sábado, 19 de junho de 2010

Saramago segundo Nosso Senhor

Sidney Silveira
Vale a pena ler estes versos sobre o falecido escritor José Saramago. Que Deus se apiede da alma deste homem sacrílego e blasfemo, e, por um imenso e insondável favor de Sua infinita misericórdia, não permita que ela vá penar no inferno.

Teologia sagrada, teologia natural e o tipo de subordinação das ciências humanas a ambas


Sidney Silveira
Afirmou-se noutro texto que, de acordo com o grau de abstração de determinada ciência e, sobretudo, em razão do fato de ela buscar os seus princípios em outra, é estabelecida uma subalternação ou ordenação. Neste contexto, conforme frisa a escola tomista da melhor cepa (Cardeal Caetano, João de S. Tomás, Santiago Ramírez, Garrigou-Lagrange, G. Manser, etc.), a física ordena-se à matemática e esta, à metafísica, etc. Pois muito bem: como foi dito também que a metafísica é subalternada à teologia, cabe fazer alguns esclarecimentos, que me ocorreram após uma frutuosa conversa com o meu querido amigo e companheiro de blog, Carlos Nougué.

Na verdade, quando se frisa que a metafísica se ordena à teologia, é preciso fazer algumas distinções importantes, para que as coisas não fiquem nas brumas da obscuridade. Em primeiro lugar, destaque-se que toda ciência possui um tríplice objeto:

> Material;
> Formal-terminativo; e
> Formal-motivo.

Objeto material é tudo aquilo que, de alguma forma, cai sob a consideração da ciência. Lancemos mão de um exemplo afirmando que o objeto material da visão são todas as coisas que o olho vê: o cavalo, o céu, a pedra, etc. Por sua vez, o objeto material da física (que aborda o ente na perspectiva do movimento) são todas as coisas que se movem: o cavalo, o céu, a pedra, etc. Portanto, um mesmo objeto material pode ser comum a ciências distintas.

Objeto formal-terminativo é aquela formalidade ou perfeição que a ciência considera e estuda em todos os seus objetos materiais. No caso da visão, para prosseguirmos no exemplo, podemos dizer que é a cor (e também a forma) das coisas vistas: a do cavalo, a do céu, a da pedra, etc. No caso da física, é a consideração do motor das coisas que se movem e movem umas às outras: o cavalo, o céu, a pedra, etc. E, assim como acontece no caso do objeto material, frise-se que o mesmo objeto formal-terminativo pode ser considerado por diferentes ciências. Santo Tomás dá o exemplo disto no começo da Suma (I q.1, a.1, ad. 2), quando aponta que o fato de a terra ser redonda pode ser demonstrado por ciências como a astronomia e a física.

Objeto formal-motivo, por fim, é o meio a partir do qual uma ciência considera o seu objeto formal-terminativo. No caso do olho, é a luz pela qual a cor e a forma das coisas vistas são percebidas. No caso da física, é o movimento enquanto orientado a um fim (via ad terminum), que nos entes naturais é o primeiro na intenção e o último na realização*. Esse termo final é propriamente a razão de ser (ratio essendi) de o motor mover as coisas movidas. Vale registrar que o objeto formal-motivo, ao contrário dos outros dois, jamais pode ser compartilhável por duas ou mais ciências, pois, se o fosse, na verdade essas ciências transformar-se-iam numa só.

Assim, como afirma Santiago Ramírez em alguns de seus escritos, o objeto que especifica uma ciência é propriamente o formal-motivo ou, então, o objeto formal-terminativo enquanto afetado pelo formal-motivo.

