sexta-feira, 23 de abril de 2010

Castidade e Celibato (II): fundamentalmente uma questão doutrinal


Sidney Silveira
No último texto se disse que o celibato sacerdotal não é um dogma de fé, mas uma questão disciplinar que segue um conselho evangélico. Embora isto seja verdade, há um aspecto muitíssimo importante a ser esclarecido: o fato de ser uma medida disciplinar não implica dizer — de forma alguma! — que não se trate de uma questão doutrinal. Primeiramente, pelo fato de que a doutrina da Igreja não se faz apenas de dogmas, mas também dos preceitos e conselhos expressos na Sagrada Escritura, do Magistério e da Tradição. Em segundo lugar, porque toda vez que o Magistério se manifesta de forma solene sobre uma questão qualquer (como no caso do celibato), o faz apoiando-se numa verdade de fé ou numa verdade que, embora não seja de fé, é importantíssima para custodiar o precioso depósito da fé. No caso do celibato, a doutrina é clara: a superioridade intrínseca da castidade celibatária em relação ao estado matrimonial. Ensina Nosso Senhor a respeito disto, logo após os discípulos lhe dizerem que, sendo tal a condição do homem a respeito da mulher (a saber: de que quem rejeita a sua mulher para desposar outra comete adultério), é melhor não se casar (...cum uxore non expedit nubere, Vulgata, Mt. XIX, 11):

“Há de fato eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos pelo Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda”. (Mt. XIX, 11).

E São Paulo:
“Quisera ver-vos livres de toda preocupação. O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor; o casado preocupa-se com as coisas do mundo para agradar à sua esposa. (...). Digo isto para o vosso proveito; não para vos estender um laço, mas para ensinar o que melhor convém e o que vos poderá unir ao Senhor SEM PARTILHA. (...). Em suma, quem casa a sua filha faz bem, e quem não a casa faz ainda melhor (Cor. I, 7, 32-38).

A partir disto, convém frisar o seguinte: todas as decisões disciplinares da Igreja têm o seu fundamento, a sua coluna, a sua referência primeva na verdade da fé, pois se não fosse assim o Magistério da Igreja seria a expressão de um governo despótico, e não um ato benéfico de ensino em prol da salvação das almas. No caso de que se trata, não há como ser mais claro, tanto pela palavra de Cristo como pela de São Paulo: o celibato é algo superior por tratar-se de um conselho. Ora, como diz São Francisco de Sales, notável Doutor da Igreja, num trecho de seu maravilhoso Tratado do Amor de Deus, os preceitos são obrigatórios, mas os conselhos são de ordem superior porque servem àqueles que querem seguir ao Senhor mais de perto, de forma mais perfeita, e a Igreja, tendo fins tão elevados e meta-históricos — ou seja: que estão acima de quaisquer modismos dos séculos —, não pode desprezar os conselhos evangélicos, pois isto significaria que renunciou à excelência cristã. Foi esta, a propósito, a razão da crítica que se fez aqui a um tomista contemporâneo que, usando de textos de Santo Tomás, deturpa totalmente a noção de desprezo do mundo (contemptus mundi).

Fique, pois, muito claro que o celibato, embora não seja um dogma, é uma questão doutrinal claramente expressa na Sagrada Escritura e belamente fundamentada pelo Magistério. Daí dizer o Concílio de Trento (cuja leitura tantos problemas estomacais causa a católicos liberais):

“Se alguém disser que o estado conjugal se deve antepor ao estado de virgindade ou celibato, e que não é melhor nem mais beato permanecer no estado de virgindade e celibato do que contrair matrimônio, seja anátema. (Cân. 10).

Reiteremos, pois, em vista disto — uma vez mais: o celibato sacerdotal adotado pela Igreja, de fato, não é um dogma, mas é, em sua raiz, uma medida doutrinal, a menos que per absurdum concedamos que o ensinamento de Cristo não é doutrina...

E há mais: o celibato sempre foi praticado na Igreja. O fato de ter sido apenas afirmado solenemente como algo necessário para os padres da Igreja latina ocidental no Concílio de Elvira, no século IV, não significa que já não fosse largamente praticado, embora houvesse padres casados. Analogamente, o fato de o Dogma da Imaculada Conceição só ter sido proclamado no Século XIX por Pio IX não significa que, antes disto, Maria tivesse sido maculada pela mancha do pecado original.

