segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Frutos do pensamento mágico do liberalismo

Sidney Silveira
A propósito de o liberalismo (político ou econômico) ser baseado, fundamentalmente, em um pensamento mágico — como bem frisou o Nougué —, seja porque inverte as relações causais ou busca-as não em evidências, mas em idéias preconcebidas, seja porque adota posturas quiméricas absolutamente irresponsáveis, vale dizer que isto é facilmente identificável nas próprias sementes que os liberais semeiam, aqui e ali. Na quase absoluta maioria dos casos, os autores que eles apreciam e difundem são tão irrealistas quanto eles mesmos, seja em gnosiologia, seja em política, seja em teoria econômica, seja em psicologia, seja em sociologia — neste caso, tendo como base numa antropologia ao rés-do-chão —, etc.

Exemplos? Eis o primeiro deles, de uma série por vir:

René Girard. Tese: o bode expiatório. Premissa fundamental: o desejo mimético. Resumo sintético da teoria: O homem, quando deseja algo, não o deseja em virtude de um bem intrínseco ao objeto desejado, apetecido naturalmente pela vontade (pobre e ingênuo Santo Tomás! Supor que só o bem é motor dos desejos humanos; supor que há uma conaturalidade entre a vontade e o bem, posta no coração dos homens por Deus Pai...). Não! Tudo o que o homem deseja, deseja-o como imitação invejosa de um bem — material ou espiritual — pertencente a outrem. Ou melhor: deseja PORQUE pertence a outrem e é também objeto dos desejos de outras pessoas. Assim, essas invejas fundamentais contrapostas umas às outras — e crescentemente multiplicadas no decorrer dos tempos — chegam a um nível tal que, em dado momento, a discórdia e a violência universal de todos contra todos só poderá ser suspensa pela eleição de um bode expiatório a ser sacrificado — o qual aplacará o ódio coletivo. "Provas" apresentadas para essa tese de “psicologia” (de que a vontade [ou o desejo] é movida pela inveja): a pura e simples interpretação de mitologias antigas e da Sagrada Escritura, com apresentação de alguns dados estatísticos (na verdade, interpretados de forma a amoldar-se à própria tese, numa estupenda e cristalina petitio principiis, que, para quem não sabe, é a atitude de considerar uma tese como verdade líquida e certa a partir da simples formulação dela, ou seja, fazer das premissas a conclusão).

Pois bem, se a teoria de Girard está certa, o amor é formal e absolutamente impossível, e não somente o amor ao próximo enquanto semelhante, mas principalmente o amor a Deus — que, sendo o Bem supremo que se possui a Si mesmo desde a Eternidade, seria por isso mesmo o sumo invejado por qualquer criatura dotada de inteligência. Ora, esta não é senão a atitude de Lúficer: não o amor (virtude unitiva) a Deus pela bondade intrínseca deste, mas a inveja por ser Ele a inesgotável superabundância de bens, eterno, Ato Puro.

Do ponto de vista simplesmente intelectual, é um mistério tal tese ter recebido o mínimo crédito, na medida em que contraria todas as evidências — as quais apontam que a operação da vontade é a resposta consciente do espírito ante as coisas entendidas como boas, ou seja: queremo-las simplesmente PORQUE SÃO BOAS; é tão-somente por portarem um quantum de bem que são amadas e desejadas por nós. Desde pequeninos experimentamos isto, até ao pedir a mamadeira para a mamãe com um gugu-dadá. Só se explica tal “credibilidade” da tese do autor francês pela forma organizada e repetitiva com que liberais de diferentes países reiteram à exaustão que Girard é o máximo. Ora, como sabemos, uma mentira ou um erro repetidos insistentemente se transformam em "verdade" aos olhos da maioria desatenta...

Não dá para expor aqui, amiúde, a diferença entre o que são, para Santo Tomás, a voluntas ut natura (o querer algo simplesmente porque é bom) e a voluntas ut ratio (o querer algo pela razão de ser o intermediário necessário para a posse de um outro bem). Fica para outra ocasião esta belíssima, fundamentada e concatenada exposição do Aquinate sobre os modos de operação do nosso querer.

