sábado, 21 de novembro de 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O Missal francês de 2010


Sidney Silveira
O democratismo que invadiu a Igreja com a colegialidade instaurada a partir do Concílio Vaticano II continua dando os seus frutos podres. Hoje, é fato insofismável que as conferências episcopais desobedecem a várias determinações papais, na medida em que fazem e desfazem ao seu bel-prazer um conjunto de coisas que, noutra época, seriam motivo de gravíssimas advertências por parte da Suprema Autoridade. Um exemplo? O pro multis consacratório, que foi criminosamente traduzido pelas palavras “por todos”, quando na verdade o texto diz que Cristo derramou o seu sangue “por vós e por muitos” (pro vobis et pro multis). O que um dia foi considerado heresia apocatástica origenista, hoje está no texto da Missa.

Agora, o episcopado francês aprontou uma dessas que a gente ouve por aí. O Arcebispo de Toulouse, Mons. Robert Le Gall, presidente da Comissão Episcopal da Liturgia, na França, acaba de dar o imprimatur para o Missal 2010, que traz as seguintes novidades:

1- A supressão dos santos padroeiros da França (Nossa Senhora da Assunção, Santa Joana D’Arc e Santa Teresinha do Menino Jesus). Simplesmente isto!
2- A inclusão de novas festas no calendário “litúrgico”. Festas muçulmanas e judaicas!!!! Por exemplo (retirado do blog Oblatvs):

29 de novembro de 2009: “Na comunidade muçulmana, Aid al Kabir, festa do sacrifício do carneiro que Abraão imolou no lugar de seu filho”.
12 a 19 de novembro: “Festa judaica de Hanucá que comemora a vitória dos Macabeus e a nova dedicação do altar do templo de Jerusalém depois de sua profanação no ano 160 antes de nossa era”.
18 de dezembro: “Festa de ano-novo para a comunidade muçulmana”.
27 de fevereiro de 2010: “Festa judaica de Purim em que a comunidade faz memória do jejum de Ester, quando o povo foi libertado do projeto de extermínio dos hebreus no exílio na Pérsia”.
21 de março: “Coleta para a CCFD” [o bastante politizado Comitê Católico contra a Fome e para o Desenvolvimento].
19 de maio: “Festa judaica de Shavuot, festa das colheitas e do dom da Lei”.
12 de agosto: “começa para os muçulmanos o mês de jejum do Ramadã”.
18 de setembro: “a comunidade judaica celebra o grande perdão, Yom Kippur, o dia mais solene do ano consagrado à expiação dos pecados”.
23 de setembro a 1º de outubro: “na comunidade judaica, festa de Sucot ou dos Tabernáculos que comemora a estada no deserto durante o Êxodo”.
Último domingo de outubro: “Festa da Reforma” [reforma protestante, naturellement].

Agora o mais incrível, que consta da página 192 do referido Missal Francês: “Faz catorze séculos, em 610, Maomé, então simples mercador, começou a pregar a fim de reconduzir o povo de Meca à religião do único Deus e ensiná-los a submissão à vontade divina”.

Caros leitores, a autodemolição da Igreja continuará até o dia em que Cristo decidir pôr fim a essa farra dos infernos — cujas portas não prevalecerão sobre a doutrina do Evangelho. Vinde, Senhor! É o que nos resta implorar...

terça-feira, 17 de novembro de 2009

As relações entre a inteligência e a vontade (II)

Sidney Silveira
A vontade é livre para querer ou não querer, e essa liberdade é exercida a partir de um juízo prático pelo qual o homem se torna capaz de escolher determinadas coisas em detrimento das outras. A eleição de um bem pela vontade implica a indiferença em relação a outros bens que a ela se apresentavam. Em resumo, na concepção de Santo Tomás os bens particulares (bona particularia) não determinam a vontade necessariamente, e essa radical indeterminação manifesta a indifferentia objectiva da vontade, enquanto o ato de escolha, em si, manifesta a sua indifferentia subjectiva. Mas frise-se bem: essa “liberdade de indiferença” se dá tão-somente em relação aos bens particulares, mas não em relação ao bem sumo, que é Deus — por isso os bem-aventurados no Céu não podem não querê-Lo, não podem não amá-Lo, pois aderem a algo irresistivelmente poderoso e apetecível.

