sexta-feira, 4 de junho de 2010

Papa fala sobre Santo Tomás


Sidney Silveira

Como estou fazendo um sumário da autoridade doutrinal de Santo Tomás na Igreja, desde a sua morte até os dias atuais, acho que vale mencionar aqui a Catequese do Papa Bento XVI, feita anteontem (02/06), sobre Santo Tomás. Depois — ao final daquela série — farei alguns comentários, pois agora falta-me tempo. Leiam-se, a seguir, alguns trechos dessa fala do Papa, que destaquei do texto traduzido pelo blog Oblatvs. Veja-se também o vídeo completo aqui, no site do Vaticano.

"Caros irmãos e irmãs,

Depois de algumas catequeses sobre o sacerdócio e de minhas últimas viagens, retornamos hoje ao nosso tema principal, isto é, à meditação sobre alguns dos grandes pensadores da Idade Média. Havíamos visto, na última vez, a grande figura de São Boaventura, franciscano, e hoje desejo falar daquele que a Igreja chama Doctor communis: isto é, Santo Tomás de Aquino. (...) Ele foi chamado também Doctor Angelicus, provavelmente por suas virtudes, em particular a sublimidade do pensamento e a pureza de vida.

Tomás nasceu entre 1224 e 1225 no castelo que a sua família, nobre e abastada, possuía em Roccasecca, nas proximidades de Aquino, vizinho à célebre abadia de Montecassino, aonde foi enviado pelos pais a fim de receber os primeiros elementos de sua instrução. Alguns anos depois se transferiu para a capital do Reino da Sicília, Nápoles, onde Frederico II fundara uma prestigiosa universidade. Ali era ensinado, sem as limitações vigentes alhures, o pensamento do filósofo grego Aristóteles, no qual o jovem Tomás foi introduzido, e cujo grande valor subitamente intuiu. Mas sobretudo, naqueles anos transcorridos em Nápoles, nasceu a sua vocação dominicana. Tomás foi, na verdade, atraído pelo ideal da Ordem fundada poucos anos antes por São Domingos. Todavia, quando revestiu o hábito dominicano, a sua família se opôs a esta escolha e ele foi constrangido a deixar o convento e a passar algum tempo com a família.

Em 1245, já maior de idade, pôde retomar o seu caminho de resposta ao chamado de Deus. Foi enviado a Paris para estudar teologia sob a direção de um outro santo, Alberto Magno, sobre o qual falei recentemente. Alberto e Tomás cultivaram uma verdadeira e profunda amizade e aprenderam a estimar-se e a se querer bem, a ponto de Santo Alberto querer que seu discípulo o seguisse a Colônia, aonde o próprio Alberto fora enviado pelos Superiores da Ordem a fundar uma escola de teologia. Tomás teve então contato com todas as obras de Aristóteles e de seus comentadores árabes, que Alberto esclarecia e explicava.

Naquele período, a cultura do mundo latino fora profundamente estimulada pelo encontro com as obras de Aristóteles, que permaneceram desconhecidas por muito tempo. Tratava-se de escritos sobre a natureza do conhecimento, sobre ciências naturais, sobre metafísica, sobre a alma e sobre a ética, ricos de informações e de intuições que pareciam válidas e convincentes. (...). Muitos acolheram com entusiasmo, até mesmo com entusiasmo acrítico, esta enorme bagagem do saber antigo, que parecia poder renovar vantajosamente a cultura, abrir totalmente novos horizontes. Outros, porém, temiam que o pensamento pagão de Aristóteles estivesse em oposição à fé cristã e se recusavam a estudá-lo. Encontraram-se duas culturas: a cultura pré-cristã de Aristóteles, com sua radical racionalidade, e a clássica cultura cristã. Certos ambientes foram levados à rejeição de Aristóteles também pela apresentação que de tal filósofo fora feita pelos comentadores árabes Avicena e Averróis. De fato, foram eles que transmitiram ao mundo latino a filosofia aristotélica. Por exemplo, estes comentadores haviam ensinado que os homens não dispõem de uma inteligência pessoal, mas que neles há um único intelecto universal, uma substância espiritual comum a todos, que opera em todos como “única”: portanto uma despersonalização do homem. Um outro ponto discutível veiculado pelos comentadores árabes era aquele segundo o qual o mundo é eterno como Deus. Compreensivelmente surgiram, no mundo universitário e no eclesiástico, disputas sem fim. A filosofia aristotélica estava sendo difundida inclusive entre o povo simples.

