quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Preconceitos contra a inteligência, e um antídoto

Sidney Silveira
As principais correntes da filosofia do século XX nasceram da confluência de diferentes intuicionismos — ou seja, de teorias que, de uma forma ou de outra, partiam de uma gnosiologia que começava por alguma espécie de “intuição”, ou da pressuposição de que a inteligência é inapta para alcançar as verdades e os valores fundamentais. Vemos nelas uma radical negação do estatuto ontológico da inteligência, o que fez crescer o subjetivismo de forma assustadora, como se a objetivação da realidade, por parte da inteligência, fosse sempre algo deformante. Por esta razão deveríamos, de acordo com essas filosofias (as quais têm fortíssimas ressonâncias, ainda hoje), deixar as coisas “falar por si”, captar “pré-intelectivamente’ as suas essências. Ou, nas palavras de Husserl, precisamos ir às coisas mesmas vazios de quaisquer conhecimentos ou pressuposições, deixar que elas se manifestem ou se revelem por si. Em suma: devemos, ainda nas palavras de Husserl, “suspender o juízo”, e, com essa suspensão (epoché), encontrar um atalho para chegar à essência, ao eidos, ao quid est das coisas. E o filósofo alemão vai ainda mais longe, ao afirmar que, para filosofar, é preciso colocar tudo entre parênteses, a começar pela existência do mundo. Não consigo conceber uma atitude mais solipsística do que esta.

Esse ataque contra a inteligência, uma verdadeira blitzkrieg, tem várias configurações, no meio das quais vemos o que alguns historiadores chamam de mentalidade, ou seja: a idéia ou as idéias prevalecentes que subjazem às ações e aos valores de uma época. E tal mentalidade, enraizada fortemente no século XIX e com frutos maduros no século XX, é configurada pela total descrença nos dois valores fundamentais, para o homem: o bem e a verdade — captáveis, respectivamente, por nossas duas potências principais, a vontade e a inteligência. Esses dois valores objetivos são os que configuram positivamente a relação do homem com o mundo (o mesmo mundo que Husserl diz ser preciso pôr entre parênteses, para filosofar). Perdidas essas duas colunas, o homem perde com elas a possibilidade de constuir uma civilização, razão pela qual não lhe restará outra coisa senão assistir ao aumento crescente da barbárie, ainda que sob as máscaras mais diversas.

Vejamos as premissas dessas teorias antiintelectualistas, algumas das quais retiradas do instigante livro de Derisi intitulado Tratado de existencialismo y tomismo:

Kant: abriu um abismo insuperável entre a inteligência e as coisas, com a tese da incognoscibilidade da coisa em si. Não lhe restou uma opção senão a de criar um apriorismo transcendental. Uma quimera sofisticada.

Bergson: diz que a relação da inteligência com as coisas se funda em uma intuição supra-racional, já que há, em sua opinião, uma verdadeira irredutibilidade entre a consciência e os nossos atos e/ou fatos vitais.

Nietzsche: em seu parecer, a vida deve desenvolver-se plenamente pela afirmação da vontade. Em suma, a vida não pode e não deve ter amarras gnosiológicas, e nem metafísicas, éticas ou morais. O homem é dotado de um instinto irracional, cuja base (a única válida) é a sua ânsia de domínio sobre os demais. Nietzsche ficou catatônico praticamente em todos os últimos dez anos de sua vida. O momento e o modo como a sua doença começa valem um texto à parte, o qual fica para outra ocasião.

Kierkegaard: A realidade, a verdadeira, não é objetiva, mas subjetiva. E a inteligência não é capaz de alcançar a verdadeira realidade, que é ininteligível para o homem e, em suma, não se ajusta a exigências racionais ou dialéticas. Diga-se que esse preconceito de Kierkegaard contra a inteligência é, diretamente, caudatário de sua visão protestante, segundo a qual o homem, depois do pecado original, corrompeu essencialmente todas as suas potências.

Husserl: O seu método fenomenológico parte da intuição direta das essências, de que já falamos em diferentes textos. Entre outras coisas, a sua filosofia tende a transformar o objeto em algo absolutamente irredutível ao sujeito dotado de inteligência — o que preparará a concepção de filosofias que lhe são diretamente devedoras, segundo as quais entre a realidade e o pensamento há uma espécie de desarticulação fundamental irresolvível.

