domingo, 29 de março de 2009

"TV" Contra Impugnantes — Santo Tomás, Heidegger, Zubiri, etc.

Sidney Silveira
Conforme o prometido, aos poucos estamos postando trechos de aulas ministradas em diferentes localidades. Permanecemos, ainda, no terreno dos questionamentos metafísicos e das advertências preliminares necessárias, em se tratando de falar de metafísica ao público de hoje. Adiante passaremos à abordagem teológica e veremos o quão certo estava Santo Tomás ao afirmar que a filosofia é ancilla theologiae, e que a teologia (doutrina sagrada) é a ciência das ciências — ciência especulativa e prática.

"TV" Contra Impugnantes - mais um vídeo

Sidney Silveira
está no ar a segunda parte da entrevista do Nougué ao Prof. Marcos Cotrim, da Universidade de Anápolis (GO).

sexta-feira, 27 de março de 2009

A angústia de Heidegger: o mundo do nada

Sidney Silveira
Num futuro distante, ou quem sabe na eternidade, talvez as principais correntes da filosofia dos séculos XIX e XX sejam vistas como tolas quimeras, como um momento dramático da história humana em que entre a inteligência e as coisas inteligidas e entre a vontade e as coisas queridas interpôs-se um abismo, um negrume, um vazio insuperável — e o homem viu-se apartado de tudo o que, até então, lhe dera algum esteio. Restou-lhe, apenas, a dolorosa imanência do próprio desespero.

Tal solipsismo foi respaldado por filosofias da incerteza, filosofias da angústia, filosofias do voluntarismo, filosofias do imoralismo, filosofias das fantasmagorias do inconsciente, filosofias do materialismo mais tosco*, filosofias do apriorismo transcendental mais absurdo, etc. Enfim, filosofias em que a inteligência humana desfigurou-se, por haver sido despojada do seu natural “habitat”, do seu modo próprio de operação (per abstractionem), como dizia Octavio Derisi, aguerrido tomista argentino sobre quem recebi, nesta semana, dois interessantes emails de leitores do Contra Impugnantes. Este desértico panorama intelectual e espiritual não poderia gerar senão sociedades aterradoramente violentas e individualistas. Sociedades infantilizadas e hiperssexualizadas. Sociedades do mais enfermiço hedonismo. Do mais insano niilismo. Sociedades de um humanismo superficial e politicamente correto. Sociedades de um democratismo daninho e autofágico. Em suma, sociedades, na raiz, liberais, na medida em que o liberalismo é essa caixa aberta de Pandora que, deixando em seu fundo uma esperança nada cristã, liberta e dá voz política a toda a sorte de erros, a pretexto de “liberdade”.

Exemplos do pensar quimérico e irracionalista são, incrivelmente, encontráveis em absolutamente todos os mais incensados pensadores dos últimos 150 anos. Quando Heidegger nos diz, por exemplo, que o Dasein (o ente humano) só tem a notícia de si a partir da angústia de saber-se para o nada e para a morte, e que somente a angústia nos retira da existência (ou “ec-sistência”) banal e nos insere na existência autêntica, está proclamando, com sua terminologia sui generis, o seguinte: é o nada que fundamenta o ser, particularmente o ser do ente humano — um tipo de ente que possuiria uma espécie antevisão desse “nada” fundamentador, e daí lhe adviria o que o filósofo alemão chama de “cuidado”: um projeto existencial cuja bússola é, tão-somente, a angústia. Em síntese, a última trama da existência do Dasein é, como diz o mesmo Derisi em seu Tratado de Existencialismo y Tomismo, uma dialética do tempo, um êxodo em direção a um futuro que se vai “nadificando”, até que o nada final da morte se apresente como o cume da existência, em sua totalidade. Uma existência breve e, essencialmente, solitária.

Heidegger teve décadas para concluir a propalada “ontologia fundamental” de sua obra máxima, Ser e Tempo. Não o fez. E não o fez porque, a meu ver, partindo de premissas tais, não haveria solução possível para uma série de aporias desse sistema cujo ápice só pode ser o seguinte: a auto-afirmação tirânica de uma existência angustiosa. Existência angustiosa e carente de um sentido maior. Sim, pois se somos um “quase-nada” entre dois nadas absolutos, e não havendo nada no ser para além do tempo, só restará ao Dasein um ativismo cego. Um agir baseado numa não-ética.