Tomás de Aquino, na escola de Alberto Magno, desenvolveu uma operação de fundamental importância para a história da filosofia e da teologia, eu diria, para a história da cultura: estudou a fundo Aristóteles e os seus intérpretes, buscando novas traduções latinas dos textos originais gregos. (...) Comentou grande parte das obras aristotélicas, distinguindo nelas o que era válido daquilo que era dúbio ou que devesse ser recusado totalmente, mostrando a consonância com os dados da Revelação cristã e utilizando ampla e agudamente o pensamento aristotélico na exposição dos escritos teológicos que compôs. Em definitivo, Tomás de Aquino mostrou que entre a fé cristã e a razão existe uma natural harmonia. E esta foi a grande obra de Tomás, que naquele momento de conflito entre duas culturas – momento no qual parecia que a fé devia dobrar-se diante da razão – mostrou que ambas caminham juntas, que quando aparecia uma razão não compatível com a fé não era razão, (...); assim ele criou uma nova síntese que formou a cultura dos séculos seguintes.

Por seus excelentes dotes intelectuais, Tomás foi chamado a Paris como professor de teologia na cátedra dominicana. Ali também deu início a sua produção literária, que prosseguiu até a morte, e que há algo de prodigioso: comentários à Sagrada Escritura, porque o professor de teologia era sobretudo intérprete da Escritura, comentários aos escritos de Aristóteles, obras sistemáticas poderosas, entre as quais se destaca a Summa Theologiae, tratados e discursos sobre vários temas. Para a composição de seus escritos era coadjuvado por alguns secretários, entre os quais o confrade Reginaldo de Piperno, que o seguiu fielmente e ao qual se ligou por uma profunda e sincera amizade, caracterizada por uma grande familiaridade e confiança. Esta é uma característica dos santos: cultivam a amizade, porque ela é uma das manifestações mais nobres do coração humano e que tem em si algo de divino, como o próprio Tomás explicou em algumas quaestiones da Summa Theologiae, na qual escreve: “A caridade é a amizade do homem com Deus principalmente, e com os seres que a Ele pertencem” (II, q. 23, a. 1).

Não permanece muito tempo e estavelmente em Paris. Em 1259 participou do Capítulo Geral dos Dominicanos em Valenciennes, onde foi membro de uma comissão que estabeleceu o programa de estudos na Ordem. Depois, de 1261 a 1265, Tomás estava em Orvieto. O Papa Urbano IV, que nutria por ele uma grande estima, lhe confiou a composição dos textos litúrgicos para a festa de Corpus Christi, que celebramos amanhã, instituída em seguida ao milagre eucarístico de Bolsena. Tomás teve uma alma autenticamente eucarística. Os belíssimos hinos que a liturgia da Igreja canta para celebrar o mistério da presença real do Corpo e do Sangue do Senhor na Eucaristia são atribuídos à sua fé e à sua sabedoria teológica. De 1265 até 1268 Tomás residiu em Roma, onde, provavelmente, dirigia um Studium, isto é, uma Casa de estudos da Ordem, e onde começou a escrever a sua Summa Theologiae.

Em 1269 foi novamente chamado a Paris para um segundo ciclo de magistério. Os estudantes – compreende-se bem – eram entusiastas de suas aulas. Um ex-aluno seu declarou que uma grande multidão de estudantes seguia os cursos de Tomás, tanto que as salas mal podiam comportá-los e acrescentava, com uma anotação pessoal, que “escutá-lo era para ele uma felicidade profunda”. A interpretação de Aristóteles dada por Tomás não era aceita por todos, mas mesmo os seus adversários no campo acadêmico, como Godofredo de Fontaines, por exemplo, admitiam que a doutrina de frei Tomás fosse superior às outras por utilidade e valor e servia como corretivo às de todos os outros doutores. Talvez também a fim de subtraí-lo às intensas discussões em curso, os Superiores o enviaram uma vez mais a Nápoles, à disposição do rei Carlos I, que pretendia reorganizar os estudos universitários.

Além do estudo e do ensino, Tomás se dedicou também à pregação ao povo. E também o povo, de boa vontade, ia escutá-lo. Eu diria que é verdadeiramente uma grande graça quando os teólogos sabem falar com simplicidade e fervor aos fiéis. O ministério da pregação, por outro lado, ajuda os próprios estudiosos de teologia com um saudável realismo pastoral, e enriquece de vivos estímulos suas pesquisas.

Os últimos meses de vida terrena de Tomás permanecem circundados por uma atmosfera particular, diria até misteriosa. Em dezembro de 1273 chamou o seu amigo e secretário Reginaldo para comunicar-lhe a decisão de interromper todo trabalho, porque, durante a celebração da Missa, havia compreendido, em seguida a uma revelação sobrenatural, que tudo quanto havia escrito até então era somente “um monte de palha”. É um episódio misterioso que nos ajuda a compreender não somente a humildade pessoal de Tomás, mas também o fato de que tudo aquilo que conseguimos pensar e dizer sobre a fé, não obstante elevado e puro, é infinitamente superado pela grandeza e pela beleza de Deus, que nos será revelada em plenitude no Paraíso. Alguns meses depois, sempre mais absorvido em uma profunda meditação, Tomás morreu enquanto viajava para Lyon, para onde se dirigia a fim de tomar parte no Concílio Ecumênico convocado pelo Papa Gregório X. Expirou na Abadia cisterciense de Fossanova, depois de ter recebido o Viático com sentimentos de grande piedade.

