domingo, 14 de março de 2010

Nova aula do curso de "História da Filosofia"

Sócrates

Sidney Silveira
Informamos aos inscritos no curso "História da Filosofia — Do Impulso Grego ao Abismo Moderno" — que já está no ar a nona aula: Sócrates — A Abertura da Estrada Real da Filosofia (1ª Parte). Veja-se aqui um trecho dela, em que jocosamente Nougué nos remete à imagem da pobre Xantipa, esposa de Sócrates, que não sem alguma injustiça entrou para a história como o paradigma da insuportabilidade feminina. Bem sei eu que isto não é verdade... Ademais, parece que foi intriga dos filósofos cínicos (ex-discípulos dele), ou de cínicos filósofos...

quinta-feira, 11 de março de 2010

"TV" Contra Impugnantes: precondições da beleza

Roeland Savery - O paraíso terrestre


Sidney Silveira
Veja-se um pequeno trecho de aula em que se fala de algumas das precondições para uma coisa ser dita "bela". Este é um tema que já abordamos em algumas oportunidades (por ex.: aqui e aqui), com críticas à visão liberal, e a ele voltaremos em breve...

quarta-feira, 10 de março de 2010

Metafísica e mistério (II): ventríloquos do demônio

Sidney Silveira
Do mesmo modo como a História dos Dogmas da Igreja anda no compasso das heresias de cada época, a História da Filosofia está intimamente ligada às aporias, pois, contemplada em perspectiva, ela não é outra coisa senão a resolução — real ou presumível — das aporias no decorrer do tempo.

A diferença específica reside no fato de que, no primeiro destes dois casos, a definição solene do Magistério da Igreja tem caráter de verdade absoluta válida para todos os tempos e lugares, pois, quando a Igreja proclama uma doutrina relativa à fé e aos costumes como dogmática*, a alternativa é a seguinte: ou se calam as vozes obstinadas em contrário, ou serão expurgadas do corpo místico pela medicina do anátema. Roma locuta, causa finita est. Esta pelo menos é a doutrina tradicional, e isto acontece porque a Igreja define o Dogma com autoridade superior à humana, uma autoridade participada pelo próprio Cristo, em pessoa (cfme. Mt. XVIII, 19-20) — para horror do catolicismo liberal, engolfado no magma eclético das opiniões derrogadoras da fé —, ao passo que a filosofia, não tendo nenhuma autoridade suma que dirima as questões sobre as quais pairam dúvidas, percorre a sua trajetória nas marchas e contramarchas da humana busca da verdade.

Como se pode entrever do que acima se disse, a verdade filosófica é uma conquista humana; a verdade da fé é uma dádiva dos céus. Entre as duas não há distinção de gênero, mas apenas de objeto e de graus, pois, como demonstra de forma suficiente Santo Tomás na Suma Teológica (Iª, q. 16, artigos 6, 7 e 8), uma só é a Verdade eterna e imutável que serve de critério para todas as coisas ditas verdadeiras, sendo estas últimas mutáveis e não-eternas. Em resumo, sendo uma espécie de adequação entre o intelecto e a coisa, a verdade se dá formalmente no entendimento e, por isto, está em alguma medida condicionada por sua posse pela criatura racional**; mas em Deus, Ato Puro sem mescla de potência, ser e entender são a mesma coisa, por isso a verdade em Deus, que é o Próprio Ser Subsistente, não está sujeita a mudança e é eterna e imutável, além de ser o fundamento de todas as demais verdades.