Pois muito bem: qual seria o objeto formal-terminativo da teologia? O Angélico Doutor responde que é Deus, mas não sob a razão comum de ser, de bondade, de verdade, de unidade, etc., mas sim sob a razão própria de Divindade. Ou seja: sub ratione deitatis. É Deus em si mesmo, ou, se se preferir, todos os atributos de Deus que só podem ser conhecidos pelo homem graças à Revelação. Por esta razão é a teologia o hábito intelectivo pelo qual se estuda Deus em sua recôndita e íntima realidade. E qual seria, por sua vez, o objeto formal-motivo da sagrada teologia? Nenhum outro senão a Revelação mesma, responde Santo Tomás. Neste contexto, a sagrada teologia se distingue radicalmente da teologia natural ou teodicéia, dado que esta última procede dos princípios informados pela razão, enquanto a teologia sagrada parte dos princípios que lhe subministra a fé.

Sendo assim, quando se diz que a metafísica se ordena à teologia, como eu fiz no texto aludido, está-se afirmando que esta ordenação é, primeiramente, em relação à teologia natural, e não à teologia sagrada, pois esta última, tendo como objeto a Deus conhecido pela Revelação, não pode subordinar as outras ciências a si, se se consideram apenas os princípios de que estas partem, embora seja a mais digna e nobre de todas as ciências, dado o seu objeto formal — tanto terminativo, como motivo. Em resumo: a sagrada teologia não empresta os seus princípios à metafísica, nem as matemáticas, nem à física, etc. Contudo há mais, como veremos, mas por ora destaque-se o que afirma o Doutor Angélico, tendo em vista todas essas coisas: a sagrada teologia é uma participação da ciência de Deus no homem (Suma, I, q.1, a.3, ad.2).

Outra distinção importante: a teologia natural é a parte mais nobre da metafísica, o cume, por assim, dizer, desta última. Por isso, quando eu disse que ela subordina a si a metafísica, eu o estava fazendo por meio de uma espécie de analogia, na medida em que o conhecimento de Deus a partir dos entes é muito superior ao conhecimento do ente enquanto ente, objeto próprio da metafísica. Em suma, todo estudioso sério de metafísica, a partir de determinado ponto, ordenará as suas pesquisas ao conhecimento natural que é dado ao homem ter de Deus, o Próprio Ser Subsistente.

Refaçamos o caminho. Dissemos acima que a sagrada teologia — infinitamente superior à teologia natural — não subordina a si as demais ciências, se se consideram apenas os princípios destas. Isto porque nenhum matemático parte de um dado de fé para provar o teorema de Pitágoras, e nenhum metafísico o faz para provar que os entes participam do Ser. No entanto, se se consideram não os princípios das ciências, mas os fins, a coisa se inverte totalmente: neste caso, a sagrada teologia subordina a si todas as ciências humanas, porque o seu fim não é outro senão o conhecimento de Deus e de todas as coisas em Deus.

Ora, Deus é o fim último do homem e, portanto, de todo e qualquer conhecimento humano. Portanto, a supremacia da sagrada teologia é absoluta, porque se trata de ciência: a) universalíssima, pois se estende a todas as coisas às quais são aplicáveis os primeiros e universais princípios da razão; b) certíssima, porque demonstra as suas conclusões pela primeira e mais segura causa no plano ontológico; c) suprema, já que demonstra a partir das causas mais elevadas. Por isso Santo Tomás assinala três propriedades importantíssimas da sagrada teologia:

1- Julgar todas as demais ciências, dado que considera as supremas causas ontológicas (Suma, I, q.1, a.6, corpus; etc);
2- Ordenar todas as demais ciências ao seu fim próprio, porque considera o fim último ao qual se devem ordenar todas as coisas, sem exceção, e que lhes deve servir de norte (Suma I, q.1, a.6, corpus; etc);
3- Utilizar todas as demais ciências em seu proveito próprio, pois todas são em relação a ela um meio ou instrumento que deve conduzir ao fim último.

Além disso tudo, à sagrada teologia cabe julgar os princípios e conclusões de todas as ciências, rechaçando como errônea e inadmissível toda conclusão que contrarie ou seja incompatível com os seus ensinamentos, pois Deus não pode de maneira alguma errar.

