quinta-feira, 3 de setembro de 2009

"TV" Contra Impugnantes — o princípio do inteligir

Sidney Silveira
A pedido de um amigo, posto agora na "TV" Contra Impugnantes um pequeno vídeo que eu já havia colocado aqui no blog, e que, por alguma razão insondável (talvez os "diabinhos" da internet), esse amigo não está conseguindo ver. Posto também esse outro pequeno vídeo.

Deus: o problema dos problemas. A solução das soluções

Sidney Silveira
“O intelecto humano, que tende naturalmente à verdade como ao seu bem próprio, é levado, cedo ou tarde, a colocar-se o problema de Deus, a aproximar-se da demonstração de Sua existência, porque o significado e o valor de toda verdade vêm de Deus e têm em Deus o seu último fundamento — como Verdade por essência da qual irradiam todas as outras verdades, que são verdades por participação. Assim como o olho é feito para as cores e formas, e o ouvido para os sons, o nosso espírito é feito para Deus, pois encontra em Deus a Verdade suprema na qual repousa. Daí que a existência de Deus é o problema dos problemas; ele constitui a conclusão de toda a filosofia e de todo o conhecimento humano, seja ordinário, seja científico, porque da resolução desse problema depende a orientação definitiva que o homem dará à sua conduta e a toda a sua vida. Pois é um fato, comumente esquecido, que Deus não é objeto da nossa experiência imediata e, por conseguinte, do nosso conhecimento intelectivo, direto ou indireto, como o são as coisas sensíveis e as suas essências. Deum nemo vidit unquam (Jo. I. 18: “Ninguém jamais viu a Deus”); conseqüentemente, o homem deve aproximar-se d’Ele mediante a reflexão [riflessione] ou, mais precisamente, com o processo discursivo da razão”.

Fazemos uso dessas palavras de Cornelio Fabro, na abertura do terceiro capítulo de seu livro Dio. Introduzione al problema teologico (Capitolo III. Le prove dell’esistenza di Dio. 1. Possibilità della dimostrazione razionale), para enfatizar o seguinte: quem não se confrontou com o problema da existência de Deus não começou sequer a engatinhar filosoficamente. Este problema de alcance universal nos acompanha desde a infância, e a ele todos nós, em algum momento de nossas vidas, damos uma resposta efetiva, como dizia Xavier Zubiri — filósofo que, no momento oportuno, passará por uma ampla crítica no Contra Impugnantes: na prática, somos agnósticos, ateus ou teístas (neste último caso, ou monoteístas, ou politeístas, ou henoteístas). Ocorre que cada uma dessas diferentes posições precisa apoiar-se numa ratio minimamente defensável, motivo pelo qual é necessário confrontar-se com este magno problema do ponto de vista filosófico e dar-lhe uma resolução satisfatória. Ele é, de fato, o problema dos problemas filosóficos, como diz Fabro.

Com certeza, não foi ocasional o fato de Santo Tomás ter colocado esse problema (utrum Deus sit) logo na segunda questão da primeira parte da Suma Teológica — após a demonstração de que a teologia é ciência. Se não o tivesse feito, todo o restante dessa obra monumental perderia o fundamento, a referência, a razão. Resolvido, pois, que é impossível não haver, na ordem do ser, um primeiro dentre todos, que é o Primeiro Motor Imóvel (1ª via), a Primeira Causa Eficiente (2ª via), o Ser Necessário (3ª via), o Grau Sumo de Ser (4ª via) e o Ordenador de todos os entes aos seus fins próprios (5ª via), aí sim, o Aquinate passará adiante na resolução dos demais problemas filosóficos e teológicos, ordenando-os harmoniosamente entre si, mas sobretudo referenciando-os, direta ou indiretamente, à resolução desta fundamental questão da Suma — na medida em que, sem o Próprio Ser, todos os entes se tornam radicalmente absurdos. A propósito, a pseudopergunta de Heidegger — "por que há o ente e não o nada?" — só pode ter sentido numa metafísica capenga que perdeu a referência do Próprio Ser.

Não é o caso, neste texto, de expor algumas críticas às cinco vias tomistas demonstrativas do ser de Deus (como por exemplo as de Leonardo Polo e do próprio Zubiri, ambas inconsistentes), coisa que faremos noutra oportunidade, mas apenas reiterar que a fé não é algo a que se adira irracionalmente, mas ao contrário: é por meio do delicado vaso da razão que as verdades de fé podem ser cridas. A famosa expressão credo ut intelligam (creio para saber) é tão verdadeira quanto a fórmula intelligo ut credam (entendo para crer), mas em ordens distintas. Em suma, embora não sejam contraditórias entre si, a fé divina e a razão natural são duas ordens de conhecimento dessemelhantes não apenas por seu princípio, mas também por seu objeto. Com relação aos princípios, a luz da fé ilumina a razão natural, levando esta a conhecer o que, sem essa luz deífica, seria impossível alcançar; com relação aos objetos, a Revelação inclui as mais altas verdades alcançáveis pela razão e ultrapassa-as, mas sem nunca contradizer a razão. Por isso, como diz o Padre Calderón em A Candeia Debaixo do Alqueire, apoiado solidamente no Magistério e em Santo Tomás, a razão, em certo sentido, precede, sustenta e prolonga a fé:

▪ A razão precede a fé formando conceitos com que se expressará a Revelação, daí o Concílio Vaticano I ter declarado que “a reta razão demonstra os fundamentos da fé”. (Vaticano I, Constituição Dogmática sobre a Fé Católica, DS 3019)
▪ A razão sustenta a fé, assim como o corpo sustenta (ao seu modo) a alma, a qual é propriamente a alma de um corpo. “O assentimento da fé não é, de modo algum, um movimento cego da alma” (Vaticano I, DS 3010), mas consiste num juízo pelo qual se atribui um predicado a um sujeito.
▪ A razão prolonga a fé para além do seu objeto, a Revelação, constituindo assim a teologia. “A razão ilustrada pela fé, quando procura cuidadosa, pia e sobriamente, alcança por um dom de Deus alguma inteligência, e muito frutuosa, dos mistérios — ora por analogia do que naturalmente conhece, ora pela conexão dos próprios mistérios entre si e com o fim último do homem”. (Vaticano I, DS 3016)

