quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O corpo totalmente sujeito à alma: o estado dos beatos glorificados

Sidney Silveira
A perfeita submissão da potências inferiores da alma às superiores será, de acordo com Santo Tomás, uma das notas distintivas dos corpos dos glorificados que verão a Deus. Hoje, como a experiência o mostra de forma inequívoca, estamos sujeitos às intempéries das paixões (que são um movimento veemente do apetite sensitivo), o que muitas vezes nos impede de alcançar a excelência do ato propriamente humano. Em resumo, ser o que essencialmente somos tornou-se algo custoso, após o pecado original. À luz dessa observação torna-se especiosa a frase de Píndaro: “Homem, torna-te o que tu és”!

Diz o Aquinate na obra-prima Compêndio de Teologia:

“Os corpos dos beatos ressurgidos não serão corruptíveis, nem retardadores [das ações próprias] da alma, não lhe resistindo em nada. (...). Daí se pode concluir qual seja a constituição dos corpos dos glorificados. A alma é forma e motor do corpo. Como forma, não apenas é princípio do corpo quanto ao ser substancial, mas também quanto aos acidentes que não são causados no sujeito pela união da forma com a matéria. Além disso, quanto mais forte for a forma, tanto menos terá a sua atuação sobre a matéria impedida por algum agente externo. (...) Ora, como a alma beata estará em sumo grau de nobreza e de força, porque unida ao primeiro princípio de todas as coisas, ela conferirá ao corpo a si divinamente unido, em primeiro lugar, o ser substancial, tendo-o sob o seu império de modo nobilíssimo, e, por isso, ele será sutil e espiritual. Dará também a alma ao corpo uma outra qualidade nobilíssima, qual seja, a glória da claridade, e, em virtude dela, o corpo não poderá ser modificado na sua disposição, que é a de ser impassível; e porque também ele obedecerá totalmente à alma, como o instrumento obedece ao agente motor, tornar-se-á ágil. São, portanto, quatro as condições dos corpos dos beatos: sutileza, clareza, impassibilidade e agilidade”.

Ah, Tomás, deste pequenino trecho sobre o estado perfeito que nos espera no céu tantas ilações podemos fazer com relação ao nosso atual estado!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

São Pio X como manda o Evangelho: sim-sim, não-não. As relações entre a Igreja e o Estado (X)



Sidney Silveira
Leia-se, a seguir, um tracho da Encíclica Vehementer Nos, de São Pio X, sobre as relações Igreja-Estado. Depois, pergunte-se a um católico neoconservador o que ele pensa sobre ela...

"Separar a Igreja do Estado é um erro pernicioso
6.
Que seja preciso separar o Estado da Igreja, é esta uma tese absolutamente falsa, um erro perniciosíssimo. Com efeito, baseada nesse princípio de que o Estado não deve reconhecer nenhum culto religioso ela é, em primeiro lugar, em alto grau injuriosa para com Deus; porquanto o Criador do homem também é o Fundador das sociedades humanas, e conserva-as na existência como nos sustenta nelas. Devemos-lhe, pois, não somente um culto privado, mas um culto público e social para honrá-lo.

7. Além disto, essa tese é a negação claríssima da ordem sobrenatural. De fato, ela limita a ação do Estado à simples demanda da prosperidade pública durante esta vida, a qual não passa da razão próxima das sociedades políticas; e, como que lhe sendo estranha, de maneira alguma se ocupa da razão última delas, que é a beatitude eterna proposta ao homem quando esta vida, tão curta, houver findado. E, no entanto, achando-se a ordem presente das coisas, que se desenrola no tempo, subordinada à conquista desse bem supremo e absoluto, não somente o poder civil não deve obstar a essa conquista, mas deve ainda ajudar-nos nela.

8. Essa tese subverte igualmente a ordem muito sabiamente estabelecida por Deus no mundo, ordem que exige uma harmoniosa concórdia entre as duas sociedades. Essa duas sociedades, a sociedade religiosa e a sociedade civil, têm, com efeito, os mesmos súditos, embora cada uma delas exerça na sua esfera própria a sua autoridade sobre eles. Daí resulta forçosamente que haverá muitas matérias que elas deverão reconhecer como sendo da alçada de ambas. Ora, venha a desaparecer o acordo entre o Estado e a Igreja, e dessas matérias comuns pulularão facilmente os germes de contendas, que se tornarão agudíssimos dos dois lados; a noção da verdade será, com isso, perturbada, e as almas ficarão cheias de grande ansiedade.

9. Finalmente, essa tese inflige graves danos à própria sociedade civil, pois esta não pode prosperar nem durar muito tempo quando não se dá nela o seu lugar à religião, regra suprema e soberana senhora quando se trata dos direitos do homem e dos seus deveres (...)."