(continua)

Em tempo: Participei nesta semana de um programa de TV apresentado por um conhecido cantor pop brasileiro — cuja íntegra está neste site. Compareci após muito pensar se de fato não seria absolutamente contraproducente, dado o perfil da emissora e do programa (voltados para adolescentes de um mundo que adolesceu), e por outras razões que certamente ficarão evidentíssimas para os leitores do blog que assistirem ao vídeo. Mas o fato é que acabei por ir. E, entre as pessoas convidadas, havia um padre progressista que, como eu, colocou-se contra o fim do celibato. Mas tal era a ordem de divergências entre nós sobre as causas dos atuais escândalos, que não havia como expô-las sem que com isto mudássemos totalmente o assunto do programa, que partia da premissa (pressuposta desde o começo) de que o celibato é causa dos casos de pedofilia. Por isso, a certa hora calei-me, pois, bem ou mal, estávamos ali para defender a Igreja dos ataques externos, muitos deles chulos, mais do que para discutir os seus gravíssimos problemas internos que há 50 anos a mantém num C.T.I.; por isso calei-me com tristeza quando o sacerdote falou que a Igreja precisa modernizar-se, atualizar-se — como se não bastasse tudo o que já fez neste sentido —, receitando justamente os remédios que foram o veneno que a descatolicizaram por dentro... Isto me aborrece e escandaliza muito mais do que as opiniões dos não-católicos que adoram xingar a Igreja, que blasfemam, ironizam, etc., mas muitas vezes são mais facilmente convertidos à fé do que aqueles que a deturpam, consciente ou inconscientemente. O fato é que a presente série de textos serve para esclarecer o assunto; ali no programa com perfil teen, isto era impossível, agora sei. Por isso eu não repetiria a dose, pois aprendi que certas discussões se tornam impossíveis sem a ambiência adequada. O meu amigo Nougué teve razão ao aconselhar-me: pense bem se vale a pena ir... Mas se valeu ou não, entrego nas mãos da Virgem, de quem sou devoto, pois pelo menos a intenção era boa. Mas não consegui dizer ali, entre várias outras coisas, que se o sacerdote não tem o hábito da virtude da castidade (e aqui vale lembrar que, como diz Santo Tomás, o pecado habitual é, em certo sentido, pior que o atual), na prática está renunciado à graça que, pelo sacramento da Ordem, Deus subministra àqueles que O querem seguir de perto, exercendo ofício tão sublime..

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Magnum Mysterium


Sidney Silveira
Compartilho com os amigos outra composição a meu ver sublime, desta vez, do genial Tomás Luis de Victoria, mestre do canto polifônico.

Castidade e celibato (I)

Hans Memling - Alegoria sobre a Castidade


Sidney Silveira

[Nesta semana convidaram-me a participar de um debate sobre o celibato na Igreja. Como o editor do programa de TV pediu-me uma opinião prévia sobre o assunto, escrevi para ele o que segue abaixo (com pequeníssimos acréscimos). Penso ser útil divulgar o texto por aqui]

"Antes de tudo, convém frisar que o celibato não é um dogma de fé da Igreja. Em princípio, é uma orientação disciplinar que segue um conselho evangélico (a propósito, houve épocas remotas nas quais existiam padres casados, e mais: ainda hoje, há comunidades católicas — como as que seguem o rito Melquita, por exemplo — com padres casados). Este é o primeiro ponto.