Noutra oportunidade, quando divulgarmos certo material que está sendo preparado, falaremos de outras propriedades da sagrada teologia, de acordo com Santo Tomás e com o Magistério infalível da Igreja.
* Não é o caso de abordar neste texto a intentio que há nos entes naturais desprovidos de inteligência, como o rio, o sol, a pedra — intentio esta posta por Deus em cada criatura. Isto valeria um curso inteiro, e não desenvolvo aqui a idéia para não mudar de assunto. Infelizmente, cada vez mais a física moderna se restringe ao estudo do movimento em sua perspectiva puramente material-local.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Autoridade doutrinal do Doutor Comum (IV)

Sidney Silveira
Passado o Concílio de Trento, Santo Tomás continua tendo o beneplácito dos Papas. Clemente VIII (1592- 1605), que fora aluno de São Filipe Néri, declara o Aquinate Patrono da Cidade de Nápoles, onde nascera. De acordo com o Papa, o Aquinate mereceu a honra extraordinária de ter a doutrina aprovada pelo próprio Cristo, que lhe disse:

Paulo V (1605-1621) chama a Santo Tomás de debelador de hereges; Alexandre VII (1655-1667), por sua vez, exorta a Universidade de Louvain a seguir sempre, “com toda a fidelidade, a doutrina límpida e seguríssima do Aquinate, cuja autoridade é tão grande a ponto de ser conhecida por todos na Igreja”. Bento XIII (1724-1730) salienta que “é tanta a força e a verdade da doutrina tomista que não somente venceu as inumeráveis heresias que apareceram até o seu tempo, como teve a virtude de confundir e dissipar todas as que vieram depois”. Ressalta esse Papa que não há palavras para expressar adequadamente o valor da obra de Santo Tomás pro magnis suis in Ecclesiam meritis.

Outro Papa, Bento XIV (1740-1758), ao aprovar os estatutos do Colégio Teológico de São Dionísio, em Granada, impõe a obrigação de não se ensinar outra doutrina senão a de Santo Tomás de Aquino... sob pena de excomunhão reservada à Santa Sé! E, em sua Alocução ao Capítulo Geral da Ordem, em 1756, chama ao Aquinate Príncipe dos Teólogos, Anjo da Escola, Doutor da Igreja Universal e honra preclaríssima da Ordem dos Pregadores. Chega esse Papa a confessar publicamente que tudo quanto se acha de bom em seus escritos teológicos foi pinçado da obra do Aquinate.

Pio VI (1775-1799), Papa durante a Revolução Francesa, recomendou aos padres que não permitissem nem tolerassem de maneira alguma ut divinum Thomæ eloquium quase novella doctrina discutiatur et otiosa disputatione impugnetur. Isto porque, inter mulplices scholas, Thomas Aquinas sol doctrinæ et theologorum Antesignanus iure fuit appelatus (...). Reconhecimento do mesmo nível será feito também por Leão XII (1823-1829), que o declarou, em agosto de 1825, Patrono dos Estudos nos Estados Pontifícios.

No próximo texto da série, falaremos dos Papas por cujo influxo a obra do Aquinate teve um reconhecimento decisivo, em vista dos novos problemas fomentados pelas funestíssimas doutrinas que Gregório XVI (1831-1846) já denunciava, e que com o crescimento do liberalismo no mundo se transformaram em veneno para a fé: Pio IX (1846-1878) e, principalmente, Leão XIII (1878-1903).

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A viuvez honrosa

Sidney Silveira
Não pude deixar de me comover com este depoimento de D. Ivone Fedeli a respeito do seu falecido marido Orlando. Luto sóbrio, digno. Postura de esposa amorosa e zelosa das coisas do marido relativas à fé. Bem diz a Escritura quando afirma que a graça de uma mulher virtuosa rejubila seu marido; e o sol que se levanta nas alturas de Deus é como a beleza de uma mulher honrada, ornamento de sua casa; e ainda: como a lâmpada que brilha no candelabro sagrado, assim é a beleza do seu rosto na idade madura (Eclesiástico, 26).

