segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Laicismo, o nada bendito fruto da teoria liberal (II)

Sidney Silveira
Como vimos, o laicismo liberal-maçônico prega a absoluta independência entre os planos espiritual e material — na prática, a separação entre Estado e Religião. Mas, antes de conseguir emprestar alguma credibilidade a essa sua tese laicista, foi preciso atacar, de modo sistemático, ao longo de 200 anos, a noção de Estado, fazer deste uma espécie de “inimigo” dos indivíduos, uma superestrutura estanque no seio da pólis (só de ouvir essa palavra o liberal tem comichões!), e enfim propagar a idéia de que o Estado é necessariamente uma instância coercitiva para as liberdades individuais. Em suma: consolidar a tese de que o Estado é alheio às pessoas, e de que o “bem comum” é uma ilusão. Essa tese ganhou o mundo ocidental, e não me deterei em enumerar aqui os seus variados ideólogos, nem os principais matizes da teoria, para não perder o foco. Depois, indicarei uma interessante bibliografia.

Transformado o Estado, artificiosamente, em algo “mau”, tornou-se mais fácil defender que se separasse da Igreja, “para o bem desta” (tese diametralmente oposta à de Leão XIII, em Libertas Praestantissimum, nºs. 24 a 28, e em Immortale Dei, nº 28). Transformado o Estado, artificiosamente, em algo alheio às pessoas, tornou-se mais fácil difundir a idéia de que ele deve ser também alheio ou indiferente ao bem das almas (tese considerada nefasta pelo próprio Leão XIII, cuja autoridade magisterial nenhum católico pode pôr à prova, sem defraudar o mesmo Magistério); transformado o Estado em mera instância coercitiva para as “liberdades individuais”, tornou-se mais fácil desvincular conceitualmente, no seio das sociedades, a lei eterna da lei positiva humana, passando-se ao largo da lei natural — da qual a Igreja é defensora milenar; transformado o Estado em uma superestrutura estanque no seio da pólis, tornou-se possível defender doutrinas econômicas que visam ao permanente aumento da reprodutibilidade dos bens materiais sem subordinar estes aos bens espirituais, mas ao contrário: de subalternos, eles se tornaram “fundamento” do cristianismo, graças ao livre mercado (dá-me náuseas ver um liberal dizer que um dos “pressupostos” do cristianismo é a liberdade de mercado, sobretudo se é liberal “católico”).

A Igreja, por sua vez, sempre defendeu o seguinte:

a) No plano individual (contra os mais variados gnosticismos), a harmonia entre corpo e alma, estando os bens do corpo, contudo, subordinados aos bens da alma;
b) No plano social (contra o liberalismo), a harmonia entre bens materiais e espirituais, e entre o todo e as partes nas sociedades — estando os bens materiais subordinados aos espirituais, e o bem das partes ordenado ao bem do todo.

Para dar corpo à sua tese, os liberais contemporâneos dizem que a Igreja, na época em que o Estado era confessional, meteu os pés pelas mãos — e dão até exemplos históricos aparentemente verazes. Acontece que confundem Estado confessional com cesaripapismo, quando não com agostinismo político, entre outros. Reparem muito bem: não digo que eles se confundem, mas que confundem, o que é mui distinto. A estes vale responder que não se trata, em absoluto, de uma coisa nem de outra, mas de algo que a Igreja sempre defendeu: a natural primazia do espiritual sobre o material, do eterno sobre o temporal, do absoluto sobre todos os relativos. E vale dizer que o Estado confessional implica tão-somente que o Estado, preservando a sua área de autonomia, protege a verdadeira religião (a propósito, terá Santo Agostinho escrito o seu De Vera Religione à toa?), tolerando, se for o caso, todas as demais.

Uma sociedade que não subordina o material ao espiritual, a lei positiva à lei eterna, o econômico ao político e este ao celeste — ou seja: que não busca politicamente fins transpolíticos, como diz Barrera em seu livro magistral — é, para dizer o mínimo, uma sociedade enfermiça, e de uma enfermidade não menos que terminal.

sábado, 27 de setembro de 2008

Chesterton (I) – pequena resenha virtual

Sidney Silveira
Posto, a seguir, um pequeno vídeo do Nougué (outro do blog), em que ele fala do livro A Inocência do Padre Brown, do genial G. K. Chesterton — editado pela Sétimo Selo. [A propósito da editora, agradeço penhoradamente a todos os que atenderam ao pedido feito aqui há alguns dias, de apoiar o nosso pequeno projeto comprando um livro, que fosse, na livraria virtual da editora. Este apoio é deveras importante para que prossigamos o caminho. E o faremos, com a ajuda de vocês, se Deus quiser].