Não nos estenderemos nisto porque não é o propósito deste breve texto. Mas, a título de exemplo, podemos dizer que as verdades temporais captáveis pelo entendimento da criatura racional estão para a Verdade eterna que é Deus assim como os entes estão para o Ser, numa relação de estrita dependência ontológica: se não houvesse a Verdade que se identifica em absoluto com o Ser, não haveria verdades que são a captação de algum aspecto do Ser pelas criaturas racionais; e se não houvesse o Ser (Ipsum Esse), não haveria entes, ou melhor: não haveria absolutamente nada — e, por conseguinte, nada cognoscível. Este é o arco metafísico codificado por Tomás de Aquino e que serve de base para a sua gnosiologia realista: o intelecto se faz inteligente mediante um inteligível em ato (cfme. Super Librum de Causis Expositio, Lectio III); ora, as coisas são inteligíveis na exata medida em que têm ser; logo, se não houvesse o Ser, não haveria nenhum inteligível que pudesse ser conhecido. Dito assim, parece simples...

No contexto destas distinções, vale lembrar que a filosofia não admite dogmas, dado que caminha sustentada pelos teoremas e doutrinas que propõe, os quais se aproximam da verdade sempre como uma assíntota. Dela pode servir-se a Sagrada Teologia — esta sim, sempre partindo da Revelação — para mostrar que a fé não apenas não se contrapõe à razão humana, como também jamais poderia falhar, pois parte de fonte divina inerrante. Quando os escolásticos do século XIII, o verdadeiro século das luzes, afirmavam que a filosofia é “serva da teologia” (ancilla theologiaæ), tinham em mente, com toda a clareza, que não há duas espécies de verdade incomunicáveis ou contraditórias entre si, uma natural e outra sobrenatural, mas uma só verdade — em parte alcançável pela razão natural, em parte apreendida pela razão graças à luz da fé (sub lumine fidei). Com Duns Scot e sua artificiosa separação entre metafísica e teologia, esta noção começa a perder-se.

Assim, quando teólogos liberais e liberais não-teólogos fazem as suas proposições totalmente à margem da Revelação, baseados em hermenêuticas as mais estapafúrdias e valendo-se de um arcabouço conceptual viciado na raiz (como seja, por exemplo, o da dialética hegeliana: tese-antítese-síntese), estão não apenas contrariando a fé, mas também a razão e o bom senso. Ademais, sem base metafísica e, por conseguinte, sem uma antropologia filosófica consistente, acabam perdendo o sentido do mistério do ser.

Estão na verdade fazendo o papel de ventríloquos do demônio, dando voz a tantos erros em matéria grave.

* Vale dizer que a guarda do precioso depósito da fé, pela Igreja, tem alcance filosófico, na medida em que o Magistério condena proposições ou doutrinas que, se aceitas em seus princípios, levariam à negação ou de algum dado da Sagrada Escritura ou a de alguma verdade que, embora não tenha sido expressamente revelada, está de tal forma integrada à Revelação que a sua derrogação alcançaria o âmago da fé. Assim, por exemplo, diferentes Papas do século XIX condenaram o ontologismo do padre e teólogo Antonio Rosmini, em razão dos grandes riscos que suscitavam para a defesa racional da fé.
** Não é ocioso lembrar que as criaturas irracionais — embora tendam a seus fins próprios na medida em que todo e qualquer ente está orientado ao optimum da espécie — são incapazes de verdade porque as operações de sua alma se dão no plano sensorial. Noutras palavras, não existe conteúdo inteligível para as criaturas irracionais. O animal irracional é, portanto, incapax veritatis porque as suas operações entitativas não transcendem à matéria.

terça-feira, 9 de março de 2010

Segunda Parte do “Trivium”: A Lógica Menor (ou Formal) Aristotélico-Tomista

"O Filósofo em Meditação"(1632), de Rembrandt

Carlos Nougué
Começará dentro de pouco tempo a Segunda Parte de nosso “Trivium”: “A Lógica Menor (ou Formal) aristotélico-tomista”.

BREVE APRESENTAÇÃO

1. Aristóteles queria conhecer os fatos, mas não apenas enquanto são; queria conhecê-los sobretudo enquanto devem ser. Para ele, o contingente resolve-se no necessário. Por esta razão, e porque para ele há proporção e acordo entre a realidade e o pensamento, o Estagirita teve de estudar as condições em que o intelecto humano concebe algo como necessário. Em outras palavras: teve de, primeiramente, estudar a ciência do ângulo formal. Fundava assim a Lógica.

