domingo, 7 de dezembro de 2008

A amizade (II)

Sidney Silveira
Pediram-me alguns para escrever mais sobre a amizade, porque lhes pareceu bem o texto anterior sobre o tema, publicado aqui no Contra Impugnantes. Resolvo fazê-lo, então, tendo como modelo o que nos diz São Francisco de Sales em sua Introdução à Vida Devota, conhecida também como Filotéia — um livro simplesmente extraordinário, um clássico recomendável a pessoas de todas as idades e condições de vida. Edificante, belo, cheio de conselhos luminosos.

Lembra-nos ali o grande Santo e grande Confessor que há as amizades boas e as más. As más nos levam a pecar contra os outros e contra nós mesmos, e rematam em palavras e pedidos torpes, convites tortuosos, “às vezes injúrias, calúnias, imposturas, tristezas, confusões, mentiras, ciúmes — e nos conduzem, geralmente, a brutalidades ou desvarios”. De minha parte, eu diria que, na prática, essas amizades acabam, com o tempo, conformando-se aos seus maus motivos iniciais, são como um espelho das intenções ou inclinações viciadas que as originaram. Sendo assim, devemos estar atentos para não fazer amizades justamente com as pessoas que vão agravar as nossas patologias, vão suscitar em nós o que temos de pior. Com muita razão dizia Santo Agostinho num famoso sermão: “Queres conhecer se o teu amor é bom? Vê o que ele te leva a fazer!”. Esse critério nos serve, também, para discernir as amizades. Não vamos, portanto, ser alcoólatras a travar amizade com o dono do boteco, que mais dia menos dia nos oferecerá um trago de pinga a custo “zero”.

Nesse tipo de amizade, a corrupção é insidiosa porque vem escondida sob o afeto. Por isso o autor de Filotéia nos fala da necessidade de nos armarmos com grande firmeza, nas ocasiões em que pretensos amigos nos chamam para fazer coisas indignas, ou falam sobre baixezas como a nos apontar um caminho de gozo ou mesmo de vingança. Afirma São Francisco:

“Não recebais a moeda falsa com a verdadeira, nem o ouro aquilatado com o falso; separai o que é precioso do que é vil e desprezível. Decerto, ninguém existe que não tenha certas imperfeições — e por que razão devemos, na amizade, participar das imperfeições do amigo? Devemos amá-lo, embora imperfeito, mas não devemos apropriar-nos nós das suas imperfeições e nem amá-las [nem ele das nossas mazelas, quedas, vícios, etc.]”.

Outra máxima muito verdadeira é a que diz: tornamo-nos semelhantes ao que amamos. Ou, como escrevera poeticamente Camões: Transforma-se o amador na cousa amada. Na amizade, essa máxima vale muito, razão pela qual é de bom alvitre tomarmos o grande cuidado de não amar, no amigo, algo por si mau. Mas como descobrir isto? Bem, aconselham-nos grandes autores — como o próprio São Francisco de Sales — a fazermos o escrutínio de um exame de consciência que alcance os nossos gostos e preferências, desde os mais ocultos aos mais óbvios, as nossas escolhas e até os amigos com quem partilhamos os momentos de alegria. E o motivo é simples: com que facilidade caímos por causa da admiração de atos dos nossos amigos que, ao fim e ao cabo, são o mero reflexo de um defeito ou de uma má tendência nossa! Uma palavra, um gesto, um escrito, algo simples assim é capaz de engendrar as mais daninhas simpatias. Daninhas porque são a raiz da nossa piora, ou seja: do agravamento de um defeito, ainda que sob a aparência de algo nobre e bom.

Em Filotéia afirma-se outra coisa da amizade, que vale deixar consignada: a mais perfeita amizade, a amizade verdadeira (simpliciter, diria Santo Tomás) é a que tem por motivo as perfeições divinas.

Isto porque a perfeição divina é a razão de ser da nossa perfectibilidade. É o arquétipo a que aspiramos e ao qual tendemos, e em cuja falta só nos resta cair nos piores abismos.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Patinho de borracha

Sidney Silveira
Em meio a problemas de saúde de natureza diversa e momentaneamente atribuladíssimo (com atividades em número bem maior do que eu gostaria), deixo de passagem uma resposta que, para a maioria, soará enigmática, mas não para o liberalíssimo indivíduo a quem se dirige, nesta sexta-feira de céu nublado — dia aziago, como dizia burlescamente o personagem Brás Cubas a respeito do dia de seu próprio sepultamento.

É a seguinte:

— Taí... concordo plenamente com você! Ou melhor: concordamos, eu e o Nougué.

