quinta-feira, 23 de julho de 2009

Uma imagem que vale por mil palavras


Sidney Silveira
Frades franciscanos (vestidos a caráter!) em meio a agitadores do MST. Essa imagem, posta nos Cruzados de Maria, foi colhida do livro "Pastoral da Terra e MST incendeiam o país", que pode ser adquirido no site www.paznocampo.org.br, onde basta cadastrar-se para receber de graça a obra. Terão lido a Regra Bulada dos Frades Menores estes que desfilam de hábito franciscano? Deus do céu! O que fizeram o comunismo, por um lado, e o liberalismo, por outro, infiltrados nas hostes da Igreja! O primeiro, escolhendo a revolução, trocou Cristo por Barrabás; o segundo pulverizou a doutrina.

terça-feira, 21 de julho de 2009

A atitude do avestruz

Carlos Nougué
Ao final de seus Exercícios Espirituais, na Primeira regra “para sentir exatamente o que devemos na Igreja militante”, diz Santo Inácio de Loiola: “Deposto todo e qualquer juízo [próprio], devemos ter o espírito preparado e pronto para obedecer em tudo à verdadeira Esposa de Cristo Nosso Senhor, que é a nossa Santa Madre, a Igreja Hierárquica [ou seja, o Papa e sob ele a universalidade dos Bispos].” E na Décima terceira regra: “Para que em todas as coisas cheguemos à verdade, devemos manter [o princípio] de crer que o branco que eu vejo é preto, se a Igreja Hierárquica assim o determinar, crendo que entre Cristo Nosso Senhor, Esposo, e a Igreja, sua Esposa, não há mais que um mesmo espírito, que nos governa e rege para a salvação de nossa alma, porque Nossa Santa Madre Igreja é governada pelo mesmo Espírito e Senhor nosso que deu os Dez Mandamentos.”

E o que diz aí Santo Inácio é absolutamente de fé; negá-lo é pecar contra a fé. Há porém dois pressupostos para que assim seja: 1º) o de que o declarado pela Hierarquia diga respeito a fé e costumes (donde a referência a cores por Santo Inácio ter caráter meramente metafórico); 2º) o de que a Hierarquia queira, no que declara, imperar e impor doutrina, querer este que basta, de per si, para a assistência infalível do Espírito Santo. (Quanto aos graus de infalibilidade das declarações papais, e a todos os demais assuntos relacionados a este tema, cf. A Candeia Debaixo do Alqueire, do Padre Calderón.) Ora, o que caracteriza a Hierarquia desde o Concílio Vaticano II é precisamente o fato de que, em vez de impor doutrina do alto de sua autoridade, depõe essa autoridade, reduzindo a sua própria função a mero papel de coordenação “democrática” do debate proposto pelos teólogos e de um suposto sensus fidei “infalível” do conjunto dos fiéis.

Tudo isso tem uma base filosófica: a crença de fundo hegeliano ou nominalista de que ou a verdade é mutável, ou não é alcançável por nossa inteligência, ou não se pode traduzir na “pobre” linguagem humana. E, se vários são os corolários de tal modo de pensar, dois deles nos interessam particularmente aqui: primeiro, a descrença na fixidez dos dogmas; segundo, a redução da religião a mera “experiência” (nunca muito bem definida, por impossível, diga-se). Por esses corolários é que o Concílio Vaticano se disse pastoral e não dogmático; por esses corolários é que todas as declarações e documentos conciliares e pós-conciliares são como sugestões para debate, porque neles nunca se dá a vontade de imperar nem, pois, se empenha ou compromete a infalibilidade papal, que tem justamente aquela vontade por pressuposto.

