segunda-feira, 30 de novembro de 2009

As Grandes Heresias, de Belloc


Sidney Silveira
Um livro importante acaba de sair pela editora Permanência: As Grandes Heresias, de Hilaire Belloc. Ao que me consta, esta é a primeira tradução de Belloc para o português, e da lavra do meu amigo Antônio Emílio Angueth de Araújo, bom mineiro de Belo Horizonte. Um tradutor de truz, como se dizia antigamente.

A obra pode ser adquirida diretamente na loja virtual do site da Permanência, e trata das conseqüências nefastas que as grandes heresias tiveram para a civilização ocidental, a qual começa a perder-se, a esboroar-se, justamente em função delas.

É a história viva de uma lenta e dolorosa decomposição dos valores perenes, que, a meu ver, deságua na neobarbárie liberal que acabou de dissolver no seu caldeirão pluriforme qualquer resquício de valores genuinamente cristãos.

O livro (escrito na primeira metade do século XX) é indicadíssimo para nós, habitantes desta época plúmbea em que as sociedades parecem fechar-se decisivamente para qualquer influxo da Graça. E indicadíssimo sobretudo para católicos liberais cujos olhos e ouvidos parecem contaminados por uma triste cegueira mental.
P.S. Não tenho respondido a emails e nem escrito para o blog por absoluta falta de tempo, devido a compromissos de trabalho. Portanto, aos que me mandaram mensagens indagando a respeito da queda de produtividade do Contra Impugnantes, eis a resposta. Assim que as coisas melhorarem, voltaremos, se Deus quiser, ao ritmo normal.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Opúsculos de Santo Tómás



Sidney Silveira
Além dos dois livros do Prof. Sergio Salles que noticiamos ontem, outra publicação tomista vem a lume — e não nos cabe senão divulgá-la: trata-se do compêndio Opúsculos Filosóficos – Volume 1, que reúne nove pequenos escritos filosóficos de Santo Tomás, em edição bilíngüe. São os seguintes:

O Modo de Estudar
A Mescla dos Elementos
Os Princípios da Natureza
As Operações Ocultas da Natureza
A Natureza da Matéria
O Princípio de Individuação
Os Instantes (De Instantibus)
A Eternidade do Mundo
A Consulta aos Astros


A tradução é do Prof. Paulo Faitanin, da UFF, e a edição sai com o selo da Società Internazionale Tommaso d’Aquino – S.I.T.A., seção Brasil.

Vale registrar que alguns desses opúsculos (como por exemplo o De Instantibus, o De Natura Materiæ e o De Principio Individuationis) são de autoria dúbia — de acordo com alguns dos principais catálogos, desde a época imediatamente posterior à morte do Aquinate até os dias atuais. Mas isto não lhes tira, em absoluto, o interesse filosófico.

Quem quiser adquirir a obra pode entrar em contato com o Prof. Paulo Faitanin, do Instituto Aquinate, pelo email pfaitanin@aquinate.net

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Análise e Síntese em Tomás de Aquino



Sidney Silveira
Alvíssaras! Foram apresentados recentemente, pela editora da Universidade Católica de Petrópolis – UCP, dois trabalhos do Prof. Sergio de Souza Salles, meu querido amigo, sobre o espinhoso tema da resolutio em Santo Tomás — tão importante para a compreensão de sua metafísica. São eles: Análise e Síntese em Tomás de Aquino e As Resoluções Metafísicas de Tomás de Aquino.

Para mim, particularmente, mesmo ainda sem ter tido tempo de ler as duas obras (o que farei em breve), é uma alegria divulgar a sua publicação, pois conheço a seriedade e o talento de Sergio Salles como professor.

Parabéns ao Sergio pela publicação dos livros!!! E também ao Prof. Carlos Frederico Calvet da Silveira, que está com ele neste projeto.

Que sejam os primeiros de muitos trabalhos a ser publicados.

Quem quiser adquirir o seu exemplar dessas obras pode entrar em contato com o próprio Sergio Salles, pelo email sergio.salles@ucp.br, ou com a UCP. A propósito, resolvi fazer também uma pequena divulgação da obra na “TV Contra Impugnantes”.

sábado, 21 de novembro de 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Missal francês de 2010


Sidney Silveira
O democratismo que invadiu a Igreja com a colegialidade instaurada a partir do Concílio Vaticano II continua dando os seus frutos podres. Hoje, é fato insofismável que as conferências episcopais desobedecem a várias determinações papais, na medida em que fazem e desfazem ao seu bel-prazer um conjunto de coisas que, noutra época, seriam motivo de gravíssimas advertências por parte da Suprema Autoridade. Um exemplo? O pro multis consacratório, que foi criminosamente traduzido pelas palavras “por todos”, quando na verdade o texto diz que Cristo derramou o seu sangue “por vós e por muitos” (pro vobis et pro multis). O que um dia foi considerado heresia apocatástica origenista, hoje está no texto da Missa.