Como se vê, sem uma razão bem formada, não pode a fé grassar na alma de ninguém. E aqui não nos referirmos à razão bem formada filosoficamente, pois para um homem abrir-se ao influxo benemerente da fé basta que o seu sensus communis não tenha sido destruído por idéias abstrusas. Por isso diz Santo Tomás, no fabuloso Comentário ao Credo, que uma velhinha com fé, num certo sentido, sabe mais do que Aristóteles. Ocorre que qualquer boa filosofia não é senão o prolongamento desse sensus communis primordial possibilitante da adesão à fé (como no caso da velhinha arquetípica), dada a conaturalidade entre a nossa inteligência e a verdade que os entes portam, na exata medida em que têm ser. Sendo assim, todo cuidado é pouco no contato com filosofias e teologias que não têm base no ser, e, por isso, não podem construir uma gnosiologia realista, e, como conseqüência, afastam o homem da fé — à qual não há como aderir se a inteligência está, por assim dizer, danificada na raiz. Uma pessoa que teve o bom senso ferido de morte pode, no máximo, aderir a uma superstição qualquer, mas jamais à fé.

Um ótimo começo, portanto, para quem quer aprofundar os estudos filosóficos (e também teológicos) é confrontar-se com o problema da existência de Deus. Ele exercita a razão a lidar com sólidas objeções e argumentos em contrário, e, ao fim e ao cabo, acaba conduzindo a razão àquilo que os escolásticos chamavam de preambula fidei. Como sempre disse o Magistério, são os preâmbulos da fé que nos possibilitam alcançar os elementos de credibilidade subministrados pela razão para uma adesão efetiva à palavra de Deus custodiada pela Igreja.

Deus é, de fato, o problema dos problemas filosóficos. Mas é também, e sobretudo, a solução das soluções para todos os dilemas humanos.
Em tempo: Assim como o Nougué o fez a seu modo, no artigo abaixo, faço também eu questão de deixar registrado o seguinte — hoje, no dia de São Pio X:
"São Pio X, rogai por nós! Protegei-nos do liberalismo católico que corrói a Igreja por dentro!"

São Pio X e ainda a divisão de águas

Carlos Nougué
Hoje (03/09) é dia de São Pio X
, o único Papa santo desde São Pio V e que devemos ter como padroeiro na luta contra o liberalismo em geral e seus tristes rebentos no seio da Igreja: o modernismo, a nova teologia, o humanismo integral. Assim como devemos inspirar-nos em Santo Tomás de Aquino para a vida do intelecto especulativo, para pô-lo devida e decididamente em ordem à verdade, assim também devemos inspirar-nos em São Pio X para a vida do intelecto prático, que, não sendo senão a outra face do intelecto especulativo, opera, todavia — ou deveria operar —, em ordem ao bem.

Pois também é neste grande Papa que devemos inspirar-nos os católicos católicos (infelizmente assim temos de nos expressar hoje em dia) para que separemos perfeitamente e claramente nossas águas das águas do liberalismo. Com efeito, interceda São Pio X para que tenhamos a graça de, ao contrário dos liberais de todas as cores:

nunca defendermos a democracia liberal, que foi o modelo revolucionário encontrado pelos anticristãos para impedir a efetiva ordenação do poder político a Cristo Rei e sua Igreja;

nunca defendermos o capitalismo surgido da revolução industrial inglesa e da revolução guilhotinesca francesa (lembremo-nos da ignominiosa Lei Le Chapelier, que entre outros crimes decretou o fim das corporações de ofício, transformando assim os trabalhadores em massa inerme para a voragem da ganância) e que veio a dar na economia mundial de hoje, resultante do entrelaçamento das megacorporações sem rosto com o capital usurário;

nunca opormos como a contrários o comunismo e o liberalismo nem desgraçadamente nos pormos ao lado deste contra aquele, porque em verdade aquele é resultado deste e de seu ideal anticristão de igualdade terrena; e porque, em verdade, em verdade, o mundo de hoje, que tende a preparar as condições para a vinda do Anticristo, é precisamente o da economia capitalista dirigida politicamente por esquerdistas de diversas correntes sob o “é proibido proibir”, lema amoral e contrário à lei natural e divina: com efeito, o comunismo e seus sucedâneos populistas servem hoje, ao contrário do que querem fazer crer certos liberais “puristas”, precisamente ao neocapitalismo: não o faz a China do PCC? e o Brasil do PSDB e do PT, esses primos-irmãos? e o Uruguai de Tabaré Vásquez e seus acordos econômicos com os EUA? Só não peçamos aos demônios que tenham entre si amizade fraterna ou que, o que dá no mesmo, o atual mundo anticristão não tenha suas desavenças internas e, pois, seus tumores: a Venezuela de Chávez, a Coréia do Norte, etc.;

embora considerando, sim, o comunismo um ápice da monstruosidade humana sob o poder de Satanás, não aderirmos ao liberalismo por causa da lista terrível das crueldades daquele; porque também as democracias liberais têm sua lista terrível de crimes não só contra a humanidade em geral, mas especialmente contra a Igreja: é preciso lembrar os assassinatos pérfidos das revoluções burguesas contras os sacerdotes, os monges, as freiras, os simples fiéis? e que, hélas, as homicidas revoluções comunistas foram financiadas pelo capital usurário capitalista? e que ao fim da II Guerra Mundial os chefes internacionais dos liberais, Churchill e Roosevelt, entregaram à sanha de Stalin e seu regime sanguinário metade da Europa e a Igreja dali?;

no campo da vida intelectual, não cairmos nunca na armadilha (bem liberal) de expor a história da filosofia e da teologia de um ponto de vista “neutro” e eclético, que, porém, no fundo, não é senão antitomista e, portanto, anticatólico: porque em verdade tal ecletismo não pode existir, e para não ser tomista é preciso ser ou escotista, ou husserliano, ou uma mescla de ambos ou de mais coisas. Nós, os católicos católicos, por expressa decretação do magistério infalível da Igreja e por dever para com a Verdade, não podemos ter por referência central, na vida do intelecto, senão a teologia e filosofia de Santo Tomás de Aquino e sua instrumentalização sobretudo da filosofia de Aristóteles, mas também da de Platão, etc.