Apenas vale consignar o ensinamento do Santo Doutor — absolutamente realista e baseado na mais alta antropologia, com base metafísica — a respeito das causas que nos levam a desejar algo: 1ª) o bem; 2ª) a semelhança; e 3ª) o conhecimento. E os efeitos: 1º) a união ou mútua “inesão” (depois explico); 2º) o esquecimento de si (quando naturalmente desejamos, ou seja, sem estar no estado patológico que Girard quer fazer-nos crer que move os nossos desejos, o outro é mais importante do que nós mesmos*, e desejamos não o que ele tem ou o que ele é, mas desejamos doar-lhe ainda mais, doar-nos a nós mesmos numa entrega amorosa); 3º) e o obrar voluntário (ou seja: o amor é um ato libérrimo, o mais livre que a criatura humana pode praticar, e justamente para ele ela foi criada. O obrar voluntário é o desejo movido excelentemente pelo amor).

Algum liberal pode imaginar, a esta altura, que desejei escrever este artigo porque invejo o Girard, porque o desejo mimético me impeliu a tanto (do mesmo modo que os psicanalistas costumam dizer que só uma pessoa analisada pode criticar a análise). A estes respondo: mesmo que quisesse, eu não poderia invejá-lo, pois detesto autores de teses obscuras, errôneas, conducentes a visões deturpadas da realidade... Será que vocês acreditariam que é simplesmente por amor à verdade (oh, crime!), e sobretudo à Verdade que é Cristo, da qual todas as teorias errôneas nos afastam, que desejamos escrever, eu e o Nougué — e continuaremos a desejar — , todos os textos deste blog?
* No caso de Girard, o outro também pode ser considerado mais importante do que nós, mas não como alguém a ser servido amorosamente, e sim invejado e, por esta razão, imitado o que é muito, mas muito diferente. No primeiro caso, trata-se de uma PERSONALIDADE QUE SE AFIRMA NA ENTREGA AMOROSA, reconhece o outro como diferente e o deseja simplesmente pelo que é, abrasando-se no amor, no êxtase da entrega; no segundo caso, trata-se de uma PERSONALIDADE QUE SE NEGA E SE ANULA PELA INVEJA que a faz querer ser como o objeto invejado, na presunção de que, com isto, será igualmente invejada, ou seja: transformar-se-á também em objeto do desejo de outras pessoas. Virgem Santa! A inveja, vício capital, torna-se nesta teoria o motor das vontades humanas...

domingo, 5 de outubro de 2008

Pensamento mágico e bom senso (I)

Carlos Nougué
Dizia Santo Tomás no início da Suma contra os Gentios: “Refutar todos os erros é difícil, por duas razões. A primeira é que as afirmações sacrílegas de cada um dos que caíram no erro não nos são conhecidas a ponto de podermos tirar delas argumentos para confundi-los. Era isso, porém, o que faziam os antigos doutores para destruir os erros dos pagãos, cujas posições eles podiam conhecer, quer porque eles próprios tinham sido pagãos, quer, ao menos, porque viviam no meio dos pagãos [...]. A segunda razão é que alguns entre eles, como os maometanos e os pagãos, não estão de acordo conosco em reconhecer a autoridade das Escrituras, graças à qual os poderíamos convencer, enquanto com os judeus nós podemos disputar no terreno do Antigo Testamente, e com os heréticos podemos disputar no terreno do Novo Testamento. Maometanos e pagãos não admitem nem um nem outro. É preciso, então, recorrer à razão natural, à qual todos são obrigados a dar sua adesão. Mas a razão natural é falível com respeito às coisas de Deus. No estudo detido que faremos de tal verdade particular, mostraremos, pois, ao mesmo tempo, que erros esta verdade exclui, e que a verdade estabelecida pela via demonstrativa está de acordo com a fé da religião cristã”.

