sexta-feira, 25 de junho de 2010

O materialismo da campanha da fraternidade

Sidney Silveira
Após o Concílio Vaticano II, foram ganhando o beneplácito das autoridades eclesiásticas todas as mais nefastas correntes de "pensamento" e, por conseguinte, da ação a ele conexa. O liberalismo, chegado ao topo e consagrado pelo Magistério, disseminou a babel na qual se incluem, obviamente, os marxismos mais toscos que produziram coisas satânicas como a teologia da libertação, e excrescências como os carismatismos de todos os tipos. Os reflexos continuam. Um exemplo é mais essa campanha da fraternidade — peça de um materialismo mal-disfarçado por alusões acidentais a Jesus, pecado, penitência, eucaristia, etc. As palavras de ordem são "economia", "solidariedade", "mercado", "direitos", etc. Veja-se esta curiosa pesquisa feita pelo Deus lo vult.

terça-feira, 22 de junho de 2010

"TV" Contra Impugnantes

Sidney Silveira
Disponibilizamos mais dois pequenos trechos de aulas, em que se citam de passagem o problema do mal e o Demiurgo platônico.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sobre maus conselhos e avestruzes modernistas

A oitava vala de Malebolge: maus conselheiros envoltos em chamas.
Ilustração de Sandro Botticelli

Sidney Silveira
Ensina João de S. Tomás no seu Cursus Theologicus (II, q. 22), com aquela clareza que tanto apreciamos, que o nome “verdade” exclui os conceitos de tudo o que é simulado ou vazio, pois o verdadeiro está fundado e firmado no real (fundatum et firmum in re). Com isto nos indica, como bom tomista, que a verdade diz respeito fundamentalmente à realidade das coisas, dado ser uma relação categorial-formal e, ao mesmo tempo, transcendental:


a) categorial-formal porque estabelecida por nossa inteligência, que apreende imaterialmente as formas das coisas e as classifica; e
b) transcendental porque se baseia no ente real extra mentis. A propósito, como se disse neste vídeo, as coisas não são porque “Eu penso”, pois o Cogito precisa de um cogitatum, mas “Eu penso” porque elas são. Descartes e, depois dele, Kant, cabularam essa aula metafísico-gnosiológica.

Em resumo, o ser é o princípio gnosiológico inamovível. Retire-se o ser do horizonte e nada poderá ser pensado, imaginado, categorizado pelo homem. Por isso pode-se muito bem dizer que todas as patologias da alma humana provêm, radicalmente, de um afastamento do real — nessa complexa relação da inteligência com as coisas. Portanto, sem a verdade que se funda no ente e se formaliza na inteligência não nos resta senão cair num precipício intelectual e, deste, na cegueira moral, pois como pode agir bem quem não apreende minimamente a verdade das coisas?

Lembrei-me disso a propósito de mais um email recebido de um modernista católico que padece de um sestro terrível, como sói acontecer com pessoas que voluntariamente não querem analisar um problema em toda a sua amplitude (no caso, o da crise da Igreja): multiplicar as questões antes de responder às objeções. Essa mal-disfarçada tática indica uma tremenda patologia, o não querer ver a realidade das coisas, pecado este que, antigamente, tinha o nome de acídia — a ojeriza à própria excelência, muitas vezes fomentada por uma radical covardia.

Além de tal atitude representar uma burrice sem tamanho, pergunto-me: até que ponto realmente um sujeito desses não enxerga a sua mal-disfarçada tática, o estratagema primário de adiar uma conclusão que se impõe como evidência absoluta, a saber, que os frutos do Concílio Vaticano II e do Magistério posterior a ele são terríveis e causadores diretos da imensa crise atual? Assim, a essa pessoa e aos outros seus colegas que certamente me lêem (pois os modernistas neoconservadores estão entre os maiores consulentes dos textos do blog), vai um recado: por favor, não mandem novos emails, pois não me darei o trabalho de respondê-los, a menos que vocês esbocem um argumento contra os apresentados em minha contestação. Alguns inclusive já estão devidamente bloqueados de minha caixa de mensagens. Não tenho mais a mínima vontade de dialogar com vocês; a propósito, esta foi uma das razões por que não abrimos o Contra Impugnantes para comentários.

O pior é que tais avestruzes nem tiraram as fraldas e, mesmo com tamanha dissimulação e covardia, querem meter-se em discussões filosóficas e teológicas sem cujo conhecimento aprofundado (que eles não possuem) jamais poderiam dar sequer um pitaco sobre o Magistério da Igreja. Como atenuante para essa atitude de não querer ver o óbvio, engendrando mil questiúnculas para fugir às conclusões que os assustam, está a ignorância — ainda que culpável.

