quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O Diálogo das Carmelitas

Martírio das freiras de Compiègne

Sidney Silveira
Um filme imperdível que está esgotado em nossas distribuidoras (Le Dialogue des Carmelites [“O Diálogo das Carmelitas”]) conta a inacreditável história das 16 heróicas freirinhas de Compiègne, na França, hediondamente guilhotinadas por atividades “contra-revolucionárias”, enquanto entoavam o Veni, Creator Spiritus a caminho do cadalfalso. Elas foram em direção aos seus carrascos com a serenidade de quem abraça o martírio sabendo que troca este miserável vale de lágrimas (tão idolatrado pelos católicos neoconservadores, para quem o desprezo do mundo é quase uma infâmia) pela felicidade eterna. Uma história tocante, verídica, que mostra o ponto a que pode chegar o ódio do homem ao seu Criador e às pessoas que O amam. Uma passagem do filme chama a atenção: a de uma jovem que, recebendo uma Graça especial, escolhe voltar para a Ordem na hora decisiva — apenas para ir com as suas amigas ao martírio, morrer junto com elas em odium fidei.

Veja-se, neste link, a cena final do filme, que leva qualquer pessoa ainda não contaminada pela idiotice universal às lágrimas. A propósito, o filme inteiro pode ser visto no Youtube, dublado em espanhol (e não em sua versão francesa original).

Decerto há católicos liberais que preferem idolatrar o Batmam ou o Homem-Aranha como obra de “arte” cinematográfica. Tal patologia mental — que na verdade atinge a inteligência e, também, a sensibilidade — renderia uma série inteira de textos, que talvez um dia eu poste no Contra Impugnantes sob o título “Robin vai ao cinema”...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A alma humana: minicurso do "Instituto Angelicum" na Academia Brasileira de Filosofia - ABF



Carlos Nougué

Curso “A ALMA HUMANA — DOS PRÉ-SOCRÁTICOS A SANTO TOMÁS DE AQUINO”

Ministrarei no mês de novembro o curso acima referido. Seguem os dados e a ementa.
Datas: todas as quartas-feiras de novembro de 2009 (dias 04, 11, 18 e 25).
Horário: das 18:30h às 20:30h.
Local: Academia Brasileira de Filosofia — ABF (Casa de Osório), Rua do Riachuelo, 303 – Centro, Rio de Janeiro/RJ.
Observação: Ao lado da Academia há um estacionamento.
Preço total do curso: apenas R$ 100,00.
Inscrições e contato: Carlos Nougué (
curso@edsetimoselo.com.br).

EMENTA:


I) A alma humana segundo os mitos gregos
II)
Os milesianos: a alma é da mesma natureza do princípio físico do mundo
III) Heráclito de Éfeso: o fogo e a “profundidade” da alma
IV) O pitagorismo: culpa original e metempsicose
V) Empédocles: purificação e vida bem-aventurada
VI) Os atomistas: a alma (um composto de átomos sutis) e o conhecimento
VII) O avanço socrático: a psyché como a essência do homem
VIII) Platão: provas da imortalidade da alma, anamnese e metempsicose
IX) Aristóteles — a primeira solução definitiva: o hilemorfismo e as três partes da alma
X) Santo Agostinho: a alma e sua luz; o Hiponense e Plotino
XI) Santo Tomás de Aquino:
1) a alma enquanto ato do composto humano;
2) o momento da infusão da alma intelectiva;
3) a alma enquanto separada do corpo;
4) alma e restauração escatológica.

ADENDO DO SIDNEY: Este será o segundo curso que ministramos na Academia Brasileira de Filosofia — presidida pelo Prof. João Ricardo Moderno, Prof. da Uerj — na belíssima Casa Histórica de Osório, uma das mais antigas casas residenciais do Rio que, no passado, abrigou o Museu do Exército. Há três anos, realizamos um curso intensivo de três meses e meio, aos sábados, sobre alguns aspectos da doutrina de Santo Tomás de Aquino: ética, metafísica e angelologia (comigo, com o Nougué e com o Prof. Sergio Sales, da Universidade Católica de Petrópolis - UCP). Agradecemos ao presidente Moderno por abrir-nos uma vez mais este nobre e charmoso espaço para a realização de outro curso. Outra coisa: como faremos uma pequena divulgação em jornais cariocas, sugiro que quem quiser garantir a inscrição pelo email referido pelo Nougué (uma pechinha, pois no final de contas são R$ 25 por aula) que o faça desde já — pois o número de vagas será limitado.

