terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Aonde leva a liberdade liberal



Sidney Silveira

SANTO TOMÁS (SUMA TEOLÓGICA, III, Q. 8, a. 7, resp.)

“É próprio do governante conduzir ao fim os governados por ele. [Ora], o fim do demônio é afastar de Deus a criatura racional; por isso ele tentou desde o começo apartar o homem da obediência ao preceito divino (Gn. III). Mas tal separação de Deus tem razão de fim enquanto se apetece sob o pretexto de liberdade (grifo nosso!), de acordo com as palavras de Jeremias (II, 20): ‘Há muito tempo rompeste o jugo e quebraste os laços. Disseste, então: Não servirei (non serviam)’. Por conseguinte, quando ao pecar alguns são arrastados a esse fim, caem sob o domínio e governo do diabo (sub Diaboli regimine et governatione cadunt)”.

Estas palavras de Santo Tomás na Suma mostram aonde leva o desejo — genuinamente liberal — de amar a liberdade como um fim buscável em si, sem nenhum vínculo com a Lei Eterna ou, na melhor das hipóteses, com um vínculo meramente acidental, como se a escolha objetiva dos bens que levam à Pátria Celeste dependesse mais da experiência acumulada pelos indivíduos que do seguimento dos preceitos e conselhos contidos na Sagrada Escritura, da Graça e da freqüentação dos sacramentos — que são signos sensíveis da Graça e, como se dizia antigamente, causam o que significam.

O liberalismo, em qualquer um dos seus tópicos, implica esse giro antropocêntrico que culmina na exaltação da liberdade como um fim em si, ou como o valor dos valores.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Orgulho e irreligião


Sidney Silveira
Existem obstáculos de ordem intelectual e de ordem moral para a fé viscejar na alma de alguém. Com relação aos primeiros, vale indagar: de que maneira um espírito pode aderir ao conjunto das verdades da fé, se não tem o vislumbre racional dos liames que dão a ela o seu sentido de unidade? Muitas vezes, a ignorância religiosa acontece pelo viés de uma cultura filosófica que, não obstante a sua sofisticação, envolve num círculo de sombras inexpugnáveis a capacidade da inteligência de captar as evidências fundamentais que são a base dos chamados preambula fidei. E aqui vale recorrer ao que diz Platão: “Não é a ignorância das multidões a mais perigosa, nem a mais temível, nem o maior dos males. Haver estudado muito e aprendido com métodos viciosos, eis um mal maior”. (Leis, 818s).

Esses obstáculos de ordem intelectual vêm conjuntamente com os de ordem moral, pois ignorância culpável e orgulho são como irmãos siameses. Vejamos o caso de Kant, por exemplo. A sua tentativa de enquadrar a religião nos limites da “razão pura”, tão pretensiosa quanto equivocada, provinha de uma ignorância com relação ao próprio cristianismo. Sabemos por seus principais biógrafos que o jovem Immanuel recebeu a formação religiosa no Fridericianum, uma escola dirigida pelo mais influente professor de Königsberg — lugar onde se mesclavam de forma indiscernível luteranos, pietistas e reformados. Ali, o cristianismo era empobrecido de suas riquezas espirituais e doutrinais, e não devemos culpar de todo a Kant por ter perdido totalmente a piedade, num ambiente desses.

Como nos lembra Leonel Franca no seu A Psicologia da Fé, mais tarde o maduro Kant chamará de imoral à prece; de perversão à disciplina ascética; de idolatria à invocação dos méritos de Cristo. A propósito, no Fridericianum Kant declarava abertamente não suportar a oração dos seus convivas antes das refeições, e, certa vez, pediu ao diretor da cadeia de Konigsberg que mandasse calar aos presos “hipócritas” que entoavam cânticos religiosos... Essa atitude irreligiosa de Kant era alimentada pelas graves lacunas de sua formação cristã. Sabemos hoje com certeza que, ao contrário de Leibniz, Kant jamais leu sequer uma linha de Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho ou até mesmo Suárez, e em sua pobre biblioteca não se encontraram tratados de dogmática, antigos ou recentes, e nem de ascética ou mística.