É também importante fazer uma distinção entre castidade e celibato, para estabelecer o problema com realismo. Em sentido estrito, a castidade (que não é necessariamente celibatária) é a aplicação da virtude da temperança aos ímpetos da sensibilidade humana. Pela castidade evitam-se todos os excessos e desequilíbrios provenientes de uma vida sexualmente desregrada. Pela castidade evita-se que um homem se torne refém de ardores que cegam a inteligência e o induzem a fazer escolhas não por critérios racionais, mas por aquilo que os filósofos gregos chamavam de pathos, ou seja: a paixão, que é capaz de produzir dramáticos sofrimentos psicofísicos. O casto, portanto, não é um tolo puritano que passa a vida reprimindo todos os seus impulsos sexuais, mas alguém que, em qualquer estado de vida, os ordenou de forma tal que o gozo físico não é o único nem o principal motor de suas ações — não é o “valor dos valores”. O casto percebe que há uma escala de bens que transcendem à instantaneidade do gozo sexual, bens que podem e devem ser realizados pelo homem, nesta vida, mas que exigem certo sacrifício. Na prática, o exercício da virtude da castidade ajuda o homem a vislumbrar o horizonte ético-moral sem o qual a vida em sociedade se tornaria verdadeiramente impossível. Imagine uma sociedade inteira feita de homens como o ex-presidiário de Goiás que, recentemente, para dar vazão aos seus desejos de ordem sexual, matou seis meninos depois de abusar deles? Estaria fadada a consumir-se, em uma só geração.

O primeiro ponto, portanto, que eu gostaria de esclarecer é este: há castidade sem celibato.

Pois bem, feita essa distinção, diga-se que o celibato sacerdotal é uma espécie de castidade especial, que exige o sacrifício maior da abstinência. E é castidade especial por ser consagrada pelo Sacramento da Ordem, o que, de acordo com a Igreja, indica que o padre, para manter-se celibatário, conta com o auxílio divino da Graça sacramental. Um padre que não tenha sequer o hábito da castidade na verdade não deveria ter sido ordenado, e aqui entramos em outra questão: a presente crise moral que mancha a Igreja com tantos escândalos é, fundamentalmente, uma crise doutrinal, ou seja: em se tratando de algo tão sublime, como o ofício do sacerdote, a má-formação filosófica, teológica e espiritual da maioria dos Seminários modernos acaba criando deformações psicológicas aberrantes, pois estabelece uma total desconformidade entre a teoria (desvirtuada) e a prática. Como a Igreja afrouxou a disciplina e também a formação teológica e metafísica, abrindo-se a filosofias opostas à fé que prega, acabou por permitir que adentrassem os seus quadros rapazes sem nenhuma vocação, pois há certas precondições, inclusive intelectuais, para o bom exercício do sacerdócio. O problema é, pois, mais profundo e sutil do que possa parecer à primeira vista para quem não vive a fé e não conhece o Magistério da Igreja, a sua filosofia, a sua doutrina, etc.

Como se pode depreender pelo dito acima, sou totalmente a favor do celibato sacerdotal, porque é uma decisão multissecular da Igreja que possui princípios solidíssimos — tanto espirituais, como doutrinais e filosóficos. Princípios que deram incontáveis frutos ao Ocidente, cuja base civilizacional é, naquilo que tem de mais sublime, cristã. Hoje é triste ver padres — muitos deles midiáticos — que não têm a menor noção da doutrina bimilenar da Igreja nesta matéria, e desconhecem o sentido do mistério do amor a Deus que leva o homem a fazer sacrifícios. Fecundos sacrifícios.

Mistério que, como dizia Chesterton, é alimento para a alma".

Em tempo: A tentativa de associar o celibato à pedofilia é uma aberração. Na verdade, sabemos que está por trás disso um grande ataque à Igreja. Noutra oportunidade, veremos por que tal tese é em si mesma não somente errônea, mas fruto de uma má-fé sem tamanho.
Em tempo2: Eu disse acima que a castidade é uma virtude; e a virtude, por sua vez, é um hábito bom. Ora, hábitos adquirem-se pelo esforço e, no caso de que se trata, também recorrendo a Deus e aos sacramentos. Mas mesmo depois de o hábito imprimir-se na alma como uma espécie de selo invisível, poderá haver pequenas quedas, que serão tanto menores quanto maior for o esforço humano e, é claro, o auxílio da Graça. Portanto, não há que desesperar nesta matéria! Deus sempre premia os esforços feitos com reta intenção. É o que diz a sã doutrina.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Tommaso Albinoni


Sidney Silveira
Chesterton certa vez escrevera que o Barroco é a arte mais adequada para expressar o claro-escuro dos mistérios da fé. Seja na música ou na pintura. Este Adagio de Tommaso Albinoni, notável artista do Barroco italiano, é um belo exemplo disto. Que coisa sublime!

