais

Quemós, deus dos moabitas

Sidney Silveira

Proponhamos a seguinte questão: alguém pede a um cristão que escolha, entre dois deuses pagãos, o menos pior — ao qual deverá acender um incenso, caso queira manter-se vivo. Quemós, deus dos moabitas a quem se sacrificavam menininhas virgens; ou Dagon, deus dos filisteus, metade peixe, metade homem, a quem nos tempos bíblicos foi oferecido um grande sacrifício público pela captura de Sansão (Juízes, XVI, 23). Que fazer? Dobrar-se aos ídolos ou abraçar o martírio dizendo um veemente “não” a ambos? Analogamente, procuremos saber se há, do ponto de vista da fé, o menos pior a quem o cristão* deva incensar com o seu voto democrático, neste segundo turno das eleições presidenciais em terras tupiniquins: Serra ou Dilma?

A dificuldade maior dos católicos tradicionais que caíram no milenarismo a que se aludiu anteriormente é a seguinte: na maioria das vezes sem o saber, estão impregnados da visão liberal que separara totalmente as coisas políticas das espirituais, como se pertencessem elas a ordens incomunicáveis entre si. Portanto, a sua firme esperança em evitar o presumível mal menor no plano político se apóia no fato de que não conseguem vislumbrar o mal maior espiritual em que todas as correntes da política contemporânea — sem nenhuma exceção! — se enquadram. Assim, embora intuam o movimento em direção à tragédia universal no qual o mundo contemporâneo atola, só conseguem vislumbrar placebos e imaginam com eles combater um câncer com metástase múltipla.

Estão agora estes nossos amigos vibrando por haver segundo turno nas eleições para presidente. Parecem ver em Serra uma real alternativa à esquerdização absoluta do país. Ó quimera das quimeras! De onde diabos porventura saiu o candidato do PSDB? Não foi da esquerda dos anos 60? E não foi o governo a que ele pertenceu o primeiro a financiar o MST com recursos vultosíssimos do contribuinte, além de levar em frente políticas que estão na agenda das esquerdas internacionais, como por exemplo o sistema de cotas da affirmative action? Ademais, qual o item da lei natural que ele defende em relação aos outros candidatos e, particularmente, a Dilma Roussef? Será ele por exemplo contra o aborto? Bem, a título de informação, foi Serra quem instituiu o aborto estatal no Brasil, ou seja: como ministro da Fazenda de FHC, em 1998 ele aprovou a Norma Técnica do Aborto no Sistema Único de Saúde (SUS), que propiciou a realização de abortos em mulheres (presumivelmente) estupradas.

Na gestão de José Serra, o SUS providenciou material para curetagem e kits de aspiração uterina — manual e elétrica —, além do abortivo microprostol. Leiam aqui a íntegra do texto assinado pelo tucano que tantos abortos já tornou possíveis com a chancela do Estado brasileiro. Ademais, é o nosso candidato um notório incentivador das políticas gayzistas que, dentro de muito pouco tempo, estarão consagradas pelo PL 122; este, transformado em lei, instituirá entre nós o crime de homofobia.

Outra coisa de relevância: com os candidatos eleitos ontem (03/10), a base do atual governo chegará a 55% na Câmara e no Senado. Ora, como nestas questões citadas (e em muitas outras) não há diferença essencial entre os candidatos e as correntes que representam, mas apenas acidental, alguém duvida que o aborto, o casamento homossexual e muitas outras leis contrárias ao cristianismo serão aprovadas com facilidade, seja no governo de Serra ou no de Dilma?

Em vista destas e de outras coisas, entre Quemós e Dagon prefiro ficar com a minha consciência cristã.

P.S. Veja-se no site do Provida a contagem (no alto da home): em 04/10/2010, faz 4.347 dias que o ex-ministro da Saúde José Serra aprovou a Norma Técnica do Aborto. Procure-se, no mesmo site, o texto intitulado "Ministério da Saúde ensina a matar".
P.S.2. Os textos desta série sobre as coisas políticas continuam. Neles tentaremos mostrar que, sendo o mal político atual incomensurável — talvez só passível de ser resolvido por um grande milagre —, nem por isso devemos cair no desespero.