domingo, 4 de outubro de 2009

"TV" Contra Impugnantes: Religião, Ética e Política

Sidney Silveira
Veja-se mais um treho de aula do Nougué no curso de filosofia do Instituto Angelicum no CCBB, no Rio.

sábado, 3 de outubro de 2009

TV" Contra Impugnantes: filosofia do ser x filosofia das essências

Sidney Silveira
Eis
mais um trecho da aula em que se alude à síntese feita por Santo Tomás entre a metafísica do ato e da potência em Aristóteles e a teoria da participação em Platão.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

...e o Verbo se fez carne


Sidney Silveira
Sem a Graça, o homem no atual estado decaído não passa de um feixe de paixões e taras — tendente aos piores erros e vícios. Um fumo de orgulho e de vaidades tolas. Nesta miserável condição, era necessário que o Verbo Encarnado, Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, Luz de Luz, Deus de Deus, descesse do Céu e se deixasse humilhar para que fôssemos exaltados e resgatados pelo seu Sangue. Com essa divina humildade Ele esmagou a nossa humana soberba e nos conduziu ao conhecimento da perfeição para a qual fomos criados. Armou-nos para a luta contra o pecado, que nos afasta de Deus. Em verdade, sem a Encarnação do Verbo seria impossível sairmos do buraco. Daí dizer Santo Tomás:

“À 'razão de bem' (ad rationem boni) pertence o comunicar-se. (...) Por conseguinte, pertence à razão de bem sumo o comunicar-se sumamente. E esta comunicação soberana se dá quando Deus une a si a natureza criada”. (Suma Teológica, III, q. 1, a.1, De convenientia incarnationis)

Deus caritas est, e por esse sumo amor redime a criatura por ele amada, feita à sua imagem e semelhança. Esta é, a propósito, a diferença entre o Cristianismo (ou seja: a Igreja) e todas as outras religiões: ela é a única verdadeira e integalmente teomórfica, pois foi fundada pelo próprio Deus, que lhe deu a forma, prescreveu os fins e instituiu os meios convenientes e adequados para lográ-los, de acordo com a Sua vontade. Muitas daquelas que, por analogia, chamamos "religiões" não passam de antropomorfizações mais ou menos envernizadas. Algumas são inclusive capazes de nos manter afastados de Deus pela estrita e ascética observância de ritos, práticas ou “tradições”...

É o que nos aponta este simples, belo e pedagógico vídeo.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sobre filosofia e método

Sidney Silveira
Divergências entre homens dedicados à especulação filosófica só se podem resolver numa espécie de disputatio, ou seja: com a clara definição das premissas de parte a parte e a conseqüente dissecção dos argumentos por um procedimento dialético que pese todas as objeções*. E, de fato, não há meio mais eficaz de alcançar a verdade, pois não temos — como devaneava Husserl — a intuição direta das essências. Precisamos compor e dividir raciocínios para, analiticamente, tomar posse do conceito pelo qual adequamos a nossa inteligência às coisas inteligidas.

A disputatio foi o que de mais elevado se produziu em termos de método dialético, em todos os tempos. Portanto, qualquer discussão, se se quiser séria, precisa ter algo da disputa escolástica, e não por uma espécie de arqueologismo sem sentido, mas porque, em qualquer ordem de coisas, o mais e o menos se medem em relação ao grau máximo — e o máximo a que se chegou, em termos de exposição analítica, foi a disputatio. Por esta razão, mesmo um filósofo contemporâneo deve tê-la no horizonte, como uma espécie de modelo. Não se trata, é claro, de uma necessidade de escrever em forma de disputa, mas apenas de tê-la como elevado referencial para a inquirição da verdade.

