quarta-feira, 16 de setembro de 2009

TV" Contra Impugnantes — Chesterton, criador de um grande personagem

Sidney Silveira
Em algum momento, pus aqui no blog esse vídeo do Carlos, em duas partes — e agora o disponibilizo no Youtube, pois em breve daremos prosseguimento a esta série de mini-resenhas virtuais.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Filósofo boca-suja?


Sidney Silveira
A pedido de amigos, compus hoje esta breve questão disputada sobre o uso de palavrões por parte do filósofo. Depois, certamente, se apresentará ocasião para comentarmos em detalhes o que segue abaixo.

QUESTÃO DISPUTADA SOBRE O USO DE PALAVRAS TORPES POR PARTE DO FILÓSOFO

(Em um artigo)

Sobre se é lícito ao filósofo, contra adversários maliciosos, argumentar com palavrões ou ditos insultuosos.

E PARECE QUE SIM.

Primeira objeção
Entre pessoas que buscam
a verdade, mas divergem com relação a determinado tópico (τόπος), a discussão dialética deve dar-se por meio de um tratamento respeitoso, sem palavras de calão, para que a luz da razão natural (lumen rationis naturalis) dos debatedores não se obscureça pelas paixões do apetite irascível e consiga, assim, levar ao ato uma potência que é conatural a todos os homens: chegar à verdade após um movimento que radica no chamado intelecto possível [1]. Ocorre que há maliciosos opositores, como os comunistas, por exemplo, entre os quais não há quem de fato busque a verdade, mas apenas defensores de uma ideologia criminosa — com maior ou menor grau de consciência das primícias de sua atuação e das conseqüências, diretas ou indiretas, que dela decorrem. Logo, parece lícito usar palavras desrespeitosas e de calão numa discussão dialética com comunistas ou com defensores de quaisquer outras ideologias nefastas.

Segunda objeção
Diz Aristóteles no Peri Hermeneias que a palavra escrita é símbolo da palavra falada, e a palavra falada é símbolo das afecções da alma, ou seja: das imagens da realidade que afetam a potência sensitiva interna da
imaginação, antes de ser conduzidas à vis cogitativa da alma e, desta, à razão superior que abstrai a verdade dos dados subministrados pelos sentidos. Mas as palavras (escritas ou faladas) usadas pelos comunistas na defesa de suas teses, assim como as dos defensores de quaisquer outras ideologias nefastas travestidas de filosofia, não simbolizam em nenhum grau a realidade, mas representam a negação desta por meio de sofismas ou slogans que visam a seduzir as pessoas e levá-las ao erro. Portanto, eles não podem, propriamente, ser considerados filósofos e, por esta razão, não merecem adentrar o terreno das discussões dialéticas que pressupõem o debate respeitoso aludido na primeira objeção. Logo, o filósofo não está obrigado a usar com eles das palavras vernáculas que expressam os elevados conceitos mentais pelos quais se chega filosoficamente à verdade, mas pode, se quiser, usar palavras de calão.

Terceira objeção
Os defensores do comunismo e de outras ideologias tão ou mais nefastas — como
o liberalismo, em seus mais variados matizes — muitas vezes mentem em sua argumentação, e a mentira em si é muitíssimo mais daninha do que o palavrão, já que este último não necessariamente expressa um engano, mas, em geral, apenas retrata um estado de espírito. Assim, por serem contumazes impugnadores da verdade conhecida, estão esses mendazes adversários excluídos da discussão filosófica, pois na melhor das hipóteses se pode conceder que defendem os seus erros com algum grau de ignorância culpável. Logo, por princípio, não é preciso usar de linguagem escorreita no trato com eles, pois, dada a sua leviandade, não são merecedores do respeito hipotecado aos verdadeiros adversários filosóficos, pois estes últimos buscam a verdade, enquanto os comunistas e os defensores de outras ideologias nefastas (como o liberalismo), não.

EM SENTIDO CONTRÁRIO, remetamo-nos ao que diz Aristóteles no Protreptico, por meio de um silogismo disjuntivo: “Ou devemos filosofar, ou não devemos. Se devemos, então devemos [sem problemas]. Mas se não devemos, também devemos para explicar por que não devemos. Logo, devemos filosofar sempre”. Desta conclusão do Filósofo deduz-se que o modo humano de conhecer pressupõe, necessariamente, o uso de argumentos para alcançar a verdade — e tão mais verazes serão esses argumentos quanto menos estiverem contaminados pela exacerbação das paixões do apetite irascível, que normalmente afloram numa discussão aos palavrões. Ademais, na língua insultuosa não se encontra a sabedoria, mas, ao contrário, ela apenas reflete a arrogância e leva a grandes quedas espirituais as pessoas que discutem aos palavrões. Daí dizer a Sagrada Escritura: O prepotente (...) usa de palavras perniciosas (Sl. 51). E ainda: Não terá duração na Terra a má língua (Sl. 139, 12). E mais: A boca do justo produz sabedoria, mas a língua perversa será arrancada (Prov., 10. 31). E por fim: Aquele que profere uma linguagem iníqua não pode fugir de Deus; a Sua justiça vingadora não o deixará escapar (Sab. I, 8); etc.

