terça-feira, 13 de abril de 2010

O Prof. Orlando Fedeli: um depoimento pessoal

Sidney Silveira
Diz o Aquinate que o magnânimo tende às coisas grandiosas, enquanto o pusilânime, pela pequenez de sua têmpera, renuncia às coisas mais elevadas (cfme. Suma Teológica, IIªIIª, q. 133, art.2, resp.). Essa renúncia é em si mesma pecado mortal, na medida em que o nosso coração foi feito por Deus para as coisas sublimes — razão pela qual, muitas vezes, a pusilanimidade é a direta conseqüência daquilo que, na Idade Média, se tinha por hábito chamar de pecado da acídia: o fastio em obrar as coisas boas. Trata-se, na verdade, de uma espécie de anorexia espiritual por meio da qual alguém mostra inapetência e aborrecimento pela própria excelência. É a atitude do “não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. A acídia é, em poucas palavras, a tristeza causada pelos bens espirituais outorgados por Deus, uma situação dramática em que a alma simplesmente não consegue suportar os dons que possui e as coisas que, por meio deles, é chamada a realizar — atitude refletida, entre outras coisas, na mais abjeta pusilanimidade. Cristo dá o exemplo de quão condenável é essa atitude ao referir-se ao servo pusilânime que enterrara o seu talento, em vez de multiplicá-lo:

“A esse servo inútil jogai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt. XXV, 30).

A acídia acarreta vícios tremendos, razão pela qual é pecado capital. De acordo com São Gregório Magno, além da pusilanimidade as filhas da acídia são o rancor, a malícia, o desespero, a indolência com relação aos mandamentos e, por fim a divagatio mentis, ou seja: a dissipação da mente em coisas ilícitas ou simplesmente fúteis. A propósito, abro aqui um parêntese para dizer o seguinte: quando, num artigo escrito a pedido de um amigo, referi-me ao filósofo boca-suja, esqueci-me de aduzir, como elemento corroborante à tese dialeticamente demonstrada, que, além e acima de tudo, a língua má reflete essa indolência para com os mandamentos — em particular o mandamento da caridade. Isto porque o boca-suja maldizente acaba tornando-se motivo de escândalo para o próximo, pedra de tropeço que induz à ruína espiritual. Se fosse mesmo filósofo, em qualquer situação a linguagem do nosso arquetípico boca-suja estaria nivelada pelo hábito mental da verdade (que distingue o verdadeiro filósofo do parlapatão pretensioso), e não por um palavreado típico de rufiões metidos num prostíbulo. Esse tipo de malícia mesclada de exasperação é, também, um claro sintoma da acídia.

Mas voltemos ao tema da pusilanimidade, preâmbulo do que se dirá a seguir. Em muitas ocasiões, em conversas com amigos católicos neoconservadores (perdoem-me por não lhes achar um apelido mais adequado), tristemente percebi que, por trás da sua incapacidade de ver o óbvio com relação à crise pós-conciliar da Igreja, estava essa atitude acabrunhada, medrosa, típica de quem renunciou às coisas mais excelentes por uma falsa prudência; aquela mesma prudência da carne que, segundo o Apóstolo, é a morte (Rm. VIII, 6), e da qual Santo Tomás, comentando esta passagem da Escritura, afirma: o falso prudente dispõe adequadamente dos meios para lograr um fim mau (Suma, IIªIIª, q.47, art.13, resp.). Esta conclusão se impôs a mim como evidência absoluta, na medida em que esses amigos, não encontrando argumentos para as objeções que lhes eram feitas, acabavam cedendo nas premissas, mas recusando a conclusão — o que é contrário ao movimento natural da inteligência em seu caminho rumo à verdade: expandir-se. Ou então diziam: “Vou estudar isto e depois volto para discutir”. Mas não voltavam, para minha tristeza, pois se eu estivesse errado tudo o que queria era ser corrigido.

Faziam eles, nestas ocasiões, aquilo que os especialistas em Teologia Moral chamam de restrição mental estrita, que é quando um homem literalmente restringe essa expansão natural da mente para, consciente ou semiconscientemente, omitir uma parte essencial da verdade. Isto ficava patente conforme iam cedendo em um argumento após outro, mas buscavam novos em profusão interminável, sem se dar conta de que com isto a sombra benévola da verdade os ia cobrindo cada vez mais, pois não é necessário multiplicar ad infinitum uma demonstração para estabelecer esse acordo entre a inteligência e as coisas a que chamamos verdade. Basta um só teorema probante. Mas quando nem mesmo a avalanche de evidências é levada em conta, a coisa fica difícil.

Na maioria desses casos de que tive a oportunidade de participar, tal atitude era alimentada por uma má-compreensão do que seja a autoridade eclesiástica, quais são os seus limites, as suas balizas, o seu objeto, os seus fins, e o que nos cabe fazer quando estes se desvirtuam. Faltava a estes amigos a compreensão de que a Hierarquia é serva da verdade — especificamente das verdades da fé que deve proclamar e defender magisterialmente —, e não o contrário. Faltava-lhes também o estudo dos princípios que regem o Magistério e a noção de que, se a fé está em risco por conta de algum erro patente ou omissão em matéria grave, a Hierarquia pode e deve ser chamada a atenção pelos integrantes do corpo discente da Igreja capacitados para tanto, inclusive os leigos. Isto certamente em situações excepcionalíssimas, como a atual, e sempre com moderação e espírito caritativo (e não, obviamente, com o método sujo do boca-suja).