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Prof. Orlando Fedeli: um depoimento pessoal

Sidney Silveira
Diz o Aquinate que o magnânimo tende às coisas grandiosas, enquanto o pusilânime, pela pequenez de sua têmpera, renuncia às coisas mais elevadas (cfme. Suma Teológica, IIªIIª, q. 133, art.2, resp.). Essa renúncia é em si mesma pecado mortal, na medida em que o nosso coração foi feito por Deus para as coisas sublimes — razão pela qual, muitas vezes, a pusilanimidade é a direta conseqüência daquilo que, na Idade Média, se tinha por hábito chamar de pecado da acídia: o fastio em obrar as coisas boas. Trata-se, na verdade, de uma espécie de anorexia espiritual por meio da qual alguém mostra inapetência e aborrecimento pela própria excelência. É a atitude do “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. A acídia é, em poucas palavras, a tristeza causada pelos bens espirituais outorgados por Deus, uma situação dramática em que a alma simplesmente não consegue suportar os dons que possui e as coisas que, por meio deles, é chamada a realizar — atitude refletida, entre outras coisas, na mais abjeta pusilanimidade. Cristo dá o exemplo de quão condenável é essa atitude ao referir-se ao servo pusilânime que enterrara o seu talento, em vez de multiplicá-lo:

“A esse servo inútil jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt. XXV, 30).

A acídia acarreta vícios tremendos, razão pela qual é pecado capital. De acordo com São Gregório Magno, além da pusilanimidade as filhas da acídia são o rancor, a malícia, o desespero, a indolência com relação aos mandamentos e, por fim a divagatio mentis, ou seja: a dissipação da mente em coisas ilícitas ou simplesmente fúteis. A propósito, abro aqui um parêntese para dizer o seguinte: quando, num artigo escrito a pedido de um amigo, referi-me ao filósofo boca-suja, esqueci-me de aduzir, como elemento corroborante à tese dialeticamente demonstrada, que, além e acima de tudo, a língua má reflete essa indolência para com os mandamentos — em particular o mandamento da caridade. Isto porque o boca-suja maldizente acaba tornando-se motivo de escândalo para o próximo, pedra de tropeço que induz à ruína espiritual. Se fosse mesmo filósofo, em qualquer situação a linguagem do nosso arquetípico boca-suja estaria nivelada pelo hábito mental da verdade (que distingue o verdadeiro filósofo do parlapatão pretensioso), e não por um palavreado típico de rufiões metidos num prostíbulo. Esse tipo de malícia mesclada de exasperação é, também, um claro sintoma da acídia.

Mas voltemos ao tema da pusilanimidade, preâmbulo do que se dirá a seguir. Em muitas ocasiões, em conversas com amigos católicos neoconservadores (perdoem-me por não lhes achar um apelido mais adequado), tristemente percebi que, por trás da sua incapacidade de ver o óbvio com relação à crise pós-conciliar da Igreja, estava essa atitude acabrunhada, medrosa, típica de quem renunciou às coisas mais excelentes por uma falsa prudência; aquela mesma prudência da carne que, segundo o Apóstolo, é a morte (Rm. VIII, 6), e da qual Santo Tomás, comentando esta passagem da Escritura, afirma: o falso prudente dispõe adequadamente dos meios para lograr um fim mau (Suma, IIªIIª, q.47, art.13, resp.). Esta conclusão se impôs a mim como evidência absoluta, na medida em que esses amigos, não encontrando argumentos para as objeções que lhes eram feitas, acabavam cedendo nas premissas, mas recusando a conclusão — o que é contrário ao movimento natural da inteligência em seu caminho rumo à verdade: expandir-se. Ou então diziam: “Vou estudar isto e depois volto para discutir”. Mas não voltavam, para minha tristeza, pois se eu estivesse errado tudo o que queria era ser corrigido.