RESPOSTA. Duas coisas devem considerar-se, como preâmbulo à resposta a esta questão. A primeira é que o bem e a perfeição do intelecto humano consistem em conhecer a verdade, como afirma Santo Tomás na Suma Contra os Gentios (I, 1, 3). Portanto, sendo a verdade o bem (e o fim) do intelecto, a ela devem ordenar-se todos os raciocínios que compomos ou dividimos fazendo uso da potência intelectiva, assim como todas as discussões em que estejamos envolvidos. A segunda é que a esse bem do intelecto humano que é a verdade não se chega sem que haja uma causa instrumental extrínseca — no caso, o mestre. Pois, como diz Santo Tomás no livro Sobre a Verdade (q. 11, art. 2. resp.), embora possamos conhecer sozinhos muitas coisas graças à luz da razão natural dada por Deus a todos os homens, nem por isso podemos dizer que somos mestres de nós mesmos, pois quando alguém adquire a ciência por si mesmo, ainda assim a tem apenas em seus princípios comuns aplicados a algo específico e limitado — mas não em relação aos conhecimentos mais abstratos e superiores, para os quais é preciso haver uma causa instrumental exterior que incuta o hábito da ciência na alma daquele que busca a verdade.

Pressupostas estas duas coisas (ou seja: que todos tendemos à verdade; e que, para alcançá-la em sentido pleno, precisamos de um mestre), deve-se dizer que, numa discussão contra adversários maliciosos, é absolutamente ilícito e contraproducente para o filósofo fazer uso de palavrões ou de expressões insultuosas, e isto por algumas razões. Aduzamos somente duas, pois nos bastam. A primeira delas é que o ofício do sábio (officium sapientis) consiste em uma dupla função: ordenar as coisas aos fins que lhes são próprios e combater os erros, conforme acentua Santo Tomás no começo da Suma Contra os Gentios (I, 1). Ora, sendo o comunismo e quaisquer ideologias tão ou mais funestas (como o liberalismo) um erro tremendo, mais do que nunca cabe ao filósofo usar dos seus melhores instrumentos para refutá-las de forma apodíctica e, assim, tentar conduzir os seus adeptos à clara visão da verdade — o que não se faz por insultos nem com palavrões. Na prática, se o filósofo começa a xingar os seus adversários que estão em erro, com isto acaba por engolfá-los mais e mais no erro em que estão, pois os induz a responder iradamente na mesma medida, sem raciocinar, dado que uma das precondições para a razão alcançar a verdade reside no fato de que não esteja obliterada por vícios mentais [2] que, na prática, são grandemente estimulados pela linguagem torpe. Assim, ainda que o adversário seja um “demônio”, não se deve baixar o nível da linguagem na denúncia de suas argúcias sofísticas, pois para o filósofo basta refutá-las.

Deve-se também aduzir o seguinte fato, considerando a malícia dos adversários comunistas (e também liberais) e a natureza nefanda dos seus erros: é impossível, nesta vida, o homem estar definitivamente obstinado no mal. Bem o demonstra o Angélico no livro Sobre a Verdade (Q. 24, art. 11, resp.), onde diz: “A obstinação implica certa firmeza no pecado, em virtude da qual o pecador não consegue sair de sua situação. Pois bem, o fato de que um pecador não consiga abandonar o pecado pode entender-se num duplo sentido: em primeiro lugar, em razão de as suas forças não serem suficientes para que ele se liberte do pecado, e neste sentido se diz de todo aquele que cai em pecado mortal que não pode voltar [sozinho] à retidão. Mas esta firmeza no pecado não basta para dizer que alguém esteja propriamente obstinado. Noutro sentido, se diz que alguém está firme no pecado porque não consegue cooperar para sair dele”. A partir daí, Santo Tomás afirma que a obstinação perfeita existe apenas nos demônios, cuja inteligência está tão fixada no mal que quaisquer dos seus movimentos volitivos e intelectivos implicam em si o engano, a malícia, e, portanto, o pecado. No caso do homem, por pior que seja a situação moral e intelectual em que esteja, a sua obstinação é imperfeita, na medida em que sempre há débeis e episódicos movimentos em direção ao bem da inteligência, que é a verdade. Portanto, ainda que os adversários comunistas e liberais estejam em tal situação dramática (na qual, teologicamente, só se pode esperar por uma moção superabundante da graça divina), cabe ao filósofo, mais do que nunca, tentar fazê-los recuperar o senso comum, que é precondição para a verdade vir à luz. Se não conseguir, ele não deve insultá-los com xingamentos ou coisas assim, pois isto literalmente faria com que eles se obstinassem mais e mais em sua posição, como a experiência o demonstra de forma eloqüente.