Aludi a estas coisas para mencionar um encontro que tive recentemente aqui no Rio de Janeiro com o Prof. Orlando Fedeli, a quem não conhecia pessoalmente — o que me motivou a escrever o presente texto. Esses amigos de quem falei preferem ver o diabo a ver o Prof. Orlando; é uma ojeriza tão espetacular que a simples menção ao nome do homem acarreta uma série de comentários terríveis, muxoxos, erupções epidérmicas, murmurações e até xingamentos. De um padre ouvi, por exemplo, que o Prof. Orlando considera-se o “único católico do mundo”. De outro padre, comentando umas excentricidades que estavam sendo livremente ensinadas por um professor do Instituto Superior de Direito Canônico do Rio, a coisa foi pelo mesmo diapasão (e o incrível é que, nestes dois casos específicos, o nome de Fedeli foi trazido à baila pelos sacerdotes sem que eu lhe fizesse qualquer menção). Ser amigo desse homem parece algo muito perigoso, pois pode acarretar sanções eclesiásticas... No meu caso, já há tanta gente querendo devorar-me o fígado que, a esta altura, isto não me preocupa.

Diga-se, a propósito, que tenho algumas divergências marcantes com o Prof. Orlando, a maior parte delas em relação à interpretação da crise que atualmente assola a Igreja. Mas não considero isto, em si, um problema maior, pois divergências e até rusgas entre cristãos sempre houve: São Jerônimo, homem de gênio difícil, dizia às vezes a Santo Agostinho: “Cala a boca, burro!”; São Bernardo, ao saber que o sobrinho Roberto se transferiria para o mosteiro de Cluny, do qual era abade o seu amado desafeto Pedro, O Venerável, escreveu ao jovem dizendo temer a perdição eterna dele; e fiquemos por aqui para não nos estendermos por demais. O fato é que a susceptibilidade eriçada e politicamente correta dos dias atuais transforma divergências em inimizades irrevogáveis. E este não é, definitivamente, o meu caso com o Prof. Orlando Fedeli.

Ademais, penso ser muito importante reconhecer, de público, algumas coisas:

1- quando ninguém no Brasil, fora dos pequenos grupos ligados à FSSPX ou entre os sedevacantistas, defendia a Missa Tridentina — que era dita “cismática” pelos modernistas de todas as colorações, dentro e fora dos Seminários —, o Prof. afirmava em seu visitadíssimo site que ela jamais fora ab rogada (o que foi confirmado pelo Papa Bento XVI);
2- quando muitas pessoas ainda não tinham noção de que o Novus Ordo de Paulo VI era uma espécie de “protestantização” da Missa Católica, o Prof. Orlando corajosamente brandia essa tese de forma veemente, dando ao tema uma importante publicidade entre os fiéis leigos;
3- quando ninguém, fora da FSSPX, ousava criticar a ruptura magisterial que os textos do Vaticano II representavam, ele já o fazia firmemente;
4- quando quase a totalidade das pessoas achava o ecumenismo a oitava maravilha do mundo, o Prof. divulgava em seu site vários documentos do Magistério tradicional que o condenavam solenemente e, também, estudos e artigos em que se apontavam disparates de várias seitas; etc.

Não é inoportuno lembrar que muitos dos críticos do Prof. Orlando servem a interesses de alguns dos incontáveis grupos católicos que hoje fazem da Igreja uma babel de vozes e práticas distintas e/ou opostas entre si; outros mal tiraram as fraldas e se acham “teólogos” católicos sem nunca ter lido uma só linha da obra de Santo Tomás de Aquino, acolhida solenemente pelo Magistério; e, por fim, há também os seus inimigos na própria FSSPX ou em “comunidades amigas” desta, mas por uma questão prudencial reservo-me o direito de não me estender sobre isto.

Já há algum tempo eu me sentia impelido a escrever este depoimento pessoal, mesmo sabendo que com ele eu faria a delícia dos nossos detratores, de um lado e outro, pelo fato de o Prof. Orlando ter tantos inimigos. Mas está feito o que penso ser um ato de justiça para com um homem de quem se dizem muitas coisas, mas não se pode dizer que seja um pusilânime, no sentido acima apontado. Não se pode dizer que seja um timorato oprimido por respeitos humanos.

Para encerrar, indico este vídeo de uma aula dele (dividido em 10 partes) sobre a Revolução Francesa e Napoleão — que todo católico, sem nenhuma exceção, deveria ver. Um primor de aula de História, na medida em que, para ser historiador, não basta compulsar mil documentos em arquivos e livros, mas, após compulsá-los, dar-lhes uma interpretação congruente. E é o que ali faz o Prof. Orlando.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O que perdemos

Sidney Silveira
Este outro vídeo impressionante registra, num bloco temático e com imagens que falam por si, as mudanças que ocorreram na prática em absolutamente tudo na Igreja pós-conciliar: da Missa ao Catecismo; dos ritos dos Sacramentos à Liturgia; da arquitetura das igrejas à música nas igrejas; dos altares e imagens de santos às vestimentas dos sacerdotes, monges e freiras; etc. Tudo com o incentivo formal das autoridades eclesiásticas, que nas últimas quatro décadas deram o insumo teórico para que tais mudanças se tornassem possíveis — e são, por isso, grandemente responsáveis pela demolição interna da doutrina, pela implosão da sacralidade no seio da própria Igreja, pela assimilação artificiosa e espúria de influências contrárias à fé.

