quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sobre as coisas políticas (II)

Sidney Silveira

No Livro das Sentenças, de Pedro Lombardo, texto comentado pelos principais pensadores medievais a partir do final do século XII, um dos problemas subjacentes às questões compiladas pelo notável magister catedralício da escola de Notre Dame era saber o que o homem deve usar e o que deve gozar. Em resumo, o uso está para o gozo assim como o instrumento do talhador está para a madeira; o pecado estaria justamente em inverter esta ordem, ou seja, gozar o que é para usar, e usar o que é para gozar. A propósito, um dos artigos do Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo escrito por Santo Tomás começa assim: Deus usa o homem ou goza com o homem?

Deixemos a resposta a este instigante problema para outra ocasião, pois interessa-nos por ora a aplicação do princípio de causalidade instrumental às coisas políticas, para seguir o que se prenunciou no texto anterior: a política é, em relação ao fim último do homem, um simples meio. Noutras palavras, o homem deve usar das coisas políticas com o intuito de gozar da bem-aventurança perfeita que o espera, no céu. Sendo assim, enxergar em qualquer âmbito da Pólis o ápice da realização dos anseios humanos é esquecer-se de Deus, preterir a Cristo em favor de Barrabás, subjugar o espírito à matéria, a qualidade à quantidade.

Pois muito bem, nestes tempos de contornos apocalípticos, entre católicos amantes da Tradição é grande o risco do milenarismo, essa louca esperança de uma felicidade perfeita na terra. E isto num duplo viés: milenarismo político e milenarismo religioso. O primeiro é bastante encontradiço entre católicos de formação liberal que vêem o bem político como algo autônomo ou, na melhor das hipóteses, apenas acidentalmente subordinado ao fim último do homem: Deus. Haveria, para estas pessoas seduzidas pela hidra liberal, uma separação entre os poderes espiritual e material, e nisto são elas herdeiras distantes das obras como De Monarchia, de Dante, e Utopia, de Thomas More — durante séculos constantes do Index Librorum Prohibitorum.

Por sua vez, o milenarismo religioso é mais comumente encontrável entre católicos que, apesar de sua melhor formação doutrinal — não contaminada pelo espírito do Concílio Vaticano II —, esperam com inabalável convicção o ressurgimento da Cristandade no mundo, como se lessem nas entrelinhas dos desígnios da Providência o que está selado para os tempos atuais. Parecem esquecer-se da terrível pergunta de Cristo: “Quando vier o filho do Homem, acaso encontrará a fé sobre a terra?” (Lc. XVIII, 8). Não aprofundaremos este último tipo de milenarismo, pois o foco no momento são as coisas políticas, mas vale remeter os nossos leitores a um trecho do escrito Reflexões sobre o Apocalipse, originalmente publicado no blog católico A Casa de Sarto e traduzido pela Permanência. Ali se ensina, entre outras coisas, que o milenarismo espiritual é a materialização da esperança, ou seja, o retirar da Esperança cristã o seu caráter sobrenatural.

É verdade de fé que, desde o pecado original, o mundo pertence ao Maligno, que para perder as almas se aproveita da desordem instaurada por três grandes seqüelas decorrentes da queda de Adão: a concupiscência da carne (tendência à luxúria), a concupiscência dos olhos (amor às riquezas) e a soberba da vida (desobediência, proveniente do orgulho). Tendo isto em vista, Santo Agostinho afirmava que, desde Caim, fundaram-se no mundo apenas Cidades do Amor Próprio, as quais viriam a ser combatidas com a manifestação, na plenitude dos tempos, da verdade do Evangelho, que, por intermédio da Igreja militante, procurará estabelecer entre nós uma prefiguração da Cidade de Deus. Não à toa afirmava, em tom de lamento, Leão XIII, na Encíclica Immortale Dei: “Houve um tempo em que a filosofia do Evangelho pairava sobre as nações”.

Aqui chega-se ao ponto nevrálgico da questão: ou as sociedades pagarão ao Criador o seu débito de justiça, dando-Lhe o culto público devido, ou legislarão totalmente à margem de Deus, conformando-se assim às Cidades do Amor Própio de que falava Agostinho, onde os homens são carniça do demônio. Ora, legislar à margem de Deus será exatamente o que farão as sociedades modernas instigadas pela reação da carne às duras exigências do espírito cristão. Com elas se inaugura, na prática, o Estado ateu, ou melhor, um tipo de ateísmo oficial camuflado, que, sob o demagógico pretexto de respeitar as liberdades individuais, propugna — com o Estado laico — uma neutralidade em relação às questões que desde sempre foram a base da civilização.