Perdoem-me as pessoas a quem passar despercebida esta resposta alusiva, mas a matéria é gravíssima e a pessoa de que se trata, muito importante — e não tenho eu autoridade para responder ou discorrer sobre elas, sobretudo em público. Só posso fazê-lo, portanto, com uma restrição mental lata (restrictio late mentalis, como ensinam os clássicos de teologia moral).

Para quem não sabe, a restrição mental lata é a omissão lícita de parte da verdade, ou a sua expressão em palavras que não a dêem a entender por inteiro (em ocasiões específicas), ou então que a dêem a entender mas não como esperava o interlocutor. Há vários tipos lícitos de restrição mental lata. Querem um exemplo? O próprio Cristo, quando diz “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, responde aos maldosos fariseus com uma restrição mental lata, pois a pergunta que lhe fora feita, para quem não se lembra, foi a seguinte: “Mestre, sabemos que és sincero e ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não olhas à condição das pessoas. Dize-nos, portanto, o teu parecer: É lícito pagar o imposto a César?” (Mt, XXII, 16-17).

Como se vê, em diferentes ocasiões é moralmente válido responder com partes da verdade ou então de forma enigmática, metafórica, com um quê de misteriosa, sobretudo se o interlocutor denota patente malícia em sua postulação ou (como é o caso de que se trata) em sua insinuação/provocação velada. Ou seja: se ele está jogando uma casca de banana no chão para você escorregar!

Este post é, portanto, uma resposta a esse indivíduo específico (mas serve também para os de seu grupo!). Concordo integralmente com você, no tocante ao último texto publicado no seu site! Só não expresso as razões — e, de público, o assunto — porque, como eu disse, não tenho autoridade para discorrer sobre eles. Não pela internet! Mas quem sabe, um dia, num foro específico, você possa responder por eles tendo a mim como interlocutor? Eu gostaria muito, pois, numa situação dessas, não é possível inventar um patinho de borracha para nele atirar.

Em tempo: Aproveito para lembrar aos nossos visitantes que, nos próximos dias, o Nougué mostrará em que erro incorrem os defensores do chamado sedevacantismo, e, também, de que maneira é lícito, para o fiel católico, referir-se à pessoa do Papa e às declarações feitas pelo Papa, magisteriais ou não.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

A eleição divina: pura misericórdia

Carlos Nougué
Um grande amigo mandou-me anteontem um notícia surpreendente: “Antonio Gramsci, fundador do partido comunista italiano, converteu-se antes de morrer” (
www.aciprensa.com, 2 de Deciembre de 2008)”.

Ora, para Gramsci, cujas teses gerariam o eurocomunismo e um método insidioso de destruição do senso comum, a Igreja Católica
e a família cristã eram os principais obstáculos para que a ideologia comunista se tornasse pouco a pouco hegemônica nas mentes e na cultura. Diz com precisão a referida matéria da ACI que “Gramsci propunha acabar com as crenças, tradições e costumes que falassem da transcendência do homem, ridicularizando-as; silenciar com a calúnia tudo o que falasse de algo transcendente; criar uma nova cultura onde a transcendência não tenha lugar, infiltrando a Igreja para conseguir, por qualquer meio, que bispos e sacerdotes dissidentes falassem contra ela. Este plano propunha, em suma, destruir a Igreja ‘por dentro’.” Estamos diante, portanto, propriamente, do que Santo Agostinho chamaria “um poço de lama”. Estamos diante de um monstro de iniqüidade.

E, no entanto, segundo ainda a ACI, durante uma conferência de imprensa difundida pela Rádio Vaticano, “Mons. De Magistris explicou que Gramsci tinha em seu quarto (no hospital onde esperava a morte) a imagem de Santa Teresinha do Menino Jesus. Durante sua enfermidade, as freiras da clínica em que estava internado levavam aos doentes a imagem do Menino Jesus, para que a beijassem. Como não a tinham levado a Gramsci, ele se queixou: ‘Por que não me trouxeram a imagem?’, disse-lhes. Então, afirma o Prelado, levaram-lhe a imagem do Menino Jesus, e ele a beijou. Recebeu também os sacramentos, voltou à fé da infância”, e pouco depois morreu, aos 46 anos.

A fonte de Mons. De Magistris foi “uma religiosa natural da Sardenha, irmã de Mons. Giovanni Maria Pinna, Secretário da Signatura Apostolica. Sor Pinna, numa Missa
em sufrágio do irmão, realizada na Igreja de San Lorenzo em Damaso, contou a história sobre Gramsci", dizendo que “o Sr. Gramsci pediu para ver a imagem e, quando a teve diante de si, a beijou com evidentes sinais de comoção”. Além do mais, “outra religiosa que estava de serviço na clínica, a suíça Sor Gertrude, revelou que no quarto 26, onde Gramsci passou o último período de sua vida, havia uma imagem de Santa Teresinha do Menino Jesus ‘pela qual ele parecia nutrir uma simpatia humana, a ponto de não querer que ela fosse retirada ou movida”.

