terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Prestação de contas e pedido de apoio

Sidney Silveira
Em 2009, o Contra Impugnantes publicou exatos 225 textos, o que dá a média de um escrito a cada 1,6 dia. A “TV” Contra Impugnantes veiculou, ao longo de nove meses, 62 vídeos com trechos de aulas que abordavam algum aspecto do Tomismo, o que nos leva à média de um vídeo a cada 4,3 dias. Em 2008, em sete meses de atividade foram ao todo 164 textos — o que perfaz a média de um texto a cada 1,2 dia.

Revisitando esses textos e vídeos, observo que boa parte da filosofia e da teologia de Santo Tomás de Aquino foi abarcada, analisada, divulgada — em seus mais variados tópicos: metafísica, teodicéia, psicologia, antropologia, lógica, política, ética, moral, gnosiologia, escatologia, artes, economia, história, mística, hagiologia, Magistério da Igreja, história da filosofia, angelologia, etc. Tudo em geral remetido, referido, associado ao liberalismo maçônico que varreu o mundo depois da revolução francesa, e que, no âmbito do pensamento filosófico, encontra a sua fonte distante na decadência da escolástica, a partir de Duns Scot, com o seu voluntarismo desbragado que preanuncia o individualismo propugnado por nossos liberaiszões contemporâneos.

Neste período de um ano e meio, a Sétimo Selo publicou os seus três últimos livros: Atualidade do Tomismo (por sugestão de um amigo), Raimundo Lúlio e As Cruzadas e, com o apoio do Mosteiro da Santa Cruz e do recém-criado Instituto Angelicum, A Candeia Debaixo do Alqueire, do Padre Calderón, ora esgotado. Em breve, virão à luz o Protreptico, de Clemente de Alexandria, e uma obra de São Bernardo contra as heresias de Pedro Abelardo, ambas em edições bilíngües (grego/português e latim/português). Há outros livros "no forno", já traduzidos e com a apresentação pronta, mas para publicá-los precisaríamos de mais recursos.

Alguns cursos presenciais foram ministrados por mim e pelo Nougué, como o que durou quatro meses no Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB, no Centro do Rio, dois minicursos na Academia Brasileira de Filosofia – ABF, um breve curso de extensão numa Faculdade de Comunicação no Rio de Janeiro e, por fim, outro curso em uma empresa do setor elétrico brasileiro. Há um mês, o Nougué começou um curso de História da Filosofia pela internet, com vários inscritos, e, em breve, eu e outros professores tomistas seguiremos o mesmo caminho, com outras atividades pela internet das quais daremos notícia quando for o momento propício.

Como eu e o Nougué, para ganharmos o nosso suado pão de cada dia, nos dividimos em várias atividades profissionais que nos tomam o melhor do tempo, e ademais estivemos doentes em boa parte desse período (eu extraí um câncer e tornei-me um paciente de risco, graças a um problema cardíaco administrado por alguns remédios, e o Carlos teve tantos problemas de saúde que mais parecia um hospital ambulante, pobre homem), o fato é que precisamos de apoio para continuar prestando este serviço, realizando este apostolado num campo tão necessário, que é o da filosofia. E necessário porque os adversários da Igreja que hoje a infiltram, a parasitam, ou que, mesmo estando fora dela, posam de homens do espírito amantes da tradição eclesiástica, são organizados, têm financiadores (entre os quais se contam banqueiros e maçons), estratégia e fins bem delineados para a sua ação política. Difundem o pior das teorias liberais e, para combatê-los com um mínimo equilíbrio de forças, precisamos de ajuda.

E tal ajuda pode ser ou com a compra de uma maior quantidade de livros da Sétimo Selo, ou então por uma conta bancária do Instituto que, em breve, divulgarei para aqueles que desejarem ser benfeitores deste projeto de resgate do Tomismo e defesa da fé no terreno filosófico-teológico.

Com mais recursos, este trabalho terá muito maior alcance e produzirá frutos em maior quantidade, na forma de livros, cursos, seminários, etc.