O vídeo, do qual indiquei acima a segunda parte, divide-se em cinco trechos de 10 minutos. Vale muito a pena ver. E chorar.
Em tempo: Acabo de receber o email de um amigo dizendo-me que há outro link onde este vídeo está inteiro, sem divisão por partes.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Pergunte e Santo Tomás responderá (I)


Sidney Silveira
Após ler o último texto do blog, escreveu-me um mui zeloso amigo para dizer que os leigos não devem ter a “pretensão” de entrar no debate doutrinal a respeito do Vaticano II, “para o qual existem instâncias competentes” (referindo-se ao diálogo doutrinal entre a FSSPX e Roma). E diz que “mais importante do que gastar tempo e energia com isto”, deveríamos nós: 1) rezar; 2) manter a humildade e a obediência; 3) defender a doutrina bimilenar da Igreja; 4) levar o Evangelho a todas as pessoas, especialmente aos nossos “irmãos separados”. Indaga ainda o estimado missivista qual seria o meu parecer com relação à postura dos leigos frente à problemática atual. E outras coisas mais, como por exemplo: se a própria FSSPX aceitou dialogar com Roma, deveríamos nós, leigos, rechaçar o Vaticano II e tudo o que é posterior a ele? (a esta última pergunta — que embute muita, mas muita confusão — responderei noutro artigo).

Visando ao bem deste meu amigo e de todos os que lêem o blog, darei uma resposta em linhas gerais expondo a doutrina do Aquinate, cuja autoridade na Igreja nós temos apontado em uma série de textos.

Na questão 33 da IIªIIª da Suma Teológica, em que Santo Tomás trata da correção fraterna, o artigo 4 indaga o seguinte: Está alguém obrigado a corrigir o seu prelado [ou seja: as autoridades eclesiásticas competentes]? A segunda objeção deste artigo diz o seguinte: “A Glosa, interpretando o texto do Apóstolo (em Gal. II, 11) in faciem ei restiti quia reprehensibilis erat, acrescenta “como a um igual”. Ora, não sendo o súdito igual ao prelado, [parece que este] não deve repreender [àquele]”.

A refutação a esta premissa vem logo depois:

“Repreender de frente (in faciem) e à vista de todos ultrapassa os limites da correção fraterna; por isso São Paulo não teria repreendido daquela forma a São Pedro se não fosse de algum modo seu igual quanto à defesa da fé. Mas admoestar secreta e reverentemente também o pode fazer aquele que não é igual ao outro, razão pela qual escreve o Apóstolo com respeito aos súditos que admoestam os seus prelados: ‘Dizei ao Bispo Arquipo: cumpre teu ministério’ (Col. IV, 17). No entanto, deve-se saber que, onde houver perigo para a fé, os prelados devem ser repreendidos mesmo publicamente pelos súditos. Razão por que São Paulo, que era inferior a São Pedro, por causa de um iminente perigo de escândalo com relação à fé, repreendeu-o publicamente”. (Santo Tomás, Suma Teológica, IIªIIª, q. 33, a.4, ad.3).

Portanto, caro amigo, quem lhe responde com relação ao primeiro ponto não sou eu, mas ninguém menos que o Doutor Comum da Igreja. Mas vale ainda frisar os seguintes pontos, implicados na resposta magistral de Santo Tomás: a) sendo a fé o bem comum fundamental para todos do Corpo Místico — do Papa aos simples fiéis —, em ordem à fé há certa igualdade entre todos os cristãos (católicos, é claro!); b) Portanto, se a Hierarquia mostra defecção em relação à sua obrigação doutrinal (como é patente, pelo que temos apontado), os súditos não só podem como têm a obrigação de repreender os seus pastores. E quem o diz não sou eu, mas o Aquinate, no corpus da referida questão da Suma Teológica.

Mas veja ainda mais, na resposta do Boi Mudo às objeções:

“Como frisa a Glosa de Santo Agostinho, Pedro deu o exemplo de que, no caso de os maiores se afastarem do caminho reto, não desdenhem ser corrigidos pelos inferiores (Suma Teológica, op. cit, ad 2).

E isto não implica que o inferior se julgue soberbamente maior do que os seus superiores, mas ao contrário. Vamos de novo ao texto de Tomás:

“É preciso levar em conta que, quem admoesta com caridade a seu superior, nem por isto considera-se melhor, senão que vai em auxílio de quem está em um perigo tanto maior quanto mais alto é o cargo que ocupa” (Suma Teológica, op. cit., ad 3).

Este é, portanto, o verdadeiro zelo que os fiéis leigos (refiro-me aos capacitados para tarefa tão sublime quanto onerosa) devem ter para com os erros patentes da Hierarquia em relação à fé: correção pública, em defesa do bem salvífico fundamental! Obviamente, tal correção deve ser feita não com dureza, como bem aponta Santo Tomás, mas com moderação, reverência e mansidão (ideo in correctione qua subditi corrigunt prelatos debet modus congruus adhiberi, ut sclicet non cum protervia et duritia, sed cum mansuetudine et reverentia corrigantur. Suma, op. cit).