E não confundamos a autoridade fundada na Verdade com a autoridade fundada na mera jurisdição: aquela é simpliciter efetiva; esta é maquiavélica no sentido preciso do termo. Ora, se em geral as leis iníquas, que parecem não ser leis (“Lex esse non videtur, quae iusta non fuerit” – Santo Agostinho, Sobre o Livre-arbítrio, L. I, c. 5, n. 11), por isso mesmo não obrigam no foro da consciência (“... tales leges no obligant in foro conscientiae” – Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I-II, q. 96, a. 5, corpus), o que dizer das leis disciplinares fundadas na negação de uma das verdades católicas centrais, qual seja, a de que a doutrina da Igreja não pode mudar porque é imutável como o seu próprio autor, Deus mesmo? Com efeito, diz o Concílio Vaticano I: “O Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que, com sua assistência, promulgassem uma nova doutrina, e sim para que, com sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, ou seja, o depósito da fé” (Constituição Dogmática Pastor Aeternus, cap. 4). Por que o disse esta Constituição? Por que dissera São Paulo aos Gálatas (I, 9): “Ainda que nós mesmos, ou um anjo do Céu, vos pregue um evangelho diferente do que nós vos anunciamos, seja anátema.”

Por tudo isso, portanto, é que os católicos não devemos ao magistério fundado no Concílio Vaticano II (e em seus pressupostos filosóficos) a obediência que Santo Inácio propugnava;* e isto vale, naturalmente, para a última encíclica do Papa Bento XVI, Caridade na Verdade. Posto, pois, este preâmbulo, podemos passar agora ao que me faz escrever este breve artigo: a atitude de avestruz de alguns católicos conservadores diante do óbvio, isto é, o não querer ver o que na referida encíclica é perfeitamente branco e nada preto. Ou vice-versa.

Tal atitude está perfeitamente resumida, e defendida, no editorial de John-Henry Westen, “Pope’s New Encyclical Speaks Against, not for One-World Government and New World Order”, para a edição de 8/7/2009 do LifeSiteNews.com. Com inequívoca intenção, escreve-se ali que “Jornais, blogs, programas de rádio e de televisão estão cheios de discussões acerca do suposto convite do Papa Bento XVI a uma ‘nova ordem mundial’ ou um ‘governo mundial’. Estas idéias, no entanto”, prossegue o editorialista, “não se baseiam na realidade nem numa leitura clara da última encíclica do Papa, Caritas in Veritate, cuja publicação [...] provocou a inflamada discussão”.

Deixo de lado muitos detalhes do editorial, e volto-me para a sua afirmação central: “O Papa, na verdade, fala diretamente contra um governo mundial e [...] convida a uma maciça reforma das Nações Unidas”; e “no parágrafo 41 [...] diferencia especificamente seu [grifo nosso] conceito de autoridade política mundial [world political authority] do de governo mundial [one-world government]”. Concedo perfeitamente que o Papa faça a referida diferenciação e que diga o que diz John-Henry Westen em seu editorial; o que porém nenhum católico deveria conceder é que esse conceito de autoridade política mundial seja católico, ainda que em tal conceito se trate, como diz o mesmo editorialista, de uma autoridade mundial “difusa”. (O que significa exatamente uma “autoridade difusa”, isso me parece muito difícil dizer.)

Com efeito, o não-católico de tal conceito reside precisamente em que, para a imutável doutrina da Igreja, todo e qualquer poder político deve ordenar-se essencialmente ao fim último do homem, Deus mesmo, e pois ao poder espiritual por Ele mesmo instituído na terra, a Igreja – seja o poder político local ou imperial. Defender qualquer world political authority sem essa ordenação é gravíssimo, enquanto não o seria (falo hipoteticamente) defender um one-world government ordenado à Igreja. Sim, porque o poder temporal se ordena ao espiritual assim como o corpo humano se ordena à sua alma. Mais que isso, porém, e quem o diz é o Papa Bonifácio VIII na Bula Unam Sanctam, de 18/11/1302: como se ensina nos Evangelhos [Lucas, XXII, 38, e Mateus, XXVI, 52], estão em poder da Igreja duas espadas (ou gládios), “a espada espiritual e a espada temporal. Mas esta última deve ser usada para a Igreja, enquanto a primeira deve ser usada pela Igreja. A espiritual deve ser manejada pela mão do sacerdote; a temporal, pela mão dos reis e soldados, mas segundo o império e a tolerância do sacerdote. Uma espada deve estar sob a outra espada, e a autoridade temporal deve ser submissa ao poder espiritual” (grifos nossos; “... spiritualis scilicet gladius et materialis. Sed is quidem pro ecclesia, ille vero ab ecclesia exercendus. Ille sacerdotis, is manu regum et militum, sed ad nutum et patientiam sacerdotis. Oportet autem gladium esse sub gladio, et temporalem auctoritatem spirituali subiici potestati”). E, justamente porque as coisas espirituais sobrepujam as temporais e, em conseqüência, o poder espiritual supera em dignidade e nobreza qualquer espécie de poder terrestre, é que, “como atesta a verdade, o poder espiritual pode instituir o poder terrestre, e julgá-lo, se este não for bom” (ibid.; “... veritate testante, spiritualis potestas terrenam potestatem instituere habet, et iudicare, si bona non fuerit”).