Educar para a virtude

Sidney Silveira
O Pde. Garrigou-Lagrange nos deixou, em alguns de seus livros, verdadeiros cursos sobre a arte homilética, compondo não apenas belos temários orientadores para os sacerdotes, mas também indicando o modus retórico de que deve valer-se o padre para ser persuasivo e incutir na alma dos fiéis a necessidade premente de afastar-se do pecado e usar dos meios adequados para iniciar a obra da própria salvação. Exórdio, narrativa, provas, peroração e conclusão devem encadear-se de forma harmônica, sempre partindo de uma dificuldade proposta, que deve ser resolvida de maneira clara na conclusão.

Algumas regras são universais:

a) nunca partir de idéias por demais abstratas que só uma minoria consegue alcançar, mas começar sempre pelo mais simples e acessível — tanto a doutos como a indoutos;

b) pela mesma razão, não incluir na homilia questões teológicas altamente dificultosas, pois isto mais afasta do que aproxima os fiéis das verdades reveladas, além de trazer muita confusão. Um exemplo: segundo o Pde. Garrigou, o tema da predestinação deve ser relegado aos seminários, jamais sendo mencionado nas Missas, a não ser de forma passageira e acidental. Que prudência, a do grande teólogo tomista! Se observarmos bem, todos os que tentaram resolver em absoluto o tema da predestinação acabaram caindo em heresia;

c) usar de linguagem clara, escorreita, pois o rio caudaloso da verdade corre melhor em leito límpido. Por isso, jamais se deve acanalhar o discurso com palavrões ou ironias desnecessárias, que mais induzem ao sarcasmo que à caridade. A ironia, quando for de fato a propósito, deve ser usada com parcimônia e sempre tendo em vista o bem da alma dos ouvintes.

d) partir sempre da premissa de que a homilia deve educar para as virtudes (as cristãs, é claro, cujo insumo é sobrenatural). Ter essa idéia em mente evita escolhos de todo tipo.

Essas e outras orientações úteis para os padres servem também para os professores — em particular os de filosofia. Sobretudo a de que é preciso educar para as virtudes (refiro-me primordialmente às morais). Sem elas o conhecimento sempre se transforma em instrumento de domínio, em uso maquiavélico do poder.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Premissas do humanismo católico

Sidney Silveira
O humanismo católico (pós-conciliar) valoriza a razão frente à Revelação, a filosofia frente à teologia, tendendo ao racionalismo; e valoriza a natureza frente à graça (...), tendendo ao naturalismo. Por estas e outras razões o humanismo (católico) considerará como valor supremo da pessoa humana a liberdade, mas não a liberdade entendida como faculdade de eleger os meios em ordem ao bem verdadeiro (...), mas a liberdade como faculdade de eleger entre o bem e o mal”.

Após esse trecho luminoso do livro Prometeu – A Religião do Homem, o Pde. Álvaro Calderón nos mostra o quão funesta é tal concepção de liberdade. Isto porque o homem busca necessariamente a felicidade sub ratione boni, ou seja, na forma intelectiva de um bem, mesmo quando age mal. Sem isso não tem sentido falar em livre-arbítrio e muito menos de fim último, na medida em que para a vontade escolher os meios é preciso, antes de tudo, conhecer o fim. E, no caso de que se trata, o fim se conhece porque o própio Deus o revelou.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

O bem que faz o incentivo dos amigos: resoluções tomadas


Sidney Silveira

Minha ida a Belo Horizonte neste último final de semana, a convite do pessoal do Index Bonorvm, muito me comoveu, e por diversas razões. Foi a injeção de ânimo de que eu realmente precisava.

Tocou-me a carinhosa acolhida da parte de pessoas a quem não conhecia pessoalmente, assim como o fato de ouvir delas, de forma tão enfática, que o Contra Impugnantes e a editora Sétimo Selo têm um papel do qual não podem declinar de maneira alguma. Um papel no plano doutrinário, a partir da divulgação da obra do Doutor Comum da Igreja. Um papel de combate ao modernismo, ainda que a derrota — no plano natural, meramente humano — seja certa.

Foram todos muito gentis e atenciosos, e, ouvindo as razões que eu lhes desfiava e vendo a minha estafa, convenceram-me a vencer o cansaço e enxergar uma razão maior para prosseguir. Disse-lhes então que se até os Santos desanimaram em alguns momentos, por que não eu, tão grande e reincidente pecador, não seria, em diferentes ocasiões, acossado pela tentação de entregar os pontos, vendo um projeto tão amado se esboroar?

No plano prático, entre outras coisas expliquei-lhes que, mesmo não sendo homem de negócios, pois me falta o tino, apostei as fichas financeiras — as que tinha e as que não tinha — no investimento de criar e manter a Sétimo Selo, juntamente com um amigo. Era, entre outras coisas, uma forma de pagamento a Santo Tomás de Aquino, instrumento de minha tardia conversão juntamente com outros que à Providência aprouve escolher.