Voltaremos ao assunto. São Pio X, rogai por nós!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Nosso papel e divisão de águas

Carlos Nougué
Qual a posição e o papel do leigo no Magistério da Igreja? Para sabê-lo, é preciso verificar como o próprio magistério infalível o estruturou, segundo, naturalmente, o modo como Cristo mesmo fundou sua Igreja.

Temos, assim, a seguinte divisão do Magistério geral da Igreja (cf. Padre Álvaro Calderón, A Candeia Debaixo do Alqueire, p. 54):

I) Órgãos autênticos:
1)
O Papa, como suprema autoridade apostólica;
2) Os bispos, em comunhão com o Papa, e enquanto mestres ex officio da
verdade evangélica.
II) Órgãos subsidiários:
1) Papais: congregações romanas, comissões pontifícias, etc.;
2) Episcopais: padres párocos, comissões diocesanas, etc.
III) É a seguinte a divisão desses órgãos em ordem aos atos:
III1) Dos órgãos autênticos:
1a) O Papa sozinho;
1b) O Papa e os bispos em concílio;
2a) Os bispos dispersos em comunhão com o Papa;
2b) Os bispos sozinhos.
III2) Dos órgãos subsidiários:
1a) Teólogos, especialistas em ciências eclesiásticas;
1b) Catequistas;
2a) Chefes de família;
2b) Simples fiéis, sobretudo enquanto especialistas em diversas ciências.

Fica pois patente a subordinação e ordenação dos órgãos subsidiários e de seus atos aos órgãos autênticos e seus atos, e dos chefes de família e simples fiéis ao conjunto do corpo eclesiástico. Isso pelo ângulo da estrutura mesma da Igreja.

Do ângulo da autoridade doutrinal, vejamos sua hierarquização com respeito às ciências das coisas divinas:

a) Na ciência revelada, sendo Mestre principal ou simpliciter Cristo mesmo, serão mestres auxiliares o Papa e os bispos; enquanto os diáconos e simples sacerdotes serão meros repetidores. Só aos primeiros Cristo “comunica uma luz especial pela qual participam de sua ciência divina, tornando-os capazes de interpretar e desenvolver a doutrina revelada com garantias de infalibilidade em certos casos” (P. Calderón, ibid., p. 90) — ou seja, dadas as quatro condições vaticanas, e desde que, em vez de impor sua autoridade, os Papas não a deponham como liberais em favor de um Povo de Deus considerado ao modo democrático (e supostamente dotado de um sensus fidei anterior e superior à regra do magistério). Só à modalidade não-liberal do exercício da autoridade papal se prometeu e assegura a assistência do Espírito Santo.

b) Na ciência teológica, é Santo Tomás o mestre principal, e isso por afirmação do próprio magistério hierárquico, que o declarou Doutor Comum da Igreja. Já “um simples professor de seminário”, diz ainda o Padre Calderón, “é um repetidor que, para ser crido, deve fundar cada uma de suas afirmações em textos explícitos de Santo Tomás; participa da ciência do Angélico de maneira puramente instrumental. [O Cardeal] Caetano, em contrapartida, é um mestre auxiliar, tão compenetrado do pensamento tomista, que merece ser crido quando interpreta e prolonga sua doutrina. Este tem uma autoridade participada à maneira de causa segunda: o que move a aceitar sua doutrina é formal e principalmente a autoridade de Santo Tomás, mas secundária e como que materialmente também move sua autoridade pessoal, na medida em que seu intelecto participa do hábito teológico do Doutor Angélico”. (Estamos porém convictos de que o Padre Álvaro Calderón não é um simples professor de seminário nem, pois, um mero repetidor da doutrina de Santo Tomás, mas, como Caetano, um verdadeiro mestre auxiliar do Aquinate.)

Pois bem, os leigos que, como Sidney e eu, são chefes de família e especialistas em certas ciências não podem julgar-se, quanto às ciências de Deus, mais que repetidores de segundo grau de Santo Tomás e de seus mestres auxiliares. Há algo mais, porém: se é um fato que já desde a revolução francesa, devido aos ataques sofridos pela Igreja por revolucionários de todas as cores, alguns leigos tiveram de participar, como repetidores de segundo grau, da linha de frente da luta contra o liberalismo e suas seqüelas (pense-se num Louis Veillot, pense-se num Jean Ousset), quanto mais tal não será uma necessidade após o Concílio Vaticano II! Com efeito, como diz ainda o Padre Calderón (ibid., 138), “a fé é o fundamento primeiro da unidade e existência mesma da Igreja, de maneira que, quando a fé está em perigo, todos os cristãos têm o grave dever de sair em sua defesa. Sendo esse um dever positivo, isto é, que não proíbe mas manda fazer algo, obriga segundo a condição das pessoas e a oportunidade. Como o Papa e os bispos diocesanos têm de Cristo o carisma da verdade para definir o dogma revelado, são eles os primeiros obrigados a defender a fé, discernindo com sua autoridade qual é a verdade católica em face das ameaças do erro. Mas os simples fiéis não são isentos de obrigação, porque, embora não lhes compita definir a doutrina, não lhes basta crer retamente em seu íntimo, senão que, para glória de Deus e utilidade do próximo, também são obrigados à profissão exterior e pública da fé: ‘Quando a fé está em perigo’, diz Santo Tomás [Suma Teológica, IIa-IIae, q. 3, a. 2, ad 2], ‘todos são obrigados a propalar sua fé aos demais, quer para instrução dos outros fiéis, quer para confirmá-los nela ou para reprimir o ultraje dos infiéis’” (negrito nosso). É que, conquanto “o modo e o grau de obrigação da Hierarquia e dos simples fiéis sejam diversos, como porém a fé é um bem comum fundamental na Igreja, em ordem à defesa da fé há certa igualdade entre todos os cristãos” (P. Calderón, ibid., p. 136).