Naturalmente, a maioria dos gramscianos não quer dar fé ao sucedido, mas Giuseppe Vacca, Diretor do Instituto Internacional Gramsci, diz que a conversão do intelectual “não seria nenhum escândalo e não mudaria nada", porque, com efeito, “seu método de hegemonia cultural continua a ser empregado por grupos feministas, abortistas e de pressão pró-homossexuais”.

Como diz porém um sacerdote italiano, ainda segundo a ACI, a conversão pode dever-se à mesma Santa Teresinha, a qual “ofereceu sua vida pela conversão do anarquista Prandini, que efetivamente antes de ser guilhotinado pediu para beijar o crucifixo”. E afirmava Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica, que o condenado à morte que tenha contrição perfeita antes de morrer, precisamente porque a pena humana pela qual sua culpa é paga lhe tira o que de mais precioso tem, a vida, nem sequer passa pelo purgatório; sua alma vai direto para o céu. Por isso mesmo, aliás, em grande parte da Idade Média e depois, havia ordens religiosas cuja principal função era acompanhar até o patíbulo os condenados à morte, rezando para que se arrependessem e conquistassem assim a glória.

Qualquer que seja, todavia, a causa segunda da conversão de condenados ou de homens como Gramsci (e de uma incontável multidão de outros semelhantes, incluindo o Bom Ladrão), o fato é que a causa primeira dela será sempre a eleição divina, que, ainda segundo Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica, se deve não ao conhecimento dos méritos humanos, mas a um “amor de dileção”. “O amor antecede a ciência”, diz o Aquinate com respeito a isto. E diz mais: a salvação de todo e qualquer homem corresponde à misericórdia divina, enquanto a condenação dos réprobos, à sua justiça.

Estamos diante de um mistério, de um grande mistério: o da predestinação, cujo miolo jamais poderemos compreender nesta vida (e, com efeito, toda e qualquer tentativa de penetrá-lo redundou em heresia, quer a de um Pelágio, num extremo, quer a de um Lutero, no outro). E estamos diante também de uma doutrina sobre o tema, a de Santo Tomás, que exige longo e paciente comentário, o qual será feito em outro meio, não neste blog, mas dentro de relativamente pouco tempo.

Seja como for, como já dizia o mesmo Santo Tomás de Aquino (no “Tratado da lei” da Suma Teológica) ante a possível incompreensão de sua doutrina, diga-se ao menos com Santo Agostinho (também nisto o mestre do Aquinate): “Por que Deus deixa justos [cristãos] morrer em pecado mortal, e salva no último instante poços de lama? Não o sabemos; sabemos apenas que a justiça de Deus é perfeitíssima”.

Demos graças a Deus por sua infinita misericórdia, e demos-Lhe graças sobretudo pelo único mérito capaz de salvar da morte eterna do pecado: a morte de Cristo na cruz.

Em tempo 1: O que se escreveu aqui sobre a misericórdia e a eleição divinas segue válido ainda que não seja verídica a história da conversão de Gramsci, até porque sem dúvida alguma é verídica a de uma quantidade inumerável de casos semelhantes.

Em tempo 2: Dissemos em um artigo que a “reconstrução ideal da história” é uma das formas de pensamento mágico, e que dela faz parte o sedevacantismo, ou seja, a doutrina que afirma que a Sé de Pedro está vacante pelo menos desde o Papa João XXIII. Pois bem, assim que termine a série “O Cogito cartesiano, ou o pensar como causa do ser” (o que se dará dentro de dois ou três artigos), começarei a escrever uma série justamente sobre a “reconstrução ideal da história” e, especialmente, sobre (contra) o sedevacantismo. Como a série sobre o “Cogito”, também esta série será um apêndice a “Pensamento mágico e bom senso”; mas será muito mais longa, além de ser, parece-me, muito mais urgente que ela.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O Cogito cartesiano, ou o pensar como causa do ser (V)

Carlos Nougué
Terminávamos o artigo anterior desta série concedendo ab absurdo, “para esgotar todas as possibilidades dialéticas, que Descartes tenha posto o ‘logo’ em seu Cogito de maneira inadvertida, e que em verdade (como já ouvi sugerir...) seu Cogito deveria formular-se como proposição hipotética copulativa: ‘Penso e sou’. Se assim fosse, poderia atribuir-se ao Cogito cartesiano o caráter de primeiro princípio? Ou para Descartes se trataria efetivamente de um transcendental?” Respondamos pois a essas duas questões.

