segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A fúria das massas e Étienne Gilson


Sidney Silveira
Todos os homens são aptos a alcançar a verdade, e esta é a tendência fundamental de uma de suas potências superiores, a inteligência, mas pouquíssimos podem ser filósofos; todos os homens são aptos a experimentar a beleza estética de um texto literário, mas poucos são capazes de nos levar num êxtase, pela escrita, à região dos arquétipos da condição humana; todos os homens são aptos a perceber os matizes de uma polifonia musical, mas pouquíssimos podem compor como um Tomás Luis de Victoria, como um Bach, como um Palestrina; todos os homens são chamados a alcançar o bem (tendência inamovível da vontade), mas só aqueles que Deus escolheu podem ser Santos; todos os homens podem aprender os movimentos do xadrez e entender a sua beleza, mas um número ínfimo será capaz de jogar com a vigorosa precisão de um Garry Kasparov ou com a fantasia estonteante de um Mikhail Tal; todos os homens, em princípio, são capazes de ser políticos, mas quase nenhuns têm sabedoria, talento e coragem para fazer o que deve ser feito para a Cidade não se transformar numa massa amorfa e sem leis asseguradoras do bem comum.

Em resumo, as massas não produzem a ciência, as massas não produzem a arte, as massas não produzem a filosofia e, em sentido estrito, as massas sequer são capazes de vislumbrar o bem comum político — e todos os seus sucedâneos. Esta verdade é inaceitável para a susceptibilidade democratista contemporânea, que afunda na idéia de que as artes são para as massas, a filosofia é para as massas, a política é para e pelas massas. A egalité, ideal maçônico-liberal da Revolução Francesa, pasteurizou e descristianizou o mundo, e, depois de mais de duzentos anos, fez o Ocidente perder totalmente a noção da hierarquia dos valores, da hierarquia dos talentos e sua importância para a civilização — dado que o igualitarismo arrogante inaugurado no final do século XVIII é um impedimento formal para o desenvolvimento das pessoas e das sociedades.

O incentivo à revolta das massas chega ao ápice no século XX, com a Revolução Russa e seu materialismo genocida, mas na prática foi ganhando espaço paulatinamente: primeiro, das massas contra a Igreja e contra a influência das leis eclesiásticas nas sociedades; depois, contra uma nobreza já decadente e bastante desvinculada do poder espiritual; posteriormente, em favor da ilusória tomada, por elas, dos meios de produção; a seguir, contra a noção de autoridade legítima. Essas revoltas foram impregnando as sociedades e, ao fim e ao cabo, contribuíram para a metástase modernista que, no último quartel do século XX, alcançou a doutrina da Igreja em todos os pontos e impossibilitou a defesa da fé pelas próprias autoridades eclesiásticas — que elegeram o ecumenismo como um fim a ser buscado, e o que é pior: um fim superior à guarda do precioso depósito da fé. A quem duvida disso, peço que veja os documentos do Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, acessíveis no site do Vaticano.

Perdidas todas as distinções fundamentais que poderiam salvar a civilização da débâcle universal, e com a autoridade espiritual esboroada pelo liberalismo que domina o mundo, agora só resta às massas revolverem-se intestina e autofagicamente contra si mesmas, produzindo o ódio e a cegueira mental numa escala até então inimaginável. Tudo sob o pavilhão da democracia, que é a ditatura da maioria contra a excelência — uma maioria, a propósito, teleguiada por grupos infrapolíticos organizados e por intelectuais orgânicos. Este é, em suma, o quadro propício para o estabelecimento do governo mundial do Anticristo, que se aproveitará do desastre reinante para propor-se como a única “autoridade” capaz de trazer a paz. Uma satânica pax mundi, como sonhava Dante, no De Monarchia. Uma pax mundi que a última Encíclica do Papa Bento XVI parece corroborar.

Aturdidos pelo estrondo da pós-modernidade, muitos intelectuais e filósofos católicos se deixaram contaminar pelos erros que ganharam corpo nos séculos XVIII e XIX e se firmaram decisivamente no século XX — sem dúvida, o mais anticristão de todos. Um exemplo clássico é o de Étienne Gilson, que em 1967 (ou seja: após o Concílio Vaticano II) publica, pela coleção Essais d’Art et de Philosophie, da editora Vrin, o livro La société de masse et sa culture, onde faz um diagnóstico das artes plásticas das massas, da música das massas, da literatura das massas e, por fim, das liturgias das massas. No livro, embora faça análises mais ou menos acertadas, partindo da premissa de que a cultura, em seu sentido mais elevado, é espiritual, e que a sua massificação implica a dissolução das formas de beleza mais próximas daquilo que os medievais chamavam de pulchrum, Gilson acaba por aplaudir e referendar esse movimento em direção às massas, no seio da Igreja.