Faziam eles, nestas ocasiões, aquilo que os especialistas em Teologia Moral chamam de restrição mental estrita, que é quando um homem literalmente restringe essa expansão natural da mente para, consciente ou semiconscientemente, omitir uma parte essencial da verdade. Isto ficava patente conforme iam cedendo em um argumento após outro, mas buscavam novos em profusão interminável, sem se dar conta de que com isto a sombra benévola da verdade os ia cobrindo cada vez mais, pois não é necessário multiplicar ad infinitum uma demonstração para estabelecer esse acordo entre a inteligência e as coisas a que chamamos verdade. Basta um só teorema probante. Mas quando nem mesmo a avalanche de evidências é levada em conta, a coisa fica difícil.

Na maioria desses casos de que tive a oportunidade de participar, tal atitude era alimentada por uma má-compreensão do que seja a autoridade eclesiástica, quais são os seus limites, as suas balizas, o seu objeto, os seus fins, e o que nos cabe fazer quando estes se desvirtuam. Faltava a estes amigos a compreensão de que a Hierarquia é serva da verdade — especificamente das verdades da fé que deve proclamar e defender magisterialmente —, e não o contrário. Faltava-lhes também o estudo dos princípios que regem o Magistério e a noção de que, se a fé está em risco por conta de algum erro patente ou omissão em matéria grave, a Hierarquia pode e deve ser chamada a atenção pelos integrantes do corpo discente da Igreja capacitados para tanto, inclusive os leigos. Isto certamente em situações excepcionalíssimas, como a atual, e sempre com moderação e espírito caritativo (e não, obviamente, com o método sujo do boca-suja).

Aludi a estas coisas para mencionar um encontro que tive recentemente aqui no Rio de Janeiro com o Prof. Orlando Fedeli, a quem não conhecia pessoalmente — o que me motivou a escrever o presente texto. Esses amigos de quem falei preferem ver o diabo a ver o Prof. Orlando; é uma ojeriza tão espetacular que a simples menção ao nome do homem acarreta uma série de comentários terríveis, muxoxos, erupções epidérmicas, murmurações e até xingamentos. De um padre ouvi, por exemplo, que o Prof. Orlando considera-se o “único católico do mundo”. De outro padre, comentando umas excentricidades que estavam sendo livremente ensinadas por um professor do Instituto Superior de Direito Canônico do Rio, a coisa foi pelo mesmo diapasão (e o incrível é que, nestes dois casos específicos, o nome de Fedeli foi trazido à baila pelos sacerdotes sem que eu lhe fizesse qualquer menção). Ser amigo desse homem parece algo muito perigoso, pois pode acarretar sanções eclesiásticas... No meu caso, já há tanta gente querendo devorar-me o fígado que, a esta altura, isto não me preocupa.

Diga-se, a propósito, que tenho algumas divergências marcantes com o Prof. Orlando, a maior parte delas em relação à interpretação da crise que atualmente assola a Igreja. Mas não considero isto, em si, um problema maior, pois divergências e até rusgas entre cristãos sempre houve: São Jerônimo, homem de gênio difícil, dizia às vezes a Santo Agostinho: “Cala a boca, burro!”; São Bernardo, ao saber que o sobrinho Roberto se transferiria para o mosteiro de Cluny, do qual era abade o seu amado desafeto Pedro, O Venerável, escreveu ao jovem dizendo temer a perdição eterna dele; e fiquemos por aqui para não nos estendermos por demais. O fato é que a susceptibilidade eriçada e politicamente correta dos dias atuais transforma divergências em inimizades irrevogáveis. E este não é, definitivamente, o meu caso com o Prof. Orlando Fedeli.

Ademais, penso ser muito importante reconhecer, de público, algumas coisas:

1- quando ninguém no Brasil, fora dos pequenos grupos ligados à FSSPX ou entre os sedevacantistas, defendia a Missa Tridentina — que era dita “cismática” pelos modernistas de todas as colorações, dentro e fora dos Seminários —, o Prof. afirmava em seu visitadíssimo site que ela jamais fora ab rogada (o que foi confirmado pelo Papa Bento XVI);
2- quando muitas pessoas ainda não tinham noção de que o Novus Ordo de Paulo VI era uma espécie de “protestantização” da Missa Católica, o Prof. Orlando corajosamente brandia essa tese de forma veemente, dando ao tema uma importante publicidade entre os fiéis leigos;
3- quando ninguém, fora da FSSPX, ousava criticar a ruptura magisterial que os textos do Vaticano II representavam, ele já o fazia firmemente;
4- quando quase a totalidade das pessoas achava o ecumenismo a oitava maravilha do mundo, o Prof. divulgava em seu site vários documentos do Magistério tradicional que o condenavam solenemente e, também, estudos e artigos em que se apontavam disparates de várias seitas; etc.