● Já vimos que uma hipotética copulativa pode ser um primeiro princípio: por exemplo, “A é A e não é B ao mesmo tempo e pelo mesmo aspecto”. Qual porém a diferença essencial entre esta hipotética copulativa e a suposta “Penso e sou” de Descartes? É que na primeira dessas hipotéticas copulativas, se uma das proposições fosse falsa, a outra também o seria, ao passo que na segunda dessas hipotéticas copulativas uma das proposições pode ser falsa sem que a outra o seja. Ora, o que se acaba de dizer é evidente: a) quanto à primeira, se A não fosse A, poderia ser B ao mesmo tempo e pelo mesmo aspecto, o que implicaria óbvio nonsense (e o implicaria precisamente por tratar-se de uma negação de um primeiro princípio, que não pode ser provado precisamente porque é inegável); e b) quanto à segunda, patentemente posso ser sem pensar (caso, por exemplo, esteja em coma), sem que isso implique nenhum nonsense (e não o implica precisamente por não se tratar de um primeiro princípio: com efeito, o que não é primeiro princípio [ou transcendental] pode ou deve ser provado precisamente porque é negável). E isso basta para mostrar a impossibilidade de também a suposta “Penso e sou” cartesiana ser um primeiro princípio.

● Poderia porém o Cogito cartesiano, quer em sua forma conhecida (“Penso, logo sou”), quer em sua forma suposta (“Penso e sou”), ser um trancendental? Obviamente que não, e isso por três razões. A primeira, formal: cada um dos transcendentais é uma ratio, uma noção, um conceito, e não um conjunto de noções ou conceitos como o é qualquer proposição. A segunda, filosófica: cada um dos trancendentais é transcendental precisamente porque se pode atribuir a tudo quanto tem ser ou participa do ser. Assim, tudo o que tem ser é ente, é coisa, é algo, é uno, é verdadeiro, é bom e é belo, e pelo fato mesmo de se atribuírem a tudo o que tem ser é que tais noções se dizem transcendentais (<>transcendens,tis, particípio presente de transcendere, “transpor”, + -al): com efeito, elas transpõem, vão além de cada realidade particular, e são propriedades de tudo quanto tem ser. Ora, ainda concedendo ab absurdo que o conjunto de noções que é o Cogito cartesiano pudesse ser um transcendental de caráter, digamos, duplo, é óbvio que um dos componentes desse conjunto não se poderia atribuir a tudo quanto tem ou participa do ser: de fato, nem tudo o que tem ser pensa. Uma pedra tem ser e não pensa, um par de sapatos tem ser e não pensa, um livro, ainda a Suma Teológica, tem ser e não pensa. A terceira razão de tal impossibilidade também é filosófica: como lembra Sidney Silveira no artigo “A doutrina dos transcendentais”, “todos os transcendentais são convertíveis entre si: tudo o que é ente é coisa; tudo o que é coisa é uno; tudo o que é uno é algo; tudo o que é algo é vero; tudo o que é vero é bom; e tudo o que é bom é belo, etc.”; ora, não se pode dizer que tudo o que é ente pensa, que tudo o que é coisa pensa, que tudo o que é algo pensa, que tudo o que é uno pensa, que tudo o que é verdadeiro pensa, que tudo o que é bom pensa, que tudo o que é belo pensa; logo, ainda considerando ab absurdo possível que uma proposição fosse um transcendental, o Cogito cartesiano não o seria, pelo que se acaba de ver.

● Mas, afinal de contas, o que precisamente era para o próprio Descartes o seu Cogito? Para responder a isso, demos longamente a palavra a Tomás Melendo (idem): “[...] a interpretação mais freqüente da asserção cartesiana, a canônica até alguns anos atrás, aproxima-a da de Agostinho de Hipona. [Mas veja-se, digo eu, que em verdade o silogismo de Santo Agostinho (‘Para equivocar-se, é preciso ser; ora, eu me equivoco; logo, sou’) é parte de um longo polissilogismo, muito ao contrário do descarnado entimema cartesiano; vê-lo-emos em outro artigo.] Também agora estaríamos diante de um raciocínio não expresso, no qual se subentende a premissa maior. Posta em forma, tal argumentação ficaria como se segue: 1) Para pensar é preciso existir [sic; o melhor seria usar ‘ser’ em vez de ‘existir’]*; 2) eu penso; 3) logo, eu existo [sic]. Mas não. Não é isso o que Descartes afirma. Vimos nosso filósofo defender o caráter intuitivo do cogito, ergo sum, e negar sua suposta índole de raciocínio implícito. E, ao fazê-lo, não pode senão estar eliminando a premissa maior de tal raciocínio elíptico: suprimindo o ‘para pensar, é preciso existir’ [sic]. Por quê? Não só porque assim o sustenta contra Gassendi, mas porque a menor e a conclusão do pretenso silogismo se encontram expressamente recolhidas no texto e constituem o todo da grande [sic] intuição [sic] cartesiana.”

