quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Bibliografia inicial do Curso de História da Filosofia



Carlos Nougué

Bibliografia mínima referente à aula inaugural do “Curso de história da Filosofia”(“Que é a História da Filosofia”, 3 de novembro de 2009)

I) A Metafísica de Aristóteles, Livros Primeiro (especialmente 1-2), Segundo, Quarto e Sexto.

Observação 1: A melhor tradução ao português é sem dúvida a feita da tradução ao italiano por Giovanni Reale (3 vols., bilíngüe, São Paulo, Edições Loyola, 2005). Observe-se, contudo, o seguinte:

a) Giovanni Reale, como ele mesmo o diz, não é aristotélico-tomista, mas platônico-plotiniano-agostiniano. Ora, isso deforma por vezes suas conclusões a respeito da relação entre Aristóteles e Platão; embora, reconheçamo-lo, também o leve a superar com correção alguns equívocos a respeito desses dois filósofos que se perpetuavam entre os tomistas. Para além de tudo isso, porém, e afora o fato de o trabalho do italiano ser maiúsculo em muitos sentidos, é inegável que não podemos alinhar-nos a parte razoável de suas conclusões com respeito às diversas correntes filosóficas. Vê-lo-emos ao longo do primeiro ano deste Curso.

b) Cuidado especial há que ter com a tradução de Giovanni Reale (e pois com a de seu tradutor brasileiro) dos seguintes termos:

● Onde tradicionalmente se usa “sabedoria” (σοφία, sophía), Reale usa “sapienza” e seu tradutor “sapiência”.

● Onde tradicionalmente se usa “prudência” (φρόνσις, phrónesis), Reale usa “saggezza” e seu tradutor “sabedoria”.

Parece-me um capricho, e devemos usar sempre os termos tradicionais, sob pena de descontinuidade, precisamente, da tradição filosófica.
Itálico
Observação 2: Pode-se recorrer também à tradução francesa da Metafísica de Aristóteles pela Sœur Pascale-Dominique Nau, op, encontrável em
http://docteurangelique.free.fr/ .

Observação 3: Cuidado especialíssimo se deve ter em quase todas as traduções de Aristóteles e dos gregos em geral (e em muitas de Santo Tomás de Aquino) quanto aos seguintes termos:

a) Ón (), que corresponde em latim a ens, entis; em francês a étant; e em português e espanhol a “ente”. Infelizmente, porém, grande parte das vezes é vertido por être ou “ser”. Trata-se porém de coisas distintas: “ente” é tudo quanto tem ser; mas não é o Ser, conquanto se possa dizer, analogicamente, que Deus (cuja essência é ser) é o Sumo Ente ou, melhor ainda, o Ente sem fieri.

b) Por sua vez, eînai (primeira pessoa do singular: eimí, “sou”), sim, é que corresponde a être e a “ser”. Ón é justamente o particípio presente neutro de eînai, assim como ens, entis é o particípio presente de esse, e étant o de être.

Veremos aprofundadamente tudo isso na hora certa; mas habituemo-nos desde já a esta correção terminológico-conceptual.

II) O Comentário de Santo Tomás à Metafísica de Aristóteles.

Observação 1: Encontra-se o texto latino integral em
http://www.corpusthomisticum.org/ (in Opera omnia S. Thomae, Commentaria, In Aristotelem, Sententia libri Metaphysicae).

Observação 2: Em
http://docteurangelique.free.fr/ , encontra-se uma tradução parcial (e desigual) ao francês.

III) De Réginald Garrigou-Lagrange, El realismo del principio de finalidad, dedebec/ediciones desclée, de brower, 1947, cap. IV (“Orden en que deben estudiarse las ciencias filosóficas”), pp. 185-200. Magnífico, como toda a obra deste que se deve reputar entre os maiores tomistas de todos os tempos.