O que muitos ingênuos não percebem é que o Estado laico moldado pela intelligentzia maçônica dos séculos XVIII e XIX — e consagrado no século XX como verdade pétrea das constituições mundo afora, a pretexto de respeitar as consciências individuais — foi a brecha para o surgimento do Estado ateu; este não existiria se não tivesse havido aquele, pois o comunismo e todos os seus matizes socialistas são filhos robustos do liberalismo antieclesiástico. Na verdade, o comunista e o liberal são como o sádico e o masoquista: odeiam-se por se mostrarem complementares em suas patologias. O sádico perderia todo o seu prazer ao inflingir dor a quem sente prazer na dor; e algo semelhante pode-se dizer do masoquista.

Se por desgraça a Igreja já não age apostolicamente para converter o mundo à verdade evangélica, pois o discurso oficial, na melhor das hipóteses, aborda questões relativas à lei natural (ou seja: colocar-se contra o aborto; contra a política gayzista; contra o ateísmo; etc.), dado o ecumenismo em que jazem as autoridades; se ela já não propõe nenhum remédio a ser aplicado no plano político, para conformar as sociedades à lei do Evangelho; se ela já não se assume como a única religião verdadeira; tudo isso não implica que:

a) o mundo não precise ser convertido;

b) a Igreja não deva intrometer-se nas coisas políticas, inoculando nos costumes a caridade evangélica e condenando os erros contra a fé no seio da Pólis (e não apenas intra Ecclesiam) que possam interpor-se entre os homens e Deus;

c) o catolicismo não seja a única verdadeira religião, fundada por Deus Encarnado.

Antes de encerrar este segundo texto da presente série, vale indagar: entre os nossos presidenciáveis há, ainda que palidamente, alguém cujo grupo político represente a defesa dos princípios aqui arrolados? Há, de fato, do ponto de vista da fé, o menos pior? Concedo que pode haver o menos pior (mas não muito, diga-se) de uma perspectiva meramente política — mas de uma política que só pode ser assim chamada por uma analogia de atribuição extrínseca. Isto porque, em sua verdadeira acepção, a política acabou.

E acabou porque os valores sem os quais não há sequer resquício de civilização estão enterrados. Não sabemos até quando.

(continua)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Bacanal litúrgico e liberalismo político



Sidney Silveira
Duas imagens no Frates in Unum veiculadas nesta semana dizem muito: numa, D. Moacyr Vitti, Arcebispo de Curitiba, entrega flores à candidata Dilma Roussef; noutra, uma "sacerdotisa" "consagra" a Hóstia, na Paróquia Santo Antônio, também em Curitiba. Vale também atentar, no texto do referido blog, a uma "Nota" da Arquidiocese do Rio desautorizando a todos os que, no exercício do ministério ordenado ou mesmo em nome da Igreja, indiquem ou rejeitem candidatos ou partidos políticos... Graças a Deus, Satanás — até onde sabemos, pois o pai da mentira tudo faz enganando — não se candidatou a nenhum cargo eletivo ou executivo em terras fluminenses. Bem, eximo-me de falar o óbvio.
P.S. Como se diz num comentário ao texto do Frates in Unum ilustrado com a foto do bispo dando flores à candidata do PT à Presidência, parece que na CNBB há quem pense que só de pão vive o homem.

sábado, 25 de setembro de 2010

A Mãe do Salvador (II)

Sidney Silveira

Agradeço pelas mensagens que tenho recebido por postar no Youtube um pequeno trecho de aula em que falo da principal excelência de Maria, Nossa Senhora: ser a Mãe de Deus. Dizia eu ali, citando um livro de Garrigou-Lagrange, que a plenitude inicial de graça em Maria — que a preservou da mancha do pecado original — foi um privilégio especial concedido por Deus para que fosse a digna mãe do Salvador. Afinal, como Santo Tomás reitera em diferentes pontos de sua obra, Deus dá graças proporcionadas à missão que quer que uma pessoa realize.