Após dizer, assim, o que não era para Descartes o seu Cogito, passa Melendo a dar sua interpretação do que era ele para seu autor: “Desse modo, embora seja difícil admiti-lo, porque a afirmação se opõe ao são senso comum e ao conjunto da filosofia pré- ou extracartesiana, Descartes vem a sustentar que o pensamento não exige previamente, com prioridade de natureza, a existência ou o ser. Ao contrário, seria o próprio pensar, ou a consciência em qualquer de suas manifestações, o que confere realidade ao pensado. Só de tal modo o pensamento (e, em geral, a subjetividade) se alça como princípio primeiro não fundamentado, como princípio sem princípio, de qualquer realidade posterior: do eu, de Deus, do mundo material, dos três enquanto pensado-existentes.”

Para Melendo, portanto, ao que parece, o que importa não é saber se para Descartes o Cogito era um primeiro princípio ou um transcendental; trata-se de que para ele o Cogito afirmava algo essencial, a saber, que o pensamento é um primeiro princípio não fundamentado, um princípio sem princípio, o princípio pois de toda e qualquer realidade. Ora, digo eu, para os pré-socráticos, o princípio sem princípio de tudo era um elemento material (ou o fogo, ou o ar, etc.); para a filosofia e teologia católicas, tal princípio sem princípio de tudo é Deus, o “Eu sou aquele que é” do Êxodo, aquele que sendo o Ser participa o ser aos entes. Logo, para Descartes, o princípio sem princípio que é o pensamento não o pode ser senão em lugar ou de um princípio elementar qualquer dos pré-socráticos, ou do Deus criador do judeu-cristianismo. (Insista-se: esta conclusão não a expressa Melendo, conquanto possamos inferi-la de seu raciocínio.)

Com isso, já demos um grande passo para concluir esta série. Mas ainda permanecem alguns pontos sem resposta. Com efeito, diz Melendo, convergentemente conosco, o que pretendia dizer Descartes com seu Cogito; mas não diz de modo inequívoco o que é logicamente esse mesmo Cogito, e até parece concordar com Descartes quanto ao fato de ele não ser um entimema. Além disso, não raro chama o Cogito de “intuição”, aparentemente sem preocupar-se com uma maior precisão terminológico-conceptual. De nossa parte, porém, concluímos ao longo da série que o Cogito, por um lado, não é um primeiro princípio nem um transcendental, nem, por outro, é um juízo, mas é efetivamente um entimema, apesar da afirmação em contrário do próprio Descartes. Se assim é, qual a sua verdadeira premissa maior? Aquela que dissemos desde o princípio, a saber: “Para ser, é preciso pensar”? Se não, qual?

(Continua.)

* A diferença entre “existir” e “ser”, complexa questão metafísica, mereceria toda uma série à parte. Contentemo-nos aqui com o seguinte, que não é de minha lavra, e que elucida a dificuldade de maneira primorosa: “Eu [ente humano] existo tanto quanto uma xícara; mas sou mais que ela.”

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Guerra do Iraque: o "mea culpa" de Bush

Sidney Silveira
Enquanto o governo do “traidor” da causa liberal George W. Bush continua emprestando dinheiro a rodo a alguns apaniguados da Corte — só na semana passada, foram US$ 20 bilhões para o Citigroup e a mixaria de US$ 800 bilhões para descongelar o crédito —, agora vem a bomba das bombas: o próprio Bush diz (com todas as letras!) que O MAIOR ERRO do seu governo foi acreditar no relatório da Inteligência que apontava para a existência de armas de destruição em massa no Iraque.

Meu maior arrependimento é o erro da Inteligência no Iraque. Muita gente apostou sua reputação ao dizer que as armas de destruição em massa eram uma razão para derrubar Saddam Houssein.

Vocês dimensionaram isto, amigos? Essa confissão formal, direta, é muito mais espetacular do que a de Alan Greespan, porque se perderam milhares e milhares de vidas de civis, um país foi totalmente destruído — irresponsavelmente destruído numa guerra desproporcional, no que diz respeito às forças de cada um dos lados.

Que vão dizer agora os teóricos ultraliberais que apoiaram Bush? No Brasil, na época da Guerra, os partidários da “causa” usaram de todo o seu arsenal loquaz para justificá-la. Provavelmente, farão exatamente como Bush, que, ao final da entrevista em que confessou não haver arma de destruição em massa nenhuma (além, é claro, das usadas por seu governo contra civis indefesos), disse: “Saio de cabeça erguida”.