Observação: Cuidado especial, porém, deve ter-se também aqui com o que se diz mais acima (Observação 3 de I) de ente e ser. Trata-se de um problema quase geral entre os tomistas, o qual nos grandes, como Garrigou-Lagrange, implica apenas certa confusão terminológica e maneiras algo mais obscuras de explicá-lo, mas em tomistas menores implica verdadeiro nó conceptual. Esta observação, todavia, não nos faz adeptos do P. Cornelio Fabro, que porém tanto insistiu corretamente na distinção entre ente e ser. Ao contrário, como veremos também na hora certa, o filósofo italiano parece-nos incorrer em certo “escotismo” no tratamento da “vontade”, o que, naturalmente, nos afasta dele. Sentimo-nos decididamente seguidores da tradição tomista em que está um Cardeal Caetano, um Padre Garrigou-Lagrange, o Padre Teixeira-Leite Penido de A Função da Analogia em Teologia Dogmática e outras obras, e um Padre Álvaro Calderón.


IV) Do Padre Álvaro Calderón, A Candeia Debaixo do Alqueire, Rio de Janeiro, Edições Mosteiro da Santa Cruz/Angelicum ― Instituto Brasileiro de Estudos Tomistas, 2009, Apêndice Primeiro (“Algumas Noções Teológicas”), pp. 275-280.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Curso sobre a Alma Humana: última semana de inscrições

Sidney Silveira
Esta é a última semana para inscrições no minicurso
“A Alma Humana – Dos pré-socráticos a Santo Tomás de Aquino”, a ser ministrado pelo Nougué todas as quartas-feiras deste mês de novembro, na bela sede da Academia Brasileira de Filosofia – ABF, que, uma vez mais, nos foi franqueada por seu presidente, João Ricardo Moderno (Prof. da Uerj), para a realização de um curso.

As inscrições devem ser feitas pelo email curso@edsetimoselo.com.br, pelo qual passaremos todas as informações sobre como proceder.

Da consciência farisaica à detração

Sidney Silveira
Diz Santo Tomás que a virtude é certa disposição psicológica de um sujeito que seja congruente com o modo de ser de sua natureza, razão pela qual a virtude é uma espécie de bondade*. E o vício é, justamente, o oposto: uma disposição contrária ao modo de ser de sua natureza. Mas entre uma virtude e um vício oposto, muitas vezes, há tanta semelhança que é dificílimo fazer a distinção entre eles. Há pusilanimidade parecida com prudência, prodigalidade com aparência de liberalidade, imprudência com fumos de coragem, avareza semelhante a equilíbrio nos gastos, adulação com ares de afabilidade, etc. Para julgar com retidão, é preciso atentar para os atos correlatos ao vício ou virtude em questão, pois estes nunca vêm sozinhos.

Uma dessas confusões se dá entre a benignidade e a covardia. Na verdade, é ridículo pensar que um sujeito é bom apenas porque não briga com ninguém, não discute sobre nada, mas busca sempre a convergência. Acentua antes os pontos em comum e minimiza as discordâncias entre as pessoas. De fato, isto em muitos casos pode ser boa coisa, pois, antes de tudo, revela uma predisposição para a concórdia que, em si, deve ser louvada. O problema se dá quando os pontos de desacordo se referem a algo de capital importância, e mais ainda: quando implicam o erro ou o acerto, a verdade ou a mentira em relação a determinado ponto. Então, aquilo que parecia de uma bondade alvar (como dizia caricatamente Nelson Rodrigues de alguns de seus personagens de crônicas) revela o seu caráter maléfico. E o que parecia ser o retrato de um espírito bondoso e pacificador, mostra ser o signo de uma omissão — que pode ser mais ou menos culpável na exata medida do conhecimento com que a ação foi levada a cabo.

Neste último caso, a consciência vai-se obliterando até chegar ao ponto em que o auto-engano se transforma num hábito pelo qual o sujeito torna-se incapaz de julgar com retidão os acontecimentos de sua própria vida. É o caso da consciência farisaica, que, de acordo com os grandes mestres de Teologia Moral, faz uma pessoa diminuir o que é importante e essencial, e aumentar o que é desimportante e acidental.

Não há como este arquetípico sujeito farisaico não se transformar num detrator, com o decorrer do tempo. Mas detrator de quem? De qualquer um? Não. Daqueles que dizem as verdades incômodas que a sua consciência tinha jogado para debaixo do tapete — e ele, decididamente, não quer ver. Não há como não se tornar semelhante ao personagem Dorian Gray do romance de Oscar Wilde, cuja fulgurante beleza esconde uma consciência tornada horrenda, em razão de uma vida de mentiras. É claro que, devido a esta atitude inicial de negação, uma pessoa em tal situação dramática não quer pôr à prova as suas crenças e opiniões, pois o medo de ver o erro em que está fala mais alto. Portanto, não lhe resta senão a murmuração.