Pois bem, com esta obrigação nos sentimos Sidney e eu, como, repito, especialistas em determinadas ciências; e cumprimos esta obrigação precisamente e justamente como repetidores de segundo grau de Santo Tomás e de seus mestres auxiliares, o que se pode facilmente comprovar pela quantidade imensa de citações que deles fazemos a cada passo. É a marca da nossa convicta submissão à sua ciência superior, e, se por acaso alguma vez algo do que dissermos discrepar do que dizem eles, não será senão por equívoco, nunca por ousadia indevida, razão por que sempre acataremos qualquer justa correção que nos façam quanto a isso — especialmente se vier dos eclesiásticos que mantêm na Igreja a fé segundo o magistério de sempre. Que falta, aliás, faz a Sagrada Congregação do Índice, e a obrigação de submeter qualquer escrito, especialmente os de leigos que tratam de teologia, ao nihil obstat e imprimatur das competentes autoridades hierárquicas! Com efeito, com tal obrigação, quantos “humanismos integrais” não se teriam proscrito oportunamente?!

Mas de uma coisa não abriremos mão nunca, por dever de confissão da fé e da Realeza universal de Nosso Senhor Jesus Cristo: atacar com todas as nossas forças e capacidades o liberalismo em todas as suas manifestações e tentáculos.

Que é o liberalismo? Respondamo-lo brevemente:

a) Antes de tudo, é a conseqüência mais imediata do humanismo, ou seja, da revolta da carne contra a santidade, do humano “não servirei” a Deus, do pôr-se o homem a si mesmo como fim último em lugar do Senhor.

b) Por isso mesmo, o liberalismo é pecado, como o diz D. Félix Sardá y Salvany no livro de mesmo nome (que se pode encontrar em statveritas.com.ar); e pecado sumo, razão por que foi condenado por Pio IX no Syllabus. (E para que não se pense que aquele é um livro de menor importância, vejamos algo do que diz a Nota Editorial daquela sua edição: “[...] A primeira [edição do livro] apareceu no final do ano de 1884. [...] A obra manuscrita foi previamente submetida à censura de esclarecidas personalidades e à do célebre P. Valentín Casajuana, da Companhia de Jesus, Professor em Roma. Uma vez publicada, valeu para seu Autor as aprovações mais altas e expressas da Igreja e os encômios mais apreciados de seus Hierarcas. A Sagrada Romana Congregação do Índice submeteu O Liberalismo É Pecado aos mais diligentes exames e deu uma sentença sumamente laudatória, ao mesmo tempo que desautorizava o folheto do Cônego D. de Pazos que queria ser una refutação da obra de Sardá. O Papa Leão XIII em pessoa quis formar um juízo do livro e o leu na versão italiana que se imprimiu para Sua Santidade. Deu-o também a ler a seu irmão, o Cardeal Pecci, e ambos conceberam dele o mais favorável conceito. Os Prelados do Equador fizeram sua a doutrina da obra em Pastoral coletiva que figura em várias de suas edições”. E eis a sentença da Sagrada Romana Congregação do Índice [idem]: ‘[...] Excelentíssimo Senhor: A Sagrada Congregação do Índice recebeu denúncia do opúsculo intitulado O Liberalismo É Pecado, cujo autor, D. Felix Sardá y Salvany, é sacerdote desta sua diocese: a qual denúncia se repetiu juntamente com outro opúsculo, intitulado O Processo do Integrismo [...] Refutação dos Erros Contidos no Opúsculo ‘O Liberalismo É Pecado’; o autor deste segundo opúsculo é D. de Pazos, cônego da diocese de Vich. Razão por que esta Congregação aquilatou com maduro exame um e outro opúsculo com as observações feitas; mas no primeiro nada achou contra a sã doutrina, merecendo antes louvor seu autor, D. Félix Sardá y Salvany, porque com argumentos sólidos, clara e ordenadamente expostos, propõe e defende a sã doutrina na matéria que trata, sem ofensa de nenhuma pessoa. Mas não formou o mesmo juízo do outro opúsculo, publicado por D. de Pazos, porque ele necessita de correção em alguma coisa. Ademais, não se pode aprovar o modo injurioso de falar de que o autor se vale, mais contra a pessoa do Sr. Sardá que contra os erros que se supõem no opúsculo deste escritor. Daí a Sagrada Congregação ter mandado que D. de Pazos seja admoestado por seu próprio Ordinário, para que retire quanto seja possível os exemplares de seu referido opúsculo; e doravante, se se promover alguma discussão sobre as controvérsias que podem originar-se, abstenha-se de quaisquer palavras injuriosas contra as pessoas, segundo a verdadeira caridade de Cristo: ainda com mais motivo porque o nosso Santíssimo Padre Leão XIII, ao mesmo tempo que recomenda muito que se desfaçam os erros, não quer nem aprova as injúrias feitas, principalmente, a pessoas destacadas em doutrina e piedade”.)

c) Se o liberalismo é o efeito mais imediato do humanismo, o modernismo condenado por São Pio X é o liberalismo que se quer católico. E a “nova teologia” que sairá vitoriosa no Concílio Vaticano II nada mais é que o modernismo com nova roupagem.

d) Na ordem das idéias, são os seguintes os três princípios liberais, de que tudo o mais nele decorre:

● soberania e independência do indivíduo com relação a Deus e sua autoridade;
● soberania e independência da sociedade com relação à Igreja e à lei natural, ou seja, a Deus;
● liberdade de pensamento, expressão e associação com relação à Revelação, à Igreja e à lei natural, ou seja, a Deus.

e) Derivam de tais princípios:
● a liberdade religiosa;
● a supremacia do Estado sobre a Igreja;
● o ensino laico sem nenhum laço com a Religião;
● o casamento não-sacramental;
● a arte não-ordenada ao fim último do homem;
● ciências e filosofia que se voltam contra o Criador e rejeitam ser instrumentalizadas pela teologia, e universidades sem a Sacra Ciência, as quais, como diz o Padre Calderón, são por isso mesmo como corpos mortos, sem alma.