A vida e a doutrina de Santo Tomás de Aquino se poderiam resumir em um episódio transmitido pelos antigos biógrafos. Enquanto o Santo, como seu costume, estava em oração diante do Crucifixo, logo pela manhã na Capela de São Nicolau, em Nápoles, Domingos de Caserta, o sacristão da igreja, ouviu desenvolver-se um diálogo. Tomás perguntava, preocupado, se tudo o que havia escrito sobre os mistérios da fé cristã estava correto. E o Crucifixo responde: “Tu falaste bem de mim, Tomás. Qual será a tua recompensa?”. E a resposta que Tomás deu é aquela que também nós, amigos e discípulos de Jesus, queremos sempre dar-lhe: “Nada além de Ti, Senhor!”.

BENEDICTUS PP. XVI
2 de junho de 2010

terça-feira, 1 de junho de 2010

Novo livro do Padre Calderón ("A Religião do Homem"), e nova Semana de Humanidades em La Reja



Carlos Nougué

I) Acaba de publicar-se na Argentina um novo livro do R. P. Álvaro Calderón, Prometeo ― La religión del hombre (Ensayo de una hermenéutica del Concilio Vaticano II), que, como a sua anterior obra (A Candeia debaixo do Alqueire...), representa o que verdadeiramente podemos chamar de “tomismo vivo”: aquele que, solidamente fundado no realismo aristotélico-tomista e no magistério infalível da Igreja, e sempre em defesa da Realeza de Cristo, resolve de modo cabal os principais problemas com que nós, os católicos, deparamos na atualidade.

No conjunto de questões disputadas que constituem A Candeia... o Padre Calderón resolvia a premente questão da obediência devida ao magistério pós-conciliar. Com respeito a Prometeo... lê-se no site oficial do Distrito da América do Sul da FSSPX (http://www.fsspx-sudamerica.org/fraternidad/index.php):

“Bento XVI começou seu pontificado com uma tremenda confusão: o Concílio Vaticano II não teria sido bem compreendido. Ora, tudo foi mudado pelo Concílio: a liturgia, o catecismo e o direito canônico, a vida dos seminários, dos conventos e das paróquias, e quarenta anos depois um Papa que foi teólogo do Concílio afirma que ainda não se deu a correta interpretação dele. A comoção nos meios eclesiásticos não podia ser maior, pois tal afirmação põe em questão toda a reforma conciliar.

A maioria dos bispos se reúne para defender a hermenêutica vulgata — chamemo-la assim — do Concílio como novo começo, que animou as reformas. A Fraternidade São Pio X de certo modo está de acordo, embora sem o eufemismo: a única hermenêutica possível é a de ruptura com a tradição. Em contrapartida, os grupos tradicionalistas amparados sob as asas da Comissão “Ecclesia Dei” se apressam a dizer que pode e deve dar-se a hermenêutica da continuidade. O momento é solene. Roma convidou a Fraternidade São Pio X a discutir sobre o Concílio — horror! gritam os bispos — com a intenção, certamente, de mostrar-lhe um Vaticano II sem contradição na história dos dogmas.

Neste contexto, o Padre Álvaro Calderón, professor desde há muito tempo do seminário argentino da FSSPX, ensaia uma hermenêutica do Concílio que reúne duas notáveis qualidades. Primeira, indica de maneira muito precisa os múltiplos pontos doutrinais em que o Concílio rompe com a tradição, e, mais ainda, patenteia certas questões difíceis que foram usadas como véus. Segunda, traça as linhas de um processo contínuo que vai do humanismo e do renascimento ao “novo humanismo” conciliar. Embora o aspecto histórico esteja menos desenvolvido [no livro], permite porém entender por que Bento XVI defende que o Concílio não é algo totalmente novo: está em continuidade com cinco séculos de catolicismo liberal"[grifo nosso].

Estas duas qualidades não podem reunir-se num livro de leitura fácil. Mas é que não é fácil a leitura do Concílio. No entanto, ainda que o leitor possa perder detalhes que exigiriam estudo para ser apreciados, verá porém que o autor recolhe as peças de tantas discussões que haviam deixado perplexos os católicos, e as encaixa entre si sem forçá-las, como quem resolve um quebra-cabeça. Aqui está, sem dúvida, o mérito principal da obra, e o que faz pensar que se deu um importante passo na compreensão do maior acontecimento da era moderna.”