Alguns católicos liberais, talvez por se ligarem a grupos ou a alguns movimentos que hoje pululam na Igreja, têm um esgar de nojo e espanto com os textos do Contra Impugnantes — apesar de os freqüentarem com uma assiduidade que muito nos honra. São os nossos mais sutis detratores, e muitas vezes essas palavras ao léu por eles proferidas, aqui e ali, nos chegam por canais os mais improváveis. Mas o fato é que chegam.

Definitivamente, não lhes quero o mal, de forma alguma. E, quanto a alguns deles, tenho a firme esperança de que Deus os tirará, mais dia menos dia, dessa rede de crenças equívocas que molda a sua consciência**.

* Suma Teológica, I-II, q. 71, a. 1, resp.
** É claro que não me refiro aqui àqueles liberais que mentem e detratam com plena consciência. O caso destes é muito difícil, pois os pecados contra a Verdade se tornam uma qualidade permanente da alma, como diz o Aquinate em alguns trechos de sua obra...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Sobre os Anjos (De Substantiis Separatis)

Sidney Silveira
Veja-se um trecho da palestra de lançamento do livro Sobre os Anjos ("De Substantiis Separatis", de Santo Tomás), da qual participamos eu, na condição de editor, o prof. Paulo Faitanin (da Universidade Federal Fluminense - UFF) e os professores Sérgio Salles e Carlos Frederico Calvet (ambos da Universidade Católica de Petrópolis - UCP), além do meu nobre amigo Luiz Astorga — autor da excepcional tradução desta obra magna de metafísica aplicada ao tema dos Anjos. Trata-se de uma edição, por assim dizer, universal, enriquecida por um sem-número de notas explicativas. Uma edição para ficar de pé na estante. O evento aconteceu em dezembro de 2006, no Centro Cultural Banco do Brasil - CCBB, no Centro do Rio.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Um só anjo em cada espécie


Sidney Silveira
É impossível um só homem atualizar todas as potências da espécie, nesta vida tão efêmera, tão cheia de vicissitudes — permeada de condicionamentos de vários tipos. É bom, pois, para a espécie humana que haja muitos indivíduos que atualizem as inúmeras possibilidades inscritas em nossa forma entis. Sicrano é grande teólogo; beltrano, um esportista; fulano, grande compositor e, ademais, filósofo; aquele outro, um grande mestre de xadrez; etc. Ao longo dos tempos, essa maravilhosa miríade de talentos, de atos e de realizações das pessoas vai compondo um panorama de tudo aquilo de que o homem é capaz (e aqui, para o que importa, refiro-me apenas aos homens notáveis, àqueles que deixaram, com suas vidas e suas obras, uma marca indelével de algo grandioso, exemplar). Olhamos para este variadíssimo cenário e temos um espelho de virtudes e de talentos grandemente inspirador. E é bom que assim o seja.

Fixemos muito bem isto: é impossível a um só indivíduo humano atualizar todas as potências da espécie, mas apenas um número limitado delas. Por um lado, isto é algo estupendo, pois sabemos que, por mais que aprendamos, por mais que cresçamos em virtude e em bem, sempre haverá um caminho a percorrer; e se por desventura erramos, se caímos, há a possibilidade de nos levantarmos, porque outros já o fizeram — e nos servem de exemplo. Sempre há e haverá novas coisas para entender, novos bens lícitos para querer. Por outro lado, tudo isso nos aponta para a necessidade de ser humildes, pois temos a notícia da nossa limitação, da nossa contingência e, em suma, da nossa absoluta pequenez. Bem dizia Santa Teresa D’Ávila que humildade é caminhar na verdade, razão pela qual é na clara visão da nossa miséria que nos tornarmos humildes e, por isso mesmo, capazes de grandiosas realizações, pois a nossa grandeza começa no reconhecimento desse quase nada que somos... O sujeito humilde é alguém que tem o senso de proporções preservado, ao contrário do orgulhoso, cuja cegueira da mente atrapalha ou impossibilita a visão da realidade.