Contamos com vocês em 2010.

domingo, 3 de janeiro de 2010

"TV" Contra Impugnantes: a lei eterna e a lei natural

Pietro de Cortona (O Triunfo da Divina Providência)


Sidney Silveira
Veja-se, aqui, um trecho de aula em que o Nougué expõe sinteticamente e com palavras simples (já que era uma palestra para iniciantes em filosofia) os conceitos de lei eterna e lei natural em Santo Tomás de Aquino. Biscoito fino.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Reflexos de um trabalho

Sidney Silveira
Eu soube muito recentemente que um grupo de leitores do blog criou uma comunidade Contra Impugnantes no orkut, aberta a não-membros, a qual tem o seguinte propósito, de acordo com Leonardo Brum — moderador do espaço: "Comunidade para reunir aqueles que se interessam pelo trabalho dos professores Carlos Nougué e Sidney Silveira, responsáveis pelos textos do blog Contra Impugnantes, dedicado à divulgação da obra de Santo Tomás de Aquino". Agradeço a Leonardo Brum, a quem não conheço pessoalmente, mas apenas por meio de uma breve troca de emails por ocasião da venda de um exemplar do extraordinário livro do Padre Álvaro Calderón (temporariamente esgotado). Foi ali, nessa página do orkut, que soube já estar disponível na internet, neste endereço, uma parte da palestra do Nougué sobre a Realeza Social de Nosso Senhor Jesus Cristo, proferida em Belo Horizonte e organizada pelos mantenedores do Index Bonorvm. Por fim, nesse mesmo dia eu soube que fora criado um blog do Grupo de Estudos Veritas, o qual, entre outros objetivos, tem o de divulgar o trabalho do Contra Impugnantes. Também agradeço aos criadores deste outro espaço, a quem não conheço.

Ocupar espaços na internet para difundir a doutrina católica e a filosofia deste gigante que foi Tomás de Aquino é sempre algo merecedor do nosso apoio. É sempre ocasião para, ainda que em modesta escala, louvar o que merece ser louvado.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Teologia Moral, ciência das ciências práticas

Santo Afonso de Ligório e a Theologia Moralis

Sidney Silveira
Santo Alberto Magno, em sua Suma Teológica, dizia com muito acerto que o nome não é outra coisa senão uma implícita definição; e a definição é, essencialmente, a explicação detalhada do nome. Nome e definição são, portanto, a matéria prima do filósofo, o insumo que lhe permite fazer as distinções necessárias por meio das quais entrará na posse imaterial da essência dos entes — posse esta a que, sem medo de errar, podemos chamar de verdade.

Ocorre que as pessoas não versadas em filosofia lidam com essa mesma matéria prima das palavras, pois também se vêem na contingência de dar mínimo sustentáculo racional às suas idéias, ou ao menos uma justificativa plausível, ainda que em aparência. Na prática, quanto mais precisas forem as definições que explicitam o sentido dos nomes (os quais — lembremos! — se referem direta ou indiretamente às coisas reais), maior será a clareza da inteligência para palmilhar os caminhos que levam às verdades fundamentais norteadoras da nossa vida prática.

A propósito, com relação à vida prática, a mais importante matéria a ser estudada é, sem dúvida, a Teologia Moral (por razões que veremos adiante). Trata-se da parte da Teologia que estuda os atos humanos em ordem ao fim sobrenatural de todas as criaturas: Deus. Em síntese, muito mais do que uma simples casuística dos pecados, como alguns liberais desencaminhadores de almas querem nos fazer crer, a Teologia Moral é o estudo dos modos pelos quais a criatura racional pode fazer o seu movimento ascensional a Deus. Sendo assim, a Teologia Moral é, antes de tudo, uma ciência das virtudes, um receituário dos costumes cristãos, com a indicação de remédios naturais e sobrenaturais para os desvios de curso que aviltam a inteligência e a vontade humanas.