Poderia citar outros documentos do magistério infalível da Igreja, como a carta magna da Cristandade que é a Quas primas de Pio XI, para corroborar o que aqui se diz da Encíclica Caritas in Veritate. Mas bastará confrontar o que se acaba de ler de Bonifácio VIII com o que diz o mesmo John-Henry Westen no último parágrafo de seu editorial. Com efeito, lê-se aí: “Qualquer visão de uma adequada ordenação do mundo, da cooperação econômica ou política internacional, sugere o Papa, deve basear-se numa ‘ordem moral’. Isso inclui, em primeiro lugar e principalmente, ‘o direito fundamental à vida’ [...], o reconhecimento da família baseada no casamento entre um homem e uma mulher como base da sociedade, a liberdade religiosa e a cooperação entre todas as pessoas com base nos princípios da lei natural.”

Atentemos para as principais insuficiências (do ângulo da doutrina infalível da Igreja, obviamente) e contradições do texto, que porém reflete fielmente o pensamento do Papa expresso em Caritas in Veritate:

a) A ordenação do mundo (e dos Estados que o compõem) deve, sim, basear-se numa “ordem moral”, mas não tendo por fim uma melhor cooperação política e econômica internacional, porque, como diz Santo Tomás de Aquino em De Regno, “é necessário que o fim da multidão humana, que é o mesmo do indivíduo, não seja viver segundo a virtude, mas antes, mediante uma vida virtuosa, alcançar a fruição divina”. De fato, assim como não importa salvar a vida se com isso se perde a alma, assim também, analogamente, não importa melhorar a economia e as relações políticas internacionais se com isso, por não se fazer em ordem a Deus, se perdem bilhões de almas mundo afora. Mais ainda e acima de tudo: se com isso não se presta a devida glória a Deus, mas antes fica ela ofendida.

b) Além do mais, como é possível dizer que “o casamento entre um homem e uma mulher” (grifo nosso) deve ser “a base da sociedade” e propor, ao mesmo tempo, a “liberdade religiosa”? Sim, porque ou não se vai dar liberdade ao islamismo, ou se terá de aceitar o casamento entre um homem e muitas mulheres...

c) Além do mais, a defesa da “liberdade religiosa”, como tantos e tantos autores já o demonstraram à exaustão, contraria as Sagradas Escrituras, o Traditum, o magistério infalível da Igreja... e o simples bom senso, como aliás acabamos de ver pelo único exemplo do item anterior.

d) Além do mais, e por fim, como sustentar uma “cooperação entre todas as pessoas [ou seja, independentemente de religião] com base nos princípios da lei natural” se o primeiro e supremo mandamento da lei natural é amar a Deus acima de todas as coisas e não adorar falsos deuses ou ídolos, e se Cristo mesmo nos veio dizer que Deus é trino? Como poderão cumprir tal mandamento os ateus e os membros de quaisquer religiões não-cristãs? Não só isso, porém: se, como sabemos, a Igreja Una, Santa, Católica, Apostólica e Romana é de instituição divina, e é a única que pode dirigir os indivíduos a uma vida virtuosa segundo a lei natural para que, mediante ela, alcancem a fruição divina, como crer que os heréticos e os cismáticos possam “cooperar” com tal direção única? Autoriza-nos a ter tais “esperanças” a História? Como no-las autorizaria, se, se excetuam os cerca de mil anos que vão de Constantino a Bonifácio VIII, toda a História depois de Cristo não passa de um longo cortejo de perseguições à Esposa de Nosso Senhor?
Verdadeiramente, a paz e a cooperação internacionais ou se darão sob a direção do Vigário de Cristo, ou sob o tacão do Anticristo. Ou se darão sob as bandeiras da Realeza de Nosso Senhor, ou sob o pavilhão de Satanás. E, como se lê no Catecismo da Realeza Social de Jesus Cristo, do Padre A. Philippe, C.SS.R., ainda que tudo no mundo indique a impossibilidade aparente dessa Realeza, devemos defendê-la até a morte – não seja que, de tanto a omitirmos, acabemos nós mesmos por negá-la.