Pois bem, analogamente, tentaremos mostrar na série que começa aqui a falácia dos argumentos econômicos liberais. Não recorreremos nesta série ao Magistério da Igreja, nem a Santo Tomás de Aquino, nem a Platão e Aristóteles, pela simples razão de que esses não são terrenos comuns entre nós e os liberais. Mas, enquanto Santo Tomás supunha a possibilidade de adesão de muçulmanos e pagãos à razão natural, nós hoje, ante os liberais, temos um problema, digamos, anterior: eles simplesmente já não aceitam a razão natural, porque, como veremos, assim como os comunistas, aderiram a uma espécie de pensamento mágico. Temos pois de recorrer antes ao bom senso (ou “senso comum”, como alguns o preferem chamar) para tentar destruir, primeiro, o pensamento mágico.

O pensamento mágico típico crê encontrar na realidade relações causais, mas, de fato, e diferentemente da razão natural, não distingue concomitância de causalidade
. Por exemplo: alguém pode crer que o número 11 dá sorte porque ganhou algum torneio esportivo usando uma camisa de número 11. Procurará, a partir de então, fazer girar toda a sua vida em torno do número 11, e de fato, a cada passo, encontará entre o número 11 e a sorte uma relação de causalidade, enquanto, em verdade, tudo não havia passado de uma relação de concomitância: usar a camisa 11 e ganhar o torneio não tinham sido senão fatos simultâneos, sem nenhuma determinação mútua. O fato, no entanto, é que a algo que é apenas concomitante o supersticioso atribui caráter causal.

São muitos os produtos do pensamento mágico típico, entre eles a astrologia.

Mas, se, mais amplamente, se considera mágico todo aquele pensamento que vê relação causal onde de fato não a há, então nem todo o pensamento mágico se resume a superstição: quando, por exemplo, Engels dizia, na esteira de Darwin, que o que torna o homem homem é o fazer instrumentos, tal maneira de raciocinar e concluir é ainda pensamento mágico sem, todavia, ser superticioso: aqui não se confunde concomitância com causa, mas resultância, conseqüência, efeito com causa. Pensemos: qual é a causa e qual o efeito: o mamífero é mamífero porque mama, ou mama porque é mamífero? O homem é homem porque pensa, ou pensa porque é homem? Confiamos em que os motoristas não avançarão o sinal porque atravessamos a rua, ou atravessamos a rua porque confiamos em que os motoristas não avançarão o sinal? Ora, é claro que o mamar é efeito da causa ser mamífero, assim como o pensar é efeito da causa ser homem, e assim como o atravessar a rua é efeito da causa confiar. Logo, do mesmo modo, fazer intrumentos é efeito da causa ser homem. (Hão de argumentar: mas alguns macacos, como os chimpanzés, também fazem instrumentos... Sim, mas não se segue daí que sejam chimpanzés porque fazem instrumentos; antes fazem instrumentos porque são chimpanzés. Então têm os chimpanzés e os homens isto em comum: fazer intrumentos? Sim, senhor, e que isso não seja pedra de escândalo: temos os humanos muitas outras coisas em comum com os chimpanzés: temos corpo, e eles também; temos sangue, e eles também; temos olhos, e eles também; gritamos de dor, e eles também; etc. Aliás, também as aves têm corpo, sangue, olhos, e muitas gritam [ainda que não de dor], enquanto outras também fazem instrumentos, e até constroem belas casas, ou ao menos mais belas que muitos edifícios modernos... Isso para não falar que temos algo muito importante em comum com as abelhas e as formigas: o sermos sociais.)