A “base” gnosiológica para essa estranha epopéia de Heidegger (mais poética do que, propriamente, filosófica) é o “ir às coisas mesmas” de Husserl. Ou seja: é o método fenomenológico da intuição pré-intelectiva, para o qual — como temos dito reiteradas vezes — não há a mais remota evidência, o menor argumento razoável que se possa aduzir. A propósito, é dessa mesma “base” que se vai valer Sartre para levar às últimas conseqüências o existencialismo niilista de Heidegger, que o autor alemão, ao final da vida, tentou amenizar ou desvencilhar do de Sartre, com a sua Carta sobre o Humanismo.

No entanto, entre Sein und Zeit de Heidegger e L’Être et le Néant de Sartre há muito mais do que similitudes: o segundo é a conseqüência direta da assunção de algumas das premissas do primeiro. Dirá o autor francês: “O homem é uma paixão inútil”.

A isto nos reduziram essas filosofias. A um non sense cego.

* Bem dizia Chesterton, com seu desconcertante humor, que o materialista é um sujeito que usa o espírito para dizer que só existe a matéria.
Em tempo1: Noutra oportunidade, falaremos sobre o estudo que Heidegger fez sobre a filosofia cristã (Agostinho e Duns Scot).
Em tempo2: Comparemos essas filosofias — em que paradoxalmente só o absurdo pode ter algum sentido — ao Cristianismo e, por conseguinte, a todas as filosofias verdadeiramente cristãs (católicas, portanto). Nestas tudo é prenhe de sentido e significados, tudo é harmonia, tudo é coerência, tudo tem um esteio firme: metafísica, gnosiologia, ética, política, antropologia filosófica, economia, etc.

Bem sabemos que a Cruz tudo atrai para si e a tudo ilumina. E ilumina gloriosamente — inclusive a filosofia.

quinta-feira, 26 de março de 2009

"TV" Contra Impugnantes - novo vídeo

Sidney Silveira
Postamos em nossa "TV" no Youtube a primeira parte de mais um vídeo: a entrevista concedida pelo Nougué ao Prof. Marcos Cotrim, da Universidade de Anápolis (GO), cujo tema foi a Filosofia da Música — tendo a Bach como parâmetro. Por limitações de espaço de postagem no Youtube, essa primeira parte tem (apenas) cerca de dez minutos, mas, aos poucos, disponibilizaremos a entrevista por inteiro. Além, é claro, de outros vídeos. Devo dizer que subscrevo, em todas as suas linhas gerais, o que aí está dito. Aproveitem!

terça-feira, 24 de março de 2009

Predestinação à salvação (III)

Sidney Silveira
Noutro mini-artigo
desta série — iniciada a pedido de uma amiga portuguesa de Braga —, a predestinação à salvação ficou muito bem enquadrada no plano da Providência Divina, como um dos modos desta. Mas é importante frisar que se trata do modo mais elevado da Providência, pois na predestinação se realizam os dois atos supremos da vontade divina: a justiça e a misericórdia. Assim, se alguns se perdem é porque Deus quis manifestar um bem maior (a Sua justiça), e se alguns se salvam é porque Deus quis manifestar outro bem maior (a Sua misericórdia). Como diz Garrigou-Lagrange no estupendo La Synthèse Thomiste, Deus quer, como fim, manifestar a Sua bondade — e julga e escolhe os meios adequados a esse fim superior. E isto se dá ao modo de imperium, ou seja, pressupõe dois atos eficazes livres e imperiosos da vontade divina: a intenção e a eleição. De acordo com Santo Tomás, a predestinação — modo mais elevado da Providência Divina — consiste formalmente nesse imperium em dois atos (leia-se, entre outros, Suma Teológica, I, q. 22, 1, ad. 1). A propósito, o Aquinate observa reiteradas vezes em sua obra que Deus, desde a eternidade, escolhe, por dileção, quem será salvo. E como a Sua vontade se cumpre infalivelmente** — e Ele tem a presciência dos contingentia futura —, também conhece o Criador o exato número dos inscritos no Livro da Vida, assim como dos réprobos que, neste mundo, morreram e morrerão na chamada impenitência final.