Sendo assim, caro amigo, o seu zelo (permita-me dizê-lo ao modo de correção fraterna, dado não ser às claras, pois os demais que me lêem não sabem de quem se trata) é um escrúpulo que tem mais de acanhamento e de covardia do que de amor. Façamos uma analogia: na falta do sargento, o soldado que está em posição de ataque porventura pode omitir-se do seu dever de combate? Não! Mas ao contrário: se está em posição de obter um ganho efetivo para o seu exército numa circunstância em que o superior se ausenta, atacar é seu dever de prudência. E digo aqui “prudência” porque esta virtude supracapital — que, de acordo com o Aquinate, alimenta todas as demais virtudes — é muito mais do que uma simples cautela que paralisa momentaneamente a ação, pois muitas vezes ela incita à ação: sim, pois a prudência, na definição de Santo Tomás, é a “reta razão no agir” (recta ratio agibilium). Assim, toda vez que a reta razão manda agir, façamo-lo sem falsos temores ou escrúpulos carnais.

Com relação às outras coisas apontadas por você em seu email, digo:

1- “Devemos rezar”. Sim, mas do mesmo modo como a contemplação não é em si oposta à ação, pois muitas vezes lhe é complementar, a oração não é um soro paralisante que nos desobrigue de agir quando o nosso dever é fazê-lo. Ao contrário, a boa oração é o melhor remédio para orientar a ação. Os Santos, modelos que a Igreja nos propõe, realizaram grandes obras e mostram que uma coisa não é oposta à outra. O grande São Bernardo dizia que sempre levava consigo o seu claustro interior, aonde fosse. Santo Antônio, outro gigante, dizia que se alguém reza e é tíbio na ação, é sinal de que reza mal...

2- “Devemos manter a humildade e a obediência”. Sim. Mas aqui vale advertir o seguinte: a humildade é fundamentalmente a reverência pela qual o homem se submete a Deus (cfme. Suma, IIªIIª, q. 161 [Sobre a humildade], resp). É neste sentido que o homem deve submeter-se a quem quer que seja o seu próximo, na única e exata medida do que haja de Deus nele (debet se cuilibet proximo subiicere quantum ad id est Dei in ipso). Assim, a humildade não exige que o homem submeta o que tem de seu ao que há de humano no próximo (Similiter etiam non hoc requirit humilitas, ut aliquis id quod est suum in seipso, subiiciat ei quod est hominis in próximo). Pois bem: estamos justamente apontando erros patentes do Magistério conciliar; ora, errar é humano e não divino; logo, não nos obriguemos, por uma falsa humildade, a seguir os erros dos outros, em virtude de uma presumível obediência.

3- E com relação à obediência, o Doutor Comum também resolveu este problema, na IIªIIª da Suma, q. 104, art. 5, que tem o seguinte título: “Estão os homens obrigados a obedecer em tudo a seus superiores?”. A resposta é aqui categórica: por diferentes razões, não! Ademais, como afirma o Aquinate nessa mesma questão, a desobediência às autoridades imediatamente superiores é lícita quando se trata de obedecer a uma autoridade superior em sentido absoluto. No caso da Igreja, vale o que se disse anteriormente: não se está obrigado a obedecer às autoridades eclesiásticas naquilo em que estas desobedecem a Cristo, subvertendo patentemente a doutrina revelada e o Magistério tradicional, que, como lembramos no último texto, em certo sentido é superior à fé.

4-“Devemos defender a doutrina bimilenar da Igreja”. Ora, caríssimo amigo, é justamente isto o que fazemos! E sempre aduzindo a autoridade do Magistério, da Sagrada Escritura e do Doutor Comum da Igreja. Peço a quem quer que encontre um conceito (um só!) que seja “nosso”: corrija-nos! Agradecerei imensamente por isto!

5- “Devemos levar o Evangelho aos irmãos separados”. Nobilíssimo amigo, para com os “irmãos separados” (eufemismo modernista para qualificar aos cismáticos ou hereges) o nosso dever de caridade é, fundamentalmente, chamá-los de volta à videira, à verdadeira religião sem a qual, formalmente, ninguém pode salvar-se, embora o possa extraordinariamente. Como diz o Papa Pio XI em Mortalium Animos (nº 18):

Aproximem-se, portanto, os filhos dissidentes da Sé Apostólica, estabelecida nesta cidade que os Príncipes dos Apóstolos Pedro e Paulo consagraram com o seu sangue; daquela Sé, dizemos, que é "raiz e matriz da Igreja Católica" (S. Cypr., ep. 48 ad Cornelium, 3), não com o objetivo e a esperança de que "a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade" (1 Tim 3,15) renuncie à integridade da fé e tolere os próprios erros deles, mas, pelo contrário, para que se entreguem a seu Magistério e regime.
Em tempo: No próximo texto, responderemos à última pergunta em destaque no primeiro parágrafo.