* É óbvio que me refiro ao cristão católico.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Malogrado combate ao ateísmo

Sidney Silveira

O ateísmo in abstracto foi bastante atacado nos discursos do Papa Bento XVI em sua recente visita à Inglaterra. Não custa, neste contexto, lembrar que, dadas as múltiplas máscaras de que se reveste o ateísmo (condenado, entre outras coisas, pela própria lei natural, em virtude da demonstrabilidade da existência de Deus pela razão humana), além de atacá-lo em abstrato é preciso rechaçar os sistemas filosóficos que implicam a negação da possibilidade de conhecermos a Deus. Ou seja: as teorias céticas, materialistas, imanentistas, criticistas, fenomenistas, idealistas, ontologistas, agnosticistas, pragmatistas, intuicionistas, irracionalistas, etc.

A propósito, isto sempre foi feito pelo Magistério da Igreja, que, ao longo dos séculos, anatematizou todas as filosofias perigosas tanto para a fé como, também, para a razão que lhe serve de preâmbulo, pois a fé precisa do invólucro da razão, dado ser o anuir da inteligência à Palavra revelada. Por isso, no Concílio Vaticano I a Constituição Dogmática Fide Catholica, de 24 de abril de 1870, dedicara todo o primeiro capítulo ao conceito de Deus, em cinco cânones nos quais se condenavam alguns dos erros mais flagrantes, então em voga:

. Anátema aos que negavam a existência de um Deus único, Criador e Senhor de todas as coisas visíveis e invisíveis;
2º. Oposição ao materialismo absoluto;
3º. Condenação do panteísmo em geral;
4º. Condenação de algumas formas especiais de panteísmo;
5º. Condenação de alguns teólogos ou filósofos que não admitiam o conceito genuíno de Criação, particularmente Günther e Hermes.

No capítulo II da referida Constituição Dogmática (De Revelatione), são atacadas as teorias que negam a cognoscibilidade de Deus pela razão humana a partir dos efeitos observados nas criaturas. E as Atas Conciliares não dão lugar a dúvidas: em suas mais díspares manifestações, a filosofia moderna, que engrossou a negação da fé ao longo de três séculos de corrosão do senso comum e dos primeiros princípios da razão, pretende sem reticências apartar o homem da religião. É o que nos lembra o tomista Cornelio Fabro num interessante livro sobre o drama da busca de Deus pelo homem: L’Uomo e il rischio di Dio.

Se vasculharmos o Magistério ordinário também encontraremos várias condenações a filosofias que, sendo errôneas em seus princípios, eram também atentatórias para a fé. Isto porque, desde sempre, a Igreja soube que a luta no plano doutrinal-filosófico era importantíssima para a guarda do precioso depósito; por esta razão, não lhe coube apenas condenar o ateísmo in abstracto, mas todos os sistemas a que ele historicamente recorreu, na tentativa de justificar-se. Neste contexto, convém ressaltar que o ateísmo teórico pode muito bem ser considerado fundamentalmente herético, quer dizer, uma idéia contrária a um dado da Revelação.

Hoje os seminários católicos em todos os lugares do orbe estão contaminados pelo ensino de várias dessas filosofias derrogatórias da fé, muitas das quais desembocam no ateísmo. Aqui no Rio de Janeiro, a título de exemplo tópico, ensina-se em institutos católicos Hegel, Kant, Heidegger, Gadamer, Husserl, e outros, com uma sem-cerimônia impressionante. Parece que todos estão cegos ao fato de que se trata de gnosiologias aporéticas, as quais, em sua base, representam um fator essencialmente problematizador das relações entre o homem e Deus — e, portanto, um grande perigo para a fé.

Acatar o ateísmo in abstracto, como fez o Papa, é importante, sem dúvida. Mas tal combate perde totalmente a força e o sentido se na própria Igreja continua-se a ensinar inúmeras filosofias que são um verdadeiro atentado à fé, sob o aplauso de padres, bispos, etc.