Repito: não se trata de simples casuística, mas dos princípios universais balizadores da vida ética em seu sentido mais elevado, daí o fato de grandes Doutores da Igreja dizerem que o conhecimento desta matéria é absolutamente necessário para os sacerdotes, e utilíssimo para os fiéis. Portanto, quando ouço um liberalzão dizer que Santo Afonso de Ligório é rigorista, dando a entender que a Teologia Moral, em sentido lato, é uma desnecessidade (não sem antes, espertamente, tê-la reduzido a uma mera casuística), o sangue me queima nas veias, pois vejo o quanto um sujeito desses é capaz de afastar de Deus as pessoas que lhe dão trela. E afasta mesmo! Sobretudo aquelas almas que, de alguma forma, estão na Igreja ou aproximando-se dela, por um efeito narcótico que entorpece a inteligência e desvirtua os seus fins superiores — ao inocular nelas, por meio de ardis sofísticos, conceitos errôneos sobre temas de capital importância. Olha, pessoal, o que já li e ouvi desses liberais (alguns católicos, outros “evangélicos”) é de arrepiar. Por exemplo? Que castidade é apenas evitar o incesto. Que o ideal seria cada homem refazer, individualmente, por sua conta e risco, toda a moral. E por aí vamos, por Malebolge...

A importância extraordinária da Teologia Moral torna-se clara pela simples consideração do objeto desta ciência: os atos humanos em ordem ao fim último de todas as criaturas. E é neste sentido que acima se afirmou que ela é a mais importante matéria a ser estudada. Sim, pois se a verdadeira razão de ser de toda a nossa vida nesta Cidade dos Homens é nos encaminharmos à Cidade de Deus, à Pátria eterna, nenhuma ciência prática poderá ser mais importante do que a Teologia Moral.

Esta ciência tem como fontes principais a Sagrada Escritura, o Magistério da Igreja, a Tradição, os Santos Padres e o sensus fidei do povo cristão. E, de uma forma subsidiária, a segunda parte da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino — Doutor Universal da Igreja. Ali estão condensados todos os principais problemas de que trata a Teologia Moral. E, para termos idéia da importância do Aquinate, não custa remeter-nos ao que dizia Pio XI na Encíclica Studorum ducem, de 29 de junho de 1923: “E Nós, ao fazermos eco a este coro de elogios tributados àquele sublime gênio [de Santo Tomás], aprovamos não apenas que ele seja chamado de Angélico, mas também que se lhe dê o título de Doutor Universal, posto que a Igreja fez sua a doutrina dele (grifo nosso!), como se confirma por muitíssimos documentos”.

Os melhores tratados de Teologia Moral seguem, pois, aquela parte da Suma Teológica, abordando os temas na seguinte ordem:

O fim último do homem
Os atos humanos
A lei
A graça
As virtudes em geral
Os pecados em geral
Os deveres do homem para com Deus
(virtudes teologais infusas; religião; Decálogo; Mandamentos da Igreja)
Os deveres do homem consigo mesmo (virtudes cardeais)
Os deveres do homem para com o próximo (individuais, familiares e sociais)

A quem não tem acesso à maravilhosa Teologia Moral de Santo Afonso, indico a leitura da segunda parte da Suma Teológica, que está à mão de todos, em várias edições. Em certo sentido, essa parte é a mais importante da obra do Angélico, razão pela qual me entristece deveras ver tomistas que só se dedicam aos temas metafísicos desta grandiosa catedral da inteligência humana canonizada pela Igreja, que, como disse o mesmo Pio XI, em alocução ao Instituto Internacional Angelicum, em 1925, "é como o Céu visto da terra".

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Um Natal no mundo de hoje


Carlos Nougué
Como não só dou aula numa pós-graduação de tradução em sete capitais do país, mas comecei há pouco tempo a dar cursos via Internet ou pessoalmente sobre diversos temas (um “Trivium”, a alma humana, a história da filosofia, etc.), acabei por deixar, nos últimos meses deste ano, de escrever para o nosso blog. Com isso deixei inconclusas algumas séries, entre as quais uma, creio, acompanhada com algum interesse: a sobre o sedevacantismo.