Este livro fundamental, cuja edição é do próprio autor, tem 328 páginas, custa $ 32 mais despesas de correio, e pode ser adquirido no seguinte link:
http://www.fsspx-sudamerica.org/fraternidad/libreria.php (ou pelo seguinte e-mail: fsspx.sudamerica@gmail.com).

II) Outra importante notícia é que tornará a realizar-se, entre 15 e 25 de julho, ainda no seminário de La Reja, as Jornadas de Humanidades, que, lembremo-nos, foram suspensas no ano passado devido à influenza A H1N1.

As Jornadas para os rapazes têm por título “¿Evolución o Creación?”, e os temas das conferências serão, portanto, os mesmos que se tratariam no ano passado: evolucionismo, big bang, Gênesis, arte, etc. Entre os conferencistas, o Padre Calderón, o Padre José Maria Mestre, o biólogo Raúl Leguizamón, o Professor Carlos Pérez Agüero, o Professor Casermeiro e o Professor Marcelo Gustavo Imbrogno, além do superior do distrito, Rev. Padre Christian Bouchacourt.

Haverá também Jornadas especiais para as moças, sob o título: “El plan para destruir a la mujer cristiana”

As inscrições (lembrem-se de que o número de vagas é limitado) se devem fazer, respectivamente, pelos seguintes links:
http://www.fsspx-sudamerica.org/fraternidad/jornadas10.php e http://www.fsspx-sudamerica.org/fraternidad/jorchicas10.php.

Adendo do Sidney: Li A Religião do Homem... há três anos, numa versão eletrônica enviada pelo próprio Padre Calderón. É, em certo sentido, um livro ainda mais aterrador do que A Candeia..., pelas questões que suscita e a forma como o teólogo lhes dá solução magistral. Mas também se trata de uma obra mais acessível, em razão do formato de texto corrido, ao passo que A Candeia..., sendo uma complexa disputatio, requer um conhecimento prévio do método escolástico e, também, de algumas das principais técnicas de demonstração filosófica. Parece-me igualmente importante frisar que não se trata da versão (reduzida) que circula pela internet. A forma final do livro foi aumentada consideravelmente.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Malefícios da escrupulosidade


Sidney Silveira
Dizia o Padre Garrigou-Lagrange que um dos grandes problemas das pessoas religiosas reside em oscilar entre dois extremos: uma espiritualidade sem vida intelectual, que resulta num estéril pietismo, e uma vida de estudos não acompanhada da genuína piedade (feita de sacrifícios, oração e freqüência aos sacramentos), o que gera homens para quem a graça talvez até seja um elevadíssimo conceito abstrato, mas não uma realidade beatificante. Certamente o grande teólogo francês não padecia de nenhum destes dois males, dado ter sido um dos gigantes da história do tomismo, espécie de mestre auxiliar do Aquinate, na medida em que participava em alto grau do hábito teológico do “anjo da Escola”. Um grande metafísico e, ao mesmo tempo, um notável homem espiritual.

Garrigou sabia muito bem que o equilíbrio entre o pietismo e o intelectualismo se logra após um bom tempo de caminhada na fé. Não é obra de um dia. Ademais, para alguém efetivamente consegui-lo convém fugir àquilo que em Teologia Moral se chama escrupulosidade, ou seja: o roer-se de angústias e desassossegos por qualquer ninharia.

O escrupuloso é o sujeito imerso num universo mental tenso, pois a sua vida interior é acossada por imagens que produzem um estado de ofuscamento habitual da razão, dado o contínuo e infundado temor de estar sempre prestes a infringir alguma regra capital. Uma alma nesse estado atormenta-se a si mesma e a todos os que estão à sua volta, pois costuma atirar nas costas das demais pessoas um fardo ainda maior do que o que carrega. Por estas razões, evidencia-se que o escrúpulo não é um juízo racional e prudente sobre a bondade ou maldade dos nossos atos, mas um estado de dúvida não apoiado em sólidos motivos. Por trás dele, muitas vezes, está uma grande vaidade de querer parecer melhor que os outros.

Aplicado aos estudos, o escrúpulo é altamente maléfico, pois quem o padece dissolve as energias psíquicas em miudezas e pormenores sem a menor importância. Com isto, o que poderia ser estudado em um mês leva quatro vezes esse tempo, e o que é pior: o escrupuloso tem imensa dificuldade de chegar a conclusões, pois a sua mente engendra possibilidades sem fim e as coloca no lugar das evidências que, para uma pessoa comum, seriam suficientes para fazê-la seguir adiante. Uma nota de rodapé que não se consegue encontrar pode, muitas vezes, fazer o escrupuloso abandonar um belo escrito autoral. Por estes motivos, dificilmente o escrupuloso progride nos estudos, ainda que tenha talento. Conheci pessoalmente alguns casos dramáticos em que essa paixão pulverizou a possibilidade de uma vida intelectual verdadeiramente fecunda.