Max Scheler: Aplicou a fenomenologia husserliana à vida espiritual. Para ele, os valores são essências alógicas, e não essências captáveis por um processo intelectivo. Em suma, as coisas são valiosas não porque a inteligência lhes tenha descortinado o valor real, mas porque as sentimos assim, e ponto final.

Heidegger: É outro para quem o método válido, para a análise do ser, é o fenomenológico. Ou seja: devemos fazer com que o ser se revele por si, descubra-nos ele mesmo a sua íntima estrutura. Trata-se de um método intuitivo pelo qual a existência se revela por si mesma. Malgrado alguns insights de sua obra Ser e Tempo, não se pode dizer que haja uma congruente teoria do conhecimento em Heidegger, pois o conhecimento que o Dasein (o qual, em sua filosofia, não é outro senão o ente humano) tem de si mesmo provém não da intelecção de si e dos demais entes, mas de uma angústia existencial — a angústia, segundo Heidegger, de se ver arrojado ao nada, que é o seu destino. Somos para o nada. Bonito.

Sartre: O método do qual parte Sartre é, com matizações, o mesmo de Husserl e de Heidegger: devemos ir às coisas mesmas. Vê-las como se manifestam e se revelam, sem maiores interferências da nossa inteligência. Até porque não há, em Sartre, um ser em si captável pela inteligência, mas apenas aparências, as únicas acessíveis ao entendimento humano.

Muitos outros autores intuicionistas ou irracionalistas poderiam ser arrolados ou citados aqui, para mostrarmos o quanto essa mentalidade propagada por filosofias quiméricas ainda é predominante: uma mentalidade para a qual os valores são meras criações arbitrárias do homem (não objetivamente captáveis pela vontade, apetite intelectivo do bem), e as verdades fundamentais, inacessíveis (ou seja, não captáveis pela inteligência). Esta é a mentalidade de hoje, e não lhe resta ser outra coisa senão: imoralista, voluntarista, individualista, sexualista, irracionalista e relativista. Em suma, liberal!

A dissolução das idéias e das coisas, já em marcha acelerada no mundo contemporâneo (talvez em estágio terminal), tem em Santo Tomás um grande antídoto — dado o seu realismo gnosiológico, a sua profunda antropologia filosófica e, principalmente, a sua metafísica do ser, que dá respostas a todos esses grandes preconceitos contra a inteligência.

Estudemos, pois, a obra de Santo Tomás de Aquino. Com método, disciplina e perseverança. E, sobretudo, com amor.

Palavras de um Santo

Carlos Nougué
Enquanto não retomo as séries que comecei (o que farei na sexta-feira próxima, com um novo artigo de “Sedevacantismo, ou uma conclusão à procura de premissas”), posto aqui estas palavras de São Pio X, palavras que dispensam quaisquer comentários:

“Estão, pois, muito equivocados os que acreditam possível e esperam para a Igreja um estado permanente de plena tranqüilidade, de prosperidade universal, e um reconhecimento prático e unânime de seu poder, sem contradição alguma; mas é pior e mais grave o erro daqueles que se iludem pensando que alcançarão essa paz efêmera mediante a dissimulação dos direitos e interesses da Igreja, sacrificando-os aos interesses privados, diminuindo-os injustamente, comprazendo o mundo, ‘no qual domina inteiramente o demônio’ (I Jo., V, 19), com o pretexto de captar a simpatia dos fautores de novidade e atraí-los para a Igreja, como se fora possível a harmonia entre a luz e as trevas, entre Cristo e o demônio. Trata-se de sonhos doentios, de alucinações que sempre ocorreram e ocorrerão enquanto houver soldados covardes que deponham as armas à simples presença do inimigo, ou traidores que pretendam a todo o custo fazer as pazes com os opositores, a saber, com o inimigo irreconciliável de Deus e dos homens” (Encíclica Communium Rerum, de 21 de abril de 1909).

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Obras de São Bernardo

Sidney Silveira
Descobri um site francês com a tradução das obras de São Bernardo: opúsculos, sermões, tratados, cartas, cânticos, etc. Dentre outros textos, indico, por ora, a leitura deste maravilhoso sermão.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Inteligência e ignorância nos atos humanos (e um depoimento pessoal)

Sidney Silveira
Em termos metafísicos, o ato que distingue o homem dos demais entes compostos de matéria e forma provém do influxo de suas duas potências mais elevadas: inteligência e vontade. E, a propósito, o estudo da interpenetração ou mútua colaboração da inteligência e da vontade no ato propriamente humano é um dos grandes temas da obra de Santo Tomás.