(continua)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Magistério da Igreja: da imposição à deposição — considerações sobre um trecho do livro do Padre Calderón

Sidney Silveira
Que hoje o Magistério da Igreja seja dialogado ninguém de boa vontade pode duvidar, pois isto não é suposição de algumas pessoas, mas uma proposição expressa com toda a clareza pelo próprio Magistério, como veremos abaixo. Na prática, após dois mil anos de serviços prestados, o clássico magister dixit tornou-se obsoleto e foi eliminado; com isto, logo se perdeu a noção de que o Magistério autêntico não está abaixo da fé, mas em certo sentido se encontra acima dela, pois as suas sentenças não são reguladas pelos Dogmas, mas os regulam — e, por seu meio, quem se expressa é o Divino Mestre, que participou esse Magistério à Igreja. Por isso, o critério de verdade do Magistério é a ciência divino-humana de Cristo, e não a ciência meramente humana dos homens (aqui, a aparente tautologia se faz necessária) — desde que, obviamente, as autoridades magisteriais exerçam o seu carisma pela intenção de ensinar as verdades da fé. Mas se elas abrem mão expressamente dessa intenção magisterial e pretendem apenas dialogar, estão por conseguinte abrindo mão da assistência sobrenatural do carisma que lhes foi participado.


É em razão desta fonte divina reitora do Magistério que a ciência teológica não pode contrariá-lo, nem modificar as suas sentenças. Sendo assim, é impossível um diálogo em pé de igualdade entre o Magistério e os teólogos, porque estes não têm acesso ao critério de verdade superior daquele, participado por Cristo. Pelo menos de acordo com a doutrina tradicional da Igreja. A propósito disso, pergunta com santa ironia o Padre Álvaro Calderón: “Por acaso Nosso Senhor tinha algo a aprender com Nicodemos?”. Quando teólogos, portanto, dão vazão a toda sorte de hipóteses fantasiosas à margem do autêntico Magistério e da Sagrada Escritura, estão na prática julgando-se superiores a Deus.

Pois muito bem: após reler algumas páginas do luminoso e aterrador livro A Candeia Debaixo do Alqueire: Questão Disputada sobre a Autoridade do Magistério Eclesiástico a partir do Concílio Vaticano II, do mencionado Padre Álvaro Calderón, que tivemos a felicidade de editar no Brasil, não há como não concluir, tomando como fonte os documentos eclesiásticos dos últimos 45 anos, que a Igreja tem preferido a expressão comum do sensus fidei da comunidade eclesiástica ao carisma magisterial. Infelizmente o diálogo continua, em detrimento do ensino.

Para provar o que se disse no primeiro parágrafo, ou seja, que o Magistério dialogado não é invenção de nenhuma pessoa, mas do próprio Magistério, transcrevo um pequeno trecho do livro citado (sobre o qual traremos algumas novidades em breve):

“Instauração do ‘diálogo’ como novo modo de exercer o magistério apostólico

A mudança mais manifesta do magistério conciliar com relação ao magistério anterior é que ele preferiu exercer-se por meio do diálogo. Este foi solenemente promulgado por Paulo VI na Ecclesiam suam, sua primeira encíclica, de 6 de agosto de 1964 [que diz]: “‘Ide e ensinai a toda a gente’; é o último mandato de Cristo a seus apóstolos. Estes, com o nome próprio de apóstolos, definem sua própria e indeclinável missão. Nós daremos a esse interior impulso de caridade, que tende a tornar-se dom exterior de caridade, o nome, hoje já comum, de diálogo. A Igreja deve entabular diálogo com o mundo em que tem de viver. A Igreja torna-se palavra. A Igreja torna-se mensagem. A Igreja torna-se colóquio [...]. O diálogo deve caracterizar o nosso ministério apostólico [...]. Essa forma de relação (...) não visa a obter imediatamente a conversão do interlocutor, já que respeita a sua dignidade e a sua liberdade'. A Hierarquia não pretenderá, portanto, impor um ensinamento por meio de autoridade: 'A autoridade do [diálogo] é intrínseca pela verdade que expõe, pela caridade que difunde, pelo exemplo que dá; não é ordem, não é imposição [nº 75]'”.

Como se pode ver no trecho papal acima citado ad tertium do livro do Padre Calderón, não há como ser mais claro: o ensinamento da Igreja será, a partir de então: a) por meio do diálogo, e não ao modo das fórmulas magistrais; b) esse diálogo não terá por objetivo a conversão; c) a Igreja não o proporá fazendo uso de sua autoridade.

A referida Encíclica de Paulo VI diz ainda que esse diálogo tem uma tríplice perspectiva: (1º) será da Igreja com a humanidade em geral, incluindo os ateus; (2º) com os crentes de outras religiões, em particular os judeus e os muçulmanos; (3º) com os “irmãos separados”, recebendo este último o apodo papal de “ecumênico”. Além disso, a Encíclica propõe um diálogo doméstico, no interior da Igreja, e por fim observa — no momento em que o Concílio ainda estava em curso — que “o diálogo no interior da Igreja e para o exterior que a circunda já é uma realidade”.