Essa ignorância ilustrada, como sói acontecer, era alimentada por um orgulho imenso. Como sabemos pelo biógrafo J. H. W. Stuckenberg, autor de uma hoje clássica biografia de Kant, o filósofo era tenacíssimo em suas opiniões. Citando esta e outras fontes, diz Leonel Franca:

“Dizia Kant que a vacina era ineficaz e só poderia bestializar o homem; que o ‘fartum dos negros’ provinha do “sangue deflogisticado pela pele”; que a cor dos pele-vermelhas era causada pela “vizinhança dos mares glaciais”. E se alguma evidência dos fatos lhe infligia um desmentido doloroso às suas previsões, recusava a desdizer-se. Em 1798, por exemplo, anunciara que Napoleão iria a Portugal e não ao Egito, e, quando as notícias o contradisseram, Kant não voltou atrás. Ao seu dogmatismo apriorista devia curvar-se até a materialidade incontestável dos fatos. Não suportava que alguém, em conversa, parecesse estar melhor informado ou conhecer mais um assunto do que ele. O conde de Purgstall, de Viena, fez a peregrinação a Königsberg e, contando as suas impressões, diz que o filósofo perdia a paciência quando alguém mostrava conhecer melhor do que ele qualquer assunto. Então, monopolizava a conversa e declarava não ignorar nada de outros países. ‘Pretendia saber melhor que eu’, continua Purgstall, ‘que espécie de aves tínhamos na Áustria, qual o espírito do país, o nível de cultura dos sacerdotes católicos, etc’.

A deformação intelectual e moral que impede formalmente a humana adesão às verdades de fé é hoje alimentada por filósofos liberais (muito piores, em certo sentido, do que Kant, Voltaire, Nietzsche, etc.), que, opinando sobre as coisas da Igreja, mesclam algumas verdades colaterais com erros e mentiras tão grosseiros, que os pobres que acreditam em sua ladainha com ares de alta filosofia acabam com as almas mutiladas, incapacitados para dizer “sim” à Verdade revelada. Religião, Política e Moral , na visão desses liberais, são compartimentos estanques da vida humana, na exata medida em que são para eles uma “conquista” das consciências individuais autônomas, expressão para lá de equívoca com a qual incutem o non serviam na alma dos seus míseros seguidores e alunos.

Há um vínculo da causalidade psicológica que une dois fenômenos: orgulho e irreligião. Tal vínculo é mais facilmente perceptível nos homens dedicados ao estudo da filosofia, mesmo quando posam de cristãos. Por trás de sua heterodoxia — com aparência de ortodoxia — há uma gota da baba de Caim.

Voltaremos ao tema.

domingo, 17 de janeiro de 2010

"TV" Contra Impugnantes: o efeito comum de uma série de causas essencialmente ordenadas

Sidney Silveira
Um exemplo do Padre Leonel Franca, retirado de um dos seus escritos sobre a prova da existência de Deus, serviu-me como exemplo do que significa ser o efeito comum para uma série de causas essencialmente (per se) ordenadas. Essas pequenas pérolas sempre me levam a dar graças a Deus pela maravilha da Criação.

sábado, 16 de janeiro de 2010

"TV" Contra Impugnantes: Sacra Doctrina

Sidney Silveira
Veja-se aqui mais um trecho de aula na "TV" Contra Impugnantes, em que se aborda a distinção entre Teologia Natural e Sacra Doctrina.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O dilema de São Bernardo


Sidney Silveira
Num estupendo Sermão, propõe-nos São Bernardo uma espécie de dilema: ou Cristo se engana, ou o mundo erra; ora, é impossível que a sabedoria divina se engane (Sermo III, De Natividade Domini, nº 1). Concluamos nós: Ergo mundus errat. O grande abade cisterciense referia-se ali aos costumes do mundo, às idéias do mundo, às modas do mundo, às atrações do mundo, às ocasiões propiciadas pelo mundo, ao gozo do mundo, aos respeitos humanos do mundo, à política do mundo. Quanto mais nos engolfamos nestas coisas todas sem a luz da sabedoria divina a guiar-nos, tanto mais nos afastamos de Deus decisivamente. E nos lembra São Bernardo a máxima evangélica proclamada da boca do Salvador: Vos estis lux mundi (Mt. V, 14), a qual devemos ter sempre no horizonte, toda vez que o mundo nos solicita. E quantas vezes, ai de nós, nos deixamos levar pelas superfluidades do mundo, pelos respeitos humanos, e colocamos culpavelmente de lado esse ensinamento do Cristo?