Pois muito bem: relendo hoje o belíssimo livro Inteligência e Pecado em S. Tomás de Aquino, do português Celestino Pires, S.J. — obra publicada em 1961 pela Faculdade de Filosofia de Braga (Portugal), mas que continua atualíssima, entre muitas outras coisas, pela superação dos erros de J. Maritain e J. de Blic no tocante ao tema do pecado —, deparei-me com um tópico particular: a ignorância como causa do pecado. Ou, em suma: em que sentido a ignorância pode causar o mal moral na vontade? Eis, em resumo, a resposta de Santo Tomás, sumariada por Celestino Pires: a inteligência age diretamente sobre a vontade, apresentando-lhe o bem sob alguns aspectos. É esta a sua forma positiva, direta e essencial de moção sobre a vontade. Mas há também uma moção negativa, indireta e acidental da inteligência: é a moção proveniente da ignorância de alguns aspectos essenciais do bem querido pela vontade. Em suma, a inteligência move per se a vontade pelo conhecimento, e per accidens pela ignorância. Um exemplo prosaico dado pelo próprio Celestino Pires, no estudo citado, parece-me bastante ilustrativo: “Conheço que determinado objeto é bom; a vontade move-se, quer alcançá-lo porque foi proposto pela inteligência como bom. De outra forma, vejo um líquido colorido bonito e desejo bebê-lo porque julgo que é um determinado licor [por mim conhecido], mas na verdade é um veneno. No primeiro caso é o conhecimento que move a vontade: quero o objeto porque é bom. No segundo, é a ignorância: quero porque não sei que é um veneno [algo mau]. Se o soubesse, não me apeteceria bebê-lo. Como se vê, o nexo causal dos dois porquês é diferente. O primeiro exprime a causalidade própria, per se, da inteligência; o segundo, a causalidade indireta, per accidens”.

A partir deste ponto há vários aprofundamentos e distinções, mas não vou mencioná-los agora porque a citação vem a propósito de algo que preciso dizer, sobre o projeto do Contra Impugnantes e sobre algumas reações que tem suscitado — as quais acabaram por levar-me, nos últimos dias, a tipos e modos de resposta que não fazem bem nem a mim, nem ao projeto em si e nem às pessoas a quem respondi. Ou melhor: a uma pessoa em particular. Pessoa de talentos maiores que os meus, de trajetória mais longa que a minha, na fé (a qual não cabe a mim julgar), e que ainda tem muito a dar de si, com a difusão da obra de Santo Tomás — para a qual está perfeitamente capacitada.

Tenho ainda o ardor, a flama do recém-convertido, flama que não quero jamais perder, pois é um signo sensível de um grande amor. Por ordem cronológica: primeiramente, amor a Santo Tomás — principal causa instrumental da minha tardia conversão, Santo a quem amo com grande força, com gratidão, e a quem todo o esforço da editora Sétimo Selo é dedicado (a propósito, era o mínimo que eu poderia fazer em agradecimento: compartilhar, da melhor forma que pudesse, mesmo com as minhas limitações, esse bem maravilhoso, profundo, que deixou marcas indeléveis em minha alma). Lendo Santo Tomás no silêncio e na solidão durante anos, aprendi muito sobre mim mesmo, sobre o que é humano, sobre a Igreja e sobre as coisas divinas. Um verdadeiro milagre transformador, retificador, purificador, pois, se dependesse apenas da minha história passada e dos meus pecados, eu estaria hoje num buraco escuro. Em segundo lugar à Igreja, cuja doutrina igualmente amo e de cujos sacramentos dependo para não me afastar de Deus. Igreja por cujos ensinamentos recebo a notícia dos bens divinos — bens que me seriam vedados se não tivessem sido revelados por Deus e ensinados pela Igreja desde quando recebeu, do próprio Cristo, esse Magistério (sobrenatural, porque participado pela fonte divina: “Ide e ensinai”, Mt. XXVIII, 19). Depois à Virgem, a quem venero. Agora por ordem “ontológica”: primeiro a Cristo e, por participação, à Igreja da qual ele é o cabeça, depois à Virgem e, por fim, a Santo Tomás, o mais santo dos sábios e o mais sábio dos santos, como se costuma dizer. São amores que se mesclam e que é minha obrigação ordenar a um duplo fim: natural (com a concretização das obras da fé) e sobrenatural (Deus mesmo, a quem tenho o dever de louvar e adorar já nesta vida, e, se for da vontade d’Ele, na vida perfeita que há de vir). Houve, é claro, outras causas instrumentais da minha conversão (coisas, pessoas e situações), mas isto é assunto que não diz respeito a ninguém.