Voltemos, pois, a Calderón: “Esse diálogo ad extra e ad intra da Igreja, longe de terminar com o encerramento do Concílio, se intensificou e oficializou por meio de novas Comissões instituídas por Paulo VI. Para o diálogo ad extra, estabeleceram-se os Secretariados ‘para a União dos Cristãos’ e ‘para os Não-Cristãos’, dos quais dependem diversas Comissões de diálogo; para o diálogo ad intra se instituiu a ‘Comissão Teológica Internacional’, vinculada à S.C. para a Doutrina da Fé”. É muito instrutivo considerar a finalidade e a modalidade dessas Comissões, e sua relação com a Cúria Romana:

> A Comissão Teológica Internacional (CTI) reúne teólogos de diversas opiniões, representativos de um desejado pluralismo teológico, para que, dialogando entre si, encontrem o que há de comum em suas opiniões, e possam assim servir de interlocutores no diálogo com a Hierarquia, representada por sua vez pela S.C. para a Doutrina da Fé (SCDF)[1]. Embora, para facilitar o diálogo, o prefeito da SCDF seja ao mesmo tempo presidente da CTI, esta porém não será uma instituição pontifícia e nem sequer necessariamente clerical (na medida em que está aberta a leigos).
> As Comissões de diálogo inter-religioso têm natureza semelhante, são nomeadas oficialmente, mas suas conclusões comprometem somente a autoridade dos teólogos que intervêm; depois são publicadas para ver como são ‘recebidas’ pela Igreja, e a Hierarquia permanece livre para continuar ou não com os acordos ecumênicos.

Como se vê e se podia pressupor, ao instaurar-se a metodologia do ‘magistério dialogado’, os teólogos adquirem importância fundamental como interlocutores naturais diante da Hierarquia eclesiástica, cumprindo a função de mediadores entre o cume das autoridades e a base dos simples fiéis”.

Retomemos agora o fio da meada: de tal mudança expressa na intenção magisterial advireram todos os frutos que hoje já estão mais do que maduros: hoje o Papa dialoga com os bispos, sem no entanto ter força nem autoridade para impor a sua vontade (um exemplo é o pro multis da Missa, que ninguém obedece, malgrado o que diz um conhecido documento da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos); os bispos dialogam com os teólogos, particularmente com os da CTI; e os teólogos dialogam entre si e com os simples fiéis, para captar-lhes o sentir comum da fé e, então, propor fórmulas que serão depois ratificadas pela Hierarquia. A Igreja, por sua vez, dialoga com os outros credos (a esta altura, a noção de verdadeira religião esboroou-se por completo), para com eles compartilhar algo que acidentalmente haja em comum.

O que se segue daí é o seguinte: 1) a Igreja não mais se proporá converter ninguém; 2) ela perderá unidade doutrinal, pois passará a se basear naquilo que Calderón, com notável agudeza de espírito, chama de consenso “plurânime” dos teólogos (já que cada um arroga-se o direito de dizer qualquer coisa, não raro contrariando o Magistério tradicional e a Escritura, até porque o diálogo passa a ter valor em si mesmo, e não necessariamente visa a alcançar um denominador comum); 3) essa babel doutrinal se refletirá tanto na Liturgia (que se abrirá a vários experimentalismos oriundos do "sentir comum" de cada comunidade de fiéis), como na evangelização.

Neste último tópico entra em cena a nova doutrina da inculturação do Evangelho, que abordaremos noutro texto...

Quando olhamos desapaixonadamente para este estado de coisas, é impossível não chegar à conclusão de que a Igreja só superará a atual crise — que é muito mais do que simplesmente moral, como nos querem fazer crer os neoconservadores — quando se reorientar doutrinalmente pela Tradição e pelo Magistério bimilenar, expurgando todos os tipos de modernismos teológicos que pretendem servir de sustentáculo racional para os gravíssimos erros que hoje observamos.

[1] - Alocução de Paulo VI aos membros da CTI, de 6/10/1969: “Seja-nos permitido assegurar-vos nossa intenção de reconhecer as leis e as exigências próprias de vossos estudos, ou seja: de respeitar aquela liberdade de expressão própria da ciência teológica. (...)”. De acordo com o Mons. Ph. Delhaye, Secretário da CTI, “o papel do teólogo, e muito especialmente do membro da CTI, não consiste em repetir e comentar os ensinamentos do Magistério, como supunha o esquema clássico de Pio XII. O teólogo deve colaborar com o Magistério”.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

"TV" Contra Impugnantes: aspectos da moral tomista


Sidney Silveira
Veja-se aqui um trecho de aula em que se fazem algumas considerações preliminares sobre a moral segundo Tomás de Aquino, da qual ainda muito se falará neste espaço.

Autoridade Doutrinal do Doutor Comum (III)



Sidney Silveira

Aguilhão para os inimigos

Antes de prosseguir com o Magistério papal que sucedeu à Bula Mirabilis Deus, de São Pio V, vale fazer algumas considerações, colhidas de G. Manser, sobre a recepção do Aquinate entre os gregos e, também, os chamados “amigos da união das Igrejas”, objeto dos sínodos de Lyon (1274) e Florença (1439-1445). Nestes dois Concílios, tanto a Summa Theologiæ como o opúsculo Contra errores Græcorum do Aquinate desempenharam papel importante. Neste ponto, para dimensionarmos a admiração que a sua obra suscitou entre inimigos da fé, citemos um manuscrito anônimo do século XIV, escrito por um cismático ortodoxo, que dizia o seguinte:

Ah, Tomás, se tivesses sido um oriental e não um ocidental! Se tivesses escrito como ortodoxo sobre as processões do Espírito Santo tão maravilhosamente como sobre outras questões!” (Utinam, o Thoma, non in Occidente sed in Oriente natus esses! Utinam orthodoxus esses non minus de Processione Spiritus Sancti quam de aliis quæstionibus, quas admirando prorsus modo tractas).