Mas vale consignar outras coisas sobre Maria:

Ø Ela foi isenta, em toda a sua vida, não apenas de pecados mortais, mas também dos mais ínfimos pecados veniais. Daí dizer o Concílio de Trento (Seção VI) que o homem, uma vez justificado, não pode continuamente, ao longo de toda a sua vida, evitar todos os pecados veniais, a não ser por um privilégio especial como o que a Igreja reconhece haver sido concedido à Santíssima Virgem.

Ø Nos Santos, a confirmação da graça realiza-se mediante um grande aumento de caridade, sobretudo por aquilo que os místicos chamam de união transformante, o suplemento de graças atuais eficazes que os fazem evitar o pecado e os conduzem a atos meritórios cada vez mais elevados. Em Maria, tal união transformante não foi acidental, pois lhe impregnava a alma desde a imaculada conceição, quando na verdade sua santíssima alma foi adornada com todos os dons gratuitos.

Ø Ao definir o Dogma da Imaculada Conceição, Pio IX diz que Maria foi amada desde o primeiro instante sobre todas as criaturas — prae caeteris creaturis —, pois “Deus a cumulou admiravelmente com todas as Suas graças, muito mais que a todos os espíritos angélicos e a todos os Santos”.

Ø Santo Tomás explica a plenitude de graça em Maria dizendo: “Quanto mais nos aproximamos do princípio, melhor participamos dos seus efeitos. (...) Pois bem, Cristo é o princípio de toda a vida e de toda a graça; como Deus, ele é causa principal dela, e como homem no-la transmite (depois de havê-la merecido por nós), pois sua humanidade é como um instrumento sempre unido a Deus. (...) A Santíssima Virgem, estando mais próxima de Cristo que qualquer outra pessoa, posto que ele tomou [apenas] dela sua humanidade, recebeu de Deus uma plenitude de graça que supera a de todas as demais criaturas” (Suma Teológica, III, q. 27, a. 5).

Ø Em seu Comentário à Ave-Maria, escreve ainda o Angélico que o Arcanjo Gabriel, ao saudar Maria, mostrou-se cheio de respeito e veneração, pois compreendeu que Maria sobrepassava-o, pela plenitude da graça e pela intimidade divina com o Altíssimo. A propósito, é leitura obrigatória para quem quer estudar o tema o Comentário à Ave-Maria (In Salutationem Angelicam Expositio) traduzido com grande apuro por Omayr José de Moraes Jr.

Ø Há uma diferença teológica entre imperfeição voluntária e pecado venial. A imperfeição voluntária é, por assim dizer, uma generosidade menor, num dado momento. Assim, alguém porventura se encontra indisposto e, numa certa ocasião, deixa de fazer o melhor que poderia, o que não é em si pecado, mas uma pequena imperfeição. Pois bem, nem mesmo estas pequeníssimas faltas houve em Maria, segundo Garrigou, pois não houve nela ato imperfeito (remissus) de caridade inferior, estando a Virgem sempre totalmente pronta a responder a qualquer inspiração divina. Este pequeno trecho eu posto em resposta a alguém que me mandou email questionando que Maria fosse mesmo mais Santa que todos os Santos e Mártires juntos — como eu disse no vídeo citado acima. Vale também, caro amigo, ler o belíssimo trecho da bula Ineffabilis Deus, que definiu o Dogma da Imaculada Conceição.

Estes achados do livro La Mère du Sauveur – Notre vie intérieure, do Pe. Garrigou, são um grande tesouro para quem quer aprofundar a piedade mariana com estudos teológicos do mais alto gabarito.

Muito mais ainda há por dizer.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A verdade: o modo próprio de adequação entre a inteligência e as coisas

Sidney Silveira

A verdade é a adequação entre a inteligência e as coisas, diz Santo Tomás na esteira do filósofo Isaac Israeli. Mas o que se quer dizer exatamente com isto? Bem, neste trecho de aula frisava eu que a verdade:


a) é uma relação ontológica;

b) é uma relação categorial;

c) pressupõe um ente real extra mentis;

d) está primordialmente nas coisas, como fonte;

e) está formalmente na inteligência;

f) é o objeto [no caso, formal terminativo] dos movimentos da inteligência.