Disse-lhes que, passados cinco anos e oito livros, dada a velocidade das vendas (a propósito, todos têm saída, mas em ritmo lento, pois no dia em que filosofia medieval cristã for best-seller estaremos no céu), cheguei a um dilema. Tenho cinco livros prontos para editar, e dois para reimprimir (o do Pe. Calderón e o De Malo estão esgotados), e das duas, uma: ou faço isto agora ou começo a quitar dívidas, sob o risco de transformar a coragem em temeridade. A opção inicial tinha sido, portanto, a de deixá-la hibernar. Ademais, muitas vezes Deus quer que os nossos projetos de vida simplesmente se percam, dêem com os burros n’água, para que nos voltemos mais firmemente a Ele e enxerguemos, como dizia São Francisco de Sales, que todas as alegrias deste mundo, sem nenhuma exceção, têm mescla de espinho e dor. Estou prestes a ver se é esta a vontade d’Ele neste caso.

Convenceram-me por ora os amigos de BH a prosseguir com os textos do Contra Impugnantes (o que farei a partir da próxima semana), ainda que num ritmo não tão acelerado como o dos anos anteriores, e começar uma campanha de apoio à Sétimo Selo, no seguinte sentido:

1- Comprem as obras em nossa loja virtual. Sobretudo o belíssimo livro do Chesterton (pois ainda temos muitos no estoque, bem mais que os outros).
2- Quem puder e quiser, faça uma doação de qualquer quantia na conta da Caixa Econômica Federal – CEF, Ag. 3106, Op. 003, Conta-Corrente 245-2.

Se vendermos os mil e poucos livros que ainda temos do Padre Brown de Chesterton, bastará para o projeto se retroalimentar, e, de imediato, lançaremos o livro de São Bernardo já anunciado, e ainda um outro. Portanto, se querem ajudar, amigos, comprem esta belíssima obra chestertoniana (sem a menor falsa modéstia, lindamente editada) e dêem-na de presente aos amigos — além de a lerem, é claro.

Se eu fosse um homem de negócios e a editora um ganha-pão (costumo dizer que ela é “tira-pão”), jamais exporia tal situação de público. Mas vejo-a como um projeto civilizacional e, neste contexto, abro o meu coração incentivado pelo comovente apoio não apenas do pessoal de BH, mas também dos amigos que me enviaram emails nos últimos 10 dias.

Quanto ao Contra Impugnantes, continuaremos nos próximos dias.

P.S. O pessoal do Index Bonorvm registrou minha visita e a do Nougué neste post. Pela parte que me diz respeito, foram muito generosos, porque, depois de uma semana dificílima, a palestra ficou muito aquém do que eu tinha programado.

P.S.2. Os links da loja virtual estão momentaneamente fora do ar, pois estamos mexendo nela. Daqui a pouco voltarão ao normal.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A Teologia segundo Santo Tomás de Aquino


Sidney Silveira
Passo aqui apenas para dar a notícia de que, a convite do pessoal do Index Bonorvm, no próximo dia 31/08 (sábado) estarei em Belo Horizonte, onde proferirei a palestra A Teologia segundo Santo Tomás de Aquino. No dia seguinte, também em BH, é a vez do Nougué.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Até breve

Sidney Silveira
O Contra Impugnantes e a editora Sétimo Selo entrarão em recesso por um período indeterminado. O primeiro sobretudo por falta de tempo de minha parte, mas também por outras questões de foro íntimo, entre elas a de saber qual é a vontade de Deus no que diz respeito a este modesto espaço de defesa da fé (a propósito, advirto que não se trata de nenhuma mudança com relação à nossa postura doutrinal de combate aos frutos nefastos do Concílio Vaticano II, influenciado pelo modernismo liberal que invadiu a Igreja). Talvez, nas próximas semanas, eu passe por aqui para anunciar um curso de grego clássico que será ministrado pela internet por uma professora amiga, e que penso ser de grande interesse para estudantes de filosofia e letras.

Quanto à editora, todos os lançamentos de livro estão por ora suspensos, pois financeiramente fui muito além do que a prudência aconselha e hoje estou convicto de não ser a pessoa indicada para levar este projeto adiante, por várias razões que não cabe enumerar aqui. Estou estudando a possibilidade de fazer a transição de forma a preservar a linha editorial — ou seja: de publicação de clássicos da filosofia e teologia cristã, com enfoque tradicional. Darei notícias a respeito disso, quando as tiver.

Agradeço, do fundo do coração, a todos os amigos pelo apoio, tanto ao Contra Impugnantes como à editora Sétimo Selo — que completa em agosto cinco anos de existência. Pela quantidade de emails que recebo, penso que este aviso era o mínimo que me caberia fazer. Com lágrimas de saudade prévia, despeço-me com um "até qualquer dia".

Recolher-me-ei aos meus estudos e orações. Eventualmente, é possível que me envolva na realização de algum curso de filosofia tomista. Que Nossa Senhora nos abençoe a todos.