Não é inoportuno lembrar que muitos dos críticos do Prof. Orlando servem a interesses de alguns dos incontáveis grupos católicos que hoje fazem da Igreja uma babel de vozes e práticas distintas e/ou opostas entre si; outros mal tiraram as fraldas e se acham “teólogos” católicos sem nunca ter lido uma só linha da obra de Santo Tomás de Aquino, acolhida solenemente pelo Magistério; e, por fim, há também os seus inimigos na própria FSSPX ou em “comunidades amigas” desta, mas por uma questão prudencial reservo-me o direito de não me estender sobre isto.

Já há algum tempo eu me sentia impelido a escrever este depoimento pessoal, mesmo sabendo que com ele eu faria a delícia dos nossos detratores, de um lado e outro, pelo fato de o Prof. Orlando ter tantos inimigos. Mas está feito o que penso ser um ato de justiça para com um homem de quem se dizem muitas coisas, mas não se pode dizer que seja um pusilânime, no sentido acima apontado. Não se pode dizer que seja um timorato oprimido por respeitos humanos.

Para encerrar, indico este vídeo de uma aula dele (dividido em 10 partes) sobre a Revolução Francesa e Napoleão — que todo católico, sem nenhuma exceção, deveria ver. Um primor de aula de História, na medida em que, para ser historiador, não basta compulsar mil documentos em arquivos e livros, mas, após compulsá-los, dar-lhes uma interpretação congruente. E é o que ali faz o Prof. Orlando.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O que perdemos

Sidney Silveira
Este outro vídeo impressionante registra, num bloco temático e com imagens que falam por si, as mudanças que ocorreram na prática em absolutamente tudo na Igreja pós-conciliar: da Missa ao Catecismo; dos ritos dos Sacramentos à Liturgia; da arquitetura das igrejas à música nas igrejas; dos altares e imagens de santos às vestimentas dos sacerdotes, monges e freiras; etc. Tudo com o incentivo formal das autoridades eclesiásticas, que nas últimas quatro décadas deram o insumo teórico para que tais mudanças se tornassem possíveis — e são, por isso, grandemente responsáveis pela demolição interna da doutrina, pela implosão da sacralidade no seio da própria Igreja, pela assimilação artificiosa e espúria de influências contrárias à fé.

O vídeo, do qual indiquei acima a segunda parte, divide-se em cinco trechos de 10 minutos. Vale muito a pena ver. E chorar.
Em tempo: Acabo de receber o email de um amigo dizendo-me que há outro link onde este vídeo está inteiro, sem divisão por partes.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Pergunte e Santo Tomás responderá (I)


Sidney Silveira
Após ler o último texto do blog, escreveu-me um mui zeloso amigo para dizer que os leigos não devem ter a “pretensão” de entrar no debate doutrinal a respeito do Vaticano II, “para o qual existem instâncias competentes” (referindo-se ao diálogo doutrinal entre a FSSPX e Roma). E diz que “mais importante do que gastar tempo e energia com isto”, deveríamos nós: 1) rezar; 2) manter a humildade e a obediência; 3) defender a doutrina bimilenar da Igreja; 4) levar o Evangelho a todas as pessoas, especialmente aos nossos “irmãos separados”. Indaga ainda o estimado missivista qual seria o meu parecer com relação à postura dos leigos frente à problemática atual. E outras coisas mais, como por exemplo: se a própria FSSPX aceitou dialogar com Roma, deveríamos nós, leigos, rechaçar o Vaticano II e tudo o que é posterior a ele? (a esta última pergunta — que embute muita, mas muita confusão — responderei noutro artigo).

Visando ao bem deste meu amigo e de todos os que lêem o blog, darei uma resposta em linhas gerais expondo a doutrina do Aquinate, cuja autoridade na Igreja nós temos apontado em uma série de textos.