Noutras palavras, a verdade na inteligência tem como causa material o ser das coisas. Sendo assim, pode-se perfeitamente dizer, com a escola tomista, que a verdade deve-se considerar em duplo aspecto: transcendental, no ente; e formal, na inteligência. Com relação à verdade transcendental, que não é outra coisa senão o ente real mesmo, vale dizer que ela é anterior à verdade no intelecto humano, e posterior à verdade no intelecto divino — que é o seu modelo, a sua causa exemplar. Em suma, o intelecto humano, para laborar, precisa alimentar-se do ser das coisas, que por sua vez provém do intelecto divino. Tendo isto em vista, Santo Tomás nos presenteia com este achado: “A verdade está propriamente no intelecto, seja humano ou divino, assim como a saúde está no corpo do animal” (De Veritate, I, a.4)


Remetamo-nos agora ao que diz o Aquinate sobre o conceito de idéia, pois é a propósito do que se afirmou da causa exemplar e do que se dirá abaixo: “O que em grego se chamou idéia, em latim se chama forma; daí que entendamos por idéia a forma das coisas existente fora das coisas mesmas. E a forma de uma coisa existente fora da coisa pode ter duas funções: ser modelo (exemplar) daquilo de que é forma; e ser princípio de conhecimento, e assim se diz que a forma do cognoscível está no cognoscente” (Suma Teológica, I, Q,15, art. 1, resp).


Por esta razão afirma Juan Cruz Cruz em sua ótima apresentação a um trecho do Cursus Theologicus de João de Santo Tomás (I, q. 22), publicado recentemente pela EUMSA, que a verdade transcendental tem uma dupla relação de conformidade: uma vertical, de dependência direta do intelecto divino, ou seja, das idéias na mente de Deus; e outra horizontal, de conveniência com o intelecto humano, na medida em que dá a este o seu insumo elementar. Diz a propósito o filósofo espanhol: “A relação de adequação que as coisas criadas mantêm com o intelecto divino corresponde a uma conformidade passiva, no sentido em que recebem dele a norma, a medida e a causalidade, donde brota uma relação de intrínseca dependência interna”. E podemos nós completar ressaltando que a relação de adequação que elas possuem com o intelecto humano é de identidade formal.


Reiteremos, para gravar bem o conceito: no intelecto humano, a verdade é a forma (species) inteligível imaterial da coisa conhecida, abstraída das propriedades da coisa; e, no intelecto divino, é a causa exemplar dos entes, a idéia divina sem a qual as coisas sequer existiriam. Neste contexto, não custa frisar que, para o Aquinate, Deus quando pensa, cria a coisa pensada; o homem quando pensa, abstrai; o anjo quando pensa, intui; e os animais irracionais, não tendo potências intelectivas, não conseguem transcender à materialidade das coisas, e, por esta razão, embora existindo entre coisas verdadeiras (verdade transcendental), não têm acesso à ratio veritatis (verdade formal).

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sobre as coisas políticas (I)

Sidney Silveira

Recebi email indignadíssimo de um leitor nosso que, pelo visto, não aceita de forma alguma que anulemos, eu e o Nougué, o voto nestas eleições presidenciais. Antes de tudo, vale dizer que não me ofendem o tom exaltado e a superioridade pontifical do referido email deste nosso amigo, movidos decerto por uma justa ira em relação à desgraça política nacional, e nem o fato de o seu texto chamar-nos de “omissos”, citando como apoio o excelente teólogo Jean Ousset (que, segundo o missivista, pediria “ação” diante da presente situação do país) e fazendo referência ao princípio da “escolha do mal menor”, nas coisas humanas.

Não pude, contudo, ao ler esta mensagem, deixar de lembrar-me do que diz o Pe. Calderón: o tema da política foi o que mais suscitou erros no pensamento católico.

Vale, pois, remeter-nos a alguns princípios, antes de apresentar a razão de anularmos o voto (observe-se, porém, que não fazemos apologia do voto nulo, pois esta é uma matéria opinável a ser decidida por cada um, de acordo com a sua consciência. Com exceção, obviamente, dos casos em que votar neste ou naquele candidato implica ir diretamente contra as leis de Deus, e omitir-se torna-se então pecado grave. Veremos adiante que não há propriamente um mal menor, no atual quadro da política brasileira, do ponto de vista da fé).