É triste ver a decadência de um intelectual como Gilson que (malgrado jamais tenha sido propriamente um tomista, e sim um divulgador da importância do Aquinate para a filosofia) acaba por dizer ou propor coisas como estas:

> O problema da liturgia se confunde com o problema da "industrialização da Bíblia" (sic). Ou seja: não se trata de uma questão doutrinal;
> O catolicismo deveria criar uma imprensa das massas e para as massas;
> As massas têm direito à sua própria cultura (ou seja: presumivelmente autóctone em relação à lei evangélica);
> É inevitável que a Igreja seja uma sociedade voltada para os mass media (e não uma mestra das sociedades e das nações e, por conseguinte, desses mesmos mass media que ela deveria educar e evangelizar);
> A vulgarização do culto é necessária para a Igreja alcançar um número maior de fiéis (corolário de várias frases do livro);
> A elite intelectual católica deve conformar-se com essa situação e abandonar as formas eruditas do culto a Deus e da teologia, pelo mesmo motivo aludido no tópico anterior;
> Gilson cita favoravelmente a tese (do mesmo matiz socialista que gerou a teologia da libertação) de que “a nova sociedade é uma sociedade de massas precisamente no sentido de que a massa da população foi [enfim] incorporada à sociedade”);
> Os [benéficos] esforços do ecumenismo têm por objetivo fazer com que a sociedade, que é virtualmente de massas, se torne uma sociedade tal atualmente.

Quem escreveu essas coisas foi um intelectual do porte do Étienne Gilson, que como teórico da cultura e da política se mostra muitíssimo aquém do estudioso da filosofia medieval que tanto sucesso fez. Lendo as idéias desse seu livro outonal, somos levados a indagar: quem nos livrará da fúria das massas, que agora começam a impor ao mundo — com uma tirania inaudita e manipuladas por ONGs e por sociedades secretas — o ecumenismo, leis em favor do aborto, do “casamento” entre homossexuais, do uso das células-tronco embrionárias, etc.?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Kant e uma palavra sobre o argumento “ad hominem”



Sidney Silveira
Um dos textos recentes do blog suscitou, aqui e ali, comentários de pessoas que ficaram magoadinhas por eu ter usado contra o pobre Kant, segundo elas, o argumento ad hominem. Antes de tudo, vale dizer que, no breve escrito de que se trata, apenas tomei o filósofo de Königsberg como exemplo de espírito orgulhoso e irreligioso, e nada do que disse ali foi para impugnar a sua filosofia — mas tão-somente para ilustrar algo arquetípico: orgulho e religião são contraditórios e, portanto, autoexcludentes.


Pois muito bem: acerca dos erros da gnosiologia de Kant, e de suas tremendas conseqüências para a história da filosofia, muitos pensadores de escol já falaram à exaustão; esses equívocos estão arqui-refutados. A sua “incognoscibilidade da coisa em si” embute uma petitio principii primária para qualquer estudioso sério (do mesmo modo que o Cogito de Descartes). Entre os católicos, indico apenas Octavio Derisi, Cornelio Fabro, Louis Jougnet e Étienne Gilson, que escreveram textos lapidares sobre os erros fundamentais de Kant. Para o Gilson de Réalisme thomiste et critique de la connaissance, por exemplo, a filosofia de Kant deve ser analisada “à luz do patológico”. E ele não deixa de estar certo, pois a obra de Kant começa a ruir em sua louca suposição de que todos os conceitos universais estão fundados em formas a priori que, acrescentadas à experiência, dão origem aos juízos ou conceitos sintéticos a priori. Não me alongarei sobre isto porque o assunto, aqui, é outro. Indico a leitura de Filosofía Moderna y Filosofía Tomista, de Octavio Derisi, onde há uma longa exposição (e posterior refutação) de todos os princípios do criticismo kantiano.