Na questão 33 da IIªIIª da Suma Teológica, em que Santo Tomás trata da correção fraterna, o artigo 4 indaga o seguinte: Está alguém obrigado a corrigir o seu prelado [ou seja: as autoridades eclesiásticas competentes]? A segunda objeção deste artigo diz o seguinte: “A Glosa, interpretando o texto do Apóstolo (em Gal. II, 11) in faciem ei restiti quia reprehensibilis erat, acrescenta “como a um igual”. Ora, não sendo o súdito igual ao prelado, [parece que este] não deve repreender [àquele]”.

A refutação a esta premissa vem logo depois:

“Repreender de frente (in faciem) e à vista de todos ultrapassa os limites da correção fraterna; por isso São Paulo não teria repreendido daquela forma a São Pedro se não fosse de algum modo seu igual quanto à defesa da fé. Mas admoestar secreta e reverentemente também o pode fazer aquele que não é igual ao outro, razão pela qual escreve o Apóstolo com respeito aos súditos que admoestam os seus prelados: ‘Dizei ao Bispo Arquipo: cumpre teu ministério’ (Col. IV, 17). No entanto, deve-se saber que, onde houver perigo para a fé, os prelados devem ser repreendidos mesmo publicamente pelos súditos. Razão por que São Paulo, que era inferior a São Pedro, por causa de um iminente perigo de escândalo com relação à fé, repreendeu-o publicamente”. (Santo Tomás, Suma Teológica, IIªIIª, q. 33, a.4, ad.3).

Portanto, caro amigo, quem lhe responde com relação ao primeiro ponto não sou eu, mas ninguém menos que o Doutor Comum da Igreja. Mas vale ainda frisar os seguintes pontos, implicados na resposta magistral de Santo Tomás: a) sendo a fé o bem comum fundamental para todos do Corpo Místico — do Papa aos simples fiéis —, em ordem à fé há certa igualdade entre todos os cristãos (católicos, é claro!); b) Portanto, se a Hierarquia mostra defecção em relação à sua obrigação doutrinal (como é patente, pelo que temos apontado), os súditos não só podem como têm a obrigação de repreender os seus pastores. E quem o diz não sou eu, mas o Aquinate, no corpus da referida questão da Suma Teológica.

Mas veja ainda mais, na resposta do Boi Mudo às objeções:

“Como frisa a Glosa de Santo Agostinho, Pedro deu o exemplo de que, no caso de os maiores se afastarem do caminho reto, não desdenhem ser corrigidos pelos inferiores (Suma Teológica, op. cit, ad 2).

E isto não implica que o inferior se julgue soberbamente maior do que os seus superiores, mas ao contrário. Vamos de novo ao texto de Tomás:

“É preciso levar em conta que, quem admoesta com caridade a seu superior, nem por isto considera-se melhor, senão que vai em auxílio de quem está em um perigo tanto maior quanto mais alto é o cargo que ocupa” (Suma Teológica, op. cit., ad 3).

Este é, portanto, o verdadeiro zelo que os fiéis leigos (refiro-me aos capacitados para tarefa tão sublime quanto onerosa) devem ter para com os erros patentes da Hierarquia em relação à fé: correção pública, em defesa do bem salvífico fundamental! Obviamente, tal correção deve ser feita não com dureza, como bem aponta Santo Tomás, mas com moderação, reverência e mansidão (ideo in correctione qua subditi corrigunt prelatos debet modus congruus adhiberi, ut sclicet non cum protervia et duritia, sed cum mansuetudine et reverentia corrigantur. Suma, op. cit).

Sendo assim, caro amigo, o seu zelo (permita-me dizê-lo ao modo de correção fraterna, dado não ser às claras, pois os demais que me lêem não sabem de quem se trata) é um escrúpulo que tem mais de acanhamento e de covardia do que de amor. Façamos uma analogia: na falta do sargento, o soldado que está em posição de ataque porventura pode omitir-se do seu dever de combate? Não! Mas ao contrário: se está em posição de obter um ganho efetivo para o seu exército numa circunstância em que o superior se ausenta, atacar é seu dever de prudência. E digo aqui “prudência” porque esta virtude supracapital — que, de acordo com o Aquinate, alimenta todas as demais virtudes — é muito mais do que uma simples cautela que paralisa momentaneamente a ação, pois muitas vezes ela incita à ação: sim, pois a prudência, na definição de Santo Tomás, é a “reta razão no agir” (recta ratio agibilium). Assim, toda vez que a reta razão manda agir, façamo-lo sem falsos temores ou escrúpulos carnais.