Convém ressalvar que a escrupulosidade nada tem a ver com a delicadeza de consciência. Esta consiste no esmero e cuidado com que uma alma amante da virtude busca aperfeiçoar-se, procurando evitar — por amor a Deus — até as faltas mais leves. Tal delicadeza de consciência leva uma pessoa a entristecer-se com os seus erros e pecados, mas sem o desespero e a angústia típicos do escrupuloso. A delicadeza de consciência pode, de fato, levar uma alma à santidade; o escrúpulo, jamais, pois conduz à cegueira mental.

Outra característica do escrupuloso é a pertinácia nos seus próprios juízos negativos, contrariando a tudo e a todos. Se é pessoa católica, muitas vezes nem mesmo o seu diretor espiritual consegue demovê-la dessas teimas, pois a constância no erro de escrúpulo revela uma patologia muito difícil de curar, pois os atos contra a verdade acabam por se transformar numa espécie de qualidade da alma, como dizia Santo Tomás. Quase uma segunda “natureza”.

Essa enfermidade pode conduzir a um daqueles dois estados de espírito que Garrigou-Lagrange considerava altamente danosos: o intelectualismo e o pietismo. No primeiro caso, o estudo acarreta mais prejuízos que benefícios, pois o sujeito perde enorme tempo caminhando em terreno árido e deixa de lado os remédios que a fé lhe oferece; no segundo caso, o pietismo provém do escrúpulo que leva uma pessoa a supor que não tem o menor compromisso de progredir intelectualmente, pois lhe basta a fé. Este foi por exemplo o caso de alguns franciscanos dos séculos XIV e XV, que acreditavam ser a leitura de livros algo extremamente prejudicial para a fé.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O segundo dos socráticos menores: Aristipo


Sidney Silveira
Após aludir ao primeiro dos socráticos menores — Antístenes, fundador da escola cínica —, o meu nobre amigo Nougué nos remete ao seu extremo oposto: o hedonista Aristipo de Cirene.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Magistério da Igreja: da imposição à deposição (II)

Cardeal Caetano contra Lutero

Sidney Silveira
Noutro texto remeti-nos a uma idéia interessante de Santo Alberto Magno em sua Suma Teológica — a de que o nome não é outra coisa senão uma implícita definição; e a definição, por sua vez, é a explicação detalhada do nome. Pois muito bem: aplicado ao conhecimento, o nome “diálogo” traz consigo implícita a idéia de paralelismo entre as pessoas que dele participam. Um grupo de cientistas, por exemplo, pode reunir-se com vistas a investigar certo problema e, nesta ocasião, cada qual expressando os seus pontos de vista e expondo as conquistas de suas pesquisas individuais (dialogando, enfim), chegar a uma resolução satisfatória. Mas o termo “diálogo” seria totalmente impróprio ou equívoco se o aplicássemos ao caso em que um só cientista, sendo detentor da resolução do problema, se dispusesse a explicá-la aos seus colegas. Aqui, o conceito unívoco e insubstituível a ser aplicado seria “ensino”.


É claro que pelo diálogo se pode realizar o ensino, como demonstram os famosos diálogos platônicos e os de Santo Agostinho, por exemplo. Mas neste caso se trata de um método em que o mestre, por um procedimento dialético, conduz o adversário ou discípulo a um conteúdo inteligível que expressa a verdade a respeito do problema investigado. Em momento algum, neste caso, o mestre abre mão das evidências e dos pontos fundamentais pressupostos em todo o diálogo, senão que os utiliza com vistas a levar o contendor, o outro dialogante, à clara visão da verdade. Assim, Garry Kasparov, o maior enxadrista de todos os tempos, pode “dialogar” de igual para igual com um neófito que sequer conhece as principais variantes da defesa Caro-Kann, jogando com ele e apontando os lances errôneos que conduziram a partida àquela posição.

Como se vê, num diálogo autêntico os participantes não retiram as suas premissas para evitar ferir susceptibilidades, mas colocam-nas com toda a clareza para, a partir delas, prosseguir em busca da posse formal da verdade. É o que Aristóteles chamava de “tópicos” (topoi), ou seja, os inarredáveis pontos sem os quais sequer pode haver, propriamente, diálogo.