A liberdade de eleição — conhecida por nós como livre-arbítrio — é a faculdade conjunta da inteligência e da vontade — como diz o Aquinate numa famosa passagem (libero arbitrium dicitur esse facultas voluntatis et rationis)*. Essa simples frase, além de mostrar o quão equidistante está Santo Tomás tanto do intelectualismo como do voluntarismo, revela uma verdade fundamental da antropologia tomista, a saber: não há nenhum ato propriamente humano que não proceda da inteligência e da vontade, do entendimento e da volição. Os atos involuntários, embora possam ser praticados por um homem, não são próprios do homem, pois outros animais também os realizam. Portanto, atualizada por nossas duas potências máximas, a liberdade é algo que distingue radicalmente o homem. Somos naturalmente livres, e o somos graças ao influxo benfazejo da inteligência e da vontade — um influxo harmonioso desses dois co-princípios superiores, com prevalência radical (simpliciter) da inteligência, que, como dissemos no artigo anterior, fornece à vontade o seu objeto próprio.

Mas será essa liberdade humana absoluta? Uma simples aproximação ao problema pode conduzir-nos a evidências que serão muito úteis na perseguição da resposta. Para o voluntarismo medieval, encarnado com particular ênfase em Duns Scot, a vontade é autodeterminante (autodeterminans) e, em sua íntima essência, livre (potentia libera per essentiam)**. Ora, como diz o já mencionado G. Manser, a quem seguimos de perto nesta série de textos, Duns Scot atribui essa autonomia absoluta da vontade não apenas a Deus, mas também ao homem, e isto num duplo sentido:

a) A vontade humana é livre com relação a qualquer objeto. Nenhum bem, nem o bonum in communi aqui na terra, nem Deus como objeto da bem-aventurança eterna, no além, é capaz de mover a vontade necessariamente. Todo ato da vontade, assim na terra como no Céu, é absolutamente livre (voluntas respectu cuiuslibet actus est libera et a nullo objecto necessitatur***). Um dos gravíssimos problemas teológicos e heresias a que conduz essa premissa, se a levarmos às últimas conseqüências, é que a alma de Cristo pode pecar, assim como a dos bem-aventurados****. Ela também nos leva a concluir que o demônio seria “livre” para querer o bem em comum e, por conseguinte, desejar o bem das almas humanas. A esta questão voltaremos noutra oportunidade.
b) Com relação ao entendimento, Scot também manteve o principal da premissa voluntarista. Em sua opinião, decerto a inteligência apresenta à vontade diversos bens, e, neste sentido estrito, o frade franciscano considera-a uma conditio da ação livre — embora apenas como causa per accidens, não necessária. Em suma, como o conhecimento apresenta diversos bens como indiferentes, ele não exerce nenhum influxo causal necessário sobre a vontade. Esta última seria, na visão scotista, a única causa próxima do ato livre. Aqui, um dos problemas da opinião de Scot é considerar todos os bens como indiferentes, independentemente de sua excelência ontológica; e, entre as várias conseqüências dessa tese, está a de o mundo e todas as coisas que há nele perderem fundamentalmente a sua ratio, pois tudo passa a depender in primis da vontade. Assim, as nossas escolhas passarão a ser a resultante de um impulso cego da vontade, e, no tocante a Deus, todas as coisas criadas só serão conhecidas pelo espírito divino porque dependem da Sua soberana vontade. A lei, neste cenário, jamais poderá ser a ordenação da reta razão ao bem comum, mas algo cujo fundamento último está na vontade divina. Não à-toa, para Duns Scot todos os sete últimos mandamentos do Decálogo são, em si mesmos, dispensáveis, pois só são bons na medida em que Deus, arbitrariamente, assim o quis. Honrar pai e mãe, não furtar, não dar falso testemunho, não cobiçar a mulher do próximo, etc., não são bens em si mesmos. Incrível!

Tanto o intelectualismo como o voluntarismo falsificam a idéia do que seja, efetivamente, o ente humano, porque acentuam de forma unilateral uma de suas duas principais faculdades, em detrimento da outra. No caso de que nos ocupamos, o erro voluntarista abarca a noção de lei, a de moral, a de religião e até mesmo as bases da metafísica. Tal erro perpassa a história da filosofia a partir de século XIV, de forma extraordinária.
(continua)
* Santo Tomás. Suma Teológica, I, q. 83, a. 3-4
** Duns Scot. Opus Oxon., I, d. 1, q.4.
*** Duns Scot. Opus Oxon., IV, d. 49, q.10.
**** “Por ser a bem-aventurança a posse do bem perfeito e suficiente, é necessário que aquiete o desejo do homem e exclua todo o mal (...). A bem-aventurança perfeita do homem consiste na visão da essência divina. Mas é impossível que quem vê a essência divina queira não vê-la. Porque alguém deseja privar-se de um bem que já tem ou quando é insuficiente, e busca pôr outro mais perfeito em seu lugar, ou quando [esse bem] está associado a algum incômodo que provoca fastio. Pois bem: a visão da essência divina preenche a alma de todos os bens, pois a une à fonte de toda bondade”. Santo Tomás. Suma Teológica, IªIIª, q. 5, art. 4. Resp.

domingo, 15 de novembro de 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

É hoje!