2. Há quem o negue. Vejamo-lo. A Lógica é, antes de tudo, a ciência do raciocínio. Ora, como o raciocínio consiste essencialmente no silogismo, e como o Estagirita criou a teoria do silogismo e da demonstração ou silogismo perfeito, deve-se concluir que é ele, propriamente, o criador da Lógica.

3. Kant escreveu que desde Aristóteles a teoria do silogismo não tinha dado um passo, nem para a frente nem para trás. Antes de tudo, há nessa afirmação um quê de desprezo pela Escolástica e, especialmente, por Santo Tomás de Aquino (os quais, afinal, Kant só conhecia por textos de vulgarização!), o mesmo Santo Tomás com que a teoria do silogismo alcançou suma sistematização. Além desse desprezo, há uma imprecisão: a ciência da Lógica já estava ferida, desde o século XIV, de nominalismo e, desde o século XVII, de racionalismo, o que obviamente lhe afetava o núcleo, ou seja, a mesma teoria do silogismo. Por fim, o certo é que, em essência, ela nunca deveria ter saído do lugar em que estava: é insuperável. Se saiu, foi precisamente pelo descarrilamento lógico-filosófico do nominalismo, do racionalismo, do próprio kantismo, etc.

4. Em razão de sua forma, o raciocínio ou silogismo é correto ou incorreto; em razão de sua matéria, é verdadeiro ou falso. Logo, a Lógica deve ocupar-se tanto da forma como da matéria dos silogismos, razão por que se divide em Menor e Maior: a primeira estuda e ensina as regras que se devem seguir para que o raciocínio seja correto ou adequadamente construído; ao passo que a segunda, estudando as condições materiais da ciência, mostra as condições para que se chegue a conclusões perfeitamente certas e verdadeiras.

5. Neste curso, estudaremos apenas a Lógica Menor, deixando para outra oportunidade a Lógica Maior.


PROGRAMA DO CURSO

“A Lógica Menor (ou Formal) Aristotélico-Tomista”

I) Preâmbulo:
1)
Que é a Lógica
2) Suas divisões

II) Lógica Menor ou Formal:
1)
A simples apreensão
a) O conceito
● Noção
● Extensão e compreensão
● As espécies de conceitos
b) O termo
● Noção
● As espécies de termos
● Definição e divisão

2) A proposição
a) Juízo e proposição
b) As espécies de proposições
● Simples e compostas
● Afirmativas e negativas
De inesse e modais
§ O sujeito e o predicado quanto à quantidade
c) Oposição e conversão das proposições

3) O silogismo
a) Noções preliminares
b) O silogismo categórico
● Figuras e modos
● Silogismo expositivo
c) O silogismo condicional
d) Divisão:
● Demonstrativos, prováveis, equivocados e sofísticos
● Incompletos
● Oblíquos
● Compostos
e) A indução
● Divisão
● Raciocínio por semelhança

III) Duração e mensalidade:
1) Em Belo Horizonte: 12 aulas (uma por mês, sempre num sábado) de 9 horas cada. (Datas exatas, por decidir.) Mensalidade: R$ 120,00. Os interessados devem escrever para Frederico Castro (
bonorvm@yahoogrupos.com.br).
2) No Rio de Janeiro (segunda turma): como em Belo Horizonte, carga de 108 horas, que porém podem distribuir-se, como em Belo Horizonte, por 12 sábados ou, diferentemente, por 24 dias de semana. Mensalidade: R$ 80,00 na primeira modalidade; R$ 110,00 na segunda. Os interessados devem escrever para mim (
carlosnougue@hotmail.com).
Observação: Outra possibilidade é o curso ser dado integralmente via Internet, com a mesma carga horária. Neste caso, a mensalidade seria de 70,00. Os de qualquer lugar do Brasil que prefiram a modalidade via Internet, escrevam por favor para mim (
carlosnougue@hotmail.com).

quinta-feira, 4 de março de 2010

Ainda a Revista “Co-Redentora”

Carlos Nougué
Por problemas técnicos, o site da Revista eletrônica do Mosteiro da Santa Cruz (
www.co-redentora.com.br), a Co-Redentora, já está no ar, mas precisa ainda de aprimoramentos e correções, em especial na formatação dos artigos ao modo da Internet.