Tal idiossincrasia provém, entre vários outros fatores, do fato de que a Hierarquia hoje se constrange enormemente com o exercício da autoridade. Rezemos, pois, para que a Igreja volte a ensinar o tomismo, o grande antídoto para o drama doutrinal em que hoje estamos. Não basta, pois, atacar o ateísmo do ponto de vista moral, somente; é preciso desmascarar os seus sofismas publicamente, para que ele mostre a sua real hediondez, como aliás sempre se fez, até os ventos do Vaticano II soprarem para longe esta postura tradicional. Aqui, ocorre-me um detalhe: isto não se pode fazer sem imposição de disciplina, no sentido de que não mais se estudem acriticamente tais filosofias dentro dos próprios muros eclesiásticos. Está nas mãos do Papa mudar as coisas, ou seja, fazer com que o discurso oficial para o mundo não seja uma contradição em relação ao que se ensina ab intra. Para levar tal idéia em frente, contudo, é preciso o Papa lutar abertamente contra os inimigos internos. Tal reviravolta seria um grande milagre, sem dúvida; para deduzir isto, basta olhar o triste cenário da Igreja atual com um mínimo de senso de realismo... Mas, como desconhecemos os desígnios de Deus, não custa rezar nesta intenção.

Emails recebidos

Sidney Silveira
Reitero o que disse aqui em diferentes ocasiões: recebo vários emails e, por uma questão de tempo, não é possível responder a todos. Peço, pois, compreensão aos amigos a quem não respondi. Ademais, algumas respostas exigem reflexão e pesquisa, razão pela qual acabam transformando-se em textos no Contra Impugnantes — para proveito de mais de uma pessoa. Outras questões simplesmente ficam sem responder, pois entre outras coisas preciso ganhar o pão.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sobre as coisas políticas (II)

Sidney Silveira

No Livro das Sentenças, de Pedro Lombardo, texto comentado pelos principais pensadores medievais a partir do final do século XII, um dos problemas subjacentes às questões compiladas pelo notável magister catedralício da escola de Notre Dame era saber o que o homem deve usar e o que deve gozar. Em resumo, o uso está para o gozo assim como o instrumento do talhador está para a madeira; o pecado estaria justamente em inverter esta ordem, ou seja, gozar o que é para usar, e usar o que é para gozar. A propósito, um dos artigos do Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo escrito por Santo Tomás começa assim: Deus usa o homem ou goza com o homem?

Deixemos a resposta a este instigante problema para outra ocasião, pois interessa-nos por ora a aplicação do princípio de causalidade instrumental às coisas políticas, para seguir o que se prenunciou no texto anterior: a política é, em relação ao fim último do homem, um simples meio. Noutras palavras, o homem deve usar das coisas políticas com o intuito de gozar da bem-aventurança perfeita que o espera, no céu. Sendo assim, enxergar em qualquer âmbito da Pólis o ápice da realização dos anseios humanos é esquecer-se de Deus, preterir a Cristo em favor de Barrabás, subjugar o espírito à matéria, a qualidade à quantidade.

Pois muito bem, nestes tempos de contornos apocalípticos, entre católicos amantes da Tradição é grande o risco do milenarismo, essa louca esperança de uma felicidade perfeita na terra. E isto num duplo viés: milenarismo político e milenarismo religioso. O primeiro é bastante encontradiço entre católicos de formação liberal que vêem o bem político como algo autônomo ou, na melhor das hipóteses, apenas acidentalmente subordinado ao fim último do homem: Deus. Haveria, para estas pessoas seduzidas pela hidra liberal, uma separação entre os poderes espiritual e material, e nisto são elas herdeiras distantes das obras como De Monarchia, de Dante, e Utopia, de Thomas More — durante séculos constantes do Index Librorum Prohibitorum.

Por sua vez, o milenarismo religioso é mais comumente encontrável entre católicos que, apesar de sua melhor formação doutrinal — não contaminada pelo espírito do Concílio Vaticano II —, esperam com inabalável convicção o ressurgimento da Cristandade no mundo, como se lessem nas entrelinhas dos desígnios da Providência o que está selado para os tempos atuais. Parecem esquecer-se da terrível pergunta de Cristo: “Quando vier o filho do Homem, acaso encontrará a fé sobre a terra?” (Lc. XVIII, 8). Não aprofundaremos este último tipo de milenarismo, pois o foco no momento são as coisas políticas, mas vale remeter os nossos leitores a um trecho do escrito Reflexões sobre o Apocalipse, originalmente publicado no blog católico A Casa de Sarto e traduzido pela Permanência. Ali se ensina, entre outras coisas, que o milenarismo espiritual é a materialização da esperança, ou seja, o retirar da Esperança cristã o seu caráter sobrenatural.