Subordinação do temporal ao espiritual

O princípio reitor da ação católica nas coisas políticas, de acordo com a doutrina tradicional da Igreja, é o da subordinação da ordem temporal à espiritual. Em resumo, o espiritual está para o temporal:

> assim como a alma está para o corpo;

> assim como a graça está para a natureza, na alma do homem justificado;

> assim como a fé está para a razão, na teologia.

Quando precisa explicar a intervenção do poder espiritual nas coisas temporais, Santo Tomás — lembra-nos Calderón, no livro El Reino de Dios — recorre às três analogias acima. Mas adverte o Santo Doutor: não há nenhuma usurpação se porventura a Igreja se intromete nas coisas temporais naqueles assuntos em que o poder secular lhe está submetido. Em suma, de fato não cabe ao poder espiritual imiscuir-se na arrecadação fiscal, na engenharia de tráfego, etc. Mas ele pode, por direito divino inusurpável, meter-se nas coisas temporais em todas as ocasiões em que este se transforme num empecilho à consecução do fim espiritual superior custodiado pela Igreja, o que na verdade pode acontecer em inúmeras ocasiões, sobretudo quando Deus e a religião são banidos do Estado na forma da lei.

No livro De regimini principum (lib. I, cap. 15), o Aquinate afirma: “O juízo que se faz sobre o fim do homem deve fazer-se, igualmente, sobre o fim de toda a sociedade” (idem oportet esse iudicium de fine totius multitudinis et unus). Daí formular ele este maravilhoso princípio que o Nougué escolheu para pôr no pórtico da sua apresentação ao livro A Política em Aristóteles e Santo Tomás, do filósofo Jorge Martínez Barrera:

“(...) E, dado que o homem, ao viver segundo a virtude, se ordena a um fim ulterior, que consiste na fruição divina (...), é necessário que o fim da multidão humana, que é o mesmo do indivíduo, não seja viver segundo a virtude, mas antes, por meio de uma vida virtuosa, chegar à fruição divina”.

Comentando esta passagem, diz Calderón: “A argumentação de Santo Tomás é impecável. Dotado de natureza e tendo recebido a graça, o homem tem um único fim — não imanente, mas transcendente, não natural, mas sobrenatural —, e todos os bens de sua natureza devem estar subordinados ao movimento da graça, de modo que ele não busque a saúde, a riqueza, a ciência ou a virtude, etc., senão enquanto lhes servem para salvar a alma. Afinal, de que adianta ganhar o mundo e perder a alma? (cfme. Mt. XVI, 26)”.

Nas passagens citadas e em outras, em que faz uso de argumentos preciosos, Santo Tomás nos demonstra que a política é tão-somente um fim intermediário instrumental em relação ao fim último, e, ademais, deve estar dirigida pelo poder espiritual em todas as coisas em que lhe esteja naturalmente sujeita. Não custa aqui lembrar o que diz Leão XIII na Encíclica Immortale Dei, no tópico intitulado Princípios Fundamentais da Doutrina Católica. 44. Sobre a Autoridade da Igreja, pois adiante este trecho nos será útil: “Os depositários do poder não devem pretender escravizar e subjugar a Igreja, nem lhe diminuir a liberdade de ação na sua esfera, nem lhe tirar nenhum dos direitos que lhe foram conferidos por Jesus Cristo (grifo nosso!)”.

Neste ponto, vale destacar que o poder espiritual não pode lograr o seu fim sem a cooperação do secular, da mesma forma que a alma não consegue atualizar suas potências mais excelentes senão em conjunção com o corpo, que lhe serve de instrumento nos atos da inteligência e da vontade.

Estabelecidos estes princípios, é conveniente frisar ainda que a política não se restringe ao poder, mas abrange um grande conjunto de relações sociais a que hoje chamaríamos infrapolíticas.

(continua)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A cidade do capeta


Sidney Silveira

Numa sociedade que está indo espiritualmente para o buraco, é natural que uma pequeníssima parcela das pessoas vislumbre as causas fundamentais do caos reinante. O bem político, numa situação dessas, torna-se uma pura e simples impossibilidade ontológica, pois todas as estruturas sociais foram corroídas de forma tal, que na Pólis não há espaço para o bem e a verdade. Neste estágio da decadência, quanto mais firmemente descem ao abismo, mais as almas vão tendo a pletórica sensação de que nunca foram tão livres e desimpedidas em suas vontades. Este é o momento dramático em que a lei se torna uma absurdidade, uma afronta à moral natural e à reta razão. E não há mais volta, pois a metástase é completa.