Quanto à fala do Nougué, propriamente, talvez algumas almas cândidas se ericem ao ouvi-lo chamar James Joyce e Marcel Proust de “empulhadores” (direi eu mesmo, noutra ocasião, algumas palavras sobre estes dois ícones literários do século XX). Pois muito bem: de toda forma, como um começo de purgação ou cura para o estado tão delicado dessas almas, indico como remédio uma breve leitura da crítica literária que foi praticada entre nós por Mário Faustino e Álvaro Lins, nos tempos em que o bom-mocismo ainda não invadira as consciências dos literatos e de seus leitores.
Em tempo 1: Do link acima sobre Mário Faustino — uma entrevista com a professora Maria Eugênia Boaventura —, faço algumas ressalvas, entre as quais a sua opinião de que os suplementos literários dos grandes jornais melhoraram, da época de Faustino para cá. Mas vale mesmo assim, pois dimensiona quem foi esse poeta, esse crítico literário verdadeiramente demolidor. De Álvaro Lins recomendo a coletânea intitulada Os mortos de sobrecasaca, para termos uma idéia do que era, entre nós, a crítica literária publicada em jornais nas décadas de 40 e 50. É autor que merece uma reedição.
Em tempo 2: Prometi falar de Proust noutra ocasião, e certamente o farei. Mas não resisto a pôr aqui mais ou menos o que dizia, com ironia crítica, Gustavo Corção a respeito do autor de À la recherche du temps perdu: Proust buscou, buscou... e nada encontrou! E eu, que no passado muito me emaranhei por aqueles caminhos de Swann — numa época por assim dizer "estética" da minha vida, em que dava importância não menos que desmedida para literatura, literatos e literatices —, parafraseio o falecido escritor brasileiro: caminhei, caminhei... e quase me perdi.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

A estrutura da ação humana em sua completude (X)

Sidney Silveira
(continuação de: 1- A psicologia da ação humana)

A VIRTUDE

Já se anunciou
noutro texto que aprofundaríamos o conceito de virtude segundo Santo Tomás. Façamo-lo, a partir da seguinte divisão:

1- A virtude, em termos metafísicos e também ontológicos, é o que auxilia uma potência a atingir o ato específico ao qual tende. Nas palavras do Aquinate, trata-se de uma operação que ajuda um ente a alcançar o seu fim, razão pela qual se chama “força” (unde et vis dicitur). Ora, o fim próximo de uma coisa é atualizar todas as potências que lhe são distintivas; para este fim está ordenada a virtude da coisa. Daí Santo Tomás salientar que “a virtude de um cavalo é ser um bom cavalo”. Portanto, alcançar a virtude significa ter desenvolvido as potencialidades mais importantes em seu nível de excelência, de modo a alcançar a plenitude entitativa. Sendo assim, um homem virtuoso será o que aperfeiçoou as suas potências superiores (inteligência e vontade), fundamentais para que ele obre em ordem ao seu fim (no caso, o fim último, que é Deus).
2- A virtude, em sentido moral, é o meio-termo entre os vícios extremos referidos a um mesmo objeto. Meio-termo a ser buscado pelo homem. Trata-se, na prática, de um equilíbrio dinâmico que faz uso da prudência aplicando-a aos casos particulares. Esse equilíbrio, embora jamais chegue à perfeição nesta vida, se transforma em hábito bom que distingue o caráter de uma pessoa.

O objeto transcendental da virtude humana: o fim último

Se a virtude de uma perna são as potências motrizes que, quando atualizadas, propiciam a um homem o perfeito caminhar, e se a virtude de um estômago é a potência de enzimas que, quando atualizada, catalisa proteínas e acelera reações bioquímicas — facilitando com isto a digestão do alimento, para a qual o estômago opera —, o que dizer da virtude do homem enquanto ente? Para tanto, é necessário não perder de vista o fim último, como veremos.

O axioma escolástico “todo ente que obra, obra por um fim” nos aponta que a perfeição de uma coisa é o que a completa, é o que a torna plena. E, como diz o já citado Martín Echavarría, de acordo com a antropologia tomista, primeiramente se quer o fim, e secundariamente se querem as coisas que se ordenam ao fim. O fim é, portanto, a razão de o ente dotado de inteligência querer tudo o que quer. Aqui entra o “pulo do gato” da teoria da vontade de Santo Tomás: para o homem, entre todos os fins é necessário haver um fim último, pelo qual se desejam todos os demais; caso não o houvesse, não existiria nenhuma operação ou conduta propriamente humana. O problema estaria em resolver qual seria esse fim último estruturador de toda a vida humana, e que lhe dá sentido.

A resolução do problema nós a encontramos na Suma Teológica, IªIIª, questões 1 e 2 (ao todo, são apenas 16 artigos, cuja leitura eu firmemente recomendo!). Estão descritos ali o fim último e, também, em que consiste a bem-aventurança do homem; ou melhor: em que ela não pode consistir.

a) Não pode consistir nas riquezas;
b) não pode consistir nas honrarias;
c) não pode consistir na fama ou glória humana;
d) não pode consistir no poder;
e) não pode consistir em nenhum bem corporal;
f) não pode consistir no prazer;
g) não pode consistir em nenhum bem espiritual da alma.
h) não pode consistir em nenhum bem criado.