Embora hoje saibamos que um certo Neilos Kabasilas, de Tessalônica, escreveu uma obra polêmica contra Santo Tomás, e outro, chamado A. Paranetes, elaborou mais de vinte disputas que, ainda hoje, se guardam inéditas em Oxford, a admiração dos eruditos gregos com as traduções de numerosas obras do Aquinate foi grande, especialmente pelas duas Sumas. A propósito, até 1350 são conhecidas várias traduções do latim para o grego de escritos de Santo Tomás. Lembra-nos Manser que tão grande foi o entusiasmo dos gregos pelo Aquinate na época do Concílio de Florença que, por esta ocasião, foi traduzido para o grego o ofício da festa do nosso Santo, de acordo com vários depoimentos.

Já em Lyon, logo após a morte de frei Tomás, o influxo do seu trabalho teológico é claro, como teremos oportunidade de ver em outro texto. E no Concílio de Viena (1311-1312) — o qual, mais do que a unidade de Cristo, tinha como objetivo discutir a unicidade da alma humana —, isto se confirma com a condenação formal das teses de Pedro Olivi, que defendia a pluralidade de almas em cada homem... A supremacia aquinatense, na verdade um reflexo da elevação de sua doutrina, continua no Concílio de Constança (1414), quando a chaga do nominalismo ockhamista esboçava crescer. Prova-o o fato de este sínodo reunir-se para combater (fazendo uso das conquistas teológicas do Aquinate) teses do reformador Jan Hus, que aliás morreu na fogueira. Anos depois, o heresiarca Lutero escreverá o seguinte: “No Concílio de Constança, com certeza Tomás de Aquino triunfou sobre Hus”.

No importantíssimo V Concílio de Latrão (1512) — do qual participou o “general dos dominicanos”, o futuro Cardeal Cayetano — aconteceu um dos maiores triunfos do Aquinate. As teses averroístas latinas da dupla verdade (duplex veritas) e da unicidade do intelecto para todos os homens (intellectus numerice unus), que haviam sido refutadas por Santo Tomás dois séculos antes, contra Siger de Brabante, são enfim condenadas pela Igreja. Outro fato: foi decidida a demonstrabilidade da imortalidade da alma humana no sentido em que a defendia o Aquinate, contrariando as escolas scotistas e ockhamistas, opostas à tese. A decisão do Concílio foi nada menos que unânime.

No Concílio de Trento, um dos mais importantes da história da Igreja do ponto de vista doutrinal, a preeminência de Santo Tomás pode ser medida pelo fato, muito conhecido de todos os estudiosos, de que a Suma Teológica foi posta ao lado da Bíblia no momento da declaração dos Dogmas. E não obstante um Concílio, por ser regido pelo Espírito Santo, dispense a sabedoria dos homens, o fato é que a defesa das suas decisões, baseadas na Sagrada Escritura e na Tradição, sempre recorre ao auxílio luxuoso da teologia e da filosofia. Tendo isto em vista, compreendemos muito bem o fato de Cardeal Vicente Justiniano chamar a Santo Tomás de Patrum Concilii Tridentini oraculum. Para ter-se uma idéia desta benéfica influência doutrinal, diga-se que, numa passagem sobre a Eucaristia — na seção XXI do referido Concílio —, os Padres reexaminaram uma questão anteriormente decidida simplesmente porque uma passagem de Santo Tomás na Suma parecia contrariá-la.

Ao repassar um pouco dessa história, não resisto a dizer o seguinte: quando vejo professorecos metidos a filósofos dizer que a obra filosófico-teológica do Aquinate deve ser vista à parte de questões doutrinais da Igreja, tenho vontade de rir... Ou de chorar. São engambeladores que vendem gatos por lebres.

(continua)

sábado, 3 de abril de 2010

Pederastia


Carlos Nougué
Estamos, em nosso Curso de História da Filosofia “Do Impulso Grego ao Abismo Moderno”, na altura de Sócrates, o grego que abriu a estrada real da filosofia. E, entre as muitas inverdades que se dizem a respeito desse gigante do pensamento, está a de que partilhava o gosto e a prática do chamado “amor dório”, ou seja, o homossexual masculino, que partindo de Esparta acabou por conquistar boa parte da Hélade. Não conquistou toda a Hélade (haja vista, por exemplo, a rejeição ao homossexualismo na Jônia); nem todas as mentes (haja vista, por exemplo, Platão, que nas Leis o diz antinatural ou contra naturam; ou o historiador Xenofonte, que em seu Banquete tece um veemente elogio do amor conjugal, masculino-feminino; ou Aristóteles, que na Política afirma que devia ser expurgado da melhor pólis); nem perdurou de modo majoritário por muito tempo, declinando ainda em vida de Platão. Mas arraigou-se profundamente ali, e em especial em Atenas, e para disso nos certificarmos basta ler, no Banquete platônico, o discurso de Fedro, o de Pausânias, o de Aristófanes, etc., nos quais não só se defende ardorosamente o amor dório, como se lançam farpas agudas contra o amor masculino-feminino, cujos praticantes seriam ou covardes, ou adúlteros, etc.