Hoje em dia, mais do que em qualquer outra época, cumprir essa vocação iluminadora torna-se algo supinamente heróico, quase impossível. E isto tem uma razão principal: a descatolicização do mundo (e conseqüente declínio civilizacional) está na exata proporção da invasão do pior do mundo em nossas vidas e, sobretudo, na vida da Igreja em todos os seus níveis hierárquicos e em quase todas as ordens religiosas. A resultante dessa monstruosa conspurcação mundana é uma calamidade: sacerdotes indignos do múnus divino que lhes foi confiado; confederações nacionais de bispos inteiras frontalmente desobedientes ao Papa em questões as mais ordinárias, sejam litúrgicas, pastorais, doutrinais ou teológicas; Magistério não vinculante em todos os níveis (pois se propõe como mero diálogo, e não como um ensinamento advindo de fonte superior, divina); dogmas contrariados como se nada fossem; liturgia aberta aos mais díspares e aberrantes experimentalismos, sob o olhar complacente das autoridades eclesiásticas; padres que, como já avisara Nossa Senhora em La Sallete, são verdadeiras cloacas de impureza; leigos omissos ou totalmente desconhecedores do elementar da doutrina, que a propósito qualquer criança leitora do Catecismo de São Pio X trazia na ponta da língua; liberais infiltrados em todas as fileiras da Santa Igreja, a começar por organizações de leigos católicos sutilmente anticlericalistas; homossexualismo crescente entre pessoas consagradas — uma blitzkrieg do mundo profano e laicista sobre a sagrada doutrina e os costumes da vida social, que sempre foram custodiados (por delegação divina) pela Mestra das Nações que é a Igreja. “Ide, pois, e ensinai a todas as Nações” (Mt. XXVIII, 19), ordenou o Nosso Senhor.


A sabedoria divina parece expurgada do mundo e, por esta simples razão, o mundo cai vertiginosamente. E a sua restauração — se é que este é o desígnio de Deus para o nosso louco tempo —, ao contrário do que pregam os liberais, não pode dar-se no terreno político, pois este é adventício, subordinado e inferior ao poder espiritual, desde que este último não deponha a autoridade que lhe foi participada, deixando de ensinar ao mundo a Verdade revelada, pois o carisma magisterial depende, entre outras coisas, da expressa vontade de ser exercido por aqueles que o receberam de Cristo. Por tudo isso, quando vejo católicos unidos ou (o que é pior!) teleguiados por pseudopensadores liberais que lhes querem convencer de que a resolução da caótica situação do mundo atual se dará pela ação política ou pela cultura — desvinculada da sombra benévola e beatificante do Evangelho, com os seus preceitos e conselhos —, sinto um misto de pena e raiva. Pena dos que aderem a tais encantadores de serpente, verdadeiros proxenetas filosóficos, por ignorância quase invencível; raiva dos que o fazem conhecendo o suficiente da doutrina e da história esplendorosa da Igreja para saber que tais associações com esses liberais, em mil atividades, implicam grave pecado contra o Espírito Santo, pecado crescentemente difundido a jovens que são cooptados para grupos leigos cuja catolicidade é orientada, primordialmente, para o seu próprio crescimento no mundo.


O neopaganismo hoje infiltrado na Igreja, e que já fora denunciado e condenado sob o nome de “modernismo” por São Pio X na Pascendi, é muitíssimo pior do que o paganismo da Antiguidade, pois este último pelo menos trazia intacto o senso comum. Platão, por exemplo, nos ensinara com o seu método alegórico e dialético que a sabedoria não anda pari passu com as turbulências mundanas, pois o filósofo, o amigo da sabedoria, é um contemplador dos espetáculos olímpicos. Alguém que dá um passo atrás para não se envolver de todo na azáfama, no burburinho, no açodamento tão típicos das pessoas mundanas, e tão contaminador das almas.


Os dados da realidade não são de molde a nos incutir nenhum cego otimismo, mas uma coisa pode servir-nos como critério seguro: a Igreja, neste momento de suma confusão doutrinal, precisa como nunca dos fiéis tradicionais, dos padres tradicionais, das pessoas que, entregando-se a Deus, busquem verdadeiramente a santidade, sabendo-a possível não por seus próprios méritos, mas pela Graça gratis data. E também de uma intelectualidade católica solidamente formada no melhor da filosofia e da teologia, para dar resposta aos erros predominantes em nosso tempo, tão contrários ao Evangelho. Uma intelectualidade que traga consigo, como uma espécie de insígnia, aquele raciocínio disjuntivo de São Bernardo, corifeu da Ordem Cisterciense: ou Cristo se engana, ou o mundo erra; ora, é impossível que a sabedoria divina se engane; logo...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Pequena advertência com relação ao texto de ontem

Sidney Silveira
Com relação ao texto publicado ontem no blog (Meandros do ignorância), cabe um pequeno esclarecimento.