Mas retomarei em 2010, com certo ritmo, a escrita para o “Contra Impugnantes”. Qual será precisamente esse ritmo, ainda não o sei. Sei apenas que, a par de terminar a série sobre o sedevacantismo, centrarei ainda meus esforços no tema a cidade e a história, no qual se inclui a arte; sem nunca deixar de estudá-lo com fundamento no metafísico. Mas especialmente não podemos Sidney e eu deixar de escrever para o “Contra Impugnantes” porque, em modesta escala e alcance, nosso blog se tornou em seu pouco tempo de existência uma referência na luta contra o liberalismo. Luta principalmente no terreno da doutrina, onde tentamos mostrar que decorre do liberalismo ― que não é senão uma manifestação do humanismo e do antropocentrismo ― grande parte dos males do mundo moderno: a redução da inteligência ao relativismo; o esmagamento do realismo aristotélico-tomista e o império de uma “filosofia” que não é senão uma espécie de psicopatologia; em termos sociais, um mundo em que de maneira complexa, e por vezes conflituosa, se mesclam a democracia liberal, o comunismo e o “é proibido proibir”, tendo por base as megacorporações internacionais, por meio o ataque à lei natural e a perversão dos costumes, e por escopo um governo mundial, que não pode ser senão a ante-sala do reino do Anticristo; e, no âmbito do religioso, o modernismo e o ecumenismo vaticano-segundo.

Pois bem, é neste mundo terrível, tenebroso, criminoso, apóstata e, por essência, satanista que passaremos o próximo Natal. Que, portanto, este dia em que se comemora algo tão especial e único ― o nascimento de Jesus Cristo ―, em torno do qual, de algum modo, giram os tempos passados e futuros, nos sirva também para reafirmar a convicção de que fora do reinado social de Nosso Senhor não há na cidade humana senão ruína e caminho para a morte perpétua ― assim como fora da Igreja não há salvação. A convicção de que é sobretudo neste momento, quando mais parece “impraticável” a realeza social de Cristo, que mais devemos arvorá-la, brandi-la, defendê-la, explicá-la ― não seja que de tanto a omitirmos acabemos nós mesmos por negá-la. A convicção inquebrantável de que ou se é livre sob as bandeiras do Rei do universo, ou se é servo sob o pavilhão de Satanás. Nihil est tertium.

Um santo e feliz Natal a todos, e um novo ano repleto de progressos espirituais, é o que lhes desejamos Sidney e eu.

Adendo do Sidney: Há uma frase num livro do Pde. Calderón que particularmente aprecio, e vem a propósito do que disse o Carlos: ou a Cidade está sob a sombra da lei do Evangelho, ou será pasto de demônios santarrões. Em suma: ou o poder público se dobra ao reinado de Cristo, ou será sempre o promotor, em diferentes níveis, do reinado sociopático do Anticristo. Recentemente, apenas para dar um exemplo, dentre inúmeros que eu poderia trazer à luz, o governo francês patrocinou a Hellfest (isto mesmo, senhores, a festa do inferno!), com apoio financeiro da vice-presidente do Conselho da Cultura da cidade de Loire. Em suma, com dinheiro público, alguns roqueiros — tendo à frente o satanista Marlyn Manson, autoproclamado "reverendo de Satanás" — produziram 15 horas de música de louvor ao inimigo do gênero humano. Cerca de 60 mil pessoas participaram do "festival". Enquanto isso, aqui no Brasil, o filme "Do começo ao fim" está sendo rodado e tem o seguinte enredo, de acordo com os seus produtores em entrevista à imprensa nesta semana: um menino de 6 anos (6 anos!!!!!) se sente fortemente atraído (sexualmente!) pelo irmão de 4. A relação homossexual incestuosa "do começo ao fim" se inicia na mais tenra infância e se concretiza na idade adulta. Possivelmente, a produção (como acontece em quase 100% de nossa "arte" cinematográfica tupiniquim) deve ter algum patrocínio da lei Rouanet. Ou seja: do dinheiro público proveniente dos impostos que pagamos. Nos próximos anos, amigos, o que veremos será simplesmente inominável; é dedução lógica, que parte da simples visão do atual estado de coisas.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Pode agora alguém ser anglicano e católico ao mesmo tempo?


Pe. Peter Scott, da FSSPX (tradução de Carlos Nougué)

A Constituição Apostólica de 4 de novembro do Papa Bento XVI abriu uma nova via para os anglicanos “serem recebidos, também corporativamente, na plena comunhão católica” (Anglicanorum coetibus). Trata-se de novo e revolucionário tratamento do problema dos “irmãos separados”, tratamento considerado por alguns o lance mais ousado da Igreja desde a Reforma.