Não apresento no parágrafo acima o Estado sem lei (a anomia platônica), mas uma situação muitíssimo pior: descrevo o Estado que se organizou com grande competência para a desonra moral, para o butim financeiro e fiscal, para a mentira política, para o controle das consciências, para o ataque sistemático e contínuo a qualquer resquício de sanidade no corpo social. Tal Estado, como não poderia deixar de ser, é o fiel retrato da situação espiritual da maior parte das pessoas que nele vivem, pois ele seria formalmente impossível numa estrutura política minimamente sadia, na qual os maus, os tolos, os homens devassos, os espertos, etc., teriam o acesso ao poder grandemente dificultado.

A princípio o declínio quase não é percebido, pois a marcha para a destruição da sociedade neste estágio inicial ou intermédio é lenta, e vem palmilhada por “conquistas” e “direitos” nunca assaz louvados pelos idiotas úteis. Mas, num momento como o atual, as evidências da dissolução sociopolítica vão tornando-se cada vez mais contundentes; porém já é tarde para reverter a situação. Façamos aqui uma analogia com o xadrez: o mau jogador só percebe a derrota quando a partida está claramente perdida, ao passo que o grande mestre já tinha previsto tudo com grande antecedência. No plano noético é mais ou menos isto o que ocorre: durante o declínio espiritual, o sujeito não tem a percepção de que está perdendo-se mais e mais; e não a tem, pelo menos, até chegar às raias do desespero.

A noção de autoridade natural também se perde, nesse Estado ínfero. E não apenas dos pais para com os filhos — e pensar que hoje no Brasil se legisla até sobre se é “crime” dar uma palmada educadora num filho levado! —, mas ela se dilui em todas as instâncias políticas e infrapolíticas: dos professores para com os alunos; dos jovens para com os idosos; dos homens em geral para com os religiosos, e destes entre si e, também, para com as coisas de Deus; etc.

Enfim, perdeu-se igualmente em tal Estado (liberal, por excelência) o vínculo fundamental entre a política e o fim último do homem: Deus. Na verdade, Deus será banido, na forma da lei, da sociedade política (é o Estado laico, defendido com sanha inaudita pelo catolicismo liberal e pelos liberais não católicos). Estamos, pois, na cidade do capeta, em que não se respeita a Deus e nem se Lhe presta o culto público devido, mas se fomentam politicamente as mais variadas formas de agressão, crimes e desrespeito.

P.S. Recomendo muitíssimo este trecho de uma aula do Nougué, no qual ele nos remete à “Cidade do Amor Próprio” de que fala Santo Agostinho no Civitate Dei.

P.S.2. Como se pode deduzir, o meu voto nas próximas eleições será nulo! E por pura, total e acachapante desesperança política. E digo-o igualmente pelo Nougué, que já me asseverou várias vezes que fará o mesmo que eu. Mas esta é conversa para um outro post.

As relações entre a inteligência e a vontade (VI): o pecado (1)

Sidney Silveira

O tomista R. Bernard, O.P., em artigo intitulado Le Peché, publicado em 1951, dizia que o pecado realiza-se numa atmosfera em que o espírito deblatera-se contra si mesmo. Não se trata, no caso, de uma simples ausência de pensamentos, ou da angustiosa coexistência de idéias contraditórias na alma, mas da falta dos verdadeiros e soberanos pensamentos que norteiam a vida humana e imprimem o seu caráter próprio. Em síntese, solicitado pelos apetites sensíveis, que são instrumentais em relação à vontade, o homem escolhe mal, quer dizer: escolhe contrariamente à regra da reta razão e à lei divina — da qual a lei natural é speculum.

É verdade que nem sempre a má-escolha decorrente de uma vontade corrompida provém dos apetites sensíveis; nos pecados mais graves, a vontade encontra-se em tal estado de hediondez que escolhe mal por simples vício espiritual. A inveja e a soberba são exemplos típicos desses pecados que se dão na parte superior da alma e não têm quase nenhum concurso com o corpo. A propósito, num espírito mais ou menos são, a inveja jamais poderá ser o impulso primeiro do apetite intelectivo, como quer-nos fazer crer bizarramente René Girard, com a “teoria” do desejo mimético, uma idéia dos infernos.