Ou seja, em uma palavra: a absoluta secularização da vida dos povos.

f) Na ordem dos fatos, o liberalismo é um conjunto de obras e conseqüências que se inspiram naqueles princípios e seus corolários ou deles resultam. Exemplos:

● as perseguições à Igreja, às ordens religiosas, aos símbolos católicos;
● o indiferentismo religioso e o ateísmo;
● a guerra sistemática ao Catolicismo e a todas as suas sagradas tradições (como o matrimônio) em todos os meios de comunicação, em todas as artes;
● sistemas filosóficos e artísticos crescentemente anticristãos: racionalismo, idealismo, romantismo, existencialismo, marxismo, etc.;
● licenciosidade ou libertinagem moral crescente, com diversões e costumes cada vez mais bestiais;
● violência crescente (até entre pais e filhos e, sobretudo, contra o feto) e a crescente corrupção dos povos, do poder público e da economia;
● decadência cultural e civilizacional aguda;
● o capitalismo e o comunismo, ambos sistemas econômicos decorrentes do pecado liberal da avareza ou ganância, e que tendem a desagregar a família e tirar ao homem o tempo para a religião e a contemplação, transformando-o em peça de um enorme e impessoal maquinismo;
● o crescente domínio das mentes pela propaganda política, que é o motor mesmo da democracia liberal, e pela propaganda econômica, que é o motor mesmo do reino das megacorporações capitalistas, da grande indústria vinculada ao capital financeiro, dos fundos de pensão e da rede cada dia mais vasta e estreita das ONGs;
● enfim, o mundo atual, ou seja: a fusão da mega-economia capitalista com métodos neo-esquerdistas de gestão e governo, tudo condimentado pelo “é proibido proibir” do Maio de 68 francês e tendente a um governo mundial (ou, em termos escatológicos, a preparar a vinda do reino do Anticristo).

Mas também no campo especulativo filosófico-teológico o liberalismo tem suas origens e importantes conseqüências:

● origina-se ele, por um lado, no De Monarchia de Dante, como tantas vezes já o dissemos; mas, por outro lado, no sistema de Duns Scot e sua hipertrofia da vontade em detrimento do intelecto, e no de seu discípulo Guilherme de Ockham, com sua navalha que corta o que é propriamente precípuo no intelecto humano; desses dois homens medievais decorre toda a sucessão psicopatológica de Descartes, Malebranche, Hume, Kant, Hegel, Marx, Husserl, etc.;

● tudo isso redunda num ensino da filosofia e da teologia (e de sua história) em aparência eclético, mas de fundo antitomista e pois anticatólico — como o diz o próprio magistério da Igreja.

Pois bem, por tudo isso é que, ainda com o objetivo de lutar com todas as nossas forças e capacidades contra a praga do liberalismo, e sempre, no tocante à teologia, com a humildade de repetidores de segundo grau de Santo Tomás e seus auxiliares, é que proximamente começaremos a ministrar: 1) um curso de história da filosofia do ângulo tomista; 2) diversos cursos sobre o tomismo. Logo daremos detalhes aqui, no blog.

Relações Igreja-Estado (VI): a laica “Utopia” de Thomas More


Sidney SilveiraApós considerarmos o caráter quimérico, anticlerical e despótico do supermonarca de Dante, que renegara a ordem da graça e as leis da Igreja com o propósito de estabelecer um poder político de cunho humanista, desvinculado de qualquer plano espiritual superior, passemos agora a um autor que, tanto quanto o florentino, pode ser considerado como outro importante precursor do laicismo moderno: Sir Thomas More (ou Morus, na forma latinizada) — homem a quem Deus agraciou com o martírio em defesa da fé, mas cuja obra política prestou um incomensurável desserviço à Igreja que amava.


Com o fito de absolutizar a política e criar um poder mundial sem a mais ínfima sombra de Deus ou de suas leis, Dante propusera a teoria dos dois fins últimos — um natural e outro sobrenatural, absolutamente desligados entre si; Morus, por sua vez, proporá uma Pólis em que as questões religiosas sejam discernidas pelas consciências individuais, não havendo nenhuma instância externa que possa decidir com grau de certeza acerca delas. Sem dúvida, é ele uma espécie de tataravô da idéia de liberdade religiosa.

Diz o nosso autor, na sétima e última parte do Livro II de sua Utopia:

Os utopianos [ou seja: os habitantes da Ilha da Utopia] incluem no número de suas mais antigas leis a que proíbe prejudicar uma pessoa por sua religião. Utopus, na época da fundação de seu império, apurou que, antes de sua chegada, os nativos viviam em guerras contínuas por motivos religiosos. Notara também que tal situação lhe facilitara a conquista do país, porque as seitas dissidentes, em vez de se reunir em massa, combatiam-se entre si. Assim que se viu vitorioso e senhor do país, apressou-se em decretar a liberdade de religião. (...) Utopus, decretando a liberdade religiosa, não tinha unicamente em vista a manutenção da paz outrora perturbada por combates contínuos e ódios implacáveis [perguntamos nós: que paz, se ele já encontrara conflitos ao chegar?]; pensava ainda que o próprio interesse da religião exigia tal medida [hã?]. (...) Previa que, se todas as religiões fossem falsas, à exceção de uma, tempo viria em que, com o auxílio da doçura e da razão [e não da graça divina!!!], a verdade apareceria espontaneamente, luminosa e triunfante, da noite do erro. (...) Foi por isso que Utopus deixou a cada um a inteira liberdade de consciência e de fé. (...) Se bem que os utopianos não professem a mesma religião, entretanto todos os cultos desse país, em suas múltiplas variedades, convergem por diversos caminhos para o mesmo fim, que é a adoração da natureza divina. (...) Cada um celebra em sua casa, em família, os mistérios particulares [????] à sua fé. O culto público é organizado de maneira a não contradizer em nada os cultos domésticos e privados [com isto, o nosso teórico destrói até mesmo o conceito de Igreja]”.