É isso mesmo: o orgulho jamais baixa a cabeça.

Chesterton no país das meias-verdades

Carlos Nougué
Que é uma meia-verdade? Certamente não será uma verdade pela metade, porque tal não é possível: uma coisa não pode ser meio verdadeira e meio falsa; ou é inteiramente verdadeira, ou é inteiramente falsa. Mas pode ser, sim, uma falsidade com fumos, com pretensão, com aparência de verdade, por conter algum elemento de verdade, ou melhor, por conter algum elemento extraído de uma verdade e inserido de modo deformado nesse todo falso. Ora, um elemento de verdade inserto numa falsidade global não poderá senão servir a esta mesma falsidade, porque, pela própria natureza das coisas, a parte sempre se ordena ao todo de que é parte.

Pois bem, chegou-me aos ouvidos que em certo blog alguém chamou Chesterton de “grande liberal”, e aduziu para prová-lo um trecho do livro Ortodoxia em que o Inglês diz não haver contradição entre tradição e democracia nem entre tradição e liberalismo. Ora, tal atribuição e tal “prova” podem ser examinadas por três ângulos: 1) o do referido trecho considerado em si e no contexto do livro Ortodoxia como um todo; 2) o do livro Ortodoxia no contexto da obra de Chesterton como um todo; 3) e, por fim, o de quem faz tal atribuição e aduz tal “prova”.

1) Efetivamente, no trecho em questão Chesterton diz o que o autor de tais atribuição e “prova” diz que ele diz, a saber: que não há contradição entre tradição e democracia nem entre tradição e liberalismo.

● Ora, efetivamente não há contradição entre tradição (católica, quer dizer Chesterton) e democracia, como afirma o próprio Magistério da Igreja e como já o mostramos neste mesmo blog (no artigo “
Democracia e ‘democracia’ segundo a verdadeira autoridade”). Mas há contradição, sim, segundo o mesmo Magistério e como se pode ler no mesmo artigo, entre tal tradição e a democracia liberal. A que democracia se refere Chesterton no referido trecho de Ortodoxia? Sem dúvida alguma, à democracia liberal, o que é reforçado no mesmo livro pelo elogio que o Inglês faz à revolução francesa.

● Isso quererá dizer que é Chesterton, no livro Ortodoxia, um liberal ou, mais ainda, um “grande liberal”? Pode ser um liberal alguém que é contra a liberdade de consciência? que é contra a liberdade religiosa? que é favor da união entre Igreja e Estado e da submissão espiritual deste àquela? Obviamente que não! Que se passa então com o Chesterton de Ortodoxia, livro escrito 16 anos antes de sua conversão formal ao catolicismo? Ele incorre em patente contradição, ao errar gravemente com respeito à revolução francesa e à democracia saída de suas entranhas sangrentas.

2) Pouco a pouco em sua obra, todavia, vai Chesterton mudando de opinião com relação à revolução francesa e a democracia liberal, o que culminará em The Everlasting Man (“O Homem Eterno”), livro de 1925, ou seja, posterior à conversão do Inglês, no qual ele afirma duas coisas importantes para o assunto que aqui se trata:

a) que, junto com o surgimento do gnosticismo e de heresias como arianismo, a revolução francesa foi um dos momentos da história de maior perigo para a fé;

b) que a democracia que ele, Chesterton, defende é a democracia direta em torno de um carvalho, ou seja, a democracia do voto direto das pequenas comunidades camponesas da Europa, já então em vias de extinção.

● Ademais, Chesterton já era então um dos líderes do movimento chamado “Distributism” (Distributivismo), que pregava um retorno à economia de pequenas propriedades agrárias da Idade Média posterior ao século XII, sob o lema de que todo homem tem direito a pelo menos “três alqueires e uma vaca”. Tratava-se, em todo o seu quixotismo, de contundente condenação do capitalismo, da economia liberal e do despojamento criminoso de que nela foram vítimas os trabalhadores. Aliás, uma das provas do que digo em “Pensamento mágico e bom senso” contra a economia liberal provirá precisamente de um livro de Chesterton, admirável, A Short History of England (“Uma Breve História da Inglaterra”), onde, entre muitas outras coisas, ele afirma que o capitalismo “começa com um roubo”.

● Pois bem, pode ser chamado de liberal ou, mais ainda, de “grande liberal” quem ataca tão duramente a revolução francesa e a economia liberal e diz que a sua democracia não é a liberal, mas precisamente uma das formas de democracia aceitas pela Igreja?