Agora, o episcopado francês aprontou uma dessas que a gente ouve por aí. O Arcebispo de Toulouse, Mons. Robert Le Gall, presidente da Comissão Episcopal da Liturgia, na França, acaba de dar o imprimatur para o Missal 2010, que traz as seguintes novidades:

1- A supressão dos santos padroeiros da França (Nossa Senhora da Assunção, Santa Joana D’Arc e Santa Teresinha do Menino Jesus). Simplesmente isto!
2- A inclusão de novas festas no calendário “litúrgico”. Festas muçulmanas e judaicas!!!! Por exemplo (retirado do blog Oblatvs):

29 de novembro de 2009: “Na comunidade muçulmana, Aid al Kabir, festa do sacrifício do carneiro que Abraão imolou no lugar de seu filho”.
12 a 19 de novembro: “Festa judaica de Hanucá que comemora a vitória dos Macabeus e a nova dedicação do altar do templo de Jerusalém depois de sua profanação no ano 160 antes de nossa era”.
18 de dezembro: “Festa de ano-novo para a comunidade muçulmana”.
27 de fevereiro de 2010: “Festa judaica de Purim em que a comunidade faz memória do jejum de Ester, quando o povo foi libertado do projeto de extermínio dos hebreus no exílio na Pérsia”.
21 de março: “Coleta para a CCFD” [o bastante politizado Comitê Católico contra a Fome e para o Desenvolvimento].
19 de maio: “Festa judaica de Shavuot, festa das colheitas e do dom da Lei”.
12 de agosto: “começa para os muçulmanos o mês de jejum do Ramadã”.
18 de setembro: “a comunidade judaica celebra o grande perdão, Yom Kippur, o dia mais solene do ano consagrado à expiação dos pecados”.
23 de setembro a 1º de outubro: “na comunidade judaica, festa de Sucot ou dos Tabernáculos que comemora a estada no deserto durante o Êxodo”.
Último domingo de outubro: “Festa da Reforma” [reforma protestante, naturellement].

Agora o mais incrível, que consta da página 192 do referido Missal Francês: “Faz catorze séculos, em 610, Maomé, então simples mercador, começou a pregar a fim de reconduzir o povo de Meca à religião do único Deus e ensiná-los a submissão à vontade divina”.

Caros leitores, a autodemolição da Igreja continuará até o dia em que Cristo decidir pôr fim a essa farra dos infernos — cujas portas não prevalecerão sobre a doutrina do Evangelho. Vinde, Senhor! É o que nos resta implorar...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

As relações entre a inteligência e a vontade (II)

Sidney Silveira
A vontade é livre para querer ou não querer, e essa liberdade é exercida a partir de um juízo prático pelo qual o homem se torna capaz de escolher determinadas coisas em detrimento das outras. A eleição de um bem pela vontade implica a indiferença em relação a outros bens que a ela se apresentavam. Em resumo, na concepção de Santo Tomás os bens particulares (bona particularia) não determinam a vontade necessariamente, e essa radical indeterminação manifesta a indifferentia objectiva da vontade, enquanto o ato de escolha, em si, manifesta a sua indifferentia subjectiva. Mas frise-se bem: essa “liberdade de indiferença” se dá tão-somente em relação aos bens particulares, mas não em relação ao bem sumo, que é Deus — por isso os bem-aventurados no Céu não podem não querê-Lo, não podem não amá-Lo, pois aderem a algo irresistivelmente poderoso e apetecível.

A liberdade de eleição — conhecida por nós como livre-arbítrio — é a faculdade conjunta da inteligência e da vontade — como diz o Aquinate numa famosa passagem (libero arbitrium dicitur esse facultas voluntatis et rationis)*. Essa simples frase, além de mostrar o quão equidistante está Santo Tomás tanto do intelectualismo como do voluntarismo, revela uma verdade fundamental da antropologia tomista, a saber: não há nenhum ato propriamente humano que não proceda da inteligência e da vontade, do entendimento e da volição. Os atos involuntários, embora possam ser praticados por um homem, não são próprios do homem, pois outros animais também os realizam. Portanto, atualizada por nossas duas potências máximas, a liberdade é algo que distingue radicalmente o homem. Somos naturalmente livres, e o somos graças ao influxo benfazejo da inteligência e da vontade — um influxo harmonioso desses dois co-princípios superiores, com prevalência radical (simpliciter) da inteligência, que, como dissemos no artigo anterior, fornece à vontade o seu objeto próprio.