Com relação às outras coisas apontadas por você em seu email, digo:

1- “Devemos rezar”. Sim, mas do mesmo modo como a contemplação não é em si oposta à ação, pois muitas vezes lhe é complementar, a oração não é um soro paralisante que nos desobrigue de agir quando o nosso dever é fazê-lo. Ao contrário, a boa oração é o melhor remédio para orientar a ação. Os Santos, modelos que a Igreja nos propõe, realizaram grandes obras e mostram que uma coisa não é oposta à outra. O grande São Bernardo dizia que sempre levava consigo o seu claustro interior, aonde fosse. Santo Antônio, outro gigante, dizia que se alguém reza e é tíbio na ação, é sinal de que reza mal...

2- “Devemos manter a humildade e a obediência”. Sim. Mas aqui vale advertir o seguinte: a humildade é fundamentalmente a reverência pela qual o homem se submete a Deus (cfme. Suma, IIªIIª, q. 161 [Sobre a humildade], resp). É neste sentido que o homem deve submeter-se a quem quer que seja o seu próximo, na única e exata medida do que haja de Deus nele (debet se cuilibet proximo subiicere quantum ad id est Dei in ipso). Assim, a humildade não exige que o homem submeta o que tem de seu ao que há de humano no próximo (Similiter etiam non hoc requirit humilitas, ut aliquis id quod est suum in seipso, subiiciat ei quod est hominis in próximo). Pois bem: estamos justamente apontando erros patentes do Magistério conciliar; ora, errar é humano e não divino; logo, não nos obriguemos, por uma falsa humildade, a seguir os erros dos outros, em virtude de uma presumível obediência.

3- E com relação à obediência, o Doutor Comum também resolveu este problema, na IIªIIª da Suma, q. 104, art. 5, que tem o seguinte título: “Estão os homens obrigados a obedecer em tudo a seus superiores?”. A resposta é aqui categórica: por diferentes razões, não! Ademais, como afirma o Aquinate nessa mesma questão, a desobediência às autoridades imediatamente superiores é lícita quando se trata de obedecer a uma autoridade superior em sentido absoluto. No caso da Igreja, vale o que se disse anteriormente: não se está obrigado a obedecer às autoridades eclesiásticas naquilo em que estas desobedecem a Cristo, subvertendo patentemente a doutrina revelada e o Magistério tradicional, que, como lembramos no último texto, em certo sentido é superior à fé.

4-“Devemos defender a doutrina bimilenar da Igreja”. Ora, caríssimo amigo, é justamente isto o que fazemos! E sempre aduzindo a autoridade do Magistério, da Sagrada Escritura e do Doutor Comum da Igreja. Peço a quem quer que encontre um conceito (um só!) que seja “nosso”: corrija-nos! Agradecerei imensamente por isto!

5- “Devemos levar o Evangelho aos irmãos separados”. Nobilíssimo amigo, para com os “irmãos separados” (eufemismo modernista para qualificar aos cismáticos ou hereges) o nosso dever de caridade é, fundamentalmente, chamá-los de volta à videira, à verdadeira religião sem a qual, formalmente, ninguém pode salvar-se, embora o possa extraordinariamente. Como diz o Papa Pio XI em Mortalium Animos (nº 18):

Aproximem-se, portanto, os filhos dissidentes da Sé Apostólica, estabelecida nesta cidade que os Príncipes dos Apóstolos Pedro e Paulo consagraram com o seu sangue; daquela Sé, dizemos, que é "raiz e matriz da Igreja Católica" (S. Cypr., ep. 48 ad Cornelium, 3), não com o objetivo e a esperança de que "a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade" (1 Tim 3,15) renuncie à integridade da fé e tolere os próprios erros deles, mas, pelo contrário, para que se entreguem a seu Magistério e regime.
Em tempo: No próximo texto, responderemos à última pergunta em destaque no primeiro parágrafo.

(continua)