Lembrei-me do trecho da Suma (I-II, q. 38., arts. 2 e 3) em que Santo Tomás, em dois artigos correlatos, aponta três remédios para mitigar a tristeza:

a) o deleite nas coisas verdadeiramente boas;
b) o pranto temperado por lágrimas, pois distende as energias psíquicas até então concentradas num ponto, trazendo alívio;
c) as condolências dos amigos que, nas tribulações, participam efetivamente do sofrimento do ente querido, razão pela qual diz o Aquinate que os amigos contristados demonstram um amor que consola.

Com isto, dado que no enterro não tive a oportunidade de falar-lhe pessoalmente, pois havia muitas pessoas, posso ao menos de longe dizer três coisas, tendo em vista os ensinamentos do nosso amado Doutor Comum da Igreja:

a) que a constância na Eucaristia, bem sumo da vida católica, lhe seja um deleite grandemente consolador;
b) que a sua tristeza seja mitigada por lágrimas de amor que, com o tempo, se transformarão em doce saudade;
c) que os amigos ajudem a aliviar a dor, para que a tristeza equilibrada jamais se transforme na tristeza má chamada desespero.
Saudações, em Cristo,
Sidney

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Física e matemática subalternadas à metafísica

Trabalho de Robert Grosseteste sobre a refração da luz


Sidney Silveira
Como se assinalou neste vídeo, há em linhas gerais três graus principais de abstração: o da física, que aborda o ente na perspectiva do movimento; o das matemáticas, que considera o ente na perspectiva das relações; e o da metafísica, que considera o ente enquanto ente — desprovido de todo e qualquer modus. Isto implica dizer que a física está subordinada à matemática e à metafísica; a matemática, à metafísica; e a metafísica, a nenhuma das duas, pois representa o grau máximo de abstração que a inteligência humana pode lograr*, razão pela qual merece ela o título de ciência por excelência, pois todas as demais a supõem fundamentalmente.

Quando se diz subordinação, quer-se dizer que uma ciência busca em outra os seus princípios. Santo Tomás dá o exemplo disso quando, no começo da Suma Teológica (I. q. 1., a. 2, resp), lembra-nos que a perspectiva parte dos princípios que proporciona a geometria, e a música, dos que lhe proporciona a aritmética, e assim por diante É exatamente este o sentido em que se afirma que uma ciência supõe a outra, à qual se subordina.

Para a mentalidade moderna, isto não parece óbvio, dada a subdivisão das ciências em especificidades cada vez mais minuciosas, o que, a par de trazer grandes avanços particulares, prejudica sobremaneira a visão do conjunto das ciências. Isto fica bastante evidente quando observamos físicos contemporâneos abordar questões (como a da origem do universo) que transcendem em absoluto à sua ciência, apoiados em mal-disfarçadas muletas metafísicas.

Tomemos por exemplo a teoria do Big Bang. E pressuponhamos, a título de exercício dialético, que esteja certa em suas linhas principais. Ainda neste caso, ficaria fundamentalmente por explicar de onde veio a matéria prima inicial que, no começo do universo, teria explodido em razão de sua máxima concentração, proporcionando o cosmos hoje em expansão. Em resumo, a teoria do Big Bang parte de um dado para o qual precisa apoiar-se numa premissa de cariz metafísico (ou teológico), sem no entanto esboçar uma resolução para o problema inicial. A propósito, a solução foi dada com razões suficientes pela metafísica do Ser de Tomás de Aquino.

Abra-se um parêntese para lembrar que a teoria do Big Bang ganhou uma primeira formulação com o bispo católico Robert Grosseteste, na virada dos séculos XII para o XIII (obviamente, com diferenças em relação às atuais variáveis da tese do universo em expansão). O fato é que, como bom realista, Grosseteste não aceitara sustentar toda a sua tese sobre uma hipótese para a qual não houvesse uma evidência ou, ao menos, um elemento corroborante. Por isso, afirmara no tratado De luce seu de inchoatione formarum, que a matéria prima seria uma substância sutil luminosa próxima do incorpóreo... criada por Deus!