Dito isto, vale consignar umas linhas sobre o argumento ad hominem. Os modernos tratados de lógica ou de retórica nos mostram que há vários tipos de raciocínio ou argumentação encontráveis tanto no discurso filosófico como no jurídico:


Argumento per absurdum
Argumento a contrario
Argumento a simili
Argumento a completudine
Argumento a fortiori
Argumento a coherentia
Argumento ab exemplo
Argumento ad rem
Argumento ab auctoritate
Etc.

Entre eles está o tão detratado argumento ad hominem. Comecemos observando que, como ensina Chäim Perelman no clássico Tratado da Argumentação, os raciocínios ad hominem stricto sensu em geral são considerados pseudo-argumentos. Schopenhauer, por exemplo, os chamará de artificiosos, talvez por acreditar que toda argumentação deva dirigir-se, in primis, a um auditório universal. Mas, como o próprio Perelman frisa, e com muito acerto, não há nada de ilegítimo nesse modo de proceder, desde que as premissas se movam no âmbito da argumentação e mostrem uma contradição fundamental do interlocutor com as premissas de que parte, ou, então, a impossibilidade de que tais premissas sejam válidas no contexto do problema que está sendo abordado.

Antes de tudo, ainda seguindo a Perelman neste ponto, é fundamental não confundir duas coisas: o argumento ad hominem e o argumento ad personam. Este último visa pura e simplesmente a desqualificar o adversário, a atacar a sua pessoa. E também não devemos identificar o argumento ad hominem com a petição de princípio que, neste caso, implica a sua utilização indevida. A propósito da petitio principii, vale ler o que diz dela Aristóteles nos Analíticos Primeiros e nos Tópicos. Mas, ainda aqui, é preciso apontar que não se trata propriamente de um erro de lógica, mas sim de retórica — de técnica argumentativa: dar por pressuposto justamente aquilo que se quer provar.

Um exemplo do mau uso do argumento ad hominem é utilizado em diferentes manuais, e acontece quando se coloca em dúvida a validade do argumento ou da opinião do adversário aduzindo como “prova” ou como apoio, apenas, um fato de sua vida.

Fulano diz que fumar não faz mal à saúde.
Ora, esse fulano é dono de uma fábrica de tabaco.
Logo, ele está falando em seu próprio benefício.

Aqui, a conclusão é literalmente um julgamento de intenção que não decorre da associação entre as premissas. Mas agora vejamos um exemplo de argumento ad hominem não falacioso.

Pedro diz que a sodomia pode ser praticada, sem problemas, entre padres ou pessoas consagradas.
Ora, Pedro é católico.
Logo, é um péssimo católico.

Aqui, o argumento ad hominem é totalmente aplicável, pois Pedro, sendo católico, não poderia apoiar tal idéia, sabendo que, de acordo com a Igreja, a sodomia é um pecado que clama aos céus. Mas concedamos per absurdum que ele não soubesse tratar-se de pecado, e ainda assim o argumento seria válido e levaria à mesma conclusão, pois é óbvio que, como católico, Pedro deveria saber disto. Algo semelhante acontece no seguinte exemplo, extraído da Lógica Informal de Douglas Walton:

George diz que os serviços postais não são confiáveis, e, por isso, uma empresa privada deve oferecê-los em lugar do governo.
Ora, George é um ferrenho comunista.
Logo, não poderia defender tal idéia.

Como se vê, há vários casos em que o argumento ad hominem é válido — embora possa ser mais ou menos contestado. Não o confundamos, pois, com o argumento ad personam ou com um determinado tipo de petitio principiis que faz uso de algo a respeito da pessoa para desqualificá-la.

Feitos estes esclarecimentos, fica evidente que, no texto aludido, em momento algum usei o argumento ad hominem contra Kant, no sentido de desqualificar com ele a sua obra, mas apenas ilustrei com fatos de sua biografia o arquétipo do sujeito irreligioso (ou, no caso do filósofo de Königsberg, religioso apenas por analogia de atribuição extrínseca). Os erros de sua obra e as conseqüências que deles decorrem são outro assunto...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Aonde leva a liberdade liberal



Sidney Silveira

SANTO TOMÁS (SUMA TEOLÓGICA, III, Q. 8, a. 7, resp.)

