Espaço destinado a combater a insidiosa e multiforme cultura liberal, que tem entre as suas raízes mais daninhas: uma falaciosa noção de liberdade humana; a idolatria — implícita ou explícita — da consciência individual; a separação entre natureza e moral; a contraposição entre Estado e indivíduo; a dissolução da Religião em categorias morais sem fundamento metafísico; a perda da noção de bem comum político.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Coisas de blog...
sábado, 28 de agosto de 2010
"TV" Contra Impugnantes: conhecer é um movimento acidental da potência intelectiva
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
A cultura do abismo
Sidney Silveira
O liberalismo*, que, como diz o Padre Calderón, é uma abjeta reação da carne contra as exigências do espírito — razão pela qual traz consigo, in nuce, o gérmen a apostasia —, ganhou as consciências das massas ao longo das últimas décadas atuando nisto que hoje se convenciona chamar equivocamente de “cultura”. Depois de consolidada a separação entre as ordens material e espiritual (no plano político, entre a Igreja e o Estado), ficou mais bem fácil inocular na cultura o vírus da revolução nas artes e nos costumes, pois tal vírus da desagregação encontra ambiente propício em meio ao vale-tudo.
Os liberais bem-falantes de hoje — prosternados no altar de uma cultura de almanaque — são capazes de êxtases convulsivos diante de um verso bem escrito (ainda que satânico, como os de Blake ou Baudelaire), mas estão cegos à verdadeira natureza da cultura e à hierarquia de valores que ela traz consigo. Por isso produzem em seus livros, eventos culturais, blogs e revistas tanta bobagem...
Como contraponto a isto, vale lembrar uma definição do filósofo Octavio Derisi: a cultura é o desenvolvimento harmônico e hierárquico do homem em seus diversos aspectos, sob a hegemonia da vida espiritual. Para o famoso tomista argentino, a genuína cultura tem uma tríplice dimensão:
1- de atividade cognoscitiva (filosofia = contemplação);
2- de atividade volitiva (moral);
3- de atividade poiética dirigida pela inteligência prática (arte).
Tudo isso, sem dúvida, é cultura, mas retirem-se os dois primeiros tópicos acima, e o terceiro se transformará em puro non sense, em atividade estéril do ponto de vista noético, espiritual. Transformar-se-á em esteticismo danosamente infantil.
Pois muito bem: um dos sinais mais clamorosos de que a vaca está no brejo é que a cultura não apenas perdeu de vista o aperfeiçoamento espiritual do homem, mas, ao contrário, transformou-se no grande motor da corrupção das potências mais nobres da alma. Ouçam o que se ouve em média por aí; vejam o que se vê por aí no cinema e na tv; leiam o que se publica em média de obras literárias e filosóficas; e então, a situação política (de absoluto caos) e moral (de cegueira coletiva) ganha novos contornos — novo padrão de inteligibilidade.
Observava muito bem Derisi que a crise da cultura provém de uma crise ética, e esta, de uma crise metafísica e teológica. Isto na década de 50 do século passado!!!! Os remédios para a crise poderiam provir da autoridade espiritual da Igreja, mas como esta depôs a própria autoridade, abdicando ao papel civilizatório de mestra das nações, isto explica muito bem a atual cultura do abismo que tudo domina, tudo envolve com seu fétido hálito...
Tapem as narinas, pois a coisa vai feder ainda mais.
* Nunca, em tempo algum, nos esqueçamos de que a peçonha comunista é, no plano histórico, filha da visão liberal, o seu oposto complementar — aquilo que os escolásticos chamavam de coincidentia oppositorum: são opostos que coincidem na aversão à autoridade espiritual.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Ciência: hábito mental da verdade; teologia sagrada: sabedoria suprema (I)

Sidney Silveira
Em sentido lato, por ciência entende-se o conhecimento sistemático nalguma matéria. Aristóteles já tinha noção disso ao afirmar que a ciência é o conhecimento certo de uma coisa a partir de suas causas — daí ser ela para o Estagirita propriamente demonstrativa, ou seja: é próprio da ciência demonstrar a verdade. Mas será que, com estas observações, alcançamos verdadeiramente o proprium da ciência?