É verdade de fé que, desde o pecado original, o mundo pertence ao Maligno, que para perder as almas se aproveita da desordem instaurada por três grandes seqüelas decorrentes da queda de Adão: a concupiscência da carne (tendência à luxúria), a concupiscência dos olhos (amor às riquezas) e a soberba da vida (desobediência, proveniente do orgulho). Tendo isto em vista, Santo Agostinho afirmava que, desde Caim, fundaram-se no mundo apenas Cidades do Amor Próprio, as quais viriam a ser combatidas com a manifestação, na plenitude dos tempos, da verdade do Evangelho, que, por intermédio da Igreja militante, procurará estabelecer entre nós uma prefiguração da Cidade de Deus. Não à toa afirmava, em tom de lamento, Leão XIII, na Encíclica Immortale Dei: “Houve um tempo em que a filosofia do Evangelho pairava sobre as nações”.

Aqui chega-se ao ponto nevrálgico da questão: ou as sociedades pagarão ao Criador o seu débito de justiça, dando-Lhe o culto público devido, ou legislarão totalmente à margem de Deus, conformando-se assim às Cidades do Amor Própio de que falava Agostinho, onde os homens são carniça do demônio. Ora, legislar à margem de Deus será exatamente o que farão as sociedades modernas instigadas pela reação da carne às duras exigências do espírito cristão. Com elas se inaugura, na prática, o Estado ateu, ou melhor, um tipo de ateísmo oficial camuflado, que, sob o demagógico pretexto de respeitar as liberdades individuais, propugna — com o Estado laico — uma neutralidade em relação às questões que desde sempre foram a base da civilização.

O que muitos ingênuos não percebem é que o Estado laico moldado pela intelligentzia maçônica dos séculos XVIII e XIX — e consagrado no século XX como verdade pétrea das constituições mundo afora, a pretexto de respeitar as consciências individuais — foi a brecha para o surgimento do Estado ateu; este não existiria se não tivesse havido aquele, pois o comunismo e todos os seus matizes socialistas são filhos robustos do liberalismo antieclesiástico. Na verdade, o comunista e o liberal são como o sádico e o masoquista: odeiam-se por se mostrarem complementares em suas patologias. O sádico perderia todo o seu prazer ao inflingir dor a quem sente prazer na dor; e algo semelhante pode-se dizer do masoquista.

Se por desgraça a Igreja já não age apostolicamente para converter o mundo à verdade evangélica, pois o discurso oficial, na melhor das hipóteses, aborda questões relativas à lei natural (ou seja: colocar-se contra o aborto; contra a política gayzista; contra o ateísmo; etc.), dado o ecumenismo em que jazem as autoridades; se ela já não propõe nenhum remédio a ser aplicado no plano político, para conformar as sociedades à lei do Evangelho; se ela já não se assume como a única religião verdadeira; tudo isso não implica que:

a) o mundo não precise ser convertido;

b) a Igreja não deva intrometer-se nas coisas políticas, inoculando nos costumes a caridade evangélica e condenando os erros contra a fé no seio da Pólis (e não apenas intra Ecclesiam) que possam interpor-se entre os homens e Deus;

c) o catolicismo não seja a única verdadeira religião, fundada por Deus Encarnado.

Antes de encerrar este segundo texto da presente série, vale indagar: entre os nossos presidenciáveis há, ainda que palidamente, alguém cujo grupo político represente a defesa dos princípios aqui arrolados? Há, de fato, do ponto de vista da fé, o menos pior? Concedo que pode haver o menos pior (mas não muito, diga-se) de uma perspectiva meramente política — mas de uma política que só pode ser assim chamada por uma analogia de atribuição extrínseca. Isto porque, em sua verdadeira acepção, a política acabou.

E acabou porque os valores sem os quais não há sequer resquício de civilização estão enterrados. Não sabemos até quando.

(continua)