Mas é isto exatamente o que expressa a Igreja pós-conciliar com o termo “diálogo”? Seria este um procedimento dialógico que busca tirar os infiéis do erro e conduzi-los à verdade — no caso, a mais importante de todas: a dos ensinamentos de Cristo e de sua única e verdadeira Igreja, a Católica, fora da qual formalmente não há salvação? Por uma questão de honestidade, é preciso dizer aqui com toda a clareza: NÃO! O neoapostolado dos tempos posteriores ao Concílio Vaticano II é feito não apenas da exclusão de algumas das principais premissas da fé, mas também da deposição formal da autoridade no exercício do Magistério, na medida em que deste foi voluntariamente retirada a prerrogativa de impor o ensinamento de Nosso Senhor aos fiéis e excluir do Corpo Místico quem o contrarie no essencial da doutrina.

No último texto sobre o tema, mostramos que, após o Concílio Vaticano II, o Magistério transmutou-se de ensino em diálogo, por decisão claramente expressa pela Hierarquia — que propôs o diálogo como nova forma de exercer o apostolado, na ingênua suposição de que “a autoridade do diálogo é intrínseca pela verdade que expõe” (Paulo VI, Ecclesiam suam). A História da Igreja — tão repleta de heresias e de tentativas dos inimigos de corromper o fiel depósito — mostra o quão equivocada é a idéia de que a verdade “se impõe por si mesma”, em sua simples expressão. Seria de fato assim se porventura tivéssemos a intuição direta das essências, mas a realidade é bem outra: o caminho do homem à verdade se faz por meio de raciocínios, compondo e dividindo premissas e objeções com o propósito de, a partir das evidências, chegar penosamente ao conhecimento. E, para piorar a situação, este nem é o caso do conhecimento das verdades da fé, cujo conteúdo não pode ser demonstrado pela razão. A Virgindade Perpétua de Maria, por exemplo, não pode ser provada por silogismos. Tal verdade não se dialoga; aceita-se ou não.

Neste ponto, vale registrar que todo autêntico magistério — e não apenas o da Igreja — implica dois atos intencionais: o de ensinar (do mestre) e o de aprender (do discípulo). Ora, como a autoridade do mestre é medida pelo conhecimento na matéria ensinada, essas duas intenções não estão em pé de igualdade. Por isso, o aluno que interpele de forma petulante o professor sobre um assunto em que a sua ignorância é patente não merece outra coisa senão a expulsão de sala de aula. Mas há mais: outra coisa igualmente pressuposta em todo autêntico magistério é a submissão do intelecto do discípulo nos pontos em que não está em condições de discutir com o mestre (caso, por exemplo, do neófito que joga uma partida contra Garry Kasparov). Assim, como veremos abaixo, a anuência do aluno a certas verdades que ainda não está em condições de compreender se dá pelo crédito à autoridade do mestre; quando, mais tarde, ele estiver na posse dos métodos adequados e do conhecimento das premissas, aí sim a sua anuência se dará pelo peso da demonstração formal.

A propósito do assunto que serve de mote para o presente texto, transcrevo um trecho do estupendo “A Candeia Debaixo do Alqueire”, do grande teólogo Álvaro Calderón (da FSSPX). Nele, usando os conceitos de mestre principal, de mestre auxiliar e de simples repetidor, Calderón mostra como a Igreja simplesmente depôs a sua função magisterial:

“Se a Hierarquia eclesiástica não pudesse obrigar a crer ou não crer, então não teria um magistério verdadeiro e próprio.

> Em geral, o mestre principal é aquele que possui a ciência perfeita [na matéria], razão pela qual pode levar os seus discípulos a conhecer a verdade de uma proposição de dois modos: revelando-lhes sua verossimilhança ou evidência pelo peso da demonstração; ou, se ainda não estão preparados para isso, obrigando-os a defendê-la como provável ou certa pelo peso de sua autoridade**. Um simples repetidor [da doutrina], em contrapartida, que não tem autoridade própria, só pode persuadir os alunos mostrando com fidelidade o que disse o mestre. Mas também há o caso do mestre auxiliar, que participa imperfeitamente da ciência do mestre principal, e pode, portanto, desenvolvê-la até certo grau; e, ainda que dependente deste último, o mestre auxiliar tem verdadeiro magistério e pode impor certas sentenças pelo peso de sua autoridade.

Na ciência teológica, por exemplo, Santo Tomás é mestre principal. Um simples professor de seminário é um repetidor que, para ser crido, deve fundamentar cada uma de suas afirmações em textos explícitos de Santo Tomás; participa da ciência do Angélico de maneira puramente instrumental. Caetano***, em contrapartida, é um mestre auxiliar tão compenetrado do pensamento tomista que merece ser crido quando interpreta e prolonga sua doutrina. Ele tem uma autoridade participada à maneira de causa segunda: o que move a aceitar sua doutrina é formal e principalmente a autoridade de Santo Tomás de Aquino, mas secundária e como que materialmente também move sua autoridade pessoal, na medida em que seu intelecto participa do hábito teológico do Doutor Angélico.