Uma das causas mais palpáveis dessa nossa limitação essencial está no fato de que temos composição de matéria. Ou seja: a matéria nos circunscreve espacialmente; e, aderida à forma substancial que é a alma humana, é um co-princípio inferior que move uma série de potências — sendo sempre o corpo o instrumento para todas as possibilidades entitativas do composto humano, inclusive entender e querer, na medida em que: a) conhecemos as coisas por abstração de suas qüididades materiais (ato para o qual várias potências sensitivas são postas em marcha) b) queremos as coisas não de forma etérea, pois há sobre o nosso querer o influxo de várias predisposições corporais, de paixões e de tendências derivadas de aspectos físicos que, muitas vezes, configuram o temperamento, etc.

Em síntese, a espécie humana, para preservar-se e para manifestar o esplendor de sua natureza criada à imagem e à semelhança de Deus, precisa da multiplicidade de indivíduos; isto é bom para ela; ademais, Deus quis criá-la com esta característica. Portanto, se a nossa forma atualiza a matéria dando-lhe a peculiar organicidade que permite manifestar todas as nossas possibilidades espirituais e intelectuais, na verdade o faz, em cada um, de forma limitada, mas de maneira perfeita no conjunto da espécie.

Mas e se não tivéssemos corpo? A espécie humana, neste caso, precisaria de muitos indivíduos para atualizar todas as suas possibilidades espirituais e intelectuais? Precisaria de muitos para perpetuar-se? Precisaria de muitos para alcançar o seu maximum? A resposta de Santo Tomás é: não! E este é justamente o caso dos anjos, substâncias separadas da matéria.

Diz o Aquinate:

“Nenhuma forma, a não ser a forma corpórea, é recebida na matéria ao modo de quantidade. (...) Logo, é impossível que dois anjos sejam da mesma espécie”.*

No sed contra dessa mesma questão do seu Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, já asseverara Santo Tomás que a multiplicação dos indivíduos humanos concorre para perpetuar a espécie (o que não é o caso dos anjos), a qual não pode subsistir em um só homem. Ademais, o anjo não conhece por abstração, mas por intuição direta das essências, ou seja: sem que seja necessário usar o corpo (e todas as potências que lhe são próprias) para entender; portanto, a sua percepção espiritual dos bens que deseja é perfeita, pois nela não há mescla de paixões ou tendências oriundas de precondições corporais. E muito menos há o tempo, na medida em que o anjo — como o demonstra a metafísica aplicada à Angelologia — está fora do tempo, dado que a sua existência se atualiza no evo, um meio termo entre o tempo e a eternidade (fato sobre o qual voltaremos noutro texto). Sendo assim, não há na constituição de cada anjo nenhuma coisa que impeça a atualização de todas as potências de sua espécie. Logo, só pode haver um anjo em cada espécie. Daí dizer Octavio Derisi, citado na extraordinária edição de Sobre os Anjos (da Sétimo Selo), que o anjo Gabriel é a própria gabrielidade, ou seja: é único em sua espécie. E assim com os demais anjos.... E nenhum homem, por sua vez, pode dizer que é a humanidade.


* Santo Tomás, II, Sent. d. 3, art.4, resp.

Dados concretos do “Curso de História da Filosofia: do impulso grego ao abismo moderno”

Carlos Nougué

Dão-se aqui as principais informações sobre o Curso.

I) Nome: História da Filosofia: do impulso grego ao abismo moderno.

II) Professor : Carlos Nougué.

III) Meio, início, durações e outros dados:

1) O Curso será ministrado por meio de vídeos a que se terá acesso no site Cursos da Associação Cultural Santo Tomás (www.santotomas.com.br/cursos), que já está no ar. Nele, por diversas entradas (incluído o link "Fórum de debates"), já se podem ler três textos referentes ao curso: a "Apresentação", um artigo de fundamentação; este texto com os "Dados concretos do Curso"; e a "Ementa" [completa] do primeiro ano do Curso.

2) O Curso começará na primeira semana de novembro deste ano.

3) Haverá sempre duas aulas ou vídeos por mês (sempre dia 5 e 20, sucessivamente), cada uma das quais com duração de duas horas. Naturalmente, os que tiverem senha de acesso poderão ver os vídeos quando quiserem ou puderem.