EM RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO, deve-se dizer que, do fato de os comunistas (e também os liberais) não buscarem a verdade em sentido próprio — pois são meros ideólogos em busca de argumentos com aparência de verdade —, não se deduz, logicamente, que seja lícito usar para com eles palavrões ou insultos. Trata-se de um enorme salto lógico, típico do pensamento erístico, entre as premissas maior e menor e a conclusão do silogismo: aquelas definitivamente não conduzem a esta. Ademais, do fato de termos de usar de palavras respeitosas para com quem busca a verdade não se deduz que só devamos usá-las neste caso.

EM RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO, deve-se dizer que ela comete o mesmo raciocínio vicioso, no seguinte ponto: do fato de tais contendores não serem propriamente filósofos não se deduz que não devamos usar para com eles da mesma linguagem respeitosa implicada na discussão verdadeiramente filosófica.

EM RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO, façamos menção a Santo Agostinho, que nos lembra o seguinte: nem todos os que dizem uma coisa falsa mentem (Sobre a Mentira, I, cap. 3), mas apenas aqueles que, tendo uma determinada coisa na mente, expressam outra contrária com o intuito de não revelar a verdade. Sendo assim, pressupor que todos os comunistas e liberais mentem é cometer o grave pecado de julgamento de intenção. Além do mais, ainda nos casos em que a mentira se torne de tal forma patente (e que, portanto, não cometamos o julgamento de intenção ao atribuí-la a outrem), disto não se deduz (nem se justifica) que tenhamos de responder a ela com insultos e palavrões, entre outras coisas pelas razões apresentadas no corpus.

[1] Em linhas gerais, Aristóteles conceituara o “intelecto possível” (ou “passível”: o noûs pathetikós) como potência do intelecto para atualizar todos os inteligíveis. Trata-se da pura e simples capacidade que possui cada ser humano, individualmente, de atualizar toda a sorte de conhecimentos.
[2] Aduzamos, à guisa de exemplo, a ira e a contumélia.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

TV" Contra Impugnantes — Protágoras, relativismo e Einstein



Sidney Silveira
O rosto sorridente de Einstein, acima, é apenas para remeter-nos ao final do trecho desse vídeo de aula do Nougué — sobre as absurdidades de Protágoras e seu “homem como medida de todas as coisas”.

Ainda sobre o nosso papel

(Carlos Magno é coroado pelo Papa Leão III: o poder temporal recebe o beneplácito do poder espiritual)