“É próprio do governante conduzir ao fim os governados por ele. [Ora], o fim do demônio é afastar de Deus a criatura racional; por isso ele tentou desde o começo apartar o homem da obediência ao preceito divino (Gn. III). Mas tal separação de Deus tem razão de fim enquanto se apetece sob o pretexto de liberdade (grifo nosso!), de acordo com as palavras de Jeremias (II, 20): ‘Há muito tempo rompeste o jugo e quebraste os laços. Disseste, então: Não servirei (non serviam)’. Por conseguinte, quando ao pecar alguns são arrastados a esse fim, caem sob o domínio e governo do diabo (sub Diaboli regimine et governatione cadunt)”.

Estas palavras de Santo Tomás na Suma mostram aonde leva o desejo — genuinamente liberal — de amar a liberdade como um fim buscável em si, sem nenhum vínculo com a Lei Eterna ou, na melhor das hipóteses, com um vínculo meramente acidental, como se a escolha objetiva dos bens que levam à Pátria Celeste dependesse mais da experiência acumulada pelos indivíduos que do seguimento dos preceitos e conselhos contidos na Sagrada Escritura, da Graça e da freqüentação dos sacramentos — que são signos sensíveis da Graça e, como se dizia antigamente, causam o que significam.

O liberalismo, em qualquer um dos seus tópicos, implica esse giro antropocêntrico que culmina na exaltação da liberdade como um fim em si, ou como o valor dos valores.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Orgulho e irreligião


Sidney Silveira
Existem obstáculos de ordem intelectual e de ordem moral para a fé viscejar na alma de alguém. Com relação aos primeiros, vale indagar: de que maneira um espírito pode aderir ao conjunto das verdades da fé, se não tem o vislumbre racional dos liames que dão a ela o seu sentido de unidade? Muitas vezes, a ignorância religiosa acontece pelo viés de uma cultura filosófica que, não obstante a sua sofisticação, envolve num círculo de sombras inexpugnáveis a capacidade da inteligência de captar as evidências fundamentais que são a base dos chamados preambula fidei. E aqui vale recorrer ao que diz Platão: “Não é a ignorância das multidões a mais perigosa, nem a mais temível, nem o maior dos males. Haver estudado muito e aprendido com métodos viciosos, eis um mal maior”. (Leis, 818s).

Esses obstáculos de ordem intelectual vêm conjuntamente com os de ordem moral, pois ignorância culpável e orgulho são como irmãos siameses. Vejamos o caso de Kant, por exemplo. A sua tentativa de enquadrar a religião nos limites da “razão pura”, tão pretensiosa quanto equivocada, provinha de uma ignorância com relação ao próprio cristianismo. Sabemos por seus principais biógrafos que o jovem Immanuel recebeu a formação religiosa no Fridericianum, uma escola dirigida pelo mais influente professor de Königsberg — lugar onde se mesclavam de forma indiscernível luteranos, pietistas e reformados. Ali, o cristianismo era empobrecido de suas riquezas espirituais e doutrinais, e não devemos culpar de todo a Kant por ter perdido totalmente a piedade, num ambiente desses.

Como nos lembra Leonel Franca no seu A Psicologia da Fé, mais tarde o maduro Kant chamará de imoral à prece; de perversão à disciplina ascética; de idolatria à invocação dos méritos de Cristo. A propósito, no Fridericianum Kant declarava abertamente não suportar a oração dos seus convivas antes das refeições, e, certa vez, pediu ao diretor da cadeia de Konigsberg que mandasse calar aos presos “hipócritas” que entoavam cânticos religiosos... Essa atitude irreligiosa de Kant era alimentada pelas graves lacunas de sua formação cristã. Sabemos hoje com certeza que, ao contrário de Leibniz, Kant jamais leu sequer uma linha de Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho ou até mesmo Suárez, e em sua pobre biblioteca não se encontraram tratados de dogmática, antigos ou recentes, e nem de ascética ou mística.