A Revista, porém, já está no site em formatação acabada, ou seja, em PDF, para quem a queira ler (e até imprimir, e encadernar) como a um livro. Para tal, basta que se clique justamente em "PDF"
.

Ademais, mesmo na formatação ao modo da Internet, já é perfeitamente possível ler os artigos; e ainda esta semana, talvez já hoje, o site estará essencialmente concluído.

Por fim: o site contará com vídeos diversos sobre nosso Mosteiro, etc.

Boa leitura, e repetimos: provavelmente a Co-Redentora, de quadrimestral, logo se tornará trimestral.

quarta-feira, 3 de março de 2010

De elefantes e formigas

Carlos Nougué
Certa feita um chefe meu, socialista, me chamou para dizer que recebera uma denúncia de que eu era de ultradireita. Sem deixar de pensar, obviamente, na triste possibilidade de perder o ganha-pão por causa de tão grave pecha, acabei, como devido, por dizer ao chefe a verdade: como poderia eu ser de ultradireita se sou, digamos, “medievalista” e se a terminologia direita/esquerda surgiu apenas na revolução francesa? O chefe me olhou, me olhou... e não perdi o emprego.

Quando conto isso, as pessoas em geral julgam tratar-se de uma espécie de chiste ou pilhéria. Não o é, embora o termo “medievalista” deva mais propriamente substituir-se por “defensor da Realeza social de Cristo”, tendo sido porém na mesma Idade Média que efetivamente tal Realeza mais se concretizou. Mas por que trago à baila neste espaço aquele episódio? Porque certo articulista de Internet, português segundo me disseram, escreveu pouco mais ou menos o seguinte: “Atenção quem pensa que a direita está morta: vejam, por exemplo, o blog ‘Contra Impugnantes’, que propugna a volta da Igreja tirânica ao poder.”

Pois a pilhéria, ainda que inconsciente, vem da parte precisamente desse denodado articulista. Por quê? Por vários motivos, que exporei brevemente para não cansar o leitor nem a mim mesmo.

1) Que propugnamos a volta da Igreja à direção espiritual dos povos, segundo a lei natural e a lei evangélica, e portanto com a submissão do poder temporal ao eclesiástico, é inegável. É isso, justamente, o Reinado social de Cristo. Se disso se trata, teria razão o alerta articulista d’além-mar... não fosse o simples fato de que nem sempre propugnar é poder.

2) Em outras palavras: o lusitano acusador esquece que, diante dele, isto é, do mundo elefântico que ele representa ― o absolutamente dominante e hegemônico mundo do demo-liberalismo ―, os que escrevem para este blog não passam de formigas. Se se quiser, um exército de formigas se somados a todos os seus congêneres: conjunto de tropas que pode ser pulverizado ou desmaterializado por um simples bafejar da tromba do mundo moderno. Ou será que o que teme tal paquidérmico orbe, tão atentamente defendido pelo referido articulista, é precisamente que tal conjunto de tropas desmaterializado vença justamente por isto mesmo, a saber, porque o imaterial das idéias perenes é, ao fim e ao cabo, indestrutível, enquanto não o é o mesmo peso do falso, por imenso que seja?