Carlos Nougué
Na década de 1950 foi fundado por Jean Ousset e outros, na França, La Cité Catholique, movimento de leigos cujo objetivo era a reinstauração do Reinado Social de Cristo, segundo o estabelecido por Pio XI na Encíclica Quas primas. Grande foi a perseguição movida contra La Cité Catholique por largos segmentos do clero, sempre sob o argumento de que os leigos não se devem intrometer em assuntos que competiriam unicamente aos religiosos; mas com um fundo claro: tratava-se já, em parte, de reação daqueles que dariam a tônica humanista-liberal ao Concílio Vaticano II. Poucas autoridades eclesiásticas saíram em defesa daquele movimento de leigos, entre as quais D. Jean le Cour Grandmaison, D. Louis (Arcebipo de Reims), e D. Marcel Lefebvre, o que lhe valeu acerbos ataques e críticas. Leiamos extensamente a carta do então Arcebispo de Dacar e Delegado Apostólico para a África Francesa dirigida a La Cité Catholique e posta ao modo de Apresentação no livro Pour qu’Il regne (escrito por Jean Ousset, mas assinado pelo movimento): “Caros Senhores [dizia D. Lefebvre], já não é necessário que eu manifeste meu encorajamento e minha simpatia com respeito à vossa associação. Quando tive a satisfação de conhecer seu objetivo, seus desejos, suas realizações, já os aprovei plenamente. Bem sei que se fazem críticas com relação a vós: elas atingem alguns detalhes de expressão; trata-se de algumas pessoas que temem por causa de seu suposto apego a certas formas de política; e essas objeções vós não deveis levar em consideração senão para aperfeiçoar vossa obra. Mas, se tais juízos querem atingir as bases mesma de vosso pensamento, de vossa orientação, então equivalem a JULGAMENTOS DE INTENÇÃO e a puras calúnias. Vossa obra Pour qu’Il regne responderá a estes últimos por seu cuidado de ser fiel intérprete do pensamento e das mensagens dos Soberanos Pontífices. Vós tornais a dizer, com todos os Papas e segundo Nosso Senhor mesmo, “venha a nós o Vosso reino”; vós quereis, antes de tudo, purificar os espíritos de tudo o que neles e em torno deles se opõe a esse Reino. Seguindo os objetivos traçados pelos Sucessores de Pedro, vós vos esforçais por melhor conhecer os graves erros que eles denunciam, a fim de destruí-los; e o meio que preconizais está entre os mais eficazes: trabalhar para que se faça a luz nos espíritos por meio de pequenos grupos, indicando de maneira precisa a Verdade por compreender e afirmar; e o erro por combater. ‘Redigere intellectum in obsequium Christi’, diz São Paulo. Essa é a primeira tarefa; a segunda, ou seja, a ação, em função dessa submissão, se dará naturalmente. Nosso Senhor reinará na Cidade quando alguns milhares de discípulos assíduos de Nosso Senhor e da Igreja forem convencidos pela graça e por seu esforço intelectual da Verdade que lhe é transmitida e de que esta Verdade é uma força divina capaz de transformar tudo. Hoje, é a verdadeira filosofia o que mais faz falta. Se, seguindo os conselhos de todos os Papas do último século, os clérigos e os próprios leigos se esforçassem por conhecer a verdadeira filosofia tomista, os verdadeiros princípios da ética e da sociologia, já não se invocariam, nas Constituições, os sacrossantos princípios de 89, que arruínam as noções fundamentais do direito, da justiça, desconhecendo a lei divina que determina o bem e o mal. Aí está por que é excelente o vosso desejo de incutir todas essas noções salutares nos espíritos para que Cristo reine. Eu desejo que possais logo preparar um livro que resuma os principais pensamentos deste e adaptados do ponto de vista didático aos vossos grupos de africanos, que são ávidos de verdade e de verdade religiosa. As graves responsabilidades que eles têm hoje exigem que tenham princípios de ação exatos e coerentes, princípios que só a religião católica detém. Que Cristo Rei e Maria, Rainha do Mundo, bendigam vossos esforços a fim de que os governantes submetam seus espíritos e os corações a Seu Reino de Amor” (negritos nossos).*

Pois bem, a partir desta importante carta de D. Marcel Lefebvre, podem-se formular as seguintes interrogações, a que tentaremos responder em seguida: 1) Por que Jean Ousset acabou por aderir às teses conciliares?; 2) Está-se defendendo aqui a criação hoje, no Brasil, de um movimento semelhante a La Cité Catholique?; 3) O efetivo apoio de D. Lefebvre a um movimento leigo tem verdadeiro respaldo no magistério da Igreja e pode estender-se, de algum modo, à ação dos leigos nos tempos atuais?

Resposta à primeira. Naturalmente, não é este o espaço para esta discussão. Digam-se apenas duas coisas. Em primeiro lugar, parece-nos, após atenta leitura de Pour qu’Il regne, encontrar um problema nele: certa incapacidade de aceitar que não se refaça a Cristandade, esquecendo-se acaso de que, conquanto Cristo possa de potentia absoluta refazê-la, talvez tal refeitura não esteja nos desígnios de Deus para a história humana (que, como já se disse num artigo deste blog, não pode ordenar-se senão à completação do números dos eleitos). Em segundo lugar: apesar disso (e da adesão de Jean Ousset, mais que às teses conciliares, à “autoridade” do Concílio), “a única obra de política católica totalmente sã que encontramos [desde séculos atrás]”, afirma o Padre Álvaro Calderón, “é Para Que Ele Reine, de Jean Ousset. É verdadeiramente ‘fiel intérprete do pensamento e das mensagens dos Soberanos Pontífices’, como diz dela o Arcebispo de Dacar, Mons. Marcel Lefebvre” (negrito nosso).