Vi-me compelido a escrever este depoimento porque, embora o Contra Impugnantes seja um espaço de combate — e eu tenha verdadeiro ódio aos inúmeros malefícios da heresia liberal*, em todas as suas configurações, para a fé —, flagrei-me pecando contra a caridade em algumas das respostas desta última semana. Por paixão, pois reagi a algumas provocações. E também por ignorância, num duplo sentido: pelo desconhecimento de algumas coisas implicadas na discussão de que se trata (como as reais motivações do outro), e pela não-consideração do bem de sua alma, pois sei perfeitamente que podemos, de várias maneiras, mesmo sem querer, acabar servindo de instrumento para os pecados do próximo. Daí que o amor ao próximo, até mesmo aos inimigos ou adversários, seja absolutamente necessário, pois também ele está ordenado ao fim último de todos os homens: Deus. Quantos Santos, graças a esse amor sobrenatural, efetuaram conversões espetaculares e apaziguaram ódios que, humanamente, seriam impossíveis de extinguir! São exemplos para todos nós. Ademais, é esta uma pessoa de quem (na única vez em que nos vimos) ouvi o seguinte, enquanto esperava o trem numa estação do Metrô carioca: “Quero e espero que nós sejamos amigos”.

Como é dever nosso não apenas pedir perdão a Deus pelas faltas cometidas, mas também, na medida do possível, dar humana satisfação, ou seja, reparar, aqui vai: perdoe-me, meu amigo (em Cristo), se, com ou sem razões, eu lhe respondi sem observar o dever de amar-lhe. Meu desejo é o de que nos vejamos na eternidade beatífica, e que seja esta a vontade de Deus. Rezo hoje por esta intenção. E espero sinceramente que as divergências — quaisquer que sejam e por maiores que sejam — não se tornem ocasião de pecados graves para nenhum de nós dois.
* Heresia porque, em todos os seus princípios "autonomistas" fundamentais, foi solenemente condenada pelo Magistério da Igreja, como já mostramos.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Alan Greespan, um não-liberal?

Sidney Silveira
A “boa nova”, proclamada em alguns púlpitos blogosféricos liberais e libertários, é que Alan Greespan, ex-presidente do Federal Reserve, não é, jamais foi, um liberal.

Pois bem. Uma das marcas do liberalismo é exatamente essa capacidade de travestir os seus argumentos com mil e um disfarces teóricos, ao sabor das “necessidades” momentâneas. Ora, como em seu balaio conceptual há uma gradação incomensurável de ações e teses propostas — gradação que é o lado exotérico da coisa toda, a manifestação exterior de um liberalismo fundamental, que temos exposto aqui —, toda vez que há alguma inconveniência, eles “excluem” da causa, sem dó nem piedade, quem tenha falhado ao defendê-la. É o caso de Greespan, durante décadas o grande defensor da intocabilidade dos mercados, sob o mote da auto-regulação (a propósito, “auto-regulação” é um dos termos do pensamento mágico liberal: tudo se ajeita naturalmente por si — para que autoridade?). Pois é, eis que agora nos descortinam a grande e acachapante novidade: Greenspan nunca foi liberal. Afinal, cometeu excessos no Fed adotando políticas “intervencionistas" em ocasiões específicas. Criticou, no ano passado, o sacrossanto mercado (ai, Jesus!). Criticou a falta de regulação do chamado subprime (isto após ter consentido, durante anos, com a farra desse mercado praticamente paralelo, diga-se!). “Acomodou” a política monetária e foi o grande "culpado" pelo excesso de crédito. E os agentes do mercado, coitadinhos, não têm absolutamente nenhuma responsabilidade. É sempre assim: para o liberal típico, jamais há mea culpa, dada a sua grande elasticidade teórica, mas somente culpa vestra. E se porventura Greespan bateu no peito e reconheceu, publicamente, a sua parcela de culpa para com a permissividade desse verdadeiro mercado paralelo, foi porque recebeu um choque de realidade e se rendeu à evidência do próprio erro, ainda que tardiamente, de modo parcial e confuso. Mas esse tipo de humildade é uma “queda” imperdoável, uma traição à causa.