Mas insistamos: qual é a causa e qual o efeito: os homens confiam uns nos outros porque trocam mercadorias entre si, ou trocam mercadorias entre si porque confiam uns nos outros? Os homens confiam uns nos outros porque usam a moeda como meio de troca, ou usam a moeda como meio de troca porque confiam uns nos outros, ou melhor, confiam em que a outra parte atribui valor justo à mercadoria em questão, permitindo assim a troca por meio de moeda? Se isto último não fosse a causa, nunca nos queixaríamos de um preço e, por essa razão, nunca deixaríamos de comprar uma mercadoria. Ora, quando não confiamos em que a outra parte atribui um justo valor a determinada mercadoria, não a compramos (se o podemos fazer, é claro...), ou seja: se não confiamos no outro, não se dá troca, não se realiza a relação de troca. Logo, a relação de troca é efeito da causa confiar.

Mas é exatamente o contrário o que afirma um dos papas do liberalismo econômico: Alain Peyrefitte. Para ele, a “sociedade de confiança” (a expressão é do próprio economista francês) só existe por causa da troca. Insistamos: para ele, a confiança é efeito da troca, assim como para Descartes o ser era efeito do pensar, e assim como para Engels o ser homem era efeito do fazer instrumentos.

(Continua.)

Em tempo 1: Como veremos ao longo desta série, o liberalismo econômico mescla duas vertentes do pensamento mágico: esta última que acabamos de ver, ou seja, a que toma o efeito pela causa, e a quimérica, que veremos nos próximos artigos. E compartilha ambas essas vertentes com o comunismo, como já dissemos. Um exemplo de quimera? O crer que, independentemente do homem, o próprio mercado acabará por se auto-regular até tornar-se o campo da própria justiça. Como se não houvesse a cobiça. Pois dizem os comunistas algo similarmente quimérico: depois da pior das ditaduras, a do proletariado, o Estado ruirá por si só!... Como se não houvesse o apego ao poder.

Em tempo 2: Mas pior é quando, nos liberais econômicos, à quimera se junta a irresponsabilidade. “Deixe-se explodir a economia, que assim se manterão os princípios liberais, e a economia se reordenará por si mesma” – dizem, referindo-se ao “traidor” Bush, o líder mundial dos liberais, por ter, com seu pacote bilionário, contrariado a tese mágica da capacidade de auto-regeneração do mercado. Incapazes de juntar causa e efeito (é este um dos traços da vertente quimérica do pensamento mágico), incapazes de ver a relação entre seu impossível liberalismo econômico e o drama material que se abate sobre os homens atualmente, preferem deixar que se agrave o drama para que assim “se salve” sua teoria... Irresponsáveis, sem nenhuma preocupação com o bem comum nem com o próximo – não há outras palavras, infelizmente, para defini-los.

sábado, 4 de outubro de 2008

A Igreja e a economia

Sidney Silveira
Outra idéia muito comum entre os liberais — os quais, como já vimos, defendem a tese maçônica da separação entre os planos material e espiritual, entre o Estado e a Religião — é dizer que a Igreja não deve envolver-se em questões econômicas, já que a economia trata de algo atinente “apenas” aos meios de produção (à poiesis portanto), à troca de bens e à reprodutibilidade dos mesmos, etc. Ora, se realmente fosse assim, a economia estaria circunscrita ao âmbito que lhe é próprio, ou seja: só poderia tratar das questões relativas a essas coisas enumeradas. Mas o que dizem os economistas liberais em todos os seus livros, num tom tediosamente monocórdico? VIVEM DIZENDO COMO O ESTADO DEVE OU NÃO DEVE SER — o que mostra ser o liberalismo econômico, essencialmente, uma teoria política. E uma teoria que não apenas transcende ao aspecto econômico, mas faz muito pior: subordina o político ao econômico. E reduz o Estado e o governo a um mínimo (tolerável, mas incômodo), a algo que deva defender, antes de tudo, as intocáveis leis do livre mercado.