Resposta à segunda. Obviamente que não defendemos, neste blog nem em nenhum outro espaço, a criação de movimento algum, seja ao estilo de La Cité Catholique, seja ao estilo de qualquer outro. Não é a primeira vez que o dizemos, mas o repetiremos pacientemente quantas vezes for necessário; imputar-nos algo diferente com relação a isto é fazer “julgamento de intenção”. Mas por que não o defendemos, pergunte-se ainda assim? Se se trata de um movimento ao estilo de La Cité Catholique, evidentemente por já não ter lugar no mundo de hoje; era adequado para o mundo de antes do Concílio Vaticano II. Se porém se trata de qualquer movimento, não defendemos sua criação ou porque simplesmente não temos pendor ou índole para isso, ou sobretudo porque tampouco parece adequado para o mundo de hoje — por razões que já demos ao longo de muitos artigos neste blog e que não cabe repetir aqui. O que, então, fazemos neste blog e em qualquer outro espaço ao defender a verdadeira filosofia tomista, o magistério da Igreja, a Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo? Tudo quanto M. Marcel Lefebvre elogiava em La Cité Catholique — menos o fato de constituir-se como movimento. Mas cabe insistir hoje em dia no tema da Realeza de Cristo? Como se lê no Catecismo da Realeza Social de Jesus Cristo, do Padre A. Philippe, C.SS.R., ainda que tudo no mundo indique a impossibilidade aparente dessa Realeza, devemos defendê-la até a morte – não seja que, de tanto a omitirmos, acabemos nós mesmos por negá-la.

Resposta à terceira. Circunscrevamos a resposta ao magistério de dois Papas, Leão XIII e Pio XII, considerando que ambos pontificaram num mesmo período: o do encurralamento da Igreja e do resto de Cristandade pelas revoluções liberais e comunistas, ou seja, antes do esmagamento desta e da autodestruição daquela resultantes do Concílio Vaticano II; mas também que ambos esses períodos constituem um só do ponto de vista que nos interessa aqui: o da ação dos leigos. Com efeito, DISSE LEÃO XIII em Sapientiae Christianae, II, 8: “A missão de pregar, isto é, de ensinar, compete por direito divino aos doutores, aos quais o Espírito Santo constituiu bispos para apascentar a Igreja de Deus, e principalmente o Romano Pontífice, Vigário de Jesus Cristo, e da moral. No entanto, ninguém pense que é proibida aos particulares [ou leigos] qualquer colaboração neste apostolado, sobretudo aos que Deus concedeu talento e desejo de fazer o bem. Os particulares, quando for o caso, podem facilmente, não arrogar-se o cargo de doutor [da Igreja], mas sim comunicar aos demais o que eles receberam, repetindo, como um eco, a voz dos mestres [ou seja, como já vimos em “Nosso Papel e Divisão de Águas”, repetindo, como repetidores de segundo grau — abaixo dos sacerdotes em geral — o que disse Nosso Senhor Jesus Cristo, o Magistério da Igreja, Santo Tomás de Aquino e os mestres auxiliares deste]”. Por seu lado, ADVERTIU PIO XII em 31 maio de 1954 (na “Alocução aos Cardeais e Bispos para a canonização de Pio X”) contra uma “teologia laica”, ou seja, uma teologia que manifestasse a autonomia de um suposto “poder espiritual” próprio do laicato e independente do poder espiritual eclesiástico: “‘Teólogos laicos’ que se proclamam independentes […], que distinguem seu magistério do magistério público da Igreja e, de certo modo, o opõem a ele […]. Contra isto deve-se sustentar o seguinte: nunca houve, nem há, nem haverá jamais na Igreja um magistério legítimo de leigos que tenha sido subtraído por Deus à autoridade, guiamento e vigilância do magistério sagrado [...]. Isso não significa que a Igreja proíba aos leigos a profissão (como num eco para maior aplicação e difusão) da única e verdadeira doutrina: a do sagrado Magistério. Um comportamento assim, longe de opor ao magistério espiritual eclesiástico um magistério espiritual que, em si, seria laico […], um comportamento assim, ao contrário, é sinal da subordinação que deve existir entre o poder temporal do laicato e o poder espiritual dos clérigos. A Igreja não terá jamais demasiados leigos teologicamente formados para fazer que penetre na substância do temporal o fermento da doutrina elaborada pela hierarquia eclesiástica” (negrito nosso). Pois bem, supondo tudo quanto se disse de doutrinal nessas duas manifestações do magistério anterior ao Concílio Vaticano II; e considerando que então, como dizia ainda Pio XII, “a responsabilidade dos homens católicos parece maior e mais urgente em vista da organização mais avantajada da sociedade e do papel que cada um é chamado a desempenhar dentro dela […]” e que “ao nosso redor, as forças do mal estão poderosamente organizadas, trabalhando sem trégua” (“Mensagem aos homens da Ação Católica Portuguesa”, 10 de dezembro de 1950), razão por que, “por este aspecto, os fiéis, e mais precisamente os leigos, se encontram na linha de frente da vida da Igreja” (“Discurso aos novos cardeais”, 20 fevereiro de 1946; negrito nosso); pergunte-se: suposto, segundo o próprio magistério da Igreja, que não só não é um mal mas é importante os leigos serem repetidores da Sacra Doutrina, pode-se dizer que após o Concílio Vaticano II diminuiu a importância, indicada por Pio XII, desta forma de atuação dos leigos? Por óbvia, nem se necessita enunciar aqui a resposta.