A característica dessa luz primeva de Grosseteste seria o perpetuamente engendrar-se a si mesma pela difusão esférica em torno de pontos luminosos. Em síntese: dado o primeiro ponto luminoso criado por Deus, instantaneamente se engendrou, ao redor dele, tomado como centro, uma esfera luminosa, e esta se propagou em outros pontos luminosos e assim por diante, ad infinitum; esta difusão circular da luz seria o princípio ativo de todas as coisas, inclusive da corporeidade. Primeira forma criada por Deus na matéria prima, tal luz se multiplicaria indefinidamente por si mesma e se estenderia em todas as direções, distendendo a porção de matéria prima que leva consigo desde o princípio dos tempos e constituindo, assim, o universo em movimento e expansão que contemplamos.

Voltemos ao tema da subalternação das ciências. A física se subordina à matemática e à metafísica; a matemática não se subordina à física, mas sim à metafísica; e esta última não se subordina a nenhuma delas, muito menos a qualquer outra ciência, com exceção da teologia, conforme dissemos. Como diz o tomista Carlos A. Casanova no instigante livro Reflexiones metafísicas sobre la ciencia natural, nos tratados de matemática, por exemplo, não se discute o princípio de não-contradição, que está pressuposto desde o começo em todas as equações. Tudo supõe o axioma sem o qual nem haveria matemáticas. Ademais, quando o matemático ou o físico consideram-no de modo explícito, saem do seu campo de competência e têm por hábito errar bastante.

Assim, algumas proposições sobre as quais versa a matemática (axiomas chamados circa quæ, como o que afirma: duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si) não podem ser provadas por ela, mas supõem outra disciplina. Casanova aponta também os axiomas ex quibus**, como o princípio de não-contradição. Sem eles sequer poderia a matemática avançar um passo.

Na física matemática ocorre de maneira semelhante. Suas convenções, diz Casanova, se referem à realidade e ajudam a conhecê-la se são aplicadas de modo sistemático, pois nos remetem a relações quantitativas reais. Quando se trata de um fenômeno qualitativo, como uma descarga elétrica ou o calor, sempre há algo que escapa às fórmulas.

Conceitos que se situam entre os mais fundamentais da física matemática, como massa, tempo e temperatura, são precisos dentro de esquemas que os utilizam em cadeias dedutivas matemáticas, mas estas pressupõem os princípios metafísicos de que falamos.

* Não é o caso aqui de abordar a separatio, que para alguns tomistas contemporâneos, apoiados num trecho do comentário de Santo Tomás ao De Trinitate de Boécio, seria um grau de abstração superior ao da metafísica.
** Essa expressão pode ser encontrada no Comentário aos Analíticos Posteriores de Aristóteles, escrito por Santo Tomás.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A dignidade sacerdotal (II): o sacerdócio de Cristo

Garrigou-Lagrange

Sidney Silveira
Após virmos, no texto anterior, que a união hipostática é o constitutivo formal do sacerdócio de Cristo, dada a plenitude de graça e glória deste estado, e também que o seu sacerdócio é perfeito e eterno em sentido próprio, enquanto o dos padres o é por participação, prossigamos ainda abordando alguns aspectos desse divino sacerdócio.

Um pergunta que ocorreu a muitos, em diferentes momentos da história da Igreja, foi a seguinte: porventura influi o sacerdócio de Cristo em cada uma das Missas que se celebram? Duns Scot e, depois dele, Molina, afirmavam que Cristo é o oferente principal porque instituiu o sacrifício da Missa e mandou que o oferecessem em seu nome, mas atualmente já não seria Ele quem oferece o sacrifício. O argumento destes dois teólogos que descambaram para a heresia é de que não se podem multiplicar, em Cristo Deus-Homem, os atos de sua oblação interna feita na Cruz.