● Mas em prol da verdade deve-se afirmar aqui que, no fim da vida, mais precisamente no livro The Well and the Shallows, de 1935, embora Chesterton não recaia no elogio da revolução francesa, recai, sim, no elogio da democracia liberal. Estava influenciado pela recente vitória eleitoral na Espanha do Partido Democrata Cristão. Não teria ele, porém, tempo de vida para ver o resultado dessa vitória: o mais furibundo, o mais virulento, o mais sangrento, o mais assassino ataque das forças liberal-comunistas à Espanha tradicional, à Igreja, aos religiosos, aos fiéis católicos. Se tivesse tido tempo de vê-lo, ele, que perto da morte tanto sofria com a descatolicização do mundo, ele, que vendo-a chegou por um tempo, também equivocadamente, a ter certa simpatia por Mussolini, teria certamente sido tomado por uma tristeza devastadora.

● Mas não podemos passar adiante sem antes resolver uma questão: por que esse apreço de Chesterton pela democracia em geral e, por vezes, pela própria democracia liberal, apreço este (pela democracia liberal) em patente contradição com todo o restante de sua obra? Tal apreço em verdade se devia a duas razões:

a) uma confiança excessiva no senso comum do comum dos homens, confiança que ele só põe em dúvida no já referido The Everlasting Man, sem dúvida a sua melhor obra;

b) baseado nessa confiança excessiva, a asserção de que pedir voto ao comum dos homens tem algo de humildade cristã, asserção evidentemente falsa: quando Pilatos consultou o voto ao comum dos judeus, estes elegeram Barrabás.

3) Finalmente, quanto ao autor daquela atribuição e daquela “prova”:

● Não se deve atribuir nenhum predicado ou qualidade geral a nenhum autor sem conhecer pelo menos os principais livros de sua lavra. Como dizer se Santo Tomás de Aquino é aristotélico, platônico, platônico-aristotélico ou ele mesmo, se só se leram artigos de divulgação, ou manuais, ou um que outro de seus livros? Foi aliás o que fez Kant: sem nunca ter lido um livro do Aquinate, condenou-lhe a metafísica e fez o mundo moderno fundar-se numa mentira.

● Naturalmente, quero conceder que não houve malícia no autor daquelas atribuição e “prova”. Mas repita-se aqui o que já se disse em outro artigo deste blog: uma das formas de pensamento mágico é a “reconstrução ideal da história”, que inclui a “reconstrução ideal do pensamento de alguém”. Logo, se não houve malícia por parte daquele autor, houve: a) ou precipitação, ânsia imprudente de impugnar teses adversas ou de defender, como quer que fosse, seus pontos de vista; b) ou “incorrência”, incidência na referida espécie de pensamento mágico.

Como seja, aquela atribuição e aquela “prova” não são mais que meias-verdades no sentido acima descrito.
Em tempo: Repito: Chesterton é o maior literato do século XX, e a meu ver não por seus romances (que, confesso, me parecem demasiado fantasiosos), mas por sua saga do Padre Brown. Com esta saga, ombreia Chesterton com ninguém menos que Cervantes.

domingo, 30 de novembro de 2008

A humildade e a sua contrafação

Sidney Silveira
Insinuaram alguns de nossos fiéis leitores (e o fato é que os temos — e muito fiéis! —, sobretudo entre os que nos detestam) coisas curiosas acerca do nosso último texto sobre a tese do desejo mimético, do malfadado René Girard — ídolo de barro de alguns liberais coetâneos.

Dizíamos nós ali que a humildade, nos termos em que a vamos expondo em vários textos do blog — a começar pela definição que lhe dera Santa Teresa de Ávila —, se tornaria uma impossibilidade ontológica, caso a tese de René Girard estivesse certa. Alguns escreveram que isto é uma bobagem porque, entre outras coisas, a humildade não é ente, ao que respondo dizendo que o contrário de ente é o não-ente (ou seja, um nada ou uma privação), razão pela qual a humildade, obviamente, só pode ser um tipo particular de ente. Para Santo Tomás, trata-se de um hábito virtuoso que radica em uma potência da alma. Um hábito que ele define como qualidade acidental da alma (Suma Teológica, I-II, q. 49, a.2). Mas hoje não quero falar de metafísica, nem fazer uma longa exposição sobre o conceito de ente, seus matizes e aplicações. Vá estudá-lo quem nos criticou nisto, porque pelo visto não conhece sequer a distinção entre ente real e ente de razão!