Resta ainda, porém, outra questão: os escritos dos leigos não teriam de ter o nihil obstat e imprimatur da Hierarquia da Igreja? Sem dúvida, seria o correto, e com efeito o tem o mesmo Pour qu’Il regne de Jean Ousset. Mas não apenas os escritos dos leigos; também os de quaisquer clérigos, excetuados, naturalmente, o Papa e os bispos. Ora, é um fato que os autores (leigos e clérigos) modernistas e liberais foram progressivamente, por razões óbvias, esquivando-se de tal submissão. Como hoje em dia, porém, um escrito católico obteria o nihil obstat e imprimatur da Hierarquia da Igreja, se o governo dos Papas conciliares fez cair em desuso sua necessidade? Além do mais, usemos de bom senso: que escrito católico tradicional obteria hoje o nihil obstat e imprimatur de qualquer bispo, ainda que algum se dispusesse a ressuscitar tais permissões episcopais? Pediu-as Gustavo Corção para seu O Século do Nada? Pediu-as o carlista Rafael Gambra para seus numerosos escritos? Pediu-as ou as pede Rubén Calderón Bouchet para suas muitas obras?

Poder-se-ia multiplicar enormemente essa lista. Baste-nos, contudo, reproduzir aqui uma breve mas sugestiva relação de autores leigos da atualidade que publicam escritos ou conferências não só sobre filosofia, mas sobre teologia, sobre liturgia e sobre o próprio magistério da Igreja — sem imprimatur nem nihil obstat. Encontramo-la no site “Stat Veritas” (assim como se poderiam encontrar similares em muitos e muitos outros sites tradicionais): José Miguel Gambra (“
En el centenario de la Pascendi de São Pio X”); Antonio Caponnetto (“El historicismo de los modernistas”); Juan Carlos Ossadón Valdés (“Tres puntos sobre la nueva misa”); Julián Gil Sagredo (“El pecado próprio del liberalismo”); etc.

Não pode, todavia, haver erros doutrinais nos escritos dos leigos? Sim, como os pode haver, também, nos escritos dos clérigos. Há como sair do impasse? Sim: que os clérigos tradicionais apontem, eles próprios, PUBLICAMENTE E COM PROPRIEDADE, quaisquer erros que se encontrem em tais escritos. Quanto a nós, caso o façam e assim que o fizerem, retratar-nos-emos publicamente como devido.

* DIZIA SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO, Doutor da Igreja: “Se consigo converter um rei, terei feito mais pela causa de Deus do que se tivesse pregado centenas ou milhares de missões. O que um soberano tocado pela graça de Deus pode fazer, em prol da Igreja e das almas, nunca o farão mil missões” (apud Jean Ousset, Pour qu’Il regne).
Em tempo 1: Esta semana estarei particularmente ocupado, razão por que se adia para a segunda-feira dia 21 a informação dos dados concretos do curso de História da Filosofia via Internet; e para a mesma semana a continuação das séries sobre o sedevacantismo e o corte-e-costura dos liberais.
Em tempo 2: Fecharam-se as três primeiras turmas da primeira parte do “Trivium” (“Para bem escrever na língua portuguesa”): a de Belo Horizonte e duas do Rio. A primeira aula em Belo Horizonte será em 24 de outubro próximo; a da primeira turma do Rio, em 28 de novembro; e a da segunda turma do Rio, em 27 de fevereiro (de 2010, naturalmente). Mas ainda há algumas vagas para a turma de Belo Horizonte e para a segunda do Rio. Qualquer interessado pode, pois, escrever-me (
carlosnougue@hotmail.com).

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

TV" Contra Impugnantes — a tábua das proposições de Aristóteles

Sidney Silveira
Posto agora na "TV" Contra Impugnantes mais um pequeno vídeo, a pedido de um amigo que assistiu a essa aula.

O bom e o mau monge, de acordo com uma Santa


Sidney Silveira

A essa altura da minha vida, premido pelo raio de uma doença que faz de mim um paciente de risco — com eventos intermitentes e súbitos, mesmo estando eu sob a administração de remédios —, as coisas do mundo, sobretudo na hora das crises, parecem tornar-se absolutamente desimportantes. Nessas horas, o único recurso é pedir a Deus que se faça a vontade d’Ele, ou seja: se a morte vier, que seja em amizade com Ele, em estado de graça, e nunca em estado de pecado mortal. Um apelo à misericórdia divina no momento decisivo, de possível passagem desta vida à outra. Nessas horas, grande parte das coisas que pareciam relevantes para nós ganha a sua real dimensão. Eram na verdade pó. Fumaça. O senso de realidade, que estava entorpecido pelas paixões, pelos projetos de vida, etc., nessa hora recupera-se formidavelmente. Isto para o homem que, de alguma forma, vive no horizonte da fé. Ah, quão bom é meditar a respeito da morte! — e a melhor forma de fazê-lo parece ser quando ela nos ameaça com a sua sombra, embora saibamos que Deus é quem sabe o dia.