Sabemos haver liberais dos mais quiméricos em seu otimismo — ou devaneio — libertário, os quais pregam, por exemplo, que os Bancos Centrais (um dos quais presididos por Greespan, durante anos a fio) são desnecessários. Autoridade monetária ou econômica? Ugh... Para estes idólatras da liberdade absoluta dos agentes econômicos, Greespan, simplesmente com ocupar o seu cargo de presidente do Fed (cargo “desnecessário”, incômodo), pode representar uma espécie de encarnação do “antiliberalismo” — ou de um “não-liberalismo”. Para outros, mais generosos, na prática Greespan ocupou um cargo que deve existir, sim, mas exorbitou de suas funções. Ora, assim é muito fácil, meus caros: tomar os ideólogos defensores de medidas extremas como critério de julgamento da imensa vala comum da ideologia (e mais: pondo-os como a norma do liberalismo econômico teórico), para excluir os mais moderados da “tchurma”, repetindo, como numa espécie de mantra — ele não é liberal, ele não é liberal, ele não é liberal. Assim é, de fato, moleza: "simplificar" uma realidade complexa por meio de um truque, uma palavrinha mágica dita num contexto aparetemente lógico.

Noutra oportunidade escreveremos sobre essa matreira tática. Mas, por ora, evoquemos uma imagem, para depois aplicá-la ao caso, analogamente: o mais e o menos verde são, igualmente, verdes. Certo? Sim, são gradações de verde — pois, como sabemos, há realidades que comportam graus, enquanto outras não o comportam. O maximamente verde (escuro) não exclui da espécie o verde-piscina, o verde-claro e outros verdes de matizes menos fortes. Veremos, noutra ocasião, se o liberalismo econômico comporta, ou não, o mais e o menos. E, se comporta, chequemos se Alan Greespan — chamado por vários economistas liberais (agora, que a vaca está no brejo) de Mr. Bubble — está assim, tão obviamente, fora da patota...

E nunca é demais lembrar que não ser teórico de uma causa não implica, necessariamente, não integrá-la na prática.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Pieper, tomismo e Pacheco Salles

Sidney Silveira
É bastante conhecido (até mesmo por principiantes no estudo da obra de Santo Tomás) o texto de Josef Pieper no qual ele diz que, em sentido próprio, não existe realmente um tomismo. É um texto bonito, se for encarado como uma metáfora, uma imagem da riqueza magnífica da obra do Angélico Doutor — ou seja: na medida em que nos aponta que ela não pode ser reduzida a um “ismo” qualquer, tão grandiosa que é. Mas tomá-lo como a literal expressão de uma pétrea verdade (ou seja: a de que o tomismo realmente não existe) é algo que não passa pela cabeça de quem conheça, minimamente, a história dos 700 anos em que incontáveis filósofos e professores dedicaram a sua vida intelectual ao estudo e à difusão da obra do grande mestre medieval — com diferentes e, não raro, conflitantes interpretações.

Pois bem: textos de estudiosos (tomistas!!) como Pieper — homens sérios, equilibrados — merecem ser discutidos, sobretudo porque são indubitavelmente autores importantes. Mas também merecem ser lidos e discutidos textos de homens mais extremados, como é o caso do cultíssimo Pacheco Salles, que acabou descambando para um dos tipos de sedevacantismo abordados pelo Nougué, na série que ainda promete muitos textos. Nós, mais adiante, exporemos aqui alguns desses textos, como exemplo de quão variado é o uso que muitos fazem dos instrumentos filosóficos aprendidos com Santo Tomás. Afinal, personagens como Pacheco Salles também fazem parte da história do tomismo, de alguma forma. E, se chegaram a certa estatura, seus escritos merecem ser analisados por nós, simples amantes de tudo que diga respeito a Santo Tomás.

Aguardem um pouco, amigos, com a mesma paciência com que nós lemos, por aí, as maiores diatribes, apaixonadas diatribes, tolas diatribes, irônicas diatribes... Mas aproxima-se a hora de a onça beber água, pois estão a cutucá-la com a vara curta, muito curta, e não por motivos nobres.

Predestinação à salvação (II)

Sidney Silveira
No primeiro artigo desta série, esqueci-me de enquadrar o tema da predestinação em outro, que lhe é anterior: o da Divina Providência.