Algo que os teólogos modernistas não suportam, pois a visão de mundo liberal já os impregnou com o seu bafio nauseante, é isto: não há, em sentido estrito (simpliciter), méritos humanos em ordem à salvação. Ou, noutras palavras: a salvação é anterior aos méritos humanos, não obstante Deus queira a nossa colaboração com a Graça — mas não a quer, diga-se, como uma espécie de precondição ontológica necessária prévia, pois o mais não depende do menos para realizar os seus atos próprios. Ademais, se assim fosse, só os que foram justos e corretos nesta vida se salvariam (e, como já se disse no blog, o Bom Ladrão seria o primeiro a estar fora desse plano salvífico). Em resumo, tudo o que há no homem orientado para a salvação já é efeito da predestinação (incluída aí a disposição para a humana colaboração com a Graça).

Não obstante isto, de acordo com Santo Tomás, as orações dos homens santos e as boas obras podem ajudar no cumprimento da predestinação. Diz o Aquinate: “Deve-se dizer que, no tocante à predestinação, precisamos ter dois aspectos presentes: a predestinação mesma e os seus efeitos. Com respeito ao primeiro aspecto, a predestinação de nenhum modo pode ser ajudada pelas orações dos santos, pois, pelas orações não se consegue que alguém seja predestinado por Deus. Com relação ao segundo modo, deve-se dizer que a Providência é ajudada pelas orações dos santos e pelas boas obras, porque a Providência — da qual a predestinação é parte — não anula as causas segundas, senão que provê seus efeitos de tal forma que inclusive as causas segundas entram em Sua Providência”. (cfme. Suma Teológica, I, q. 23, a. 8, resp.)

Em síntese: na perspectiva do predestinante (Deus), não há méritos humanos em ordem à salvação; na perspectiva dos predestinados (nós, homens), há méritos, sim, mas apenas ao modo de causas instrumentais segundas já inseridas na causa primeira: a eleição divina que subministra, infalivelmente, todos os meios da Graça eficaz.

** Ao escrever que a vontade de Deus se cumpre infalivelmente, nunca é demais relembrar a distinção entre Graça suficiente (que depende da vontade divina antecedente ou condicional) e Graça eficaz (que depende da vontade conseqüente, absoluta e não-condicionada). A primeira é
possibilitante e a segunda, necessitante. Sem a compreensão desses dois modos da Graça e de seus correspondentes na vontade divina, não se pode nem sequer chegar a este problema teológico. De toda forma, também cumpre dizer que se trata de um mistério — em si mesmo — impenetrável e irresolvível nesta vida. Dele poderemos, no máximo, ter uma aproximação assintótica e imperfeita. Toda vez, na história da Igreja, que alguém tentou ir além do que a razão pode efetivamente alcançar, caiu em heresia.
(continua)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Intentio cordis

Carlos Nougué
Escreve São Bento no Capítulo 52 (“Do oratório do mosteiro”) de sua Regra: Sed et si aliter vult sibi forte secretius orare, simpliciter intret et oret, non in clamosa voce, sed in lacrimis et intentione cordis (“Mas, se porventura também outro [monge] quiser rezar em silêncio, simplesmente entre e reze, não com voz clamorosa, mas com lágrimas e intentio cordis”). Propositadamente deixei esta última expressão sem traduzir, porque, embora seja comum traduzi-la por “pureza do coração”, e embora efetivamente esta tradução não seja de todo ruim, o fato é que a expressão não tem equivalente preciso em outras línguas, dada sobretudo a dificuldade de encontrar neste contexto versão perfeita para intentio. Vejamos brevemente por quê.