Mas o fato é que, estando ou não doente, se há uma coisa que não tenho é sangue de barata! Sempre fui sangüíneo, e, por isso, quando certas coisas passam do limite da aceitável, vêm-me ímpetos tremendos. Afinal, ser tolerante não é tolerar o intolerável, não obstante possamos, como cristãos, oferecer tudo a Deus em desagravo aos que nos querem fazer mal ou querem fazê-lo a quem amamos. Eu hoje sei que, nessas horas, só mesmo Deus para temperar o calor que me corre nas veias. Foi o que aconteceu anteontem, quando eu soube de uma trama contra uma pessoa espiritual, por coincidência no exato momento de uma dessas crises. Certamente porque Deus quer santificá-la, mas isto não retira de nós a tristeza com o fato.

Eu poderia dizer muitas coisas (e talvez um dia o faça), em razão do que está em jogo. Por ora, ocorreu-me apenas postar o trecho de uma das cartas de Santa Catarina de Sena, Mística e Doutora da Igreja, sobre a vida religiosa — em duas faces de uma mesma moeda.

E, por ora, mais não digo.


SANTA CATARINA DE SENA

(Trecho da Carta 67)

A vida religiosa(...)

"2. O religioso indigno desse nome

Lembrai-vos, caríssimos filhos, que pode existir religioso que não vive conforme a Regra, [que vive] sem bons costumes religiosos, lascivamente, com desejos errados, impaciente, descontente com as observâncias regulares da Ordem, por demais alegre em divertimentos e prazeres do mundo, soberbo e vazio. Dessa soberba e vacuidade procede a desonestidade mental e corporal. É possível haver religioso sedento de honras, posições sociais e riquezas materiais, que são a morte para a alma, e vergonha e confusão para os consagrados. Tal religioso seria uma flor malcheirosa e desagradável a Deus, aos anjos e aos homens. Seria digno de condenação, pois encaminha-se para a morte eterna. Desejando riquezas, empobrece; querendo honra, se rebaixa; procurando o prazer sensível e o cuidado de si fora de Deus, termina odiando-se; desejoso de saciar-se com prazeres do mundo, acaba passando fome e dessa fome vem a morrer. Porque as realidades e prazeres do mundo não conseguem saciar a alma humana. As criaturas materiais foram feitas para o homem e o homem para Deus. As criaturas materiais não podem satisfazer o homem, dado que são menores que ele. Somente Deus, Criador e artífice de tudo, é capaz de saciá-lo. Por isso aquele religioso morre de fome [espiritual]!

3. Como vive o bom religioso.

Não agem assim as flores perfumadas, ou seja, os verdadeiros religiosos obedientes à Regra da Ordem. Não desobedecem; prefeririam morrer. Sobretudo no que se refere ao voto feito na profissão religiosa, quando prometem obediência, pobreza voluntária e continência da mente e do corpo. (...) Os verdadeiros religiosos não investigam a vontade de quem os governa; simplesmente obedecem. (...) o religioso humilde compreende que a pobreza voluntária das coisas do mundo enriquece a alma e a liberta da escravidão, torna-o benigno e manso, afasta-o da vacuidade da fé na esperança das coisas transitórias e traz a fé viva da esperança verdadeira".

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

A Cruz e a Confiança em Deus

Carlos Nougué
A um grande pai e amigo

Uma das maiores tentações do católico católico — ou seja, aquele que nos dias de hoje, contra ventos e tempestades de um mundo neopaganizado, tenta manter as tradições da antiga Cristandade — é a “messiânica”: o considerar que como resultado das ações católicas tradicionais o mundo se tornará a converter e tornaremos a ter uma duradoura Cristandade. Nego-o? Considero-o improvável, mas digo sobretudo que tal esperança não pode ser o motor principal de nossa vida. Se é verdade que o Reino de Cristo não é só celestial, mas também terrestre (porque, sendo seu Reino o da Verdade, há de ser Ele o Rei de tudo: do mundo universo, das sociedades, de nosso coração), isso, porém, só é assim porque o é em ordem a Ele mesmo. Não disse o próprio Jesus que a figura deste mundo passará, mas suas palavras não passarão?