Assim, vale dizer que — de acordo com Santo Tomás e com o Magistério da Igreja — a predestinação é um dos modos da Providência. Esta última se ocupa da disposição e ordenação dos meios aos fins que lhes são próprios. Neste contexto, aponta o Angélico que a ordem da criação comporta um duplo fim:

a) natural, ao qual todas as coisas tendem, pelo impulso das potências inscritas em suas próprias naturezas;
b) sobrenatural, no qual as criaturas dotadas de vontade e razão são ordenadas — pela generosidade da vontade divina — à bem-aventurança da visão beatífica, ou — pela justiça divina — à condenação, pela qual os réprobos sofrerão a pena devida por seus pecados, de acordo com a sabedoria e presciência divinas.

A Providência tem algumas outras características, que o Santo Doutor destaca:

1- Ela é universal, por estender-se a todas as coisas;
2- Ela é imediata, pois é concebida desde a eternidade. Ou seja: fora do tempo*, e não mediatamente, no tempo — embora, muitas vezes, seja executada sob a moção de causas segundas, sejam temporais (humanas) ou eviternas (angélicas).
3- Ela salva e conserva a contingência das coisas criadas. Diz Santo Tomás: “Sucede infalível e necessariamente o que a Providência dispõe que suceda de modo infalível e necessário. E sucede contingentemente o que a Providência dispõe que suceda de modo contingente”. (Suma Teológica, I, q. 22, a.4)

Pois bem, esse breve passo para trás era realmente necessário, para que nada de essencial ficasse por dizer, no tocante ao tema de que se trata. Fixemos, pois, muito bem: a predestinação é um dos modos da Providência Divina.

Voltando agora ao tópico da predestinação, o notável ensaísta da referida questão da Suma, na minha antiga edição (decerto um monge, pois sequer assina o nome), compõe um quadro para mostrar que Santo Tomás faz uma subdivisão, em prol da clareza dos seus argumentos teológicos:

1ª: NATUREZA DA PREDESTINAÇÃO

a) Aqui o Doutor Comum trata dos meios sobre os quais versa a predestinação (objeto formal);
b) De seu contrário: a reprovação;
c) Do predestinante (causa eficiente: Deus);
d) Do predestinado (causa material: o homem).

2ª: PROPRIEDADES DA PREDESTINAÇÃO

a) Aqui, da certeza [divina]: 1º. Quanto ao êxito da predestinação; 2º. Quanto ao exato número dos predestinados.
b) E aqui se pergunta se a predestinação pode ou não ser ajudada por nossas boas obras.

Outro ponto a destacar-se é que a predestinação dá eficácia e perseverança à vocação, à justificação e ao bom uso da Graça, de acordo com o abscôndito monge da minha amada Suma. A predestinação faz, também, com que todas as condições da vida natural — boas e más — se convertam para o bem do predestinado. Aqui, aproveito para abrir um breve parêntese e dar um testemunho pessoal, que não julgo inútil. Afinal, a fé implica, necessariamente, o testemunho, ainda que o temperamento ou as condições externas às vezes não o favoreçam. E o implica, justamente, porque ela é um bem que Deus quer que nós difundamos, com palavras e obras.

Hoje, olho em perspectiva todos os acontecimentos da trajetória de minha tardia conversão (com 40 anos) e vejo que, dado o meu absoluto desmerecimento, foi a Providência Divina que fez uso dos instrumentos (meios) certos, para que eu aprumasse o caminho. Só me resta, pois, agradecer continuamente ao Todo Poderoso e implorar o perdão por uma vida de tantos erros passados (inclusive certa má literatura por mim praticada), e de tantos pecados contra mim, contra o próximo e, sobretudo, contra Deus. E rezar para estar entre os predestinados — escolhidos por pura e simples dileção divina, e não por supostos méritos humanos. E, por fim, agradecer orantemente a Santo Tomás, a cuja devoção vamos, eu e o Nougué, fazer em breve um chamado no Contra Impugnantes.

No texto seguinte desta série, prosseguiremos com mais um quadro sinóptico sobre o tema da predestinação, trazendo um vislumbre da maneira extraordinária como Santo Tomás faz o seu approach teológico e desenvolve lindamente a questão.

* Noutra ocasião, se a oportunidade for propícia, falaremos sobre o De instantibus, texto atribuído a Santo Tomás.