Por isso, o único conselho que vale para eles é: estudem, antes de se meter onde não têm competência, para não se transformarem em maus conselheiros em matéria tão grave. Lembrem-se de que, como diz o escolástico renascentista João de S. Tomás, a verdade é fundada e firmada no real. Se querem fugir dele, por favor não contem com a minha modesta ajuda... Reitero: pelo amor da Virgem, não me escrevam mais.

sábado, 19 de junho de 2010

Saramago segundo Nosso Senhor

Sidney Silveira
Vale a pena ler estes versos sobre o falecido escritor José Saramago. Que Deus se apiede da alma deste homem sacrílego e blasfemo, e, por um imenso e insondável favor de Sua infinita misericórdia, não permita que ela vá penar no inferno.

Teologia sagrada, teologia natural e o tipo de subordinação das ciências humanas a ambas


Sidney Silveira
Afirmou-se noutro texto que, de acordo com o grau de abstração de determinada ciência e, sobretudo, em razão do fato de ela buscar os seus princípios em outra, é estabelecida uma subalternação ou ordenação. Neste contexto, conforme frisa a escola tomista da melhor cepa (Cardeal Caetano, João de S. Tomás, Santiago Ramírez, Garrigou-Lagrange, G. Manser, etc.), a física ordena-se à matemática e esta, à metafísica, etc. Pois muito bem: como foi dito também que a metafísica é subalternada à teologia, cabe fazer alguns esclarecimentos, que me ocorreram após uma frutuosa conversa com o meu querido amigo e companheiro de blog, Carlos Nougué.

Na verdade, quando se frisa que a metafísica se ordena à teologia, é preciso fazer algumas distinções importantes, para que as coisas não fiquem nas brumas da obscuridade. Em primeiro lugar, destaque-se que toda ciência possui um tríplice objeto:

> Material;
> Formal-terminativo; e
> Formal-motivo.

Objeto material é tudo aquilo que, de alguma forma, cai sob a consideração da ciência. Lancemos mão de um exemplo afirmando que o objeto material da visão são todas as coisas que o olho vê: o cavalo, o céu, a pedra, etc. Por sua vez, o objeto material da física (que aborda o ente na perspectiva do movimento) são todas as coisas que se movem: o cavalo, o céu, a pedra, etc. Portanto, um mesmo objeto material pode ser comum a ciências distintas.

Objeto formal-terminativo é aquela formalidade ou perfeição que a ciência considera e estuda em todos os seus objetos materiais. No caso da visão, para prosseguirmos no exemplo, podemos dizer que é a cor (e também a forma) das coisas vistas: a do cavalo, a do céu, a da pedra, etc. No caso da física, é a consideração do motor das coisas que se movem e movem umas às outras: o cavalo, o céu, a pedra, etc. E, assim como acontece no caso do objeto material, frise-se que o mesmo objeto formal-terminativo pode ser considerado por diferentes ciências. Santo Tomás dá o exemplo disto no começo da Suma (I q.1, a.1, ad. 2), quando aponta que o fato de a terra ser redonda pode ser demonstrado por ciências como a astronomia e a física.

Objeto formal-motivo, por fim, é o meio a partir do qual uma ciência considera o seu objeto formal-terminativo. No caso do olho, é a luz pela qual a cor e a forma das coisas vistas são percebidas. No caso da física, é o movimento enquanto orientado a um fim (via ad terminum), que nos entes naturais é o primeiro na intenção e o último na realização*. Esse termo final é propriamente a razão de ser (ratio essendi) de o motor mover as coisas movidas. Vale registrar que o objeto formal-motivo, ao contrário dos outros dois, jamais pode ser compartilhável por duas ou mais ciências, pois, se o fosse, na verdade essas ciências transformar-se-iam numa só.

Assim, como afirma Santiago Ramírez em alguns de seus escritos, o objeto que especifica uma ciência é propriamente o formal-motivo ou, então, o objeto formal-terminativo enquanto afetado pelo formal-motivo.