Em outros termos: o motor de nossa vida não pode ser senão o amor e a total entrega à cruz, e não somente à Cruz que nos merece todo e qualquer bem eterno; também à cruz nossa de cada dia, a mesma que Cristo nos mandou carregar para podermos seguir empós d’Ele. Ordenar-se a Nosso Senhor Jesus Cristo é ordenar-se à sua Cruz e pois à nossa cruz. Mas há um pressuposto para tal: a plena confiança nos desígnios de Deus com relação a todos os planos — o religioso, o histórico, o social, o individual. Se Aquele Que É permite a Sexta-Feira da Paixão que vive hoje a sua Igreja, é certamente por um bem infinitamente superior. Se o Senhor dos Exércitos permite que a história marche para os tempos de trevas do Anticristo, é certamente por um bem infinitamente superior. Se a Causa das Causas permite a desagregação das sociedades, é certamente por um bem infinitamente superior. Se o Sumo Bem permite o sofrimento individual, é certamente por um bem infinitamente superior. É verdade que Deus permite tudo isso também em castigo dos pecados dos homens. Mas o permite, acima de tudo, por um bem infinitamente superior: a própria glória devida a Ele mesmo e à Cruz de seu Filho, cujas chagas permanecem em seu corpo glorioso como o galardão dos galardões, como o fulgor dos fulgores.

Nossa vida não pode pautar-se senão na confiança absoluta de que tudo quanto acontece se ordena a este bem infinitamente superior. Por isso nos manda Nosso Senhor Jesus Cristo que demos a outra face aos nossos agressores, e não apenas que lha demos, mas que ao dar-lha os amemos como Ele próprio nos amou, ou seja, até a morte, e morte na Cruz. Que escândalo tanto para os infiéis quanto para os lobos em pele de cordeiro a atitude do católico diante do agressor, diante do maquinador, diante do detrator, diante daquele cuja voz ou sussurro só se ouve nas sombras! Sim, porque o rancoroso agride o não-rancoroso como se fosse alvo do rancor deste... O ambicioso trama contra o não-ambicioso como se fosse vítima da ambição deste... O invejoso intriga contra o não-invejoso como se este agisse por inveja dele... Mas o católico que toma sua cruz para ter a honra suprema de seguir empós de Cristo e poder assim glorificar sua Santa Cruz dá a outra face ao rancoroso, ao ambicioso, ao invejoso, e ao dar-lha ama-os a eles como Cristo nos amou a nós, os pecadores, e ama a própria agressão como parte de sua devida cruz.

Não dá, todavia, a outra face da Igreja, de sua família, de seus amigos, dos que sofrem injustiça por amor da Verdade. Nunca lho pediu Cristo, muito pelo contrário. Deve agir o católico em defesa da Igreja, de sua família, de seus amigos, dos que sofrem injustiça por amor da Verdade. Não fazê-lo é covardia... e é pecado. Apenas uma coisa lhe deve impedir tal agir: qualquer consideração prudencial de que ao fazê-lo acabaria por prejudicar a eles mesmos ou a algo superior (como, por exemplo, os interesses da Igreja). Esse não agir, porém, não deve considerar-se definitivo: porque, se se apresentar o momento em que agir em defesa deles, em vez de prejudicá-los, os ajudará, então, sim, o católico não poderá hesitar um só instante — deve começar imediatamente a fazê-lo. E deve fazê-lo ainda que tal lhe acarrete qualquer sofrimento, porque este mesmo acarretar não fará senão acrescer-lhe a devida e amada cruz, para a devida glória da amadíssima Cruz.

Lutemos, sim, até o último suspiro, pelos direitos sociais e políticos de Cristo Rei. Mas não nos esqueçamos de antes de tudo imitar o nosso divino Mestre e Modelo, que, como se lê na “Via Sacra”, estendeu os braços para receber a Cruz e, num transporte de ternura, apertou-a ao coração e banhou-a de lágrimas — antes de, pondo-a aos ombros chagados, encaminhar-se para o Calvário.

“Ó Jesus, essa cruz me era devida a mim, que sou pecador, e não a Vós, que sois inocente. Mas o inocente quis pagar pelo pecador... Sede sempre bendito, ó Senhor. Abraço, por vosso amor, todos os desprezos e contrariedades da vida.”

Amém.

Em tempo 1: Na próxima semana darei todas as indicações práticas acerca do “Curso de História da Filosofia”. Incluem-se entre essas indicações uma ementa detalhada e uma bibliografia precisa e comentada.

Em tempo 2: Como o site da FSSPX entrará em recesso para reformulações, meu longo artigo sobre o sedevacantismo continuará neste blog. Ainda esta semana se postarão aqui as partes V e VI, nas quais se expõe a Tese de Cassiciacum. Os que ainda não têm as partes anteriores podem pedi-las a mim (carlosnougue@hotmail.com).