Sidney Silveira
Acontece hoje (12/11), a partir das 18h, o debate "A Idade Média e o Espírito das Cruzadas", na Livraria Leonardo da Vinci (Av. Rio Branco, 185, subsolo, Centro, Rio de Janeiro), em que se falará sobre o livro da Sétimo Selo "Raimundo Lúlio e As Cruzadas". Todos os amigos (ou adversários bem dispostos) estão convidados. Seremos eu, o Nougué e o Prof. Ricardo da Costa, da UFES.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Relações Igreja-Estado (VII): Thomas More, a teoria negada na prática


Sidney Silveira
No final do texto em que fazíamos alusão à utopia laica de Thomas More, afirmávamos haver duas coisas inconciliáveis: o seu ecumenismo* teórico e a morte em odium fidei com que Deus o premiou — pois esta última representa, na prática, uma veementíssima negação daquele. Em resumo: se, como diz More num dos capítulos de sua Utopia, cabe a cada um escolher a religião que lhe aprouver, e o Estado não deve meter-se nestas questões (pois uma das leis fundamentais de sua Ilha utópica garante a liberdade religiosa para todos os indivíduos, sem nenhuma exceção), por que diabos não aceitar que o rei Henrique VIII abandonasse a Igreja e fundasse uma nova religião? Para ser coerente com os princípios de que partia em seu mau livro, condenado por séculos pelo Magistério eclesiástico — até o momento em que a Igreja aboliu o Index, com Paulo VI —, More deveria simplesmente dar de ombros e aceitar a “reorientação” religiosa do rei que fez a Inglaterra apostatar. Mesmo tendo Henrique VIII como motivação, pura e simplesmente, a luxúria**.

Muitas vezes, é verdade, as pessoas só têm a dimensão das idéias errôneas que defendem quando deparam com uma situação limítrofe. Quando deparam com uma urgência inarredável. Com uma situação existencial dolorosa. Então sim, elas conseguem extrair os corolários acertados das premissas de que partiam, pois são fulminadas pelas evidências. Nestes casos, de duas uma: ou permanecem cegamente obstinadas e se perdem para o bem e para a verdade, ou, purgando os seus erros, revêem (não sem sofrimento) os falsos princípios em que haviam atolado a própria vida, muitas vezes por causa de conveniências ou favores. Thomas More, embora não tivesse tido tempo para abjurar da Utopia que escreveu, deu em seu julgamento um exemplo de que o bem espiritual comum deve prevalecer — e o poder do Papa está acima de quaisquer potestades políticas, em matéria de fé e costumes. Mas também em matéria política, quando esta se afasta da lei evangélica custodiada pela Igreja e da lei natural. Caso evidente de Henrique VIII.

Considerar Thomas More, como querem os católicos liberais, uma espécie de modelo de defesa da consciência individual contra o poder tirânico é um absurdo. É de uma má-fé sem tamanho! Em primeiro lugar porque as idéias pelas quais ele foi condenado e martirizado não eram propriamente suas, mas doutrinas proclamadas solenemente pela Igreja desde, no mínimo, Bonifácio VIII. Não foi, portanto, a liberdade individual o que ele defendeu, mas a primazia das leis da Igreja sobre todas as consciências individuais. Não se tratava de uma defesa da liberdade da pessoa frente ao poder político, como afirmou o Papa João Paulo II no Motu Proprio pelo qual proclamou More como “patrono dos governantes e políticos”***, mas de uma defesa da verdade cristã, católica e apostólica, contra os abusos de um tirano maníaco — ensandecido pelos próprios pecados e crimes.