Mas Morus não pára por aí, em sua utopia de libertar a política do “jugo” de uma religião cujo Magistério impunha às consciências uma verdade de ordem superior que não dava margem a nenhum erro — uma verdade que, na prática, não é nenhuma espécie de“descoberta” das consciências individuais, mas a boa nova proclamada pelo próprio Deus a todas as consciências humanas como lei universal (católica) que elas devem aceitar. Uma lei universal fora da qual nem os homens nem as sociedades podem alcançar a verdadeira paz, a pax Christi. Como se disse, Morus não pára por aí: não só a Religião não se intrometerá nas coisas do Estado, mas o inverso, sim, é que ocorrerá: o Estado é que decidirá a respeito das coisas de Deus.

Diz o nosso teórico, nesse mesmo Livro II de sua Utopia:

Os padres, da mesma forma que os outros magistrados, são eleitos pelo povo em escrutínio secreto, a fim de evitar a intriga; o colégio sacerdotal da Pólis consagra os novos eleitos. [Estes] presidem as coisas divinas, velam sobre a religião [com minúscula] e são, de algum modo, censores dos costumes. (...) O poder dos padres se limita a interditar os sagrados mistérios aos homens reconhecidamente pervertidos [aqui, nenhuma alusão à penitência e ao seu fruto próprio: a volta ao estado de graça; a religião, ao modo kantiano, transformou-se numa pura e simples moral humana]. (...) A educação da infância e da juventude é confiada ao sacerdote [numa repetição do erro de Platão na República: retirar antinaturalmente as crianças do seio da família]. (...) Os padres escolhem suas mulheres na fina-flor da população [quê????]. As próprias mulheres não são excluídas do sacerdócio, conquanto que sejam viúvas e de idade avançada [hã???]. Não há magistratura mais honrada que o sacerdócio. A veneração que se dedica aos padres é de tal modo profunda que, se algum deles comete uma infâmia, não comparece em juízo, mas é abandonado a Deus e à sua própria consciência [nenhum sinal do caridade cristã e da graça sacramental, que reorienta o pecador para a sua salvação]”.

Em suma, nesse brevíssimo trecho, Morus faz o seguinte: a) reduz a religião a uma simples prática moral; b) relega-a a um papel político de censora dos costumes, sem nenhuma alusão à ordem da graça; c) faz com que a religião seja proveniente das escolhas humanas, na medida em que os sacerdotes são exclusivamente eleitos pelo povo; d) propõe o sacerdócio feminino, contra as leis da Igreja; e) desagrega radicalmente a família (célula-mater da sociedade cristã), na medida em que priva a mãe dos seus filhos; f) faz com que a religião dependa in primis do Estado, pois este define até mesmo o número de sacerdotes que deve haver na Pólis, como se lê noutro trecho desse mesmo segundo livro da Utopia; etc.

O fato de Morus ter sido declarado santo e mártir, por sacrificar-se em razão do odium fidei do rei Henrique VIII — que fez um país inteiro apostatar —, não impediu a Igreja de colocá-lo, por razões teológicas e magisteriais, no Índex dos Livros Proibidos, em 1559, no pontificado do Papa Paulo IV. A propósito, é muito importante ressaltar que a idéia de apostasia perde totalmente o sentido, se levarmos em conta as idéias de Morus expressas acima (sobretudo a de que a Religião é uma pura e simples questão de foro íntimo de cada consciência individual). Isto torna incompreensível, do ponto de vista meramente humano, o seu martírio — ocorrido por não aceitar a apostasia de Henrique VIII. Só mesmo uma superabundância de Graça o pode explicar.

É digno de nota o fato de a Utopia ter sido publicada pela primeira vez na Basiléia por ninguém menos que Erasmo de Roterdã, grande amigo de Thomas Morus e inimigo notório da Igreja e de suas leis, assim como do modus vivendi dos monges, que considerava sem nenhum sentido.

Voltaremos, no próximo texto sobre o tema, às utopias humanistas de Morus.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Reflexão sobre a condenação dos réprobos, por S. Francisco de Sales

Sidney Silveira
No momento em que os neoteólogos hoje predominantes na Igreja continuam o seu trabalho de demolição da doutrina divina revelada, nada como ir aos Santos Doutores. No tocante à condenação dos réprobos ao inferno, por exemplo, o grande, o nunca assaz louvado São Francisco de Sales nos ensina que — como não poderia deixar de ser — devemos amar a misericórdia de Deus que salva os eleitos, assim como devemos amar a Sua justiça que condena os réprobos. A propósito do mesmo assunto, Santo Tomás dizia que a condenação dos réprobos se dá em ordem a um bem maior: a manifestação da Justiça divina. Que é bela.

Leiamos este grande Doutor, e atentemos ao trecho inicial que pus em negrito: a salvação e a condenação são, ambas, filhas da bondade de Deus.