Todos os nossos leitores estão carecas de saber que eu e o Nougué estamos totalmente afinados com a sólida posição doutrinal da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que não aceita as novidades introduzidas pelo Vaticano II e pelo Magistério pós-conciliar em todos os setores da vida cristã — sem cair no sedevacantismo. Portanto, ao citarmos autores que publicaram textos antes e depois do Concílio, às vezes é necessário fazer uma advertência, pois muitos intelectuais de boa formação não tiveram a clara visão, nos momentos imediatamente posteriores ao Concílio, da verdadeira revolução que acabaria por reduzir drasticamente o número de vocações sacerdotais, que abriria espaço para transformar a Missa em show (de péssimo gosto), reduziria a piedade, transformaria a castidade entre clérigos em um mito quase inalcançável (cada vez mais, fico sabendo de histórias tristes e gravíssimas), pulverizaria a noção de sobrenatural, introduziria o sensualismo no matrimônio, com a mudança da doutrina tradicional (pondo a “comunhão dos esposos” no mesmo plano da criação e educação da prole na vida cristã), traria o democratismo para o cume da Hierarquia, com o novo conceito de colegialidade, desceria o nível da formação nos Seminários a um ponto antes inimaginável, e, enfim, muitíssimas outras coisas sabidas por todos.

Um exemplo é o Padre Julio Menvielle, cujos escritos de antes e de depois do Concílio parecem obra de duas pessoas diferentes, tal a mudança de paradigma. E este é, também, o caso de Antonio Royo Marín, mencionado no texto de ontem. Na verdade, quando eu disse “autor de clássicos estupendos”, na verdade citei mal, pois, dos três livros mencionados apenas um (Teología Moral para Seglares, escrito por volta de 1955), pode-se dizer não contaminado por doutrinas ou idéias pós-conciliares. Os outros dois, embora mantenham posições tradicionais em vários tópicos da doutrina, deixam a desejar em muitos outros, como é o caso do também citado Espiritualidad de los Seglares, um verdadeiro híbrido.

Achei por bem fazer essa advertência, mesmo que com um dia de atraso, após reler trechos desses livros e ver entre eles, por exemplo, elogios descabidos ao dominicano ultramodernista Yves Congar, além de uma interpretação do Vaticano II indefensável, semelhante à dos conhecidos “hermeneutas da continuidade”...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Meandros da ignorância



Sidney Silveira
Os melhores tratadistas de moral nos ensinam que, para dar-se o ato propriamente humano, são necessárias algumas precondições, pois há, em diferentes ocasiões, impedimentos para tal ato realizar-se em sua plenitude. Um deles é a ignorância, definida como carência habitual de ciência em um sujeito capaz — ou ausência de um conhecimento que alguém poderia e deveria ter, dada a sua condição ou o seu ofício, mas que por negligência não adquiriu.

De acordo com Antonio Royo Marín, teólogo da Universidade de Salamanca em meados do século XX e autor do clássico Teología Moral para Seglares, a ignorância se distingue:

> Da necedade, que é a carência de conhecimentos mínimos obrigatórios. O néscio, na prática, mal sabe orientar-se à direita e à esquerda e, em geral, não tem culpa disto.
> Da inadvertência, que é a falta de atenção atual a uma coisa que, habitualmente, se conhece.
> Do esquecimento, que é a privação habitual ou atual de uma ciência que se possuiu anteriormente.
> Do erro, que é o juízo equivocado sobre a verdade de uma coisa.

E a ignorância, em geral, pode dividir-se em:

COM RELAÇÃO AO OBJETO


a) De direito. Aqui, trata-se da ignorância acerca da lei que manda ou proíbe algo.
b) De fato. É a ignorância de que tal ou qual ação está compreendida na lei que manda ou proíbe algo.

COM RELAÇÃO AO SUJEITO

a) Invencível. É aquela que não pode desvanecer-se no sujeito que a padece. Seja porque, por diferentes razões, de nenhuma maneira ele alcança removê-la (ignorância absolutamente invencível), seja porque ele tenta inúmeras vezes livrar-se dela, estudando, perscrutando, indagando de amigos, mas não consegue (ignorância moralmente invencível). Neste último caso se encontram alguns que a linguagem popular chama de burros, antas, asnos. A propósito, que eu saiba a história da filosofia ainda não nos legou uma Metafísica da Burrice — malgrado esta seja um fenômeno digno do estudo e da atenção do filósofo. Existem, de fato, pessoas obnubiladas, tapadas, quase misteriosamente idiotas.
b) Vencível. É a ignorância que se poderia desvanecer com um mínimo de esforço, pela reflexão e pelo estudo. Ela é subdividida por Royo Marín em simplesmente vencível (se se pôs em marcha uma diligência para superá-la, mas insuficiente ou incompleta); crassa ou supina, no caso em que o ignorante não fez nada, ou quase nada, para sair de sua situação; ou afetada, caso típico daqueles que não querem conferir as suas obrigações ou deveres simplesmente porque não pretendem cumpri-los.