Lembremos que o próprio é um dos cinco predicáveis (os outros são gênero, espécie, diferença específica e acidentes); e é o próprio que melhor nos dá notícia da essência dos entes, na exata medida em que só conhecemos a essência deles — e imperfeitamente! — a partir de suas operações formais próprias. Não é o caso de enumerar aqui todas as características do predicável próprio e de suas relações com a essência, mas, para o que nos ocupa, interessa-nos definir se o mais próprio da ciência é mesmo ser demonstrativa, ou se há outras propriedades que descortinem melhor a essência disto a que chamamos ciência. Recorramos a Santo Tomás, para ver o que diz.
Para o Aquinate, não obstante toda ciência ser o conhecimento certíssimo de uma coisa, partir de um conjunto de princípios e ter um objeto formal próprio (e de também ser demonstrativa), ela é, antes de tudo, habitus. E o hábito é, no glossário tomista, o intermediário entre a potência e o ato. Aqui, trata-se de uma qualidade adquirida pela alma intelectiva ao atualizar habitualmente determinada ciência. Isto nos encaminha a uma nova definição: a ciência é o conhecimento habitual da verdade*. Ou, se se preferir outra fórmula, a que costumo usar — por meio de uma analogia de atribuição — é a seguinte: a ciência é o hábito mental da verdade.
Advirta-se que não estamos confundindo a essência da ciência (conhecimento) com o seu próprio (o hábito mental desse conhecimento); este deriva daquela, pois, como conceitua Aristóteles (Tópicos, I, 5-6), “próprio é o que, embora não exprima a essência do sujeito, só a ele pertence”. Neste sentido, usemos o exemplo clássico: a risibilidade é propriamente humana, ou seja, é próprio do homem sorrir. Dos animais irracionais e dos anjos só podemos dizer que sorriem por uma de analogia de atribuição extrínseca, mas este é outro assunto.
Definidos os termos, registremos que, segundo Santo Tomás, a teologia sagrada é ciência, e no mais elevado sentido. Ela é habitus; é demonstrativa; tem princípios dos quais parte; e tem um objeto formal próprio: a deidade obscure per fidem cognita. Ou seja: a vida recôndita de Deus que só conhecemos pela fé. Para o homem no atual estado (ferido pelo pecado original), acima dessa teologia há apenas a ciência do próprio Deus e a dos bem-aventurados que conhecem a deidade clare visa, ou seja, pela visão beatífica.
Princípios dos quais parte a ciência teológica
Toda ciência deduz as suas conclusões partindo de princípios evidentes. Ora, a ciência teológica parte de princípios não-evidentes (os artigos da fé, que são recusados por muitos). Logo, não é ciência. A esta objeção (Suma, I, q.1, art. 2) Santo Tomás responde que os princípios de qualquer ciência ou são evidentes simpliciter (por si) ou secundum quid (buscados de outra ciência superior. Por ex.: a perspectiva depende dos princípios subministrados pela geometria). No caso da ciência teológica, ela parte de um princípio buscado em uma ciência superior: a de Deus, que conhecemos pela Revelação. Aqui, novamente, vale lembrar a importância do predicável proprium, que tantas equivocidades evita. Em resumo, é próprio de uma ciência não partir apenas de princípios evidentes simpliciter, mas partir de princípios (sejam evidentes ou buscados de outra ciência). Em suma, a primeira premissa do argumento em contrário — a de que os princípios de toda e qualquer ciência são evidentes simpliciter — cai por terra.
(continua)
* Não confundamos este conhecimento habitual com aquilo que hoje muitos chamam de consciência, pois a consciência, como demonstrou de forma apodítica Santo Tomás no De Veritate, é ato e não hábito. É a aplicação de uma ciência a algo determinado (cum alio scientia).