Devemos adorar, amar e louvar para sempre a justiça vingadora e punitiva de nosso Deus, como amamos a Sua misericórdia: porque ambas são filhas da Sua bondade. Pois pela Sua graça Ele nos quer fazer bons, como boníssimo, ou supinamente bom, Ele é; pela Sua justiça, quer castigar o pecado, porque este o odeia. Ora, Ele odeia o pecado porque, sendo sumamente bom, detesta o mal que é a iniqüidade. E, por conclusão, notai que Deus nunca retira a Sua misericórdia de nós, senão pela equitativa vingança da Sua justiça punitiva — e nunca escapamos ao rigor da Sua justiça senão pela misericórdia justificadora. E sempre, ou punindo ou gratificando, o Seu beneplácito é adorável, amável e digno de eterna bênção. Assim, o justo que canta os louvores da Sua misericórdia por aqueles que serão salvos, do mesmo modo se alegrará quando vir a vingança: os bem-aventurados aprovarão com alegria o juízo da condenação dos réprobos, como o da salvação dos eleitos, e os anjos, tendo exercido a sua caridade para com os homens que têm em guarda, ficarão em paz, vendo-os obstinados ou mesmo condenados. Cumpre, pois, aquiescer à vontade de Deus e beijar com dileção e reverência igual a mão direita da Sua misericórdia e a mão esquerda da Sua justiça”.

(São Francisco de Sales, Tratado do Amor de Deus, IX, Cap. 8. )
Em tempo: Boa parte dos neoteólogos atuais (que subscrevem o crime contra a fé que representa a tentativa de acabar com o limbo, que sem a menor sombra de dúvida é um dogma) quer minimizar a inferno com mil e uma teorias loucas. Uma delas diz que os homens se condenam sozinhos, quase automaticamente, ou seja: Deus nada tem a ver com isso (tese à qual podemos voltar noutro texto, dando voz ao Magistério e ao Doutor Comum da Igreja, Santo Tomás).

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Corte-e-costura e ainda a Encíclica “Caritas in veritate” (V)

Carlos Nougué
Mostrado pois o que nos dizem as Escrituras, devemos passar, segundo nosso plano, ao que diz o magistério da Igreja. Antes, porém, há que resolver um preâmbulo. Dante Alighieri — e todos os que de algum modo lhe seguiram e seguem nisto — afirma que não há ordenação essencial do poder temporal ao espiritual, havendo-a no máximo acidental ou indireta. Ora, isso supõe, como diz claramente o mesmo Dante em De Monarchia, a atribuição ao homem de dois fins últimos: um sobrenatural e o outro natural, propiciando o poder espiritual a consecução do fim sobrenatural (a salvação das almas individuais), e o temporal a consecução do fim natural (a felicidade terrena possível, com o atendimento das necessidades materiais e a formação das virtudes morais do homem no âmbito da pólis). Donde as perguntas: antes de tudo, convém aos entes ter um fim último? Se sim, é possível um mesmo ente ter dois fins últimos? Se não, qual o único fim último do homem e qual o caráter de seus demais fins?

Responde a isso Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, ao longo dos oito artigos da questão 1 (De ultimo fine hominis, O fim último do homem) da Ia-IIae. Acompanhemos-lhe a questão passo a passo, imbuindo-nos da precisão quase matemática do Aquinate na demonstração, para pisarmos terreno de todo seguro ao estudar o que diz infalível e imperiosamente o magistério da Igreja das relações entre poder civil e poder eclesiástico.

1) Procedendo sempre ordenadamente, pergunta-se antes de tudo o Angélico “utrum homini conveniat agere propter finem” (se convém ao homem agir em vista de um fim). E parece que não. Mas, entre as ações realizadas pelo homem, “só podem considerar-se propriamente humanas aquelas que são próprias do homem enquanto homem” (tudo quanto vier entre aspas será, salvo advertência, tradução do corpus do artigo). Com efeito, o fato de ser dono de seus atos é o que diferencia o homem das criaturas irracionais, razão por que só aquelas mesmas ações de que ele é senhor podem propriamente chamar-se humanas. Pois bem, é por ser dotado de razão e vontade que tem o homem domínio sobre seus atos, e a faculdade ou potência conjunta de razão e vontade é o que se chama livre-arbítrio. Se pois as ações do homem que não procedem de uma vontade deliberada e instruída pela razão podem ser ditas, precisamente, do homem, não podem, porém, pelo já dito — ou seja, por não pertencerem ao homem enquanto homem —, chamar-se com propriedade humanas. Ora, “todas as ações que procedem de uma potência são causadas por ela em razão de seu objeto”, e o objeto da vontade não é senão o bem e o fim. “Logo, é necessário que todas as ações humanas tenham em vista um fim.”

2) É preciso agora saber “utrum agere propter finem sit proprium rationalis naturae” (se agir em vista de um fim é próprio [apenas] da natureza racional). E parece que sim. Sucede, porém, que todo e qualquer agente obra necessariamente em vista de um fim. Com efeito, numa seqüência de causas ordenadas entre si, não se pode suprimir a primeira sem que se suprimam igualmente as demais. Ora, “a primeira de todas as causas é a final”. Assim é porque, se a matéria não adquire a forma sem a moção de um agente (uma vez que nada pode por si mesmo passar da potência ao ato), esse mesmo agente obra necessariamente em vista de um fim: porque, se qualquer agente não visasse a algo concreto, não faria uma coisa em vez de outra. Ou seja, faria qualquer coisa, o que não é próprio de um agente. O agente sempre tende a determinado efeito, o que supõe esteja ele determinado a algo certo: e isso “tem razão de fim”. Tal determinação se dá, nos entes racionais, pelo apetite racional que chamamos vontade, enquanto nos demais entes, os irracionais, se dá mediante uma inclinação natural ou apetite natural. Com efeito, um ente pode tender de dois modos a um fim: em primeiro lugar, quando se move por si mesmo a ele, como faz o homem; e, em segundo lugar, quando é dirigido ao fim por outro, como se dá não só com uma pedra atirada por alguém contra algo, mas também com os animais irracionais. Sim, porque, se os entes racionais se dirigem por si mesmos ao fim em razão do senhorio sobre seus atos que o livre-arbítrio lhes proporciona, os animais irracionais não podem tender ao fim senão por um apetite natural, que, dada esta mesma naturalidade e aquela mesma irracionalidade, não pode ser senão como um instrumento; o que implica serem os entes irracionais movidos não por si mesmos, mas por um agente que se utilize de tal instrumento. Com efeito, os entes irracionais são incapazes da noção de fim, razão por que “toda a natureza irracional está para Deus assim como um instrumento está para um agente principal”. É verdade que os animais irracionais tendem ao fim por um apetite natural resultante de certa apreensão estimativa da realidade, enquanto os demais entes irracionais a ele se dirigem privados de todo e qualquer conhecimento (mesmo estimativo) dele. Mas todos os entes irracionais, como explicado, são atuados ou conduzidos ao fim por outro, tendo razão de instrumento para o agente principal que é Deus. Logo, tão-somente os entes dotados de razão agem e tendem por si mesmos ao fim.