Em tempo: Dizia o Padre Pio de Pietrelcina: “Afasta-te do mundo. Escuta-me: um se afoga em alto-mar, outro se afoga num copo d’água. Que diferença há entre um e outro? Não estão mortos os dois?”.
Adendo do Sidney: Em sentido prático, a world political authority que propõe o Papa em sua Encíclica é muito mais grave do que o one-world government, pelo simples fato de que este último acabará de alguma forma por apoiar-se naquela — pois todo e qualquer governo, mesmo um maquiavélico e de per si ilegítimo, precisa sustentar-se em algum grau de autoridade política, sem o que não conseguiria impetrar os seus atos de governança. Se estas são exatamente as duas bestas de que fala o Livro do Apocalipse é algo que não temos como dizer, mas uma coisa é certa: afirmar que a Caritas in Veritate se opõe à ordem mundialista simplesmente porque critica o one-world government é pior do que um sofisma; é fechar os olhos para não ver. É a atitude mais cômoda, tanto para católicos conservadores com mil e um comprometimentos (diretos ou indiretos) com movimentos ou facções do Catolicismo atual, como para tradicionais que caíram na quimera milenarista da reconstrução da Cristandade no mundo, a esta altura do campeonato (quase à maneira de um Joaquim de Fiore). Por fim, antes que algum engraçadinho murmure que estamos julgando a pessoa do Papa, como dizem os nossos detratores nos ouvidos de gente amiga, com o intuito de afastá-la de nós, vale dizer: o que está em jogo é a Encíclica e o que nela está escrito, e não a intenção com que o Papa a escreveu. Se nem a Igreja, que é Santa, julga de foro interno, que dirá nós, pobres mortais e míseros pecadores!

sábado, 18 de julho de 2009

Ramon Llull e as Cruzadas


Sidney Silveira
Eis o próximo livro da Sétimo Selo, que já está no forno: Raimundo Lúlio e as Cruzadas. Nele apresentamos (em edição trilíngüe: latim, catalão e português) três obras do peculiar autor medieval sobre este tema comumente mal interpretado por ideólogos os mais variados. Noutro post, falarei mais sobre a obra. Por ora, fiquem com o começo da Nota dos Editores, assinada por mim e que precede os demais textos da edição. Também falaremos (antes do lançamento do livro) um pouco mais sobre o caráter das Cruzadas, a partir de uma perspectiva histórica realista.


BREVE NOTA DOS EDITORES

Quando o Papa Inocêncio III convocou o IV Concílio de Latrão,[1] por intermédio da bula Vineam Domini Sabaoth (de 10 de abril de 1213), já se haviam passado quase cento e vinte anos desde a Primeira Cruzada,[2] proclamada em 1095 por Urbano II com o objetivo expresso de libertar Jerusalém e a Terra Santa do jugo muçulmano. O cânone 71º desse Concílio (Expeditio pro recuperanda Terra Sancta) garantia àqueles que de alguma forma contribuíssem com a luta a completa remissão dos pecados, desde que, sinceramente arrependidos e com o coração contrito, passassem pela confissão auricular [3] — espécie de preparação sacramental prévia para o cristão que, pondo em risco a própria vida, se aventurasse numa expedição levada a cabo no contexto da defesa da fé.[4] A partir de então, a Cristandade organizou-se para esta que ficou vulgarmente conhecida como a Quinta Cruzada, entre 1217 e 1221, sob o pontificado de Honório III.