Nenhuma lei iníqua pode alcançar cidadania. Mas se numa situação maléfica isto vem a acontecer, como na época de Henrique VIII, devemos dizer o mesmo que São Pedro e São João no Sinédrio, quando lhes pediram que se calassem e não pregassem o Evangelho. Non possumus. “Não podemos” (At. IV, 19-20). E devemos dizê-lo mesmo sob o risco de o poder tirânico massacrar-nos, o que na atual condição de natureza caída só é possível com a Graça — que superabundou na alma do jurista inglês na hora de dizer a verdade contra tudo e contra todos. Superabundou na hora de ele mostrar ao mundo o seguinte: os poderes material e espiritual, embora distintos, não são estanques e incomunicáveis entre si, pois o espiritual superior pode e deve julgar o material inferior.

A tese da separação entre estas duas ordens, condenada com toda a solenidade pela Igreja, esperaria muitos séculos, depois da Utopia de Thomas More, para ganhar definitivamente a Igreja, a partir do Concílio Vaticano II. E esperaria dois teóricos, particularmente: Jacques Maritain, com o seu Humanisme Intégral, e o seu amigo e Cardeal Charles Journet, autor de La Jurisdiction de l’Eglise sur La Cité. As teses de ambos os livros passaram a ser assumidas pela Igreja como suas, mesmo contrariando dois milênios de Magistério. Mas esta é uma conversa para outro dia.

* Ecumenismo e liberdade religiosa são irmãos siameses, duas faces de uma mesma realidade. Em suma, se a todos deve ser declarada como "direito fundamental" a liberdade de consciência (expressão equívoca, como mostramos em vários textos do blog), obviamente uma religião proselitista, excludente, parecerá a mais absurda das tiranias. Algo inconcebível. Não existe, num ambiente desses, nenhuma religião melhor, nenhuma religião verdadeira com exclusão das demais — mas todas devem ser toleradas, até mesmo para não ferir susceptibilidades. É paradigmático o trecho da Utopia ("Livro Segundo. Das Religiões da Utopia") em que More adverte o pobre cristão que defendera publicamente a sua religião. Lê-se ali: "Apenas um dos nossos neófitos foi preso em minha presença. Recém-batizado, pregava em público, não obstante os meus conselhos, com mais zelo do que prudência. Arrebatado por seu ardente fervor, não se contentava em elevar ao primeiro plano o Cristianismo, e condenava todas as outras religiões (...). Tal neófito, depois de ter deblaterado neste tom durante muito tempo, foi preso, não sob prevenção de ultraje ao culto, mas por ter provocado tumulto junto ao povo. Foi a julgamento e condenado ao exílio". Aqui, dirijo uma pergunta aos católicos liberais que acham isso bom: será que vocês não vêem que defender isto é jogar no lixo toda a História da Igreja? Jogar no lixo os anátemas? Jogar no lixo o dogma extra ecclesiam nulla salus?
** Na IIª-IIª da Suma Teológica (questão 153), Santo Tomás trata do vício da luxúria. Não é aqui o lugar de aprofundar o tema, mas apenas sumariar o que conclui o Santo Doutor naquele trecho de sua magnífica obra. No artigo I, mostra ele que os prazeres venéreos são a matéria própria da luxúria; no II e no III, que pode haver pecado neles, mas não necessariamente, pois eles podem ordenar-se pela recta ratio e não excluir nenhum dos fins implicados em sua atualização, por parte do homem; no IV, que a luxúria é vício capital, pois acarreta uma série de outros vícios e hábitos maus; no V, que as filhas da luxúria são a) a cegueira mental; b) a inconsideração; c) a inconstância; d) a precipitação; e) o egoísmo; f) o ódio a Deus; g) o amor exagerado à vida presente; e h) o horror e desespero pela vida futura. Na questão 154 dessa mesma parte da Suma, o Aquinate aborda as espécies de luxúria — entre as quais classifica as seguintes: a simples fornicação, o adultério, o incesto, o estupro, o rapto e os vícios contra naturam.
*** Não se escandalizem aqui as almas cândidas, pois não se trata de um documento pertencente ao Magistério infalível, pois nele não se cumprem todas as quatro condições estabelecidas no Concílio Vaticano I, e, por isso, não exige uma adesão irrestrita por parte dos fiéis. E o mesmo se pode dizer da última Encíclica do Papa Bento XVI, Caritas in Veritate, em que se propõe um poder político mundial ao modo do De Monarchia de Dante.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Convite da livraria Leonardo Da Vinci


Sidney Silveira
Será nesta quinta (12/11) o evento "A Idade Média e o Espírito das Cruzadas", na Livraria Leonardo Da Vinci, que compôs o convite virtual que reproduzimos acima. Todos os amigos residentes no Rio estão convidado.