Pois muito bem: qual seria o objeto formal-terminativo da teologia? O Angélico Doutor responde que é Deus, mas não sob a razão comum de ser, de bondade, de verdade, de unidade, etc., mas sim sob a razão própria de Divindade. Ou seja: sub ratione deitatis. É Deus em si mesmo, ou, se se preferir, todos os atributos de Deus que só podem ser conhecidos pelo homem graças à Revelação. Por esta razão é a teologia o hábito intelectivo pelo qual se estuda Deus em sua recôndita e íntima realidade. E qual seria, por sua vez, o objeto formal-motivo da sagrada teologia? Nenhum outro senão a Revelação mesma, responde Santo Tomás. Neste contexto, a sagrada teologia se distingue radicalmente da teologia natural ou teodicéia, dado que esta última procede dos princípios informados pela razão, enquanto a teologia sagrada parte dos princípios que lhe subministra a fé.

Sendo assim, quando se diz que a metafísica se ordena à teologia, como eu fiz no texto aludido, está-se afirmando que esta ordenação é, primeiramente, em relação à teologia natural, e não à teologia sagrada, pois esta última, tendo como objeto a Deus conhecido pela Revelação, não pode subordinar as outras ciências a si, se se consideram apenas os princípios de que estas partem, embora seja a mais digna e nobre de todas as ciências, dado o seu objeto formal — tanto terminativo, como motivo. Em resumo: a sagrada teologia não empresta os seus princípios à metafísica, nem as matemáticas, nem à física, etc. Contudo há mais, como veremos, mas por ora destaque-se o que afirma o Doutor Angélico, tendo em vista todas essas coisas: a sagrada teologia é uma participação da ciência de Deus no homem (Suma, I, q.1, a.3, ad.2).

Outra distinção importante: a teologia natural é a parte mais nobre da metafísica, o cume, por assim, dizer, desta última. Por isso, quando eu disse que ela subordina a si a metafísica, eu o estava fazendo por meio de uma espécie de analogia, na medida em que o conhecimento de Deus a partir dos entes é muito superior ao conhecimento do ente enquanto ente, objeto próprio da metafísica. Em suma, todo estudioso sério de metafísica, a partir de determinado ponto, ordenará as suas pesquisas ao conhecimento natural que é dado ao homem ter de Deus, o Próprio Ser Subsistente.

Refaçamos o caminho. Dissemos acima que a sagrada teologia — infinitamente superior à teologia natural — não subordina a si as demais ciências, se se consideram apenas os princípios destas. Isto porque nenhum matemático parte de um dado de fé para provar o teorema de Pitágoras, e nenhum metafísico o faz para provar que os entes participam do Ser. No entanto, se se consideram não os princípios das ciências, mas os fins, a coisa se inverte totalmente: neste caso, a sagrada teologia subordina a si todas as ciências humanas, porque o seu fim não é outro senão o conhecimento de Deus e de todas as coisas em Deus.

Ora, Deus é o fim último do homem e, portanto, de todo e qualquer conhecimento humano. Portanto, a supremacia da sagrada teologia é absoluta, porque se trata de ciência: a) universalíssima, pois se estende a todas as coisas às quais são aplicáveis os primeiros e universais princípios da razão; b) certíssima, porque demonstra as suas conclusões pela primeira e mais segura causa no plano ontológico; c) suprema, já que demonstra a partir das causas mais elevadas. Por isso Santo Tomás assinala três propriedades importantíssimas da sagrada teologia:

1- Julgar todas as demais ciências, dado que considera as supremas causas ontológicas (Suma, I, q.1, a.6, corpus; etc);
2- Ordenar todas as demais ciências ao seu fim próprio, porque considera o fim último ao qual se devem ordenar todas as coisas, sem exceção, e que lhes deve servir de norte (Suma I, q.1, a.6, corpus; etc);
3- Utilizar todas as demais ciências em seu proveito próprio, pois todas são em relação a ela um meio ou instrumento que deve conduzir ao fim último.

Além disso tudo, à sagrada teologia cabe julgar os princípios e conclusões de todas as ciências, rechaçando como errônea e inadmissível toda conclusão que contrarie ou seja incompatível com os seus ensinamentos, pois Deus não pode de maneira alguma errar.

Noutra oportunidade, quando divulgarmos certo material que está sendo preparado, falaremos de outras propriedades da sagrada teologia, de acordo com Santo Tomás e com o Magistério infalível da Igreja.
* Não é o caso de abordar neste texto a intentio que há nos entes naturais desprovidos de inteligência, como o rio, o sol, a pedra — intentio esta posta por Deus em cada criatura. Isto valeria um curso inteiro, e não desenvolvo aqui a idéia para não mudar de assunto. Infelizmente, cada vez mais a física moderna se restringe ao estudo do movimento em sua perspectiva puramente material-local.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Autoridade doutrinal do Doutor Comum (IV)