Aduzimos este exemplo apenas para advertir que, se um historiador perde de vista as motivações religiosas da luta armada dos cristãos contra os infiéis — apontadas em farta documentação pelas autoridades eclesiásticas —, está ipso facto incapacitado para emitir sobre elas um juízo histórico equilibrado. Acabará, quer o queira, quer não, por instrumentalizar a história e pô-la a serviço de alguma ideologia.[5] Isto é o que fazem muitos escritores cujo único zelo parece ser o de dar às fontes primárias que analisam uma intenção diametralmente oposta às que estão consignadas nos documentos. Pressupor que todas as Cruzadas tivessem um objetivo meramente político ou econômico, sem trazer à luz nenhum registro da autoridade eclesiástica em que tais motivos estejam descritos ou pelo menos insinuados, é um dentre tantos exemplos encontradiços em certa historiografia daninha, que pretende recontar a história da Igreja a partir de ideologias que lhe são frontalmente adversas. O resultado dessa peculiar hermenêutica compõe quase sempre o quadro sombrio de uma Igreja autoritária, interessada tão-somente em fins políticos, em bens materiais e no domínio indevido sobre a vida das pessoas.

A consideração das fontes eclesiásticas a respeito do tema (bulas, decretos pontifícios, encíclicas, concílios, etc.) é o primeiro passo para uma genuína aproximação da verdade histórica, ainda que de maneira assintótica.[6] Mas isto com duas importantes ressalvas: 1ª. é fundamental o historiador conhecer qual seja, de acordo com a Igreja, o caráter do Magistério (as suas premissas teológicas, os seus fins, o seu sujeito, os seus atos, os seus níveis hierárquicos, os seus órgãos principais e subsidiários, os graus de comprometimento doutrinal, etc.); . antes de aventurar-se a temerários vôos interpretativos, o historiador precisa ater-se, primacialmente, ao que informam esses documentos. Um exemplo de desvio desta norma são as opiniões antipapistas que pululam na historiografia contemporânea, as quais têm o sestro de atribuir à autoridade suprema da Igreja intenções que não estão assinaladas nas fontes, como por exemplo a de que o papado ou a Cúria eram movidos por interesses menores, como o de afirmar-se politicamente.

Em se tratando de autor cristão medieval que tenha abordado um tema ligado à ação política, como é o caso de Lúlio, tais pareceres ideológicos afloram quando se ignora o imenso cabedal de fontes eclesiásticas acerca do papel que a política deve ocupar, de acordo com a doutrina da Igreja. Não sendo este o lugar de aprofundar a questão, apontemos tão-somente um ponto crucial em que o Magistério e — seguindo-o de perto — alguns dos maiores teólogos e Doutores da Igreja coincidem: tanto os homens como as sociedades estão ordenados ao fim último, cujo usufruto é contemplar beatificamente a essência divina. É enfática a doutrina quanto a este ponto, ao frisar que a autoridade política tem caráter meramente instrumental, em vista da salvação querida por Deus para todos os homens.

Dizia a este respeito Bonifácio VIII na bula Una Sanctam, de 18 de novembro de 1302: “(...) este poder comporta duas espadas, e todas as duas estão em poder da Igreja: a espada espiritual e a espada temporal. Esta última deve ser usada para a Igreja (pro Ecclesia), enquanto a primeira deve ser usada pela Igreja (ab Ecclesia). O poder espiritual deve ser manuseado pelos sacerdotes; o temporal, por reis e cavaleiros de acordo com o consenso e a vontade dos sacerdotes. Uma espada deve estar subordinada à outra espada, e a autoridade temporal deve ser submissa à autoridade espiritual (et temporalem auctoritatem spirituali subiici potestati). (...) A verdade atesta: o poder espiritual pode estabelecer o poder terrestre e julgá-lo, se não for bom (Nam, veritate testante, spiritualis potestas terrenam potestatem instituere habet, et iudicare, si bona non fuerit)”.[7]