COM RELAÇÃO À VONTADE

a) Antecedente. É a ignorância anterior ao ato realizado, de tal sorte que, tratando-se de um ato mau, levaria a pessoa a não praticá-lo. Neste sentido, a ignorância é uma espécie de causa acidental próxima da ação — a qual não se realizaria sem ela.
b) Concomitante. É a ignorância no ato que se realiza ou se quer realizar. Aqui, o que se ignora é a ilicitude da ação. Para muitos, neste casos estão consideradas as ações más que, mesmo sem a ignorância, se realizariam em virtude do ímpeto ou disposição de ânimo do sujeito.
c) Conseguinte. É a ignorância que resulta da voluntária negligência em averiguar a verdade. Se tal ignorância coincide com o desejo de não ver-se privado de realizar o ato (que se saberia ilícito, se o sujeito fizesse a menor investigação), ocorre conjuntamente com a ignorância afetada.

A ignorância, em todos esses casos, exerce um influxo decisivo sobre os atos humanos, que se realizam pela vontade informada pela inteligência. E é mais ou menos culpável na medida em que o sujeito está mais ou menos capacitado para sair dela — sobretudo se o seu ofício assim o exige. Apenas para ilustrar com um exemplo, certa vez um padre me disse que a Igreja não deveria mais fazer nenhum anátema, pois acarretaria grande publicidade para a obra proibida pela autoridade eclesiástica. Um livro obsceno ou com idéias errôneas que fosse formalmente condenado pela Igreja, de acordo com o sacerdote, teria uma enormíssima propaganda, ao que objetei respondendo o seguinte: a causa final do anátema, ou seja, a sua razão de ser, não é haver maior ou menor publicidade no mundo da obra condenada, mas defender a fé e proteger todo o Corpo Místico (sobretudo os simples fiéis) de doutrinas que põem em risco as suas vidas e, principalmente, as suas almas. Há poucos meses eu soube de um jovem culto que se suicidou e deixou um bilhete com alusão a uma tese de conhecido economista liberal, segundo a qual a nossa vida nos pertence e o corpo de cada um é propriedade particular — razão pela qual poderia dispor deles como bem entendesse. Fiquei muito impressionado com isso, pois é uma prova cabal de quão nefastas podem ser as obras que contêm graves e sutis erros. Noutra oportunidade, refutaremos essa tese liberal de que a nossa vida nos pertence, por (supostamente) ser propriedade nossa, mostrando que o termo “propriedade”, neste caso, é usado de forma absolutamente equívoca, e nada tem a ver com o “próprio” aristotélico — um dos cinco predicáveis.

Evidentemente, em diferentes graus somos todos ignorantes, como a propósito já nos ensinara Sócrates — que se dizia portador do maior e mais valioso conhecimento: só sabia que nada sabia. Mas não falamos aqui da ignorância a respeito de algo que não tenhamos obrigação de saber, e sim da ignorância culpável. E se é verdade o que diz Aristóteles na primeira frase de sua Metafísica (“O homem deseja, por natureza, conhecer”), ignorar o que devemos saber é defraudar, na raiz, a nossa natureza intelectivo-volitiva.

Baseado, pois, naquelas distinções iniciais, podemos dizer, com Royo Marín:

A ignorância invencível de direito desculpa perante Deus, mas não perante os homens. O motivo de desculpar perante Deus é que se trata de uma ignorância involuntária. E o motivo de não desculpar perante os homens é que a ignorância, em si, não retira toda a imputabilidade da ação, nem as suas conseqüências (muitas vezes drásticas).

A ignorância vencível é sempre culpável, em maior ou menor grau, de acordo com a negligência em averiguar a verdade. A razão da culpabilidade é que, neste caso, a ignorância é sempre voluntária. O homem se dá conta de sua ignorância e nada faz (ou faz pouco) para averiguar os seus deveres. Embora neste casos a ignorância reduza o grau de voluntariedade da ação — e por conseguinte seja menos culpável —, não a retira de todo.

A ignorância antecedente desculpa naquilo que se ignora. O que mata voluntariamente um homem ignorando que é sacerdote se torna réu de homicídio, mas não de sacrilégio pessoal.

A ignorância conseguinte nunca desculpa, embora diminua um pouco a malícia do ato. O advogado que prejudica o cliente por não ter estudado com diligência o caso, por exemplo.

Voltaremos ao tema.