A psicologia do pecado refere-se, pois, à dinâmica relação entre os apetites naturais, sensitivos e intelectivos que há em nós. Faço a devida vênia ao fato de que me refiro aqui ao homem que já traz em si a mácula do pecado original, pois em Adão (como vários tomistas importantes sempre ensinaram, seguindo o Doutor Comum) o pecado aconteceu na esfera do espírito, dado que no chamado estado de inocência original todos os apetites sensitivos do homem estavam perfeitamente subordinados às potências superiores da alma. Em suma, não foi a apetecibilidade da maçã o que seduziu Adão, mas o querer ser como Deus. Portanto, tratou-se fundamentalmente de um pecado de soberba, e não de sensualidade.

Nascemos, pois, em pecado, com a liberdade diminuída e também com grande dificuldade para praticar o bem e conhecer a verdade. Decerto a vontade continua tendendo ao bem do espírito, mas os apetites sensitivos são atraídos de forma desordenada* aos seus fins imediatos. É claro que estou dando esta premissa por pressuposta, pois do contrário teríamos de mudar o foco do assunto; mas, como dizia Chesterton com o seu humor típico, a única coisa cientificamente comprovada de forma inequívoca é o pecado original, ou seja, essa tendência universal dos homens às mais inimagináveis barbaridades.

Pois bem: se o telos da inteligência é mesmo a verdade, e o da vontade é o bem, o pecado pressupõe uma deficiência nas relações entre a inteligência e vontade. Mas que deficiência seria esta? Seria anterior ao ato pecaminoso ou concomitante com ele? Seria voluntária ou involuntária? Tal deficiência seria já pecado? Todas estas questões foram abordadas por Santo Tomás em diferentes obras, e ele acabou encontrando uma deficiência anterior ao pecado atual no homem decaído — ou, noutros termos, potencial em relação ao pecado, embora ainda não seja, em si, pecaminosa.

O raciocínio parte da seguinte idéia: numa série de princípios subordinados entre si, a perfeição do princípio inferior depende da perfeição do princípio ativo superior (pois agens enim secundum agit per virtutem primi agentis). Ora, sendo o agente superior perfeito — e tome-se por perfeito o conceito de algo que, para ser o que é, não lhe falta nada —, o inferior também o será. Assim, se a vontade age sob a moção da inteligência quando esta lhe propõe o bem próprio, a ação será reta. Ocorre que a inteligência pode errar na consideração do bem apreendido, e a isto os melhores teólogos tomistas chamaram falso bem: o superestimar um bem em detrimento de outro mais excelente, em dado contexto. Neste caso, o pecado adviria porque a vontade seguiu a razão, como é natural suceder, mas seguiu-a naquilo em que ela simplesmente errava. Aqui a desordem do pecado é ex ignorantia, e não cum ignorantia: a primeira delas é a ignorância que não é pecado, mas induz a ele, e a segunda é a ignorância em si mesmo pecaminosa, relativa às coisas que o homem pode e deve saber.

Como se vê, a deficiência na inteligência (anterior à vontade que adere ao mal) é a ignorância involuntária, como nos leva a concluir o Aquinate em seu Comentário à Ética de Aristóteles, Livro III. Aqui, a ignorância é causa acidental do pecado. Por exemplo: o sujeito vê um líquido colorido e imagina que é um licor, mas se trata de um veneno. Toma-o ignorando a verdade, e se dá mal. Ele bebe o líquido simplesmente porque não sabe tratar-se de um veneno. Se soubesse, a beleza da cor não excitaria o apetite de beber, como diz o dono deste exemplo (o tomista português Celestino Pires, S.J.), no estupendo Inteligência e Pecado em S. Tomás de Aquino. Neste caso, a causa acidental indireta foi a ausência da regra da razão, coisa que a propósito não acontecia com Adão, cuja inteligência chegava muito mais perfeitamente à posse dos inteligíveis que a nossa; além do mais, possuía ele o dom da ciência infusa com que Deus o cumulou.

(continua)

* A ordem é a disposição das coisas aos seus fins próprios, e a desordem, obviamente, a perda dessa orientação teleológica. No caso do homem que já nasce com a mancha do pecado original, os apetites sensitivos não mais se ordenam à realização do optimum do espírito: conhecer a verdade e querer o bem. Logram, portanto, os seus fins imediatos sem nenhuma ordem ao fim último.