O que se diz das interpretações forçosas acerca das medidas político-prudenciais do papado medieval e dos Concílios no tocante às Cruzadas serve, igualmente, para o pensador catalão Raimundo Lúlio (Ramon Llull), incensado como o precursor do que hoje se convencionou chamar de “diálogo inter-religioso”. Ocorre o seguinte: para alguns desses valorosos e eruditos historiadores, as três obras do autor catalão que apresentamos neste volume são uma pedra de tropeço, pois nelas Lúlio mostra um ímpeto cruzadístico verdadeiramente impressionante, ao exortar o Papa Nicolau IV a reiniciar as Cruzadas (após a queda, em 1291, do último reduto cristão na Palestina, a cidade de São João d’Acre); ao propor táticas para levar os cristãos à vitória definitiva; ao falar ao Papa da necessidade de fazer uma guerra permanente contra os sarracenos; ao afirmar que “os anjos do Paraíso e os santos desejam que a Terra Santa e outras terras que os infiéis tomaram dos latinos sejam recuperadas”; etc.

CONTINUA (...).

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[1] A importância do IV Concílio de Latrão pode ser mensurada, entre outras coisas, por duas doutrinas concernentes à fé solenemente proclamadas naquela ocasião — além da condenação formal das heresias trinitárias do monge cisterciense Joaquim de Fiore e da convocação de mais uma expedição militar para libertar a Terra Santa, em poder dos muçulmanos. 1ª. Fora da Igreja não há salvação (“Una vero est fidelium universalis Ecclesia extra quam nullus omnino salvatur); 2ª. A Virgindade Perpétua de Maria (Et tandem unigenitus Dei Filius Iesus Christus a tota Trinitate communiter incarnatus ex Maria semper virgine).
[2] Nesta breve nota, preferimos utilizar o termo “Cruzada” por uma simples convenção historiográfica e também para facilitar a compreensão dos leitores não familiarizados com estas questões terminológicas. A este problema se atém o texto da Introdução ao presente volume.
[3] “Nos igitur omnipotentis Dei misericordia et beatorum apostolorum Petri et Pauli auctoritate confisi ex illa quam nobis licet indigne Deus ligandi atque solvendi contulit potestate omnibus qui laborem propriis personis subierint et expensis plenam suorum peccaminum de quibus liberaliter fuerint corde contriti et ore confessi veniam indulgemus et in retributione iustorum salutis æternæ pollicemur augmentum”.
[4] Que as motivações dessa luta armada contra os infiéis fossem de defesa da fé (e, na perspectiva da Igreja, em favor da salvação das almas dos eleitos pela presciência divina) é o pressuposto de todos os documentos deste Concílio. A propósito, a defesa da fé tem sempre em vista o bem comum da Igreja, ainda quando as ações implicadas se dêem no plano político. Quando, por exemplo, diz-se que a heresia deve ser combatida por ser fruto da cegueira instilada pelo “pai da mentira” (pater mendacii), vale frisar: quer o historiador acredite ou não no demônio, quer acredite ou duvide da insensatez das doutrinas heréticas ali aludidas, não é lícito nem hermeneuticamente defensável que pressuponha haver, por trás dessa razão claramente expressa no documento eclesiástico, outras motivações ocultas, de ordem política ou econômica. A menos que estivessem consignadas nas fontes.
[5] Cunhado no livro Elements d’idéologie (1801) por Antoine Destutt de Tracy, discípulo de Condillac — ambos liberais revolucionários —, o termo “ideologia” exerce ali, segundo o próprio autor, o papel de “filosofia primeira” em substituição a qualquer metafísica e a qualquer religião. O que, porém, quer dizer precisamente De Tracy ao falar de “filosofia primeira”, já que não se trata de metafísica? Ora, esta sempre fora considerada a filosofia primeira por tratar, justamente, das coisas que são primeiras na realidade: Deus incluído, e acima de tudo. A “ideologia” do francês tinha o exato sentido de “ciência das idéias”, e, como uma ciência ou filosofia se define pelo seu objeto, e como a “ideologia” de De Tracy se substituía à metafísica como “filosofia primeira”, logo, para ele as coisas primeiras na realidade só podiam ser... idéias! O que se diz da “ideologia” de De Tracy se pode também dizer de todas as ideologias: trata-se, sempre, de um apartamento entre as idéias e as coisas, uma colocação indevida e arbitrária de uma idéia (ou conjunto de idéias) no lugar dos entes. Em resumo: uma não-aceitação das coisas como são. Essa falta de docilidade para com os dados da realidade é um dos signos por excelência do espírito antifilosófico.
[6] Por melhor embasado que seja, o juízo histórico terá sempre o caráter de interpretação de uma presumível verdade acerca do passado, diferentemente do juízo metafísico, que parte de evidências extraídas de primeiros princípios indemonstráveis e chega a conclusões necessárias. Como bem afirma Juan Cruz Cruz em Filosofia da História, embora o juízo histórico possua certeza e alcance um alto grau de verossimilhança, carece de uma evidência absoluta, lógico-apodíctica. Daí que a história seja uma recriação intencional do passado a partir de vestígios consignados nas fontes escritas ou em tradições orais. Para ser historiador, não basta compulsar mil arquivos; é preciso reunir a maior quantidade de informações e interpretá-las à luz de algum método. Ver. Cruz Cruz, Juan. Filosofia da História. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2007, pp. 13-23.
[7] Papa Bonifácio VIII. Una Sanctam, 18/11/1302 (grifos nossos). Esta sempre foi a doutrina comum da Igreja, e escolhemos a presente bula por ter sido consignada no mesmo período em que Lúlio escrevia os textos publicados na presente edição — para mostrar quão afinado estava ele com a Igreja, neste ponto específico. E não é ocioso deixar o registro de que se trata de doutrina multissecular, como se pode confirmar por uma Encíclica escrita mais de 700 anos depois: “Não se neguem, pois, os governantes das nações a dar por si mesmos e pelo povo públicas mostras de veneração e de obediência ao império de Cristo, se porventura pretendem conservar incólume a sua autoridade” (grifos nossos). Papa Pio XI. Quas Primas, nº 16, 11/12/1925.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A Realeza de N. S. Jesus Cristo e o nefasto hábito da omiti-la