4) A duração total do Curso será de quatro anos, assim divididos aproximadamente:

> Os primeiros doze meses: a Filosofia Clássica (ou seja, a greco-romana), com destaque para Sócrates, Platão e Aristóteles.
> Os seis meses subseqüentes: a Filosofia Cristã até Santo Tomás de Aquino (exclusive), com destaque para Santo Agostinho.
> Os dois anos seguintes: Santo Tomás de Aquino.
> Os últimos seis meses: de Duns Scot aos dias de hoje.

5) À aula inaugural (no dia 3 de novembro próximo) poderão assistir todos quantos visitarem o referido site. Tratará ela da natureza, classe e princípios das diversas ciências, incluídas a filosofia, a teologia, a história, e, particularmente, a própria história da filosofia.

6) Também será universal, no site, o acesso à ementa completa de cada período do Curso.

7) Os alunos poderão fazer perguntas mediante o e-mail do site do Curso; e a elas se responderá, de algum modo conveniente, na aula seguinte.

8) No site os alunos terão acesso, junto com cada aula, a uma comentada bibliografia referente ao explanado no vídeo.

9) Terão acesso também a livros e textos (em arquivo informático), os quais sempre terão conexão com a parte do Curso em que se estiver.

III) Preço e forma de pagamento:
1) O preço por mês de aula (ou seja, por duas aulas de duas horas cada) será de R$ 40,00 . Poder-se-á reduzir este valor para quem pagar três ou seis meses de uma vez:

a) três meses: R$ 100,00;
b) seis meses: R$ 200,00.

Observação: O preço por mês de aula poderá aumentar ao fim de cada ano.

2) O depósito do pagamento será feito em:

Carlos Augusto Ancêde Nougué
Banco do Brasil
Agência: 0001-9
Conta corrente: 16.603-0
CPF: 374.651.397/91 (para o caso de DOC)

3)
O aluno terá a senha de acesso aos vídeos assim que confirmar o depósito com Marcel Assunção Barboza no e-mail marcel@santotomas.com.br. A informação pode ser dada por meio de scanner do comprovante de depósito, ou pelo mero fornecimento dos dados deste.

Informação final:
Neste site se ministrarão outros cursos, concomitantes a este.
Em tempo: Esta é a última semana de inscrições no minicurso A ALMA HUMANA - DOS PRÉ-SOCRÁTICOS A SANTO TOMÁS, a realizar-se na Academia Brasileira de Filosofia - ABF todas as quartas-feiras de novembro. Elas estão sendo feitas pelo email curso@edsetimoselo.com.br. Agradecemos penhoradamente ao presidente da ABF, João Ricardo Moderno, Prof. da Uerj, por franquear-nos uma vez mais este maravilhoso espaço da Academia (na Casa de Osório, no Centro).

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A Criação (I)


Sidney Silveira
Num trecho do Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo, Santo Tomás afirma que criar é “produzir a coisa no ser segundo toda a sua substância” (producere rem in esse secundum totam suam substantiam). Trata-se, literalmente, de uma doação de ser, ou, em sentido mais técnico no vocabulário tomista*, de uma participação no ser. Noutras palavras, todos os entes têm o ser por participação — enquanto Deus é o próprio Ser que dá de si algo per creationem, num ato libérrimo de Sua vontade. Tudo isso é congruente com outra formulação do Aquinate: “Nada há que preexista à criação” (quia nihil est quod creationi praexistat).

Nenhum de nós é, portanto, capaz de criar, mas tão-somente de formar algo a partir de uma matéria preexistente, ou de gerar algo a partir da própria forma em consórcio com outra da mesma espécie (no caso da geração de uma nova vida, por exemplo). Nestas ocasiões, trata-se de um movimento, ou seja, do trânsito da potência ao ato que supõe uma matéria anterior. Já a criação não pode dar-se por movimento justamente porque é productio ex nihilo, ou seja, é a partir do nada — e nada havia fora da mente divina que pudesse mover-se da potência ao ato, nem a matéria prima. Em suma, o conceito de criação do nada se opõe ao conceito de movimento porque toda mutação pressupõe um sujeito que se movimenta, ou seja, supõe um ponto de partida que passa a um termo final, como muito bem afirma Juan Cruz Cruz na apresentação do Comentário às Sentenças editado pela EUMSA. Ora, no caso da Criação não havia nenhum outro sujeito que, por intermédio da ação divina, pudesse passar da potência ao ato, pelo simples fato de que não havia entes, mas apenas o Próprio Ser. Os entes são, literalmente, a “novidade no ser” (novitate essendi) que é produto da criação. Veja-se a proposição inteira: “A criação não é outra coisa senão uma relação [da criatura] a Deus com novidade no ser” (creatio nihil est aliud realiter quam relatio quaedam ad Deum cum novitate essendi)**.