Dentre os muitos significados do termo intentio, cinjamo-nos aqui aos que mais de perto têm que ver com a passagem da Regra de São Bento e o assunto deste artigo:

1) ação de esticar, tensão;
2) aplicação, atenção, dedicação, esforço (intentio cogitationum, esforço ou tensão do espírito; intentio operis, dedicação ao trabalho; Sêneca: si mihi accomodaveris subtilitatem et intentionem tuam, se teu espírito penetrante me prestar atenção);
3) tendência a um fim ou desígnio (Plínio: Hæc intentio tua, ut..., Estes [teus esforços] tendem a...);
4) intensidade, grau (Sêneca: Summi dolori intentio, o grau sumo [ou o paroxismo] da dor);
(Os outros significados são sempre técnicos: ou jurídico, ou lógico [em Quintiliano significa “a premissa maior do silogismo”], ou médico.)

Pois bem, a meu ver, em intentio cordis o termo amalgama todos os significados precedentes, incluso o de pureza. Com efeito, esclarece Cassiano (Coll. 9, 6, apud A Regra de São Bento, trad. e notas D. João Evangelista Enout, O.S.B., 3ª. ed., Rio de Janeiro, Edições Lumen Christi, 2008, pp. 185): “Quando a mente estiver fundada em tal tranqüilidade e libertada dos liames de todas as paixões carnais e aderir de forma tenacíssima ao Sumo Bem, aí está a ‘intentio cordis’. Por meio dessa pureza, de certo modo, é absorvido o sentido da mente e reformado de sua situação terrena à semelhança espiritual e angélica; o que quer que receba em si, no ocupar-se ou no fazer algo estará realizando puríssima e sinceríssima oração. É assim cumprida a palavra do Apóstolo: ‘sine intermissione orate’, ‘orai sem cessar’ (I Tess., V, 17)”.

Ora, ninguém está mais aderido ao Sumo Bem que os bem-aventurados (anjos ou homens) ao contemplar a Deus face a face. Ao contrário do que dizia o nefasto Duns Scot, e como dizia Santo Tomás de Aquino, a vontade daquele que vê a essência de Deus já não pode pecar nem sequer venialmente: está submersa na perfeita beatitude ou felicidade que é o seu Fim Último, graças ao qual se tornou deiforme. Está como que em seu elemento: “respira-o”.

Então, no estado de contemplação de Deus face a face, já não será necessária a Fé. Mas para nós, os que ainda peregrinamos nesta terra de exílio, a Fé não só é necessária para o atingimento daquela perfeita beatitude, mas é essa mesma perfeita beatitude já incoada, já iniciada na vida atual. Por isso, pode-se dizer, quando maior for a Fé, mais incoada estará na vida atual a perfeita beatitude, e portanto mais a mente e o coração estarão fundados em grandíssima tranqüilidade, e mais estarão libertados dos liames de todas as paixões carnais, e mais tenazmente estarão aderidos ao Sumo Bem. Logo, mais capazes serão essa mente e esse coração feridos pelo pecado original, mas efetivamente purificados e limpos pela Graça, de prestar a glória devida a Deus.

Intentio cordis é, pois, essa pureza de uma mente e um coração aplicados, tendentes e aderidos em alto grau a Deus e grandissimamente libertos das impurezas da soberba, do amor-próprio e das paixões carnais, porque “mais precioso que o mais fino ouro é o meu fruto, meu produto tem mais valor que a mais fina prata” (Prov. VIII, 19). E não é senão com essa intentio cordis que podemos cumprir o mandado do Apóstolo de orar sem cessar, porque com essa intentio cordis oraremos purissimamente no que quer que estejamos fazendo: rezando no oratório beneditino, dando aula, arando o campo, entalhando a madeira, lavando a louça, comendo, cantando ou corrigindo amorosamente o filho querido (“Bate no teu filho com a vara e livrarás a sua alma da morte”, Prov., XXIII, 14). E orar assim incessantemente, com intentio cordis, em qualquer de nossas atividades, faz parte propriamente do santificar-se. Mas que distância entre esta afirmação e a de que nos santificamos fazendo bem (quase) qualquer ofício do mundo ou a de que agrada a Deus o fazer naturalmente bem, por exemplo, uma obra de arte!