Carlos Nougué
Sigo sem tempo para escrever mais longamente para o blog; logo o farei. Por enquanto, porém, não posso deixar de demonstrar ainda que brevemente minha estupefação com certas coisas que leio saídas da pena de alguns católicos tradicionais, mais precisamente a respeito da última encíclica do Papa Bento XVI, Caridade na Verdade.

Mais precisamente ainda: dizem esses católicos que seria um absurdo ou injustiça criticar a encíclica pelo fato de ela não propor coisas catolicamente mais avançadas, estando claro, para os autores dessa tese, que tais coisas são impossíveis nos dias de hoje. Proporia assim o Papa, em sua encíclica, coisas factíveis na atualidade, quando já não vivemos na Cristandade ou civilização cristã.

Ora, o xis da questão não está aí. Está em que, para todos os católicos humanistas desde o velho Dante (passando pelo “tomista”, em verdade humanista, Francisco de Vitória, sobre o qual voltarei a falar, detidamente), a economia, a política, o Estado, o direito das gentes e as relações internacionais não estão essencialmente ordenados ao fim último do homem, Deus, nem pois ao poder espiritual por Ele instituído na terra, a Igreja.

Com efeito, que me importa salvar minha vida se com isso perderei minha alma? Pois bem, analogamente, que importa melhorar a economia e as relações políticas internacionais se tal não se faz em ordem a Deus e se, portanto, com isso, se perderão bilhões de almas mundo afora?

Lembremo-nos – e isto, como já se disse, não é “apocalipse-ficção”! – de que o próprio Anticristo, ou seja, o primogênito de Satanás, fará prodígios impressionantes no campo dos assuntos do mundo. E, como se lê no imprescindível Catecismo da Realeza de Jesus Cristo (se não me engano, a Fraternidade São Pio X o relançou recentemente), ainda que tudo no mundo indique a impossibilidade aparente dessa Realeza, devemos defendê-la até o último suspiro – não seja que, de tanto a omitirmos, acabemos nós mesmos por negá-la.