Na ciência revelada, o mestre principal é Jesus Cristo; os diáconos e simples sacerdotes são repetidores; o Papa e os bispos são verdadeiros mestres auxiliares. Jesus Cristo lhes comunica uma luz especial pela qual participam de sua ciência divina, tornando-os capazes de interpretar e desenvolver a doutrina revelada com garantia de infalibilidade em certos casos.

> Se a Hierarquia da Igreja se negasse o poder de obrigar a crer em alguma sentença ou de ter por proscrita alguma outra pelo simples peso da autoridade que tem de Cristo, não se lhe estaria reconhecendo um magistério verdadeiro e próprio. Se ela só tivesse o ofício de mostrar a proposição e sua ligação com a fé, para que apenas em razão do objeto os fiéis se sentissem obrigados a crer, então se estaria reduzindo o magistério do Papa e dos bispos a uma simples função de repetidores. [Ora] O Papa pode impor uma doutrina das duas maneiras: como repetidor da Revelação: “diz a Escritura, ensina a Tradição, está revelado”; mas também como verdadeiro doutor com autoridade: “Eu mando que se creia ou não se creia em tal coisa”. Naturalmente, deve-se crer nele formal e principalmente pela autoridade de Deus, que o assiste: “Eu mando em nome de Deus”, mas não é necessário que o Papa diga explicitamente que o que ensina tem vinculação com a Revelação. Se obriga a crer ou não crer, é porque alguma vinculação tem, e obedecendo à voz do Magistério se obedece formal e principalmente à voz de Nosso Senhor: “Quem vos ouve a Mim ouve” (Luc., X, 16).

As intenções do magistério conciliar

(...) O magistério conciliar não só não manifestou claramente a intenção de impor sua doutrina, mas (...) claramente manifestou a intenção de não impô-la****”.

Depois deste ponto do livro, Calderón mostra que essa clara intenção contrária aos fins do Magistério implica formalmente a sua deposição (e, como dissemos acima, todo magistério implica, para começar, a intenção de ensinar, por parte do mestre). E, no caso de que se trata, o diálogo da Igreja pós-conciliar com o mundo parte exatamente da exclusão dos pontos-chave da doutrina, sempre que tais pontos firam a susceptibilidade do mundo ecumênico de hoje.

** Aqui, é importantíssimo frisar que se trata de autoridade natural (e não a sobrenatural da fé) baseada na verdade de fatos demonstrados de forma apodítica. É claro que, dada a inesgotabilidade da verdade dos entes para a inteligência humana, essa autoridade natural do mestre poderá ser questionada, mas não pelo neófito, e sim por um igual que esteja em condições de refutar-lhe os erros. É, portanto, uma autoridade relativa. O próprio Tomás dizia que o único argumento de autoridade válido simpliciter é o da Sagrada Escritura. Mas isto não implica dizer que nenhum argumento de autoridade seja válido. Por exemplo: um analfabeto de pai, mãe e parteira não tem a menor condição de discutir com um gramático quando o uso do gerúndio é certo ou errado, ou se se devem separar ou não por vírgula as orações subordinadas assindéticas reduzidas de gerúndio das orações coordenadas que se lhes seguem. Aqui, a autoridade do gramático em relação ao analfabeto é absoluta e inequívoca.
*** Calderón refere-se aqui ao dominicano Tommaso de Vio, o Cardeal Caetano, um dos maiores expoentes da história do tomismo.
**** “A autoridade do [diálogo] é intrínseca pela verdade que expõe, pela caridade que difunde, pelo exemplo que dá; não é ordem, não é imposição [Paulo VI, Ecclesiam Suam, nº 75]'”.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Para que estudar Santo Tomás?

Basílica de Saint-Denis
Sidney Silveira
Já se fez alusão no Contra Impugnantes a alguns problemas do tomismo contemporâneo, que definitivamente parece ter trocado as sínteses abarcadoras por estudos tópicos — muitos dos quais, infelizmente, desgarrados dos princípios teológicos informadores da doutrina do Aquinate, razão pela qual acarretam desvios que certamente devem entristecer deveras a Santo Tomás, no céu. Mas há algo ainda pior: o total desprezo das questões teológicas ligadas à cristologia, à eclesiologia, à teologia moral, à escatologia, à teologia trinitária, aos sacramentos, ao Magistério, à doutrina do Verbo encarnado, à defesa da fé, ao sacerdócio, à angelologia, à demonologia, etc. Um tomismo simplesmente alheio à Igreja, como se isto fora, de fato, possível.

Em resumo, o estímulo a que se formem especialistas sem antes lhes dar um vislumbre do conjunto dessa colossal arquitetura catedralícia — e de seu objetivo principal, que é servir a Deus — é uma lástima. Imaginemos um sujeito que sequer leu a Suma Teológica por inteiro e já é pós-doutor laureado em alguma área do tomismo, e não estaremos longe do cenário que lhes estou traçando. São pessoas capazes de aferrar-se às normas de redação da ABNT (a título de critério “acadêmico”) e a outras questões menores, mas em seus escritos filosóficos estão abaixo da crítica.