3) Cabe agora perguntar “utrum actus hominis recipiant speciem ex fine” (se os atos do homem recebem a espécie do fim). E parece que não. Sucede porém que os entes compostos de matéria e forma se constituem em suas espécies por suas respectivas formas, e isso justamente porque as coisas em geral se constituem em suas espécies não pela potência, mas pelo ato. Ora, semelhantemente se deve pensar do movimento. Com efeito, se o movimento se divide, de algum modo, em ação e paixão, ambas recebem sua espécie do ato: aquela, do ato que é princípio do agir; esta, do ato que é termo do próprio movimento. Assim, “a ação de esquentar nada mais é que uma moção procedente do calor, e sua paixão nada mais é que um movimento para o calor”, manifestando-se assim a razão da espécie. Ora, também os atos humanos recebem do fim sua espécie, consideremo-los ou como ativos ou como passivos, porque, com efeito, o homem ao mesmo tempo se move e é movido por si mesmo. Mas, como já visto, os atos humanos só se podem dizer propriamente humanos quando procedem da vontade deliberada, que, como igualmente visto, tem por objeto o bem e o fim. Logo, o fim é não só necessariamente “o princípio dos atos humanos enquanto são humanos”, mas também seu termo, “porque aquilo em que terminam os atos humanos é o que a vontade busca como fim”. É assim que os atos morais recebem propriamente sua espécie do fim, razão por que são o mesmo os atos morais e os atos humanos.

4) Corolário fundamental, a que adequadamente não se poderia seguir senão a pergunta de “utrum sit aliquis ultimus finis humanae vitae” (se há um fim último da vida humana). E parece que não. Sucede porém que, assim como com relação à série de motores ou à de causas eficientes, “é impossível proceder ao infinito nos fins”. Com efeito, se assim se procedesse com relação às causas motoras, deixaria de haver um primeiro motor, e, na ausência deste, os demais motores não poderiam mover, uma vez que recebem o movimento justamente do primeiro motor. Similarmente quanto às coisas que se ordenam umas às outras como a um fim: se se suprimisse a primeira, desapareceriam obrigatoriamente todas as demais. Ora, nos fins distinguem-se duas ordens: a da intenção e a da execução, e em ambas as ordens deve haver algo que seja primeiro. “O primeiro na ordem da intenção é como o princípio que move o apetite”, razão por que, se se suprime o princípio, ou seja, se se suprime o motor, se imobiliza o apetite. Por sua vez, é no que é princípio na ordem da execução que tem começo a operação, razão por que, se se elimina este princípio, tampouco se pode começar a agir. “O princípio da intenção é o último fim; o princípio da execução é a primeira das coisas que se ordenam ao fim.” Como se vê, em ambos os casos é impossível proceder ao infinito, porque, se não houvesse último fim, não se apeteceria nada nem, por conseguinte, se levaria a efeito ação alguma; e, pelo mesmo motivo, tampouco a intenção do agente encontraria termo ou repouso. Insista-se: dessa maneira, não haveria ação alguma nem, pois, se chegaria a nenhuma resolução — proceder-se-ia assim, precisamente, ao infinito. (Note-se, todavia, que se trata aqui das coisas que se ordenam entre si essencialmente ou per se. As que se ordenam entre si per accidens comportam, sim, infinitude, precisamente porque as causas que são per accidens supõem indeterminação. Por isso, considerada essa indeterminação, pode haver infinitude per accidens não só nas coisas que se ordenam aos fins, mas nos próprios fins.)

(Continua. Já não é possível, porém, com o exposto até aqui, divisar a inanidade de tentar atribuir a Santo Tomás a autoria da tese dos dois fins últimos do homem e, pois, da não-ordenação essencial do poder civil ao eclesiástico?)

P.S.: Um leitor deste blog sugeriu-me escrevesse uma série sobre as relações entre as ciências (no sentido moderno) e a filosofia. Escrevê-la-ei, com muito gosto, assim que terminar este longo artigo sobre “Corte-e-costura, etc.”. Esclareço, porém, desde já: a série será não só sobre as relações entre as ciências e a filosofia, mas também sobre as relações entre elas e a teologia. Por outro lado, a série sobre sedevacantismo começada aqui, a estou desenvolvendo e terminando no site do Priorado da FSSPX de São Paulo (
http://www.fsspx-brasil.com.br/index.htm). Os sedevacantistas que afirmam refutar o que digo sobre sua doutrina devem dirigir-se a essa página para conhecê-lo, progressivamente, na íntegra. Acaba-se de refutar, ali, a tese sedevacantista fundada no pensamento de Pacheco Salles, e na próxima semana começa a refutar-se a Tese de Cassiciacum. Fica para o final a tese dos sedevacantistas que se fundam na Bula Cum ex Apostolatus Officio, do Papa Paulo IV. Segue-se com essa ordem a ordem de complexidade decrescente das diversas correntes do sedevacantismo.