Essa ignorância ilustrada, como sói acontecer, era alimentada por um orgulho imenso. Como sabemos pelo biógrafo J. H. W. Stuckenberg, autor de uma hoje clássica biografia de Kant, o filósofo era tenacíssimo em suas opiniões. Citando esta e outras fontes, diz Leonel Franca:

“Dizia Kant que a vacina era ineficaz e só poderia bestializar o homem; que o ‘fartum dos negros’ provinha do “sangue deflogisticado pela pele”; que a cor dos pele-vermelhas era causada pela “vizinhança dos mares glaciais”. E se alguma evidência dos fatos lhe infligia um desmentido doloroso às suas previsões, recusava a desdizer-se. Em 1798, por exemplo, anunciara que Napoleão iria a Portugal e não ao Egito, e, quando as notícias o contradisseram, Kant não voltou atrás. Ao seu dogmatismo apriorista devia curvar-se até a materialidade incontestável dos fatos. Não suportava que alguém, em conversa, parecesse estar melhor informado ou conhecer mais um assunto do que ele. O conde de Purgstall, de Viena, fez a peregrinação a Königsberg e, contando as suas impressões, diz que o filósofo perdia a paciência quando alguém mostrava conhecer melhor do que ele qualquer assunto. Então, monopolizava a conversa e declarava não ignorar nada de outros países. ‘Pretendia saber melhor que eu’, continua Purgstall, ‘que espécie de aves tínhamos na Áustria, qual o espírito do país, o nível de cultura dos sacerdotes católicos, etc’.

A deformação intelectual e moral que impede formalmente a humana adesão às verdades de fé é hoje alimentada por filósofos liberais (muito piores, em certo sentido, do que Kant, Voltaire, Nietzsche, etc.), que, opinando sobre as coisas da Igreja, mesclam algumas verdades colaterais com erros e mentiras tão grosseiros, que os pobres que acreditam em sua ladainha com ares de alta filosofia acabam com as almas mutiladas, incapacitados para dizer “sim” à Verdade revelada. Religião, Política e Moral , na visão desses liberais, são compartimentos estanques da vida humana, na exata medida em que são para eles uma “conquista” das consciências individuais autônomas, expressão para lá de equívoca com a qual incutem o non serviam na alma dos seus míseros seguidores e alunos.

Há um vínculo da causalidade psicológica que une dois fenômenos: orgulho e irreligião. Tal vínculo é mais facilmente perceptível nos homens dedicados ao estudo da filosofia, mesmo quando posam de cristãos. Por trás de sua heterodoxia — com aparência de ortodoxia — há uma gota da baba de Caim.

Voltaremos ao tema.

domingo, 17 de janeiro de 2010

"TV" Contra Impugnantes: o efeito comum de uma série de causas essencialmente ordenadas

Sidney Silveira
Um exemplo do Padre Leonel Franca, retirado de um dos seus escritos sobre a prova da existência de Deus, serviu-me como exemplo do que significa ser o efeito comum para uma série de causas essencialmente (per se) ordenadas. Essas pequenas pérolas sempre me levam a dar graças a Deus pela maravilha da Criação.

sábado, 16 de janeiro de 2010

"TV" Contra Impugnantes: Sacra Doctrina

Sidney Silveira
Veja-se aqui mais um trecho de aula na "TV" Contra Impugnantes, em que se aborda a distinção entre Teologia Natural e Sacra Doctrina.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O dilema de São Bernardo


Sidney Silveira
Num estupendo Sermão, propõe-nos São Bernardo uma espécie de dilema: ou Cristo se engana, ou o mundo erra; ora, é impossível que a sabedoria divina se engane (Sermo III, De Natividade Domini, nº 1). Concluamos nós: Ergo mundus errat. O grande abade cisterciense referia-se ali aos costumes do mundo, às idéias do mundo, às modas do mundo, às atrações do mundo, às ocasiões propiciadas pelo mundo, ao gozo do mundo, aos respeitos humanos do mundo, à política do mundo. Quanto mais nos engolfamos nestas coisas todas sem a luz da sabedoria divina a guiar-nos, tanto mais nos afastamos de Deus decisivamente. E nos lembra São Bernardo a máxima evangélica proclamada da boca do Salvador: Vos estis lux mundi (Mt. V, 14), a qual devemos ter sempre no horizonte, toda vez que o mundo nos solicita. E quantas vezes, ai de nós, nos deixamos levar pelas superfluidades do mundo, pelos respeitos humanos, e colocamos culpavelmente de lado esse ensinamento do Cristo?