Vejamos o que diz São Pio X sobre isto de a Igreja ser “alheia” a questões econômicas de qualquer ordem: “A questão social e as contendas relacionadas (...) à forma e ao tempo de trabalho, ao preço dos salários (...) NÃO SÃO PROBLEMAS MERAMENTE ECONÔMICOS, de tal gênero que pudessem resolver-se deixando de lado a autoridade da Igreja, pois, ao contrário, é verdade claríssima (...) que se trata de uma questão moral e religiosa, e, por isso, é nos ditames da Religião e nas leis da Moral que há de encontrar solução satisfatória”. (Encíclica Singulari Quadam, curiosamente ausente da edição brasileira da Paulus que traz as Encíclicas de Pio X).

O grande papa e grande santo — que noutra Encíclica condenara expressamente a separação entre a Igreja e o Estado (em Gravissimo offichii munere defungimur, nº 2, texto também ausente da edição da Paulus e que não consegui achar no site do Vaticano) — bem sabia que uma sociedade não conformada a valores universais e eternos, não ordenada por um princípio espiritual exterior e superior a todas as coisas humanas, ou seja, uma sociedade em que o Estado é tão-somente uma superestrutura no meio da comunidade e as leis nada têm de pedagógico, mas ao contrário, dão livre curso às liberdades individuais (excetuando os casos em que estas trazem riscos físicos a algumas pessoas), será uma sociedade fadada à mais hedionda brutalidade. Ao reino da quantidade. Aos materialismos mais deletérios para a alma humana.

Ademais, OU HÁ ALGO QUE PODE E DEVE LIMITAR O MERCADO, OU NÃO HÁ. Partamos desta disjunção — pois a disjunção é uma das formas mais profícuas do método dialético, capaz de desnudar premissas ocultas. No caso, basta-nos a segunda das hipóteses acima: se não há nada que possa limitar o mercado, isto significa que ele está ipso facto absolutizado, transformado em referência máxima — e a lei do mercado seria, então, a lei das leis. É o que a imensa maioria dos liberais defende, uns de forma camuflada e outros abertamente, chegando estes últimos até a proclamar a absoluta superioridade moral do mercado (ops...).

Outra coisa: nem toda necessidade humana é demanda, no sentido equívoco em que os liberais em geral empregam essa palavra. Há uma instância de interioridade na alma do homem que o Estado — sobretudo o liberal, com leis primacialmente mercadológicas, ou seja: contratualistas — não pode suprir, mas que deve defender. Sim, pois se as leis não são um elemento facilitador para que o homem exerça plenamente a sua liberdade interior, a qual nada tem a ver com a idéia liberal de "liberdade", que eles confundem com o ato de escolha (não à toa dizia Leão XIII que os Estados devem preocupar-se in primis com os bens da alma), mas se são apenas propiciadoras de trocas materiais ou então coercitivas (para o caso dos abusos claramente verificáveis), estamos muito distantes do verdadeiro império da lei — que é, como diz Platão no começo das suas "Leis", proveniente de uma instância divina. E estamos também distantes da lei natural na perspectiva escolástica. O império da lei, para um liberal, nada tem de referente a algo supra-humano que ordene e informe as ações dos homens. A sua noção de lei não tem base metafísica nem, portanto, teológica, sem as quais caímos na justificativa de quaisquer éticas de indivíduos ou de grupos, caímos nessa confusão dos diabos a que hoje assistimos: todos querem ter uma lei para defender os seus próprios interesses, mesmo se contrários à Constituição e mesmo se contrários à lei natural. Bem comum? Ugh! Quanto a este, lembrem-se os leitores de que o bem comum, para um liberal, é nada, é bobagem, é abstração...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Para meditação

Carlos Nougué
Está mais perto de Deus o malfeitor que se envergonha de ter feito o mal do que o homem honesto que se envergonha de fazer o bem.
(Padre Pio de Pieltrecina)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Os Anjos, em abordagem metafísica