A novidade aqui é que os anglicanos passam a ser tratados da mesma forma que os cismáticos ortodoxos orientais quando estes retornam à verdadeira Igreja. Ser-lhes-á permitido manter a identidade anglicana ao mesmo tempo que se tornam católicos. Serão canônica e liturgicamente diferentes do restante da Igreja Católica, e por conseguinte lhes será permitido ter suas próprias paróquias, bispos, padres casados, costumes litúrgicos e espirituais. Isso é normal para os cristãos de rito oriental que voltam do cisma para o seio da Igreja, pois sua liturgia, espiritualidade e tradições são antigas como as do rito latino. Além disso, são essencialmente cismáticos, e não hereges, sendo suas poucas heresias de origem recente e fáceis de corrigir (como a negação do purgatório, da Imaculada Conceição ou da infalibilidade papal).

Tal analogia é correta e justa? Um exame detido patenteia uma série de diferenças:

1) Há, antes de tudo, a motivação. A maioria dos que pedem entrada na Igreja Católica já se separou da “comunhão” anglicana, tal como ela é. E o faz não tanto por sua rejeição do mesmo anglicanismo, mas devido à nova orientação da igreja anglicana a partir de 1991, a qual abriu o sacerdócio e o episcopado a mulheres e homossexuais praticantes e abençoou uniões do mesmo sexo, coisas evidentemente opostas à Bíblia, princípio basilar do protestantismo.

2) A segunda e maior diferença é que o anglicanismo tem ordens inválidas e, por conseguinte, nenhum outro sacramento além do batismo e do matrimônio, diferentemente dos ortodoxos, cujos sete sacramentos são válidos.

3) Uma terceira diferença é que o anglicanismo, desde sua origem mesma, é de todo herético e protestante. Desde a época de Thomas Cranmer até os dias de hoje, todos os ministros anglicanos sempre adotaram as teorias de Lutero e outros reformadores protestantes. O anglicanismo é verdadeiramente uma forma de protestantismo, razão por que sempre aceitou a intercomunhão com todas as seitas protestantes. Se por um lado é verdade que o movimento de Oxford, em meados do século XIX, levou a um retorno a uma forma mais tradicional de espiritualidade, culto e piedade, isso porém não significou um renascimento do interesse pelos aspectos católicos do anglicanismo, pois estes nunca existiram. Foi uma descoberta de alguns dos tesouros da Igreja Católica. Não obstante, tais anglicanos da alta igreja, como passaram a ser conhecidos, não seguiram a conversão do Cardeal Newman, de 1845, mas optaram por permanecer anglicanos. Os anglicanos da alta igreja, assim, não tiveram coragem de se converter à verdadeira Igreja, precisamente como agora.

4) Uma quarta diferença e conseqüência do fato de o anglicanismo ser uma seita protestante é ele não ter nenhuma unidade nem autoridade doutrinal. Há tantos ramos do anglicanismo quantos anglicanos há. É larga a liberdade de ter as opiniões e condutas que mais lhes aprazam, de modo que cada um pode escolher sua prática religiosa por si mesmo.

5) Uma quinta diferença é o fato de o anglicanismo não ter a tradição espiritual e monástica dos ritos orientais. Foi o próprio fundador do anglicanismo, Henrique VIII, o responsável pela destruição de mil mosteiros na Inglaterra. Se no século passado se fez um pequeno esforço para formar algumas poucas comunidades religiosas, foi apenas por seguir o exemplo de alguma espiritualidade católica; não por se tratar de tradição anglicana.

6) Uma sexta diferença é que no anglicanismo não há uniformidade litúrgica alguma. Os livros de orações, completamente protestantes, pretenderam de 1549 e 1661 propiciar essa uniformidade, mas foram suplantados em anos recentes, e os anglicanos da alta igreja em grande parte os rejeitaram ou adaptaram, conforme uma variedade de combinações da nova liturgia anglicana com certos usos tomados de empréstimo, como o antigo e ressuscitado rito Sarum, em uso na Inglaterra antes da Reforma, ou o rito tridentino em inglês, ou a missa nova. Não há nenhuma tradição litúrgica anglicana além do livro de preces de 1661.