Hoje em dia, mais do que em qualquer outra época, cumprir essa vocação iluminadora torna-se algo supinamente heróico, quase impossível. E isto tem uma razão principal: a descatolicização do mundo (e conseqüente declínio civilizacional) está na exata proporção da invasão do pior do mundo em nossas vidas e, sobretudo, na vida da Igreja em todos os seus níveis hierárquicos e em quase todas as ordens religiosas. A resultante dessa monstruosa conspurcação mundana é uma calamidade: sacerdotes indignos do múnus divino que lhes foi confiado; confederações nacionais de bispos inteiras frontalmente desobedientes ao Papa em questões as mais ordinárias, sejam litúrgicas, pastorais, doutrinais ou teológicas; Magistério não vinculante em todos os níveis (pois se propõe como mero diálogo, e não como um ensinamento advindo de fonte superior, divina); dogmas contrariados como se nada fossem; liturgia aberta aos mais díspares e aberrantes experimentalismos, sob o olhar complacente das autoridades eclesiásticas; padres que, como já avisara Nossa Senhora em La Sallete, são verdadeiras cloacas de impureza; leigos omissos ou totalmente desconhecedores do elementar da doutrina, que a propósito qualquer criança leitora do Catecismo de São Pio X trazia na ponta da língua; liberais infiltrados em todas as fileiras da Santa Igreja, a começar por organizações de leigos católicos sutilmente anticlericalistas; homossexualismo crescente entre pessoas consagradas — uma blitzkrieg do mundo profano e laicista sobre a sagrada doutrina e os costumes da vida social, que sempre foram custodiados (por delegação divina) pela Mestra das Nações que é a Igreja. “Ide, pois, e ensinai a todas as Nações” (Mt. XXVIII, 19), ordenou o Nosso Senhor.


A sabedoria divina parece expurgada do mundo e, por esta simples razão, o mundo cai vertiginosamente. E a sua restauração — se é que este é o desígnio de Deus para o nosso louco tempo —, ao contrário do que pregam os liberais, não pode dar-se no terreno político, pois este é adventício, subordinado e inferior ao poder espiritual, desde que este último não deponha a autoridade que lhe foi participada, deixando de ensinar ao mundo a Verdade revelada, pois o carisma magisterial depende, entre outras coisas, da expressa vontade de ser exercido por aqueles que o receberam de Cristo. Por tudo isso, quando vejo católicos unidos ou (o que é pior!) teleguiados por pseudopensadores liberais que lhes querem convencer de que a resolução da caótica situação do mundo atual se dará pela ação política ou pela cultura — desvinculada da sombra benévola e beatificante do Evangelho, com os seus preceitos e conselhos —, sinto um misto de pena e raiva. Pena dos que aderem a tais encantadores de serpente, verdadeiros proxenetas filosóficos, por ignorância quase invencível; raiva dos que o fazem conhecendo o suficiente da doutrina e da história esplendorosa da Igreja para saber que tais associações com esses liberais, em mil atividades, implicam grave pecado contra o Espírito Santo, pecado crescentemente difundido a jovens que são cooptados para grupos leigos cuja catolicidade é orientada, primordialmente, para o seu próprio crescimento no mundo.


O neopaganismo hoje infiltrado na Igreja, e que já fora denunciado e condenado sob o nome de “modernismo” por São Pio X na Pascendi, é muitíssimo pior do que o paganismo da Antiguidade, pois este último pelo menos trazia intacto o senso comum. Platão, por exemplo, nos ensinara com o seu método alegórico e dialético que a sabedoria não anda pari passu com as turbulências mundanas, pois o filósofo, o amigo da sabedoria, é um contemplador dos espetáculos olímpicos. Alguém que dá um passo atrás para não se envolver de todo na azáfama, no burburinho, no açodamento tão típicos das pessoas mundanas, e tão contaminador das almas.


Os dados da realidade não são de molde a nos incutir nenhum cego otimismo, mas uma coisa pode servir-nos como critério seguro: a Igreja, neste momento de suma confusão doutrinal, precisa como nunca dos fiéis tradicionais, dos padres tradicionais, das pessoas que, entregando-se a Deus, busquem verdadeiramente a santidade, sabendo-a possível não por seus próprios méritos, mas pela Graça gratis data. E também de uma intelectualidade católica solidamente formada no melhor da filosofia e da teologia, para dar resposta aos erros predominantes em nosso tempo, tão contrários ao Evangelho. Uma intelectualidade que traga consigo, como uma espécie de insígnia, aquele raciocínio disjuntivo de São Bernardo, corifeu da Ordem Cisterciense: ou Cristo se engana, ou o mundo erra; ora, é impossível que a sabedoria divina se engane; logo...