A primeira, uma variante muitíssimo difundida do humanismo e do liberalismo “católicos”,* incorre em flagrante desvio da sã doutrina. Com efeito, se de santificação se trata, será decorrente da Graça e das virtudes teologais infusas (Fé, Esperança e Caridade), ou não será. Não se pode pensar em santificação sem o motor primeiro do sobrenatural, porque a santificação é já um produto sobrenatural e se ordena ao Sobrenatural. Pretender que nos santificamos fazendo bem (quase) qualquer ofício do mundo é afirmar, eo ipso, que o natural é capaz por si do sobrenatural. É incorrer, propriamente, em uma espécie de heresia pelagiana com odor de calvinismo. Naturalmente, os modernos defensores desse modo de pensar perfeitamente anticatólico não dizem que nos santificamos fazendo bem qualquer ofício do mundo, mas quase qualquer ofício, porque senão seriam obrigados a reconhecer que, por exemplo, o mais antigo ofício do mundo é motor de santificação. Não, seu erro não reside aí. Reside precisamente em crer que gerir bem um banco, digitar bem o que dita o patrão ou varrer bem uma casa é por si capaz de santificar, independentemente de se ter ou não a referida intentio cordis. Trata-se de uma espécie de sobrenaturalização do fazer natural, tão larga, que é capaz de incluir na subida da escada de Jacó até a não católicos e pecadores mortais. Mas é óbvio que se trata de uma falsidade, porque o que santifica é ser movido pela Graça a ter uma intentio cordis tal, que se seja capaz até de deixar de fazer os ofícios do mundo para servir a Deus, ou de renunciar até aos mais lícitos prazeres do mundo para viver para Deus, ou de dar a própria vida para tornar-se mártir de Deus. “E eis que o anjo do Senhor gritou do céu, dizendo: Abraão, Abraão. E ele respondeu: Aqui estou. E (o anjo) disse-lhe: Não estendas a tua mão sobre o menino, e não lhe faças mal algum; agora conheci que temes a Deus, e não perdoaste a teu filho único por amor de mim. Abraão levantou os olhos, e viu atrás de si um carneiro preso pelos chifres entre os espinhos, e, pegando nele, o ofereceu em holocausto em lugar de seu filho. E chamou àquele lugar o Senhor Providência” (Gên., XXII, 11-14). Não, Abraão não se santificou por pastorear bem os seus rebanhos, mas por oferecer ao Senhor não só o seu pastorear, mas toda a sua vida, a ponto de por amor e obediência a Ele ser capaz de sacrificar o próprio filho amado. E foi Santo entre os santos o Descendente de Abraão, de Isac, de Jacó e de Judá não por ter sido bom carpinteiro, mas por ter morrido de morte na Cruz como vítima propiciatória e satisfatória da glória ofendida do Pai, e em obediência absoluta e perfeita a Ele. Isto é ter intentio cordis. Naturalmente, também é ter intentio cordis oferecermos o nosso trabalho a Deus, o que implica tentar fazê-lo bem; mas, também naturalmente, não deixaremos de ter intentio cordis se, conquanto oferecendo perfeitamente a Deus até o mais estafante dos trabalhos e tentando fazê-lo bem, não pudermos por qualquer razão fazê-lo bem. O inferno só não está cheio, podemos parafrasear a Chesterton, de “malfazedores”. Ademais − e isto é tão fundamental que merece tratamento à parte –, nem todos os ofícios considerados honestos pelo mundo o são aos olhos de Deus. Será bom aos olhos de Deus gerir bem um banco se por tal gestão muitos perdem casas e bens em razão de hipotecas impagáveis? Será bom aos olhos de Deus ser contador de uma fábrica de quaisquer coisas indecorosas? Será bom aos olhos de Deus um médico praticar um aborto legal? Veja-se que não se fala aqui de algo impossível; obviamente, os católicos que vivem no mundo de hoje, tão universalmente apóstata e tão universalmente abjeto, só muito raramente têm condições perfeitas de escapar aos seus tentáculos. Como ter, então, neste mundo a referida e requerida intentio cordis? Antes de tudo, tentando até o último de nossos dias nos livrar, da melhor forma possível, de tais tentáculos, tendo sempre na mente e no coração que devemos vigiar sem interrupção, porque nossos adversários – o demônio, a carne e o mundo − andam ao nosso redor, como um leão que ruge, procurando a quem devorar (cf. I Ped., V, 8). Depois, enquanto ou se não conseguirmos absolutamente livrar-nos deles, pedindo permanente perdão a Deus pelo que somos obrigados a fazer, como aquele violinista católico que, na Alemanha do século XIX, tocava na orquestra de costas para o público a fim de não ser tomado pela vaidade tão própria dos artistas daqueles tempos românticos, demasiado românticos... Mas, por fim, como no caso do médico com respeito a um aborto legal e como em tantos e tantos outros casos, renunciando se preciso for, em nome de Deus, ao nosso próprio ganha-pão e ofício, e entregando-nos totalmente nas mãos d’Ele, e sujeitando-nos ao suave jugo de Cristo com a certeza de que são bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça − justiça de Deus −, porque deles é o reino dos céus (cf. Mat., V, 10).