Mais, porém, que o amor dório em geral, deitou raízes nefastas no solo grego ― e particularmente em Atenas ― uma de suas manifestações, a pederastia (do grego paiderastía,as, “prática sexual de um homem maduro com um efebo ou rapazinho entre a puberdade e a adolescência”). Em outras palavras: o que hoje pode perfeitamente chamar-se “pedofilia homossexual masculina”. Pois é disto mesmo que dizem ter sido Sócrates aficionado, o que se confirmaria por sua relação com o belo efebo Alcibíades, e por sua confessa mestria na “Arte do Amor”, exercida justamente com jovenzinhos. Como teremos oportunidade de dizer em nosso Curso, nem aquela relação nem o exercício desta Arte alicerçam tal suposição, o que, por sua vez, é plenamente confirmado por ninguém menos que o mesmo Alcibíades, que no Banquete platônico narra sua própria tentativa infrutífera de fazer Sócrates ceder a suas investidas amorosas. O que era tal Arte para Sócrates, vê-lo-emos, como dito, no Curso; o que porém agora temos de dizer é que o mundo de hoje que quer ver em Sócrates um homossexual com todo o direito à pederastia é o mesmíssimo mundo que, em contrapartida, não dá semelhante “direito” aos sacerdotes da Igreja.

Nos dias que transcorrem diante de nossos pobres olhos, a virulência com que são atacados os sacerdotes acusados de pedofilia (insista-se: de pedofilia homossexual masculina) é inversamente proporcional ao gozo e gáudio com que se louva a pederastia na Grécia antiga. Mas pergunte-se a esses campeões da autocontradição: Não são vocês a favor da liberdade para todas as “orientações sexuais”? Não são vocês radicalmente contra a censura aos meios de comunicação e às artes? Não são vocês incisivamente a favor de passeatas gays e de amores livres diante dos olhos de quem quer que seja, incluídos os efebos? E não são vocês contra o celibato sacerdotal? Então por que o escândalo com os casos de pedofilia sacerdotal apontados, raivosamente, por vocês mesmos (vários deles, aliás, apenas presumidos, não comprovados)?

É, pois, patente que grande parte dos que saem em defesa da Igreja ante aquelas acusações aduz verdades em sua argumentação; e entre essas verdades está a de que muitos dos que acusam as autoridades eclesiásticas de conivência com os pedófilos são, em verdade, ateus militantes e adversários coléricos de Cristo, de sua Igreja, da lei natural, da moral evangélica; e está também a de que não se pode punir antes de averiguar e julgar canonicamente. Outros dados apresentados em defesa da Igreja, como a acusação de que grupos homossexuais planejaram e praticam uma infiltração metódica nos seminários, são possíveis, dir-se-ia em alguns casos prováveis, mas ainda não indubitavelmente certos.

Escrevo porém este brevíssimo artigo, sobretudo, para dizer outra coisa: para dizer precisamente que, apesar de quanto se disse acima, o fato é que não podemos, uma vez mais, enfiar a cabeça na terra qual avestruz ou tentar tapar o sol com a peneira. A que me refiro? Ao fato evidente, que transcorre à luz do dia diante de nossos pobres olhos, de que em boa parte do mundo é imensa e abjeta a corrupção moral do clero. Sem dúvida alguma, a Igreja já padeceu em outras épocas graves crises morais, como o chamado nicolaísmo ou concubinato dos padres (com mulheres, é claro), no século IX ― crise a que, porém, se seguiu a tão vigorosa reação católica do século X ao XIII. Mas a Igreja padeceu aquelas crises pelas fraquezas dos homens, ainda os da Hierarquia, diante da guerra que sempre lhe moveram e movem seus inimigos: o mundo, a carne e o demônio. Hoje, todavia, padece-a não só por isso, mas por algo muito mais sério: por um câncer. Por uma degeneração interna, e não propriamente por uma invasão. E esse câncer, esse processo degenerativo tem nome: o humanismo católico (de que são manifestações o liberalismo católico, o modernismo, a Nova Teologia, etc.); e sua metástase partiu de um órgão preciso: o Concílio Vaticano II.

O processo de putrefação é patente: desolação doutrinal (incluída a iníqua, conquanto sutil, alteração da hierarquia dos fins do matrimônio) > por um lado, afrouxamento moral > por outro, renúncia ao caráter monárquico da Igreja e consequente perda de autoridade efetiva pelo papado. Por que toda e qualquer pessoa, sem o socorro da Graça, sem a doutrina perene e imutável dada pelo Mestre dos mestres, sem a submissão mais estrita ao Rei dos reis e seus sacerdotes, é capaz de incorrer nos mais graves pecados e cometer as mais terríveis abjeções, e estaria isenta disto a Hierarquia eclesiástica?

A crise é mais que grave, e a Igreja vive a sua Sexta-feira da Paixão. Hoje não podemos senão fazer, como já dito em outro lugar, o nosso aprendizado de solidão e rogar a Deus que nos dê virtudes heróicas, sem ceder em nem um iota quanto à doutrina ― ainda que o ouropel oferecido brilhe mais que o sol que nos ofusca.

Em tempo: Como católicos que somos, não podemos senão nos solidarizar com o Papa ante os ataques virulentos e medonhos dos inimigos de Cristo e de sua Esposa, e ante as abjeções internas de que com razão tanto se envergonha. Mas precisamente porque somos católicos e amamos a Igreja e o Vigário de Cristo é que insistimos: não terá força o Papa para combater não só os inimigos externos, mas as abjeções internas, enquanto a Hierarquia for caudatária da doutrina deletéria do Concílio Vaticano II, e enquanto não se restaurar a estrutura monárquica da Igreja e, pois, a mesma e efetiva autoridade papal.