O que me chamou a atenção foi o seguinte: em sua edificante “psicologia”, garante Girard que só desejamos algo porque invejamos as coisas desejadas possuídas por outras pessoas, na presunção de que, ao possuí-las, seremos nós mesmos objetos do desejo de outrem. E na presunção também de que seremos diferentes aos olhos dos outros, pela posse desses bens. Ora, um dos atos da humildade é justamente o não querer se singularizar aos olhos do mundo (e trazia eu, naquele texto, o que afirma São Bento em sua Regra sobre as características da humildade, sendo uma delas justamente o não querer singularizar-se). Afinal, como nos lembra o Padre Antônio Vieira num inesquecível sermão: Memento homo, quia pulvis est, et in pulverem reverterislembra-te, homem, que és pó, e em pó te hás de converter. Sendo assim, a humildade vem exatamente da consciência de que, em certo sentido, somos uma porcaria transitória, como pensava da natureza humana o memorialista Pedro Nava, toda vez que, como médico legista, estripava um defunto para necrópsia.

Pois bem: quiseram alguns dar a entender que nós no blog estamos justamente nos singularizando, ou pior, estamos querendo “mimeticamente” (em sentido girardiano) aparecer para a platéia. Concedamos que a pessoa que escreveu isto o tenha feito com toda a honestidade. Mas apenas para lembrar o seguinte: entre tornar-se singular aos olhos do mundo em decorrência de uma ação, e querer tornar-se singular há uma distância polar, ou seja, a distância entre os dois extremos máximos da esfera. Tomemos o exemplo dos Santos, todos eles pessoas singularíssimas: Thomas Morus, Tomás de Aquino, Francisco de Assis, Antônio de Pádua, Joana D’Arc, Teresinha do Menino Jesus, Filipe Néri, Francisco de Sales, Rita de Cássia, Padre Pio de Pieltrecina, o Cura D’Ars, Bernardo de Claraval, Pio X, João Crisóstomo (o Boca de Ouro), João Batista, Agostinho de Hipona, Afonso de Ligório, Bernardete Soubirous, Rosa de Lima, etc. Não há uma exceçãozinha sequer! TODOS OS SANTOS foram homens para lá de singulares, mas a sua ação foi — ao contrário da dos egolátricos girardianos liberais— um sacrifício por algo maior (extra “umbigus”), e não o exercício de sumo gozo ante o próprio “eu”. Por isso, se a “tese” do desejo mimético está certa, a santidade é impossível, e nunca houve um santo sequer (todos teriam sido falsamente humildes), e nem virtude alguma na história da humanidade, pois a humildade tem um caráter instrumental em relação às demais virtudes, na medida em que é, para elas, conditio sine qua non. Mas se só agimos movidos pela inveja...

Também mencionava eu naquele texto o exemplo antigirardiano dos monges que, no recôndito de suas celas, usam a disciplina do chicote para aplacar a concupiscência e conformar-se a Cristo, e já insinuaram que, com o exemplo aludido, estava eu me “chicoteando” em público, pela internet, para aparecer, ou pior, para parecer humilde aos olhos dos que me lêem (acaso disse eu que me chicoteio?). Lógica de carvoeiro! Talvez a mesma lógica "dedutiva" pela qual nos venham dizer que, ao citar o exemplo dos Santos, estamos nós agora a considerar-nos Santos. A propósito, alguns desses textos “críticos” chegaram-me porque há pessoas que gostam de enviá-los a mim por email, pois eu tenho mais o que fazer do que dar vazão a curiosidades mórbidas. Peço-lhes que não os enviem mais, pois foi justamente para não lidar com esse tipo de objeção (que nada tem da verdadeira objeção filosófica), que evitamos abrir espaço no blog para comentários.

Em tempo1: Há pessoas que não dimensionam o objetivo do Contra Impugnantes. Muito menos a natureza e o alcance do combate aqui travado. Mas os nossos verdadeiros adversários — que com absoluta certeza não são estes que criticaram o texto sobre Girard, mas gente que age nos bastidores, construindo e destruindo reputações —, sim. Estes nos reconheceram desde o primeiro momento. Alguns são liberais católicos que nunca defenderam a fé contra os erros que a corrompem (e nem poderiam fazê-lo, dado o seu liberalismo que defende o "dogma" da intocabilidade da consciência individual autônoma). E odeiam quem o faz.
Em tempo2: Estive ausente por alguns dias porque, entre vários outros trabalhos, estou finalizando a revisão/edição do próximo livro da Sétimo Selo, do qual ainda falaremos por aqui.
Em tempo3: Outra incrível "bomba" me chegou também hoje: andaram escrevendo por aí que Chesterton é um “grande liberal”, aduzindo como prova um texto do seu Ortodoxy. Um texto escrito 16 anos antes de sua conversão formal ao catolicismo! Deus do Céu! Estamos no reino de Lilliput: sinto os anões a morder-nos os calcanhares. O Nougué, autor do belíssimo artigo Nos antípodas da Esperança Cristã, que estava quieto, voltará ao tema “Chesterton”. Aguardem.