Nós, em nossa absoluta indigência ontológica, não tocamos o ser, mas apenas a forma dos entes. Só Deus dá o ser e só Ele poderia retirá-lo, se assim o desejasse. Nós podemos destruir as formas dos entes, reduzi-las a outras, pulverizá-las transformando-as em partículas infinitesimais de matéria, mas não lhes destruímos o ser. Somente Deus cria e, portanto, somente ele pode aniquilar — levar o ente ao nada de onde proveio. Neste caso, também não se trataria de uma pura e simples mutação do ser ao não-ser, razão pela qual, de acordo com Santo Tomás, a aniquilação também não se enquadra na categoria do movimento. Em síntese, a potência ao não-ser (potentia ad non esse) não pertence propriamente a nenhuma das criaturas, pois tão-somente o omnipotente Criador pode atualizá-la nelas. Fazendo uso de uma imagem, podemos muito bem dizer que o ser é intocável por nossas mãos.

A criação não tem partes, pois é a criação da totalidade do ser dos entes a partir do nada. Num só ato, Deus cria a matéria prima com todas as suas formas específicas. Do ponto de vista das criaturas, a criação é, pois, uma relação, como afirma o Aquinate. Uma relação do ente finito com o Ente infinito que é o Próprio Ser. O mesmo Cruz Cruz, na referida apresentação ao Comentário de Tomás, diz com grande acerto que o ato de ser não pertence à essência mesma das coisas, pois é, para elas, um predicado acidental. O meu ato de ser não me pertence, nem o de ninguém. Por esta simples razão, não dispomos sequer da nossa própria vida, não somos os proprietários dela — e mesmo o mais convicto dos suicidas, se soubesse que, ao matar-se, apenas destrói o composto atual que o mantém vivo, mas não o ser (e muito menos a forma substancial do seu corpo, que é a alma), talvez mudasse de idéia antes de pôr fim à própria vida. Daria graças a Deus, autor da Vida, maravilhado com esse tão grandioso bem. Ademais, nenhum mal que se dê em nossa vida pode ser maior do que a mesma vida em que se dá.

Vejamos o que diz esse milagre da inteligência que foi Santo Tomás a respeito do ato grandioso, extraordinário, divino, da criação:

“Que haja criação não apenas o sustenta a fé, mas também o demonstra a razão. Porque consta que tudo o que é imperfeito em algum gênero nasce daquilo que primeira e perfeitamente se encontra na natureza do gênero, como consta do calor nas coisas que são esquentadas pelo fogo. Pois muito bem: como qualquer coisa e tudo o que há nela participa de alguma maneira do ser e está mesclado com imperfeição, é necessário que a coisa, de acordo com tudo o que há nela, provenha do Ente primeiro e perfeito. E a isto chamamos criar, ou seja, produzir a coisa no ser segundo toda a sua substância” (producere rem in esse secundum totam suam substantiam)”.
(II, Sent. d1. Art.2)

Em suma, embora não seja, em termos metafísicos, propriamente um movimento (pois sequer possui duração, que é a característica de todos os movimentos dos agentes naturais), a criação é o evento mais extraordinário que pode ter havido, uma ação maravilhosa do Todo Poderoso à qual devemos render graças sempre e sempre.

Meditar sobre a criação é, para o cristão, uma das formas de exercitar o olhar e ver no próximo (por pior que eventualmente possa ser) um semelhante em Deus — criado e amado por Ele.

* Digo vocabulário tomista porque me recuso terminantemente a usar a palavra tomasiano — por razões que noutro texto vale a pena explicar.
** De Potentia Dei, q. 3, a. 3, resp.
Em tempo: Se Heidegger tivesse lido o Comentário às Sentenças escrito pelo Aquinate, não diria que a pergunta “por que há o ente e não o nada?” é a pergunta das perguntas metafísicas. Veria que esta é, na verdade, uma pergunta que expressa um pseudoproblema.
(continua)