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
A circunstância da recusa às evidências

Em Teologia Moral, chama-se “circunstância” ao que literalmente circunscreve o ato humano — denotando com isto ser algo extrínseco a ele. Noutras palavras, moralmente a circunstância é acidental e, por isso, muitas vezes não especifica o ato. Assim, nada muda se alguém mata pelas costas uma pessoa vestida de branco ou de azul, nesta rua ou naquela, pois tais circunstâncias não alteram a espécie hedionda do ato. Noutras vezes, porém, embora o seu influxo seja ab extrinseco, a circunstância não apenas muda a espécie do ato, mas o piora. Assim, quem atira num coelho e mata um homem, mesmo sem intenção de fazê-lo, comete homicídio (culposo), e quem subtrai para si um objeto sagrado por causa do ouro comete não apenas furto, mas também sacrilégio. No De Malo (q, II, art. 8, sed contra), afirma Santo Tomás que a circunstância está para o pecado assim como o acidente está para o seu sujeito, e, em resumo: ela pode ser agravante ou não; pode especificar o ato ou não.
A coisa, como se vê, é complexa. Há incontáveis matizes que especificam os atos humanos, mas também há as circunstâncias que os agravam ou atenuam, que os fazem melhores ou piores.
Pois muito bem. No plano moral, a atitude dos católicos em relação à crise doutrinal que hoje acomete a Igreja pode ser boa, má ou indiferente (falaremos apenas das duas últimas). Depende não apenas do que os move a agir desta ou daquela maneira, mas também das circunstâncias — e uma em particular: o grau de conhecimento com que se leva a ação a cabo. Por exemplo: um católico que não teve a oportunidade de adquirir boa formação básica (refiro-me à doutrina tradicional) certamente não tem culpa moral disto — neste caso, a culpa é dos homens da Hierarquia eclesiástica —, embora esteja ele na mesma circunstância dos que tiveram alguma formação e preferiram embarcar no modernismo: ambos estão correndo risco maior de perder-se por não darem anuência à integralidade da fé, pois o veneno não muda a sua eficácia se alguém o toma pensando que é remédio ou se o toma querendo matar-se. Mas o fato é que a adesão de cada um deles ao modernismo é, do ponto de vista moral, muito distinta.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Sermão de D. Tomás de Aquino, abade do Mosteiro da Santa Cruz
Por que o ente e não a esquizofrenia?
Sidney SilveiraDe acordo com Santo Tomás, o primo cognitum é o ente enquanto oposto ao nada, quer dizer: simplesmente algo que é, embora não se saiba neste primeiro momento como e por que é. Em resumo, o ato pelo qual se inicia em nós o conhecimento é a percepção do ente extramental — situado, como o próprio termo indica, fora da nossa mente, pois não depende dela para ser o que é. Daí dizer o tomista Garrigou-Lagrange, em seu livro Le réalisme du principe de finalité, que a inteligência marcha do conhecido ao desconhecido, e o primeiro conhecido é, repitamos, o ente oposto ao nada, em meio ao qual estamos desde sempre.
Noutras palavras, podemos dizer o seguinte: seja qual for a realidade com a qual deparemos, ela não pode achar-se fora do ente. Se a inteligência contempla algo, trata-se sempre de algo que é, e por esta razão o realismo gnosiológico aristotélico-tomista não cansa de repetir que, assim como o objeto formal próprio da vista é a cor, e o do ouvido é o som, etc., o da inteligência é o ente. Mas que ente é esse primeiramente apreendido? Resposta: o das coisas sensíveis, ou, em termos técnicos, a essência das coisas materiais (quidditas rei materialis). O caminho natural da inteligência vai, pois, do sensível ao inteligível. Aristóteles já o sabia.
Diferentes foram as tentativas, a partir da modernidade, de estabelecer um tipo de conhecimento intuitivo, ou seja, uma clara visão direta dos inteligíveis — intento que tem a sua primeira formulação, recheada de premissas teológicas, em Duns Scot. Ocorre que, por mais sofisticadas que sejam essas tentativas, elas esbarram sempre numa brutal agressão às evidências e ao senso comum. Cabe ao metafísico espanar a poeira dos sofismas e apontar os erros. Houve também tentativas de pôr o sensível e o inteligível num mesmo plano, como se sempre sentíssemos inteligindo (é o caso da pressuposição do filósofo basco Xavier Zubiri de que a inteligência é radicalmente sentinte*), mas esta é uma idéia que mereceria outro texto.