Sidney Silveira
Passado o Concílio de Trento, Santo Tomás continua tendo o beneplácito dos Papas. Clemente VIII (1592- 1605), que fora aluno de São Filipe Néri, declara o Aquinate Patrono da Cidade de Nápoles, onde nascera. De acordo com o Papa, o Aquinate mereceu a honra extraordinária de ter a doutrina aprovada pelo próprio Cristo, que lhe disse:

Paulo V (1605-1621) chama a Santo Tomás de debelador de hereges; Alexandre VII (1655-1667), por sua vez, exorta a Universidade de Louvain a seguir sempre, “com toda a fidelidade, a doutrina límpida e seguríssima do Aquinate, cuja autoridade é tão grande a ponto de ser conhecida por todos na Igreja”. Bento XIII (1724-1730) salienta que “é tanta a força e a verdade da doutrina tomista que não somente venceu as inumeráveis heresias que apareceram até o seu tempo, como teve a virtude de confundir e dissipar todas as que vieram depois”. Ressalta esse Papa que não há palavras para expressar adequadamente o valor da obra de Santo Tomás pro magnis suis in Ecclesiam meritis.

Outro Papa, Bento XIV (1740-1758), ao aprovar os estatutos do Colégio Teológico de São Dionísio, em Granada, impõe a obrigação de não se ensinar outra doutrina senão a de Santo Tomás de Aquino... sob pena de excomunhão reservada à Santa Sé! E, em sua Alocução ao Capítulo Geral da Ordem, em 1756, chama ao Aquinate Príncipe dos Teólogos, Anjo da Escola, Doutor da Igreja Universal e honra preclaríssima da Ordem dos Pregadores. Chega esse Papa a confessar publicamente que tudo quanto se acha de bom em seus escritos teológicos foi pinçado da obra do Aquinate.

Pio VI (1775-1799), Papa durante a Revolução Francesa, recomendou aos padres que não permitissem nem tolerassem de maneira alguma ut divinum Thomæ eloquium quase novella doctrina discutiatur et otiosa disputatione impugnetur. Isto porque, inter mulplices scholas, Thomas Aquinas sol doctrinæ et theologorum Antesignanus iure fuit appelatus (...). Reconhecimento do mesmo nível será feito também por Leão XII (1823-1829), que o declarou, em agosto de 1825, Patrono dos Estudos nos Estados Pontifícios.

No próximo texto da série, falaremos dos Papas por cujo influxo a obra do Aquinate teve um reconhecimento decisivo, em vista dos novos problemas fomentados pelas funestíssimas doutrinas que Gregório XVI (1831-1846) já denunciava, e que com o crescimento do liberalismo no mundo se transformaram em veneno para a fé: Pio IX (1846-1878) e, principalmente, Leão XIII (1878-1903).

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A viuvez honrosa

Sidney Silveira
Não pude deixar de me comover com este depoimento de D. Ivone Fedeli a respeito do seu falecido marido Orlando. Luto sóbrio, digno. Postura de esposa amorosa e zelosa das coisas do marido relativas à fé. Bem diz a Escritura quando afirma que a graça de uma mulher virtuosa rejubila seu marido; e o sol que se levanta nas alturas de Deus é como a beleza de uma mulher honrada, ornamento de sua casa; e ainda: como a lâmpada que brilha no candelabro sagrado, assim é a beleza do seu rosto na idade madura (Eclesiástico, 26).

Lembrei-me do trecho da Suma (I-II, q. 38., arts. 2 e 3) em que Santo Tomás, em dois artigos correlatos, aponta três remédios para mitigar a tristeza:

a) o deleite nas coisas verdadeiramente boas;
b) o pranto temperado por lágrimas, pois distende as energias psíquicas até então concentradas num ponto, trazendo alívio;
c) as condolências dos amigos que, nas tribulações, participam efetivamente do sofrimento do ente querido, razão pela qual diz o Aquinate que os amigos contristados demonstram um amor que consola.

Com isto, dado que no enterro não tive a oportunidade de falar-lhe pessoalmente, pois havia muitas pessoas, posso ao menos de longe dizer três coisas, tendo em vista os ensinamentos do nosso amado Doutor Comum da Igreja:

a) que a constância na Eucaristia, bem sumo da vida católica, lhe seja um deleite grandemente consolador;
b) que a sua tristeza seja mitigada por lágrimas de amor que, com o tempo, se transformarão em doce saudade;
c) que os amigos ajudem a aliviar a dor, para que a tristeza equilibrada jamais se transforme na tristeza má chamada desespero.
Saudações, em Cristo,
Sidney