Quando comparo estudos metafísicos ou gnosiológicos de alguns tomistas, sobretudo da última década, à obra de um G. Manser, ou de um Santiago Ramírez, de um Garrigou-Lagrange, por exemplo, a impressão é de que aos primeiros lhes falta o essencial, o sumo, o mais importante. É como se houvessem trocado a mais rica polifonia — com os seus elevados matizes espirituais — pelo samba de uma nota só. Nestes casos, não é raro encontrar nas conclusões dos trabalhos aberrações contrárias à fé, ao Magistério e, também, ao espírito da obra do Doutor Comum.

Por esta razão, se a metafísica, por elevada que seja, não for para o estudioso da obra de Santo Tomás um simples instrumento para o conhecimento de algo maior, se não for, enfim, “serva da teologia”, e esta por sua vez não servir ao fortalecimento na fé (para sua posterior defesa e instrução dos irmãos em Cristo), melhor seria nem começar. Quero dizer com isto o seguinte: o sujeito estuda Santo Tomás de Aquino para transformar-se num verdadeiro teólogo. Caso contrário, será um generalista da pior espécie, um vulgarizador de algo nobilíssimo. E veja-se que uso aqui o vocábulo “teólogo” não de forma equívoca, nem com analogia de atribuição extrínseca, mas simplesmente para significar o hábito da ciência teológica que uma pessoa desenvolveu após longos anos de estudos e, é evidente, o auxílio da graça. Tal habitus não é aferido nem conferido por nenhum diploma de Teologia, ainda que do mais importante seminário do mundo. A propósito, foram justamente os péssimos teólogos os criadores, nas últimas décadas, da babel doutrinal que, com santa ironia, o Padre Álvaro Calderón chama de consenso “plurânime” pós-conciliar. Uma confusão dos demônios que teve dramáticas conseqüências práticas, tudo com o beneplácito da Hierarquia: qualquer um pode constatá-las ao ir a duas Missas num mesmo quarteirão do bairro onde mora. Isto para não falar dos escândalos morais que hoje escandalizam a muitos, e que em sua maior parte são decorrentes da perversão da doutrina católica, como ainda teremos oportunidade de demonstrar em vários textos.

Quando Moisés aproximou-se da sarça de fogo, Deus pediu-lhe que retirasse as sandálias porque pisava em solo sagrado (Ex. III, 5). Analogamente — e com a devida vênia, é claro —, podemos dizer o mesmo de quem estuda Tomás de Aquino: para adentrar esse templo de amor a Deus que é a sua luminosa obra — o céu visto da terra**, segundo o Papa Pio XI —, é preciso despir-se tanto quanto possível das sandálias das idéias próprias e da presunção do saber. Então, o primeiro passo terá sido dado. Por isso, ao livre-pensador liberal estão vedadas as sacrossantas portas da catedral do tomismo.

Estas breves palavras foram a propósito do email de um leitor nosso que reclamou de estarmos abordando, nos últimos tempos, com maior freqüência, temas eminentemente teológicos. Pedia esse amigo que voltássemos à metafísica e às aulas de filosofia, ao que lhe respondi, amigavelmente, o seguinte: em se tratando de Santo Tomás de Aquino, não apenas a metafísica, mas todos os demais tópicos da filosofia estão ordenados à teologia. É a tese da subalternação das ciências, de que ainda trataremos amiúde.

Tendo isto em vista, possivelmente amanhã continuaremos a série sobre a dignidade sacerdotal, baseada num dos clássicos do padre Garrigou-Lagrange. Um grandíssimo teólogo tomista e, portanto, um metafísico da mais alta estirpe.

** La Somma Teologica è il cielo veduto dalla terra. Pio XI. Alocução ao Instituto Internacional Angelicum, em 12 de dezembro de 1924.

sábado, 22 de maio de 2010

A parábola da Caverna: livro VII da "República" de Platão


Sidney Silveira
Disponibilizo um pequeno trecho de aula em que se cita, de passagem e com certa liberdade (pois o assunto era outro), a parábola da Caverna de Platão, no livro VII da República. Digo "parábola" em vez de "alegoria" porque nisto estou totalmente de acordo com Eric Voegelin, que afirma ser o nome "alegoria" impróprio, neste caso. O melhor é mesmo parábola! E o que se destaca nessa aula segue de perto a vários comentadores de Platão: a saída da Caverna é impulsionada, fundamentalmente, por Eros. É o amor essa força fecunda que leva a alma a buscar o Bem, o Belo, a Verdade.