Ademais, como diz Cassiano e pressupunha São Bento em sua Regra, a intentio cordis implica a aceitação amorosa “do que quer que se receba em si”; implica o amor à cruz. Não disse Cristo que, “se algum quiser vir empós de mim, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me” (Mat., XVI, 24), e que “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, e ninguém vai ao Pai senão por Mim” (Jo., XIV, 6)?

Há porém algo mais, e que esquecem tantos os defensores da tese da santificação pelo bem fazer os ofícios do mundo quanto os defensores do ser do agrado de Deus o bem fazer naturalmente, por exemplo, uma obra de arte:** pela intentio cordis, “é absorvido o sentido da mente e reformado de sua situação terrena à semelhança espiritual e angélica” (Cassiano, ibid.); ou seja, o sentido da mente de quem tem a intentio cordis está ordenado ao Fim Último, a Deus, à semelhança dos anjos glorificados e dos homens bem-aventurados, estes hoje como almas separadas do corpo e amanhã como unidades restauradas de alma e corpo glorioso. A intentio cordis pressupõe uma reforma do homem antigo, um renascer em Cristo, conforme ao qual todos os fins terrenos se ordenem perfeitamente, como meios, ao Fim Último, assunto sobre o qual já discorremos bem mais extensamente em “Sob o Cristo Senhor, o verdadeiro rei”. Pressupõe, portanto, que o humano natural se conforme ao sobrenatural da Graça, e que devemos, como dizia São Paulo, possuir as coisas deste mundo como se não as possuíssemos, e desfrutá-las como se não as desfrutássemos, e, como podemos conseqüentemente concluir, fazê-las sempre absolutamente em ordem ao Fim Último. O subordinado ou ordenado deve conformar-se ao subordinante ou aquilo a que se ordena. Agrada a Deus o bem cozinhar um prato demasiado requintado? Para sabê-lo, basta ler as espécies de gula que enumera São Gregório Magno no livro XXX, C. 18, n. 60 (PL 76, 556-557, apud Santo Tomás de Aquino, De Malo, q. 14, a. 3), de suas Morales: “præpopere laute nimis ardenter studiose”, ou seja, “fora de tempo, com ostentação, com excesso, com voracidade, com excessivo esmero”. Agrada a Deus o esculpir uma estátua de perfeito nu sensual? Agrada a Deus o compor uma complexa e musicalmente perfeita sinfonia que exacerbe as paixões do ouvinte? Agrada a Deus o descrever perfeitamente numa peça teatral quão baixo pode descer o homem em sua vileza sem apresentar o contraponto da Esperança cristã? Agrada a Deus escrever os mais perfeitos versos em honra a Satã? Como Lhe poderiam agradar se tal estátua, tal sinfonia, tal peça teatral e tais versos, por perfeitos que sejam, tendem a levar o próximo a pecar de algum modo?