O fato é que as conseqüências da má-gnosiologia são sempre terríveis. Espinosa, por exemplo, ao pressupor que o ente é não apenas unívoco, mas também único (é a tese famosa da substância única), acreditava possuir naturalmente uma intuição direta do ente divino — e ver Deus em tudo. Para ele, a multiplicidade das substâncias é enganosa, e o ente divino seria o primeiro objeto conhecido por nossa inteligência; por meio dele, tudo ganharia inteligibilidade. É o chamado ontologismo panteísta: Deus está em tudo não virtualmente, mas essencialmente, como se fora parte integrante das coisas. Ah, se Espinosa tivesse lido a questão 3 da primeira parte da Suma Teológica (Utrum Deus in compositionem aliorum veniat) em que o Aquinate mostra ser impossível Deus entrar em composição com os entes, ou ser de algum deles o princípio formal ou material!!** Enfim, qualquer estudioso da obra de Santo Tomás que tenha lido a Ética de Espinosa deparou, logo nas primeiras páginas, com agressões deste tipo ao bom senso. A experiência sensível (da qual parte o conhecimento) totalmente ignorada ou desprezada, e as evidências deixadas de lado em favor de hipóteses fantasiosas.
Depois de esmiuçar os conceitos-chave da metafísica, uma das principais tarefas do realismo filosófico é estabelecer um princípio gnosiológico que não parta de uma quimera. Já citamos no Contra Impugnantes vários e polifacéticos devaneios transformados em teorias do conhecimento: Kant, Hume, Husserl, Heidegger, Descartes, Bergson, agora Spinoza, etc. Todos eles parecem ignorar este que é um princípio fundamental: Ens est transcendens. A absoluta transcendentalidade do ente — o primeiro dos sete universais — garante não apenas a base para a analogia entis, mas também traz consigo, implícita, a distinção entre ser potencial e ser real. Sem ela, o mundo deixa de ser um conjunto de coisas reais e vira uma simples idéia.
O possível lógico, que para Santo Tomás era o “possível equívoco” (aequivoce possibile), sem a consideração da transcendentalidade do ente acaba por engendrar aberrações. Definamos os termos: possível lógico é aquilo que não possui nenhuma contradição lógica interna e pode pensar-se como verdadeiro. Há, por exemplo, uma possibilidade matematicamente mensurável de que alguém de costas para um muro atire trezentas pedrinhas de cinco milímetros para trás e elas se encaixem exatamente em trezentos buracos de dez milímetros no muro. Ocorre que, além dessa possibilidade lógica — mero ente de razão —, deve haver uma possibilidade ontológica sem a qual o possível lógico torna-se suposição infantil. Ora, como o acaso não pode ser o princípio das coisas que se ordenam a um fim, pois se o acaso tivesse uma finalidade não seria ocasional, estamos neste exemplo das pedrinhas naquilo que o filósofo e teólogo Jaime Balmes chamava de impossibilidade de senso comum: o meramente possível (possibilidade logarítmica) pode até ter uma função instrumental num teorema filosófico, mas não pode ser o esteio, a premissa fundamental; esta há-de ser uma evidência. O contrário implica construir sobre areia movediça.
E é sobre possíveis lógicos (analogamente assim chamados, para o caso de que se trata) que boa parte da filosofia pós-escolástica se apóia. Porque, parafraseando Heidegger, ela esqueceu-se do ente. A propósito, à pergunta de Heidegger “por que há o Ente e não o Nada?”, que já denota um abandono da metafísica clássica, poderíamos jocosamente responder: porque uma inteligência sem entes reais, extra mentis, é esquizofrenia pura. Coisa de louco.
* Outra questão importante é “Sobre a existência de Deus nas coisas” (De existentia Dei in rebus, I, q. VIII), onde Santo Tomás mostra que Deus está nas coisas, sim, mas não como parte da essência delas. Ele está nelas virtualmente, ou seja: assim como o agente está naquilo que faz.
** Prefiro o particípio “sentinte” ao neologismo “sensiente”, adotado por alguns estudiosos.