O "Index Bonorvm": iniciativa que nos serve de exemplo

Sidney Silveira
Gederson Falcometa, que nos dera a idéia de criar a "TV" Contra Impugnantes, agora nos dá notícias de algumas atividades (católicas) que ele e alguns amigos estão levando adiante na cidade de Belo Horizonte, em um escritório no Centro da capital mineira. Fala-nos também da criação do Index Bonorvm, cujos objetivos estão claramente descritos neste blog, e nos apresenta a Frederico de Castro, criador do Opvs Ivstitiæ Pax e dos Cruzados de Maria, e a Renato Salles. Ao que parece, todos são jovens — e estão imbuídos do louvável propósito de difundir a sã doutrina. O Index Bonorvm a mim me parece uma belíssima iniciativa com que devemos contribuir material e espiritualmente. Não resisto a compará-la às atividades de nossos atuantes católicos liberais difusores da pior cultura de almanaque que possa haver, cuja catolicidade é como uma cabeça de avestruz enfiada no mais nauseante estrume multicultural (perdoem-me as almas cândidas, que podem ruborizar com tal imagem, mas na verdade ela é "fichinha", perto do furor de um São Bernardo ou da acidez de um Santo Antônio).

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Potestas Ecclesiæ: pensamento do dia

Sidney Silveira
"O poder do Magistério ordena-se a obter o assentimento do intelecto; o poder de Governo a exigir o assentimento da vontade; e o poder de santificação a conferir a vida da graça". Como é bela a doutrina tradicional da Igreja!

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Manifestações acerca de "A Candeia Debaixo do Alqueire"

Sidney Silveira
Como exemplo das várias mensagens que nos tem chegado a respeito do livro A Candeia Debaixo do Alqueire, disponibilizo hoje dois textos. O primeiro deles foi veiculado no blog Lumina Virtutum (
http://luminavirtutum.blogspot.com); o segundo é de um leitor (cujo nome omito).

“Quando nos deparamos com um grande livro, devemos imediatamente recomendá-lo ao maior número possível de leitores. Quando nos deparamos com um livro que tem como principal objetivo a edificação da fé no plano da verdade, somos obrigados a recomendá-lo. Assim é o livro A Candeia Debaixo do Alqueire, do grande teólogo Padre Álvaro Calderón. Os leitores podem se surpreender em dois planos. Primeiro: trata-se de um livro de teologia. Sim, ainda existem teólogos e livros de teologia completamente diferentes das pseudo-abordagens sociológicas de cunho marxista, como a medíocre teologia da libertação que infecta os seminários católicos. Segundo: teologia rigorosa, método escolástico da disputatio. Como os teólogos católicos seriam mais dignos se os progressistas não tivessem banido a escolástica dos seminários! Esse livro pode levar uma pessoa à conversão ou mesmo a um processo de purificação de idéias em relação ao Concílio Vaticano II. Pessoas que estejam propensas à busca da verdade, pois o núcleo desse livro é a questão da verdade concernente ao Concílio Vaticano II. Leiam! Todo Católico deve lê-lo!”.

"Prezado Sr. Sidney,
Venho hoje parabenizá-lo por ter dado a mim a oportunidade de conhecer tão elevada doutrina e tão explícita verdade, por meio da obra magistral "A Candeia debaixo do Alqueire". Lê-lo me fez ver o quão tenebrosos ainda são os tempos em que vivemos. (...) [o livro] abriu meus olhos para o perigo que correm todos aqueles chamados de "tradicionalistas" que, levados por palavras que não foram ditas e atitudes que não foram tomadas e indícios que inexistem, vêem catolicidade onde ela não está e verdade no erro. (...) Mais uma vez agradeço o grande bem à minha alma que vocês fizeram, sendo instrumentos nas mãos de Deus para a proclamação da verdade”.

A estes e a outros que nos têm escrito, agradecemos eu e o Nougué.