3) Ademais, ilustre sentinela, pelo menos nós que escrevemos para este blog nunca deixamos de frisar, por uma série de razões de teologia da história, nossa descrença na recuperação cristã do mundo, conquanto estejamos certos de que a vitória final se dará com a entrada dos que Deus quiser na Jerusalém celeste. Por isso não tema, velador: não fazemos parte de nem pretendemos organizar nenhum movimento ou partido pela Realeza social de Cristo, porque estamos seguros da infrutuosidade de qualquer movimento assim nos dias de hoje; porque a história, além disso, provou o equívoco de constituir um partido católico para atuar num regime político, o partidocrático, essencial e radicalmente anticristão; e até porque qualquer movimento ou partido de dois seria pelo menos ridículo, e já nem sequer nossos parcos cabelos brancos no-lo permitiriam... Mas, cuidado, cuidador: o verdadeiro perigo talvez resida, efetivamente, naquela mesma desmaterialização. Todo alerta é pouco.

4) Por fim, como chamar de direita formigas que defendem a Realeza social de Cristo se são elas mesmas que, condenando a partidocracia, condenam todos os partidos do elefantino mundo moderno? (Naturalmente, não se diz aqui que “nunca” se deve votar em nenhum candidato ou partido. Tal é possível se realmente ele representar um mal menor e defender, pelo menos, princípios essenciais da lei natural. O que não é o caso da próxima eleição para presidente do Brasil, com respeito à qual já declaro aqui ― e creio poder fazê-lo também por Sidney ― meu formigante voto nulo.) Para nós, repitamo-lo, a direita liberal não é senão a ante-sala do comunismo, e entre Delfin Neto e Lula se estende a ponte da apostasia.
Adendo do Sidney: Sem sair do contexto das palavras do Nougué, penso que vale fazer a seguinte observação, abordando outro tópico do problema das relações entre o poder material e o espiritual: a meu ver, o erro de certo catolicismo tradicional é cair numa espécie de milenarismo, apostar todas as suas fichas numa reviravolta espetacular que nos traria de volta a Cristandade perdida, e retornaríamos, assim, ao tempo em que, como dizia Leão XIII, a lei evangélica pairava sobre as Nações. Esquecem os propugnadores de tal tese que a vitória prometida por Cristo é, antes e acima de tudo, supra-histórica, além-temporal. Ademais, qualquer exercício de futorologia nesta matéria traz-nos o risco de tangenciar a heresia, até porque os desígnios de Deus para estes nossos tempos são mistério. Em suma, ao desfraldarmos aqui a bandeira da Realeza Social de Cristo, isto não implica que creiamos ser ela humanamente possível, no mundo atual — até porque a própria Igreja hoje volta as costas para a sua bimilenar doutrina política, baseada nos dois gládios. Estamos, a meu ver, exatamente no tempo em que a verdade política tornou-se algo irrealizável, pois só os devaneios individuais têm estatuto de valor intocável. Apenas um supermilagre poderia dispor as coisas de maneira diferente, no plano político... Mas não somos profetas para prever tal milagre.

terça-feira, 2 de março de 2010

Metafísica e mistério (I)


Sidney Silveira
Por mais bem elaborada que seja em sua forma escrita, nenhuma filosofia abarcará a completude do pensamento de um filósofo e, mais ainda, o ser dos entes — que, a propósito, é o objeto formal de toda atividade cognoscitiva. Quando Santo Tomás de Aquino, após o êxtase em que foi arrojado, diz a seu secretário Reginaldo e a outros frades que, a partir daquele dia, não escreverá mais nada, porque, depois do que viu, tudo o que escreveu é palha, está com isto indicando a todos nós o seguinte: por mais elevada que seja uma doutrina filosófica e teológica (e a dele o foi em grau superlativo), será sempre insuficiente para dar conta do mistério do ser que nos envolve. Sendo assim, ainda que uma filosofia, partindo de princípios sólidos, estenda as suas conclusões às causas mais universais, sempre apresentará um maior ou menor grau de precariedade. Em suma, a ninguém — exceto Deus — é dado saber tudo. A propósito, de acordo com o Aquinate, nem mesmo na visão beatífica da essência divina nós compreenderemos o que Deus é em si mesmo.