Sidney Silveira
Começa nesta sexta-feira (03/10), em Niterói, o curso livre ministrado pelo Prof. Sergio de Souza Salles sobre A Metafísica dos Anjos, que reputo simplesmente imperdível, não apenas pela competência do Prof. Salles, mas também porque o tema dos Anjos toca a mais alta metafísica de Santo Tomás — como certa vez disse Cornelio Fabro a propósito da obra De Substantiis Separatis, publicada no Brasil pela Sétimo Selo. As informações sobre o curso estão aqui e acho que ainda há tempo para inscrições.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O desprezo pela clareza: o limbo (I)

Sidney Silveira
Vimos, noutras ocasiões, que o trabalho do teólogo, embora importante, é subsidiário, e por si não chega a ter caráter magisterial — além do mais, precisa ser aprovado pelas autoridades eclesiásticas competentes.


A razão de se encontrarem hoje no supermercado de idéias teológicas, aqui e ali, proposições que parecem desconsiderar o Magistério infalível da Igreja provém, diretamente, da “liberdade” com que alguns teólogos pensam poder expressar as suas teses. Já demos o exemplo do poligenismo, a opinião (condenada pelo Magistério!) de que Adão e Eva não existiram, mas sim um conjunto inumerável de “protoparentes” (sofisticada expressão, não?).


Na verdade, o múnus da teologia requer absoluta clareza expositiva, e esta não pode ter lugar onde se desprezam os princípios de não-contradição, identidade, causalidade, razão suficiente, entre outros. A velha idéia de De Lubac de que a lógica humana se opõe ao mistério divino é uma aberração, mas que no entanto teve conseqüências para várias teologias posteriores, nem sempre preocupadas com a precisão na formulação dos conceitos. Uma delas foi a tese, muito encontradiça entre certas correntes teológicas influentes há alguns anos, de que a realidade “mistérica” — ou seja, o mistério que Deus é —, sendo formalmente inexpressável pela inteligência humana, não se adapta a nenhuma formulação (razão pela qual existiria uma radical inadequação das fórmulas dogmáticas à realidade misteriosa de Deus Pai, assim como à realidade de Cristo, de Maria, etc.). Segundo essa tese, o mistério de Cristo e da Igreja ultrapassa todas as possibilidades de expressão humana em cada época histórica, e, por isso, não pode ter formulações definitivas, excludentes de outras.

Essa idéia expressa uma meia verdade, a saber: com certeza, o dogma não nos pode dar a conhecer integralmente a realidade divina a que se refere. No entanto, ele expressa aspectos universalmente verdadeiros e objetivos dessa mesma realidade. E mais: a tese da inadequação “se esquece” de que tudo o que um ente recebe, recebe ao modo de recipiente, como não cansa de frisar Santo Tomás em diferentes obras, razão pela qual a Revelação e os dogmas se adaptam ao modo humano de conhecer — o que não significa, por isso, que sejam “inadequados”, mas ao contrário: são totalmente adequados à nossa humana inteligência.

Entre esses novos teólogos estão os que mais desprezam a precisão da terminologia escolástica — conheci pessoalmente alguns que costumam contrapor a patrística à escolástica, em detrimento desta última, artificiosamente. E é entre eles que se encontram alguns dos que mandaram o limbo para o “inferno”.

Antes de entrar no mérito da questão, registre-se que a idéia de que o limbo não existe é tão-somente uma tese, e não integra o Magistério. O que este diz, ao contrário, é o seguinte (dados extraídos de um exemplar do jornal Sim, Sim, Não, Não, e depois conferidos por mim no Denzinger):

Papa Inocêncio I (417): “É loucura afirmar que as crianças possam entrar no céu sem o batismo”.

Papa Zózimo (418) aprova o Concílio de Catargo afirmando: “Ninguém pode ser considerado isento do pecado original antes de dele ser liberado pelo batismo”.

Concílio de Florença (1445): “As crianças destituídas do uso da razão só podem ser ajudadas pelo sacramento do batismo”.

Concílio de Trento (1563): “Não é possível passar do estado do pecado ao estado de graça sem o batismo ou ao menos seu desejo”.