Mas será essa liberdade humana absoluta? Uma simples aproximação ao problema pode conduzir-nos a evidências que serão muito úteis na perseguição da resposta. Para o voluntarismo medieval, encarnado com particular ênfase em Duns Scot, a vontade é autodeterminante (autodeterminans) e, em sua íntima essência, livre (potentia libera per essentiam)**. Ora, como diz o já mencionado G. Manser, a quem seguimos de perto nesta série de textos, Duns Scot atribui essa autonomia absoluta da vontade não apenas a Deus, mas também ao homem, e isto num duplo sentido:

a) A vontade humana é livre com relação a qualquer objeto. Nenhum bem, nem o bonum in communi aqui na terra, nem Deus como objeto da bem-aventurança eterna, no além, é capaz de mover a vontade necessariamente. Todo ato da vontade, assim na terra como no Céu, é absolutamente livre (voluntas respectu cuiuslibet actus est libera et a nullo objecto necessitatur***). Um dos gravíssimos problemas teológicos e heresias a que conduz essa premissa, se a levarmos às últimas conseqüências, é que a alma de Cristo pode pecar, assim como a dos bem-aventurados****. Ela também nos leva a concluir que o demônio seria “livre” para querer o bem em comum e, por conseguinte, desejar o bem das almas humanas. A esta questão voltaremos noutra oportunidade.
b) Com relação ao entendimento, Scot também manteve o principal da premissa voluntarista. Em sua opinião, decerto a inteligência apresenta à vontade diversos bens, e, neste sentido estrito, o frade franciscano considera-a uma conditio da ação livre — embora apenas como causa per accidens, não necessária. Em suma, como o conhecimento apresenta diversos bens como indiferentes, ele não exerce nenhum influxo causal necessário sobre a vontade. Esta última seria, na visão scotista, a única causa próxima do ato livre. Aqui, um dos problemas da opinião de Scot é considerar todos os bens como indiferentes, independentemente de sua excelência ontológica; e, entre as várias conseqüências dessa tese, está a de o mundo e todas as coisas que há nele perderem fundamentalmente a sua ratio, pois tudo passa a depender in primis da vontade. Assim, as nossas escolhas passarão a ser a resultante de um impulso cego da vontade, e, no tocante a Deus, todas as coisas criadas só serão conhecidas pelo espírito divino porque dependem da Sua soberana vontade. A lei, neste cenário, jamais poderá ser a ordenação da reta razão ao bem comum, mas algo cujo fundamento último está na vontade divina. Não à-toa, para Duns Scot todos os sete últimos mandamentos do Decálogo são, em si mesmos, dispensáveis, pois só são bons na medida em que Deus, arbitrariamente, assim o quis. Honrar pai e mãe, não furtar, não dar falso testemunho, não cobiçar a mulher do próximo, etc., não são bens em si mesmos. Incrível!

Tanto o intelectualismo como o voluntarismo falsificam a idéia do que seja, efetivamente, o ente humano, porque acentuam de forma unilateral uma de suas duas principais faculdades, em detrimento da outra. No caso de que nos ocupamos, o erro voluntarista abarca a noção de lei, a de moral, a de religião e até mesmo as bases da metafísica. Tal erro perpassa a história da filosofia a partir de século XIV, de forma extraordinária.
(continua)
* Santo Tomás. Suma Teológica, I, q. 83, a. 3-4
** Duns Scot. Opus Oxon., I, d. 1, q.4.
*** Duns Scot. Opus Oxon., IV, d. 49, q.10.
**** “Por ser a bem-aventurança a posse do bem perfeito e suficiente, é necessário que aquiete o desejo do homem e exclua todo o mal (...). A bem-aventurança perfeita do homem consiste na visão da essência divina. Mas é impossível que quem vê a essência divina queira não vê-la. Porque alguém deseja privar-se de um bem que já tem ou quando é insuficiente, e busca pôr outro mais perfeito em seu lugar, ou quando [esse bem] está associado a algum incômodo que provoca fastio. Pois bem: a visão da essência divina preenche a alma de todos os bens, pois a une à fonte de toda bondade”. Santo Tomás. Suma Teológica, IªIIª, q. 5, art. 4. Resp.

domingo, 15 de novembro de 2009