Por que, então, estaria tão determinado o Papa a tratá-los do mesmo modo que aos ortodoxos orientais? Ele o explica muito claramente nesta mesma Constituição Apostólica; explicitamente pela nova definição da Igreja de Cristo dada pelo Vaticano II. Diz-se que ela “subsiste” na Igreja Católica, sem ser idêntica a ela. É por essa razão que as divisões entre os batizados devem considerar-se como divisões internas da Igreja e como danificadoras da nota de unidade que caracteriza a verdadeira Igreja. Donde Bento XVI afirmar na Anglicanorum coetibus que “toda e qualquer divisão entre os batizados em Jesus Cristo fere aquilo que a Igreja é e aquilo para o qual ela existe”. Daí que a unidade entre os batizados se transforme em algo absoluto, por buscar a qualquer preço, sendo agora a “unidade na diversidade”, portanto, o objetivo por alcançar. O ensinamento católico tradicional faz da Fé, do culto e dos sacramentos o absoluto e determinante da unidade da verdadeira Igreja Católica, como se pode ver pela definição de Igreja dada pelo catecismo. A separação de hereges e cismáticos, por deplorável e triste que possa ser, absolutamente não fere a Fé, o culto, os sacramentos e a autoridade hierárquica, porque a Igreja de Cristo é idêntica à Igreja Católica Romana.

As conseqüências de tal urgente necessidade de falsa unidade com parca base real não são aceitáveis para o espírito católico. Eis algumas delas:

● Não haverá conversão alguma propriamente dita, com abjuração de heresia, profissão pública da Fé católica e absolvição da censura de excomunhão. Declara-se simplesmente que os fiéis leigos “originariamente pertencentes à Comunhão Anglicana que desejam pertencer ao Ordinariato Pessoal devem manifestar essa vontade por escrito” (IX). Não há nenhuma admissão de erro por estarem fora da única verdadeira Igreja, nem pedido de admissão na única Igreja verdadeira.

● Não há nenhuma profissão de Fé em nenhum dos artigos de Fé que foram negados pela igreja anglicana por 450 anos. Tudo quanto se exige é a aceitação implícita desta afirmação: “O Catecismo da Igreja Católica é a expressão autêntica da fé católica professada pelos membros do Ordinariato” (I, §5). Mas este catecismo do Vaticano II, de 1993, é bastante ambíguo, particularmente nos pontos de doutrina em que os protestantes discordam da Igreja Católica, e a aceitação implícita de tal declaração é algo muito distinto do juramento condenatório de todas as heresias protestantes que se encontra na Profissão de Fé tridentina de Pio IV.

● Permite-se aos anglicanos manter os livros litúrgicos e as preces anglicanos, a espiritualidade e os costumes pastorais anglicanos: “O Ordinariato tem a faculdade de celebrar a Eucaristia e os demais Sacramentos, a Liturgia das Horas e as demais celebrações litúrgicas de acordo com os livros litúrgicos próprios da tradição anglicana que foram aprovados pela Santa Sé, de modo que se mantenham as tradições espirituais, litúrgicas e pastorais da Comunhão Anglicana dentro da Igreja Católica” (III). A breve cláusula restritiva de aprovação pela Santa Sé nada tira do caráter profundamente inovador dessa disposição, que considera o protestantismo anticatólico e sua liturgia como uma tradição que se deve manter no interior da Igreja Católica. O documento declara ainda que tudo isso é um “dom precioso” e um “tesouro por partilhar”. Que insulto a católicos como São Tomás Morus, São João Fisher e Santo Edmundo Campion, que deram a vida por recusar-se a se tornar anglicanos, e a autênticos convertidos como o Cardeal Newman, que espontânea, mas necessariamente, deixaram as inválidas, heréticas e protestantes cerimônias anglicanas para tornar-se autênticos católicos!

● Padres casados continuarão a ser um modo de vida neste ordinariato, como na igreja anglicana. Ministros casados que entrem no ordinariato podem ser ordenados, e futuros padres que já sejam casados podem ser ordenados. Essa é uma forma bem eficiente de minar o tesouro do celibato clerical, um dos grandes sinais externos da santidade da Igreja. Se não podem ser aceitos bispos casados, homens casados, de qualquer modo, podem tornar-se padres com a jurisdição de um ordinário (cf. Nota publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé em 20 de outubro), contornando-se assim o “problema” do celibato clerical, que tais anglicanos não estão dispostos a abraçar.