Erraram rotundamente estes e outros teólogos que afirmaram coisas semelhantes — alguns deles inclusive transformando-se em grandes heresiarcas. A verdade católica diz que Cristo é o oferente não apenas virtual do sacrifício de todas as Missas, mas também atual, e não por uma espécie de multiplicação material de sua oblação interna, pois esta foi feita perfeitissimamente uma só vez na Cruz, como lembra-nos Garrigou-Lagrange, de quem extraímos os conceitos desta série de textos: a oblação de Cristo, dada a plenitude da união hipostática, foi eterna e permanente, razão pela qual um mesmo é (hoje e sempre) o oferente principal (Cristo), com a diferença de que o sacrifício hoje é incruento e não doloroso. Ademais, a satisfação dada por Nosso Senhor na Cruz é meritória para sempre. Tendo isso em vista, afirma o Concílio de Trento que “uma mesma é a hóstia e um mesmo é hoje o oferente pelo ministério dos sacerdotes” (Denz. 940). Sendo assim, Cristo é o oferente principal atual de todas as Missas.

Ademais, Santo Tomás (Suma, III, q. 62, a.5) afirma que a humanidade de Cristo é instrumento unido à divindade para que se dêem todos os efeitos sobrenaturais, e instrumento consciente e voluntário. Isto quer dizer que Jesus, como homem, quer concorrer fisicamente para os efeitos sobrenaturais que se dão em cada circunstância concreta. Daí dizer ali também o Aquinate que entre esses efeitos está o da transubstanciação e, por conseguinte, Cristo, como homem, quer toda transubstanciação que atualmente se realiza. Ele quis isto enquanto vivia como homem na terra, dada a sua ciência infusa e também o fato de que, mesmo na terra, já gozava da visão beatífica e previu e quis cada uma das Missas como aplicações posteriores do sacrifício da Cruz (Suma, III, q. 10, a.2; q. 11, a.1).

Vale também dizer que a oblação interna perdura em Cristo glorioso, sem interrupção. Assim, os efeitos atuais que têm a Cristo como causa subordinam-se ao sacrifício da Cruz. Daí ter afirmado Nosso Senhor, ainda na Cruz, que “Tudo está consumado”, razão pela todas as Missas aplicam — per participationem — os méritos da Paixão e têm a Cristo como oferente principal.

Em resumo, é certíssimo que Cristo — sacerdote eterno — queira dar-se em comunhão a cada um dos fiéis que o recebe, e mais certo ainda é o fato de que queira oferecer-se atualmente ao Pai, cumprindo os quatro fins do seu divino sacrifício: latrêutico (adoração), eucarístico (ação de graças), propiciatório (expiação) e impetratório (súplica).

Como se vê, por ser a participação de tão alto mistério de um sacerdócio divino, o sacerdócio dos padres tem uma incomensurável dignidade. Assim, os sacerdotes que, estando bem formados, aspiram a uma união efetiva com Cristo — para a qual Deus nunca deixará de dar graças proporcionadas a tão excelso fim —, certamente serão ministros de um "ato teândrico de infinito valor", como diz Garrigou no já citado A União do Sacerdote com Cristo, Sacerdote e Vítima.

O grande sacerdote e teólogo francês encerra esta parte de seu livro lembrando que o sacrifício da Missa (que tem a Cristo como oferente principal atual) e o da Cruz são o mesmo substancialmente, embora difiram os modos de oblação: na Cruz ela foi cruenta, dolorosa e meritória; agora é incruenta, sacramental, indolor e não meritória, dado ser a aplicação da satisfação dos méritos infinitos... da Paixão e morte na Cruz.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Falecimento do Prof. Orlando Fedeli

Sidney Silveira
Este "post" é apenas para comunicar, com pesar, o falecimento, no final da tarde de hoje (09/06), do Prof. Orlando Fedeli, do site Montfort. Que Deus, em sua infinita Bondade e Misericórdia, receba a sua alma combatente! Peço a todos que nos lêem: rezem nesta intenção.