Tudo isso não quer dizer que os escritos filosóficos sejam autárquicos, como se entre eles e o ser não houvesse a mais ínfima conexão. Como já apontava Platão no Fedro, eles possuem algumas utilidades que não devemos desprezar, entre as quais destacamos três: a) têm uma salutar função mnemônica, na medida em que estimulam a memória a guardar os conceitos; b) são adequados para desencadear em nós o processo cognoscitivo com relação aos conhecimentos mais abstratos; c) e, se expressam doutrinas solidamente baseadas no ser, predispõem a inteligência à captação da verdade. Não obstante todas essas utilidades, o escrito filosófico será sempre inferior ao hábito mental por meio do qual se logra conhecer algum aspecto do real, dado não ser senão a limitada expressão deste último. Por isso costumo dizer que um filósofo que não saiba defender oralmente e com propriedade as suas teses, mas tão-somente por escrito e apoiando-se em muletas bibliográficas, é na verdade um ignorante ilustrado*.

O melhor quadro sinóptico de conhecimentos em todos os âmbitos do real que nos é dado alcançar terá sempre limitado alcance, pois a luz da razão natural, embora alcance os princípios supremos (protologia) e as causas últimas do ser (ontologia), jamais consegue esgotar a verdade. Não por acaso, em seu Comentário ao Credo lembra-nos Santo Tomás que nunca nenhum filósofo conseguiu sequer exaurir o conhecimento da essência... de uma mosca!** Mas o que, a princípio, poderia parecer o signo da pobreza gnosiológica do ente humano é, na verdade, o espelho da riqueza ontológica que Deus imprimiu às suas criaturas, que receberam por criação a “novidade do ser” (novitas essendi), nas palavras do Doutor Comum da Igreja no livro De Potentia Dei. Em suma, entre os primeiros princípios e as causas últimas do ser encontra-se o horizonte amplíssimo da nossa atividade noética, e todos os nexos teoréticos apontados pelo filósofo em qualquer âmbito serão nada mais do que um simples vislumbre de aspectos do real pela inteligência — inteligência que é speculum do ser.

Jacques Maritain, cujos maiores equívocos contribuíram para a moderna acepção de “pessoa humana” — coonestada, em linhas gerais, pelo Concílio Vaticano II, acontecimento decisivo do século XX no plano dos valores —, possui um famoso texto em seu livro Les Degrés du Savoir, no qual fala da grandeza e da miséria da metafísica, ciência que estuda o ente (o qual tem ser): a sua grandeza é ser sabedoria; e a miséria é ser sabedoria humana, e, portanto, limitada. Nisto o pensador francês estava certo, e, se avaliarmos bem, quase todos os principais erros gnosiológicos a partir de Duns Scot, o elo perdido da modernidade, com ressonâncias em Guilherme de Ockham, Descartes, Hume, Kant, Hegel, Bergson, Husserl, etc., poderiam ter sido evitados se se levasse em conta que, embora a inteligência seja potencialmente apta para a posse formal de todos os inteligíveis, ela é incapaz de esgotar a inteligibilidade do próprio ser. Intuicionismo, agnosticismo gnosiológico e relativismo axiológico não teriam chance de deitar tão fundo as suas raízes , se a metafísica não tivesse sido fragorosamente deixada de lado.

Se o mistério é a saúde da alma, como dizia Chesterton, a perda do sentido do mistério é o sintoma de uma das mais graves patologias, e vem sempre acompanhado de um desconhecimento cabal da metafísica.

* Tive um brilhante e gaiato professor de Gramática Portuguesa que fazia, jocosamente, a distinção entre dois tipos de idiotia: o da anta stricto sensu e o da anta extraordinária, encarnada no burro teimoso que não entende nada e se julga apto a contestar tudo. “Esse não é uma anta comum”, dizia-me o falecido professor. “É a anta com fumos de sabedoria: uma anta de tênis Nike atolada no pantanal mato-grossense”.
** (...) “sed cognitio nostra est adeo debilis quod nullus philosophus potuit unquam perfecte investigare naturam unius muscae”. SANTO TOMÁS DE AQUINO, em Expositio in Symbolum Apostolorum, Proêmio.

(continua)