A busca por esse modelo de excelência para o munus philosoficus se impõe com absoluta evidência quando consideramos que — como dizia Edith Stein em seu denso Ser Finito e Ser Eternoé tarefa da filosofia esclarecer os fundamentos de todas as ciências. A propósito, sou insuspeito para fazer qualquer elogio a esta peculiar metafísica, pois penso que a sua tentativa de pôr lado a lado Santo Tomás e Husserl, de quem fora discípula no início de sua trajetória intelectual, acabou por gerar grandíssimos males para a teologia católica posterior. Mas o que importa, aqui, é que esta sentença de Edith, compartilhada por pensadores de escol, é acertadíssima: é tarefa da filosofia esclarecer os fundamentos de todas as ciências. E isto porque, toda vez que um cientista de uma área específica do saber investiga o fundamento de sua ciência, atua como filósofo.

Certamente, a filosofia não se resume a esta nobilíssima tarefa de dotar todas as ciências de uma ratio suficiente, mas é seu papel, sobretudo, buscar a verdade sobre todos os inteligíveis, penetrar o âmago das coisas tanto quanto seja possível, realizar o que alguns teólogos chamaram de reductio ad mysterium, ou seja: nessa busca, levar a inteligência até o ponto em que não reste outra coisa senão o raio de trevas luminosas da incognoscível Causa Primeira que é a razão da cognoscibilidade de todas as demais causas e coisas, como lindamente dizia o Pseudo Dionísio. Um filósofo que se contente com um esclarecimento provisório sobre as causas últimas do Ser, ou então nem sequer as coloque em pauta, é uma espécie de prevaricador — e cedo ou tarde acabará enredado por sua própria inapetência pela verdade.

A propósito, não há outro caminho para o espírito humano: ou se ordena intencionalmente ao fim último, que é o Próprio Ser Subsistente (e, neste contexto, a filosofia cumpre o papel específico de dar sentido a essa ordenação intencional), ou dele se afasta e se dissipa no absurdo, no non sense, em fatuidades, em más filosofias.

Nesta tensão, nada como valer-se de um método seguro para iniciar a caminhada.

* Isto não quer dizer, em absoluto, que valha qualquer procedimento na discussão com pessoas que não buscam a verdade, como se demonstrou na breve “Questão Disputada sobre o uso de palavras torpes por parte do filósofo”.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O livro de Raimundo Lúlio

Sidney Silveira
Já se disse aqui da imensa dificuldade do projeto da editora Sétimo Selo, que não tem patrocinadores nem mecenas — e, na verdade, nem os quer ter. A menos que se tratasse de um mecenato sem qualquer imposição quanto à linha de publicações, da qual não abriremos mão.

Portanto, esse projeto editorial depende dos leitores para sustentar-se. Agora, é a vez do livro Raimundo Lúlio e as Cruzadas, uma edição trilíngüe (latim, catalão e português), bem-cuidada, que aborda um tema muito incômodo, sobretudo para católicos liberais que se envergonham do passado da Igreja. A propósito, em breve daremos notícia da palestra de apresentação desta obra, na qual falaremos sobre as Cruzadas, sobre o sentido da defesa da fé e, também, sobre o ecumenismo, na forma como hoje é proposto.

O livro traz uma Nota do Editor, assinada por mim; um Posfácio assinado pelo Prof. Ricardo da Costa, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e da Reial Acadèmia de Bones Lletres de Barcelona; uma Introdução de Fernando D. Reboiras, da Universidade de Freiburg im Bresgau, na Alemanha; e um breve Prefácio de Pere Villalba y Varneda, da Universidade Autônoma de Barcelona.

PARA AJUDAR-NOS, caríssimos leitores do blog, peço encarecidamente que façam a encomenda do livro pela LOJA VIRTUAL DA EDITORA, NESTE LINK.

A propósito, há vários outros livros “no forno”, esperando apenas recursos para ser editados — como o Protréptico de Clemente de Alexandria (em edição bilíngüe, grego/português); o Tratactus de primo principio, de Duns Scot (latim/português) e mais um livro de Chesterton. A edição deles depende de vocês, que nos lêem. Portanto, reitero: ajudem-nos comprando os livros!

A propósito, o livro A Candeia Debaixo do Alqueire esgotou-se em um mês e meio; agora faremos uma reimpressão, já com algumas pequenas correções de revisão. Obrigado a todos.

Depois, voltaremos ao Lúlio.