Pio XII (Alocução de 19 de outubro de 1951): “Não há outro meio senão o batismo da água para comunicar a vida sobrenatural à criança que ainda não tem o uso da razão”.

A Comissão Teológica Internacional – CTI, ao dizer (em texto publicado em 19 de janeiro de 2007) que o limbo é apenas uma hipótese teológica possível, elaborada na Idade Média, e que jamais entrou nas definições dogmáticas do Magistério, além de não ser doutrina fundamentada na Escritura, comete quatro erros, porque: 1º) Os Padres gregos já afirmavam em uníssono a exclusão das crianças não batizadas da visão beatífica de Deus, e portanto não é verdade que seja doutrina ensinada somente a partir da Idade Média; 2º) o fundamento escriturístico está em Jo. III, 5; 3º) quanto às formulações dogmáticas, bastam as que mostramos acima; 4º) o limbo não pode ser rebaixado a mera hipótese teológica possível por tudo o que se disse anteriormente. Na verdade, a tese de que o limbo não existe é que é uma hipótese teológica, e na verdade muito pouco (ou nada) possível, por se contrapor ao Magistério.

A idéia de que o limbo é uma concepção restritiva da salvação, também presente no documento da CTI, não considera o que grandes Doutores da Igreja sempre disseram (como o próprio Santo Tomás): o limbo é um lugar de felicidade natural. Ademais, não podemos deixar de lembrar que a visão beatífica (da qual quem está no limbo é excluído, de acordo com a doutrina católica) é uma felicidade sobrenatural que ultrapassa os direitos da natureza.

Veja-se no que dá deixar de lado a clareza e a objetividade: chega-se até a pôr em dúvida a misericórdia de Deus (quem já não ouviu alguém simpático à tese dizer que Deus não poderia fazer uma “maldade” dessas com criancinhas sem culpa, a saber, mandá-las para o limbo?). Ora, não devemos julgar a Deus, e muito menos com critérios da justiça humana, tão limitada.


Enfim, como o Magistério da Igreja não pode contradizer-se, cremos que o limbo jamais poderá ser anatematizado pela autoridade eclesiástica, ainda que mil teólogos digam o contrário...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Rui a soberba economia liberal

Carlos Nougué
Como sigo assoberbado de trabalho, ainda não será hoje que poderei retomar a série “Liberalismo e comunismo – rebentos da mesma raiz”, o que farei porém ainda esta semana.

Mas não posso deixar de apontar o óbvio: com a recente crise econômica norte-americana, ou melhor, com a recente explosão da falsidade financeira que é tal economia, rui um dos pilares da soberba liberal.

Dá pois a realidade a devida resposta a quantos afirmam que a economia não deve ter travas, nem sequer morais. Que a economia, se deixada a seu livre curso, qual ente mágico, não só supera suas próprias dificuldades, como levará o homem a um paraíso terrestre de bem-estar progressivo (não se assemelha tal argumento, essencialmente, ao de Marx e Lênin de que o Estado ruiria por si próprio após a ditadura do proletariado?). Que o problema da Idade Média e suas corporações de ofício foi o limitar conscientemente o avanço técnico para evitar ruínas de outrem, ao passo que o correto é entregar a economia de toda uma sociedade ao livre jogo da oferta e da demanda ― e do lucro (esquecendo-se porém de dizer, digo eu, que tal livre jogo tem um antigo nome: ganância, o vício do ganho ilimitado, irmã da luxúria e da gula).

Mas não se assanhem os esquerdistas de todos os matizes: sua economia estatizada ou estatizante tampouco é a resposta justa às necessidades econômicas do homem. Que o digam as tragédias provocadas pela ignomínia comunista; que o diga o soçobramento do homem para o qual contribuem todos os governos esquerdizantes ou populistas de hoje.

Tudo isso se verá aprofundadamente no item 14 da referida série: “A democracia liberal como sociedade anônima: o homem econômico”, onde também se mostrará a evolução natural do homem democrático para o homem comunista.