Como diz Santo Tomás na Suma Teológica (I, q. 1, a. 6, corpus), “entre as ciências práticas, a mais excelente é a que está ordenada a um fim mais alto, como acontece com a política [ou arte civil] com relação à arte militar: pois o bem do exército está ordenado ao bem da cidade [e assim como acontece com a política com relação à arte musical, como o demonstram Platão na República e o Filósofo na Política]. Ora, o fim desta doutrina [a teologia], enquanto prática, é a bem-aventurança eterna, à qual se ordenam todos os outros fins das ciências práticas [ou seja, da política, da arte militar, da arte musical, da arte arquitetônica, etc.]. Portanto, é claro que por qualquer ângulo a ciência sagrada é a mais excelente”. Pergunta-se: o fim da ciência musical de um Beethoven, o fim da ciência teatral de um Shakespeare, o fim da ciência arquitetônica de um Niemayer se ordenam à bem-aventurança eterna? Mas então qualquer obra de arte que não seja estritamente católica não tem nenhuma importância e é nefasta para a vida do católico? Não, porque algumas formas de arte greco-romanas eram, digamos, “batizáveis” porque Deus mesmo, mediante sua Providência, preparara a cultura greco-romana como carne apta para receber o espírito do cristianismo; ou também porque algumas obras de arte, como muitos quadros de Rembrandt, são como que continuidades culturais ou últimos suspiros católicos em ambientes já não católicos. Mas sem dúvida alguma a melhor arte é a resultante dos que têm não só grande talento, mas verdadeira intentio cordis, ou dos que, também dotados de grande talento, ao menos seguem de algum modo os cânones daqueles: a arte de São Gregório Magno, a arte do rei Afonso X, a arte de Fra Angelico, a arte de Gil Vicente, a arte de Palestrina, a arte de Victoria, grande parte da arte de Lope de Vega, boa parte da arte de Bach, parte da arte de César Franck, a arte de Chesterton, etc.

Sim, porque para tudo numa vida ordenada a Deus com intentio cordis vale o que diz São Tiago (I, 22): “Sede realizadores da palavra e não apenas ouvintes”. E ter intentio cordis, fazer tudo com intentio cordis, é adquirir como Hieroteu a sabedoria divina não apenas estudando-a, mas padecendo-a até no menor ato da vida (cf. Pseudo-Dionísio, De Divinis Nominibus, apud Santo Tomás, Suma Teológica, I, q. 1, a. 6, ad 3: “Hierotheus doctus est non solum discens, sed et patiens divina”).

* Só se pode entender a existência de um liberalismo ou de um humanismo católicos, como diz o Padre Álvaro Calderón em La religión del hombre, ao modo degenerativo de um câncer.
** Acerca dos que crêem ser do agrado de Deus o bem fazer naturalmente, por exemplo, uma obra de arte − os quais não necessariamente são liberais, às vezes muito pelo contrário, mas com esta tese caminham perigosamente à beira do precipício do humanismo −, já se falou mais desenvolvidamente em “Maritainismo resistente”)

sexta-feira, 20 de março de 2009

"TV" Contra Impugnantes

Sidney Silveira
Por sugestão do amigo Gederson Falcometa, a partir de agora o Contra Impugnantes terá no YouTube uma “TV”, onde postaremos trechos de vídeos de aulas ministradas em diferentes lugares (todas com enfoque tomista, obviamente), já pelo recém-criado Instituto Angelicum — algumas das quais serão vendidas em futuro próximo. A propósito, em breve começaremos a gravar uma série intitulada Curso de Teologia — com base na Summa de Santo Tomás de Aquino, e, assim que chegar o momento, anunciaremos a venda dessas aulas***.

Dizia Pio XII, na esteira de Leão XIII, de Pio X e de Pio XI: “A síntese maravilhosa de Santo Tomás está sobre todos os tempos e sobre todas as vicissitudes da humanidade como uma rocha inamovível, e sua vitalidade imorredoura serve para defender o depósito da Fé e dirigir, com passo firme e seguro, quaisquer verdadeiros progressos da Filosofia e da Teologia”.

Pois bem: hoje — muito mais do que no tempo de Pio XII —, depurar Santo Tomás das espúrias inserções de elementos alienígenas à sua obra é uma necessidade imperiosa, neste dramático momento histórico para a Igreja, de pluralismo teológico e de absoluta babel doutrinal. É o que, com nossas imensas limitações, procuramos fazer. Por ora, aponto para dois links do Youtube com aulas de filosofia ministradas recentemente:

> do Nougué, falando sobre os sofistas;
> e minha, falando sobre Edmund Husserl (objeto de vários “posts” do Contra Impugnantes).
*** Para realmente levar este projeto adiante, precisaremos muito do apoio — com a compra dos vídeos!! — de todos os que têm interesse na defesa da Fé a partir da obra do Doutor Comum da Igreja.