A tragédia de tudo isso é que esses anglicanos serão considerados católicos e anglicanos ao mesmo tempo, apagando-se grandemente, desse modo, a distinção entre verdade e erro, Fé e infidelidade, submissão e independência. O próprio Cardeal Levada o admite, quando descreve a vaga e tênue base dessa unidade: “Eles declararam compartilhar a Fé Católica comum tal como expressa no catecismo da Igreja Católica e aceitar o ministério petrino como querido por Cristo para a Igreja. [O que significa isso? Infalibilidade papal? Verdadeiro poder de governo, ou apenas um posto honorífico?] Para eles chegou o momento de exprimir essa unidade implícita na forma visível da plena comunhão.” (Ib. in zenit.org).

Se certamente devemos recear que tal aceitação confunda os católicos e apenas confirme ainda mais esses anglicanos em seus falsos princípios e tradições, devemos porém rezar para que eles um dia se convertam verdadeiramente à prática plena e integral da Fé católica, fora da qual não há salvação.

Original inglês:
“Can one be now Anglican and Catholic at the same time?”, http://angelqueen.org/forum/viewtopic.php?t=29092 .

sábado, 19 de dezembro de 2009

O Credo e suas maravilhas



Sidney Silveira
Na introdução de sua Exposição sobre o Credo, diz Santo Tomás que quatro são os bens que a fé produz:
  • : Pela fé a alma se une a Deus;
  • : Pela fé é iniciada em nós a vida eterna;
  • : Pela fé passamos a orientar toda a nossa vida;
  • : Pela fé vencem-se as tentações.
Sem a fé, portanto, não é possível a alma unir-se a Deus nesta vida, daí dizer Santo Agostino que “onde não existe o conhecimento da verdade eterna e imutável, a virtude é falsa até mesmo nas pessoas retas” (em De Fide et Symbolo). Referem-se os dois Santos Doutores, obviamente, à fé sobrenatural infusa por Deus na alma, e não a uma crença subjetiva em qualquer coisa acerca da natureza divina — ainda que acertada. É essa fé sobrenatural que impele a alma a dizer “sim” às verdades reveladas na Sagrada Escritura, aceitando-as integralmente e sem o mais ínfimo questionamento, pois Deus assim as revelou, para que crêssemos e nos salvássemos.

A vida eterna começa, aqui e agora, pela fé, ainda que na forma de uma semente que promete germinar esplendidamente. Como dizia uma estupenda máxima latina, gratia, inchoatio gloriæ (a Graça é o começo da Glória). Sem a graça, portanto, é impossível sequer termos uma pálida noção do que seja a verdadeira felicidade preparada para nós por Deus, desde a eternidade.

Também é fato que a fé, depois de assumida pelo cristão, passa a ser a balizadora de toda a sua vida. Essa orientação se dá no sentido de dizermos “não” a tudo o que, direta ou indiretamente, nos afaste da fé e, portanto, de Deus. Todos os bens assumem, pela fé, o seu real valor numa escala perfeita que culmina em Deus mesmo. E se muitas vezes caímos na tentação de escolher bens menores em detrimento daqueles que Deus quer que escolhamos, o fato de estarmos no horizonte da fé nos propicia a clara visão do erro — e, portanto, a oportunidade de o corrigirmos pelo arrependimento, que é precondição para o sacramento da Penitência.

Por fim, só a fé pode fazer-nos vencer as tentações que advêm da carne, do mundo e do demônio, e que muitas vezes têm como instrumentos os nossos hábitos viciosos. Se Aristóteles dizia que o homem, depois de depravar-se, cai num abismo do qual não há saída, decerto é porque não conhecia a fé — cuja fonte sobrenatural nos possibilita a emenda dos piores hábitos que tenhamos adquirido, seduzidos pelo gozo na prosperidade ou atemorizados por adversidades que, sem a fé, não podem ser aquilatadas em seu real valor. Ah, quantas vezes deixamos alguns medos tolos desviar toda a nossa vida!

Neste tempo do Advento, recomendo firmemente a leitura da Exposição sobre o Credo, de Santo Tomás. Os tesouros espirituais contidos nos símbolos da fé têm ali uma maravilhosa ponderação do Doutor Comum. Há duas edições em português facilmente encontráveis.