E não pode a bem-aventurança consistir em nenhuma dessas coisas porque nenhuma delas faz a vontade repousar absolutamente. Ora, se a felicidade se define como a posse habitual dos bens queridos, é claro que todos esses bens, sendo contingentes e passageiros, não podem trazer a felicidade em sentido estrito, nem fazer a vontade repousar — e quando digo “repousar”, não me refiro a uma suposta paralisia da vontade, mas ao fato de o querer estar perfeitamente contemplado pela inesgotável superabundância de bens a que pode dirigir-se. Assim, ninguém com muitos bens (sobretudos espirituais) quereria ter poucos; ninguém com saúde perfeita quereria perdê-la; ninguém que sabe muitas coisas quereria saber poucas; Deus, que é o Próprio Ser, não quereria ser o nada; etc. A pessoa mais feliz, portanto, seria aquela que, querendo um bem qualquer, logo estivesse na plena posse dele. Ora, só o fim último, que é Deus — doador do ser e fonte de todos os bens possíveis — poderia propiciar-nos tal felicidade perfeita, imperecível.

Leiamos uma famosa passagem da Suma Teológica (IªIIª, q. 3, a. 8., resp) , em que Santo Tomás diz o seguinte:

A bem-aventurança última e perfeita só pode estar na visão da essência divina. Para compreender isto, é preciso considerar duas coisas: A primeira é o que o homem não é perfeitamente bem-aventurado enquanto lhe falta algo por querer e buscar. A segunda é que a perfeição de qualquer potência se aprecia segundo a razão do seu objeto. Ora, o objeto do entendimento é o que é, quer dizer, a essência da coisa, como se diz no Livro III do De Anima. Por isso, a perfeição do entendimento progride na medida em que conhece a essência de uma coisa. Contudo, se o entendimento conhece a essência de um efeito, mas, por ela, não pode conhecer a essência da causa a ponto de saber desta o que é, não se diz que o entendimento chegou à essência da causa em sentido próprio (simpliciter), embora, mediante o efeito, possa saber apenas que a causa é. Assim, quando um homem conhece um efeito e sabe que este tem uma causa, naturalmente aumenta nele o desejo de saber o que é a causa. E este é um desejo [proveniente] da admiração, causa da investigação, como se diz no começo da Metafísica. Por exemplo: se alguém conhece o eclipse do sol, pensa que está produzido por uma causa e se admira com ela, porque não sabe o que é. E porque se admira, investiga. E esta investigação não cessa até que ele chegue a conhecer a essência da causa. Se, pois, o intelecto humano, conhecedor da essência de algum efeito criado, chega a conhecer a respeito de Deus que [Ele] é, [...] não alcança realmente a causa primeira, mas lhe fica um desejo natural de buscá-la. Por isso não pode [ainda] ser perfeitamente bem-aventurado. Assim, pois, para uma bem-aventurança perfeita se requer que o entendimento alcance a essência da causa primeira. E assim terá sua perfeição, mediante uma união com Deus como com o seu objeto, no qual unicamente consiste a bem-aventurança do homem (...)”.

Sendo assim, para o efetivo crescimento da virtude humana (a qual será sempre assintótica, diga-se), é necessário o fim último. Extirpe-se artificiosamente o fim último do horizonte humano, e tudo no homem se desagregará. Mas isto é questão complexa para outro texto (dado que seria necessário enumerar aqui as objeções dos que negam o fim último, e este post se estenderia por demais). Reitere-se apenas que a razão de ser de todas as virtudes não pode ser outra senão Deus — fim último e princípio de todas as coisas.

Uma questão


Já que falamos de virtude, deixemos agora um problema de teologia em aberto, para ser aprofundado noutra ocasião: se é ordinariamente a virtude dos sacramentos — ao quais operam in persona Christi — o que propicia ao homem a Graça, sendo esta absolutamente necessária para a sua salvação, como poderia um homem salvar-se fora da Igreja Católica, única administradora de todos os sacramentos? E mais: se a salvação for possível fora da Igreja, por que meios poderia formalmente acontecer, já que as virtudes meramente humanas são insuficientes para a bem-aventurança perfeita dos que se salvam?

Veremos, em outra oportunidade, o que nos diz Santo Tomás, com a autoridade doutrinal de Doutor Comum da Igreja.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Resistência e oração (heróica defesa de uma catedral na Argentina)

Carlos Nougué
No mês de agosto passado, na cidade de Neuquén, ao norte da Patagônia, na Argentina, sucedeu algo que não poderíamos deixar de mostrar aqui no blog.

Ao final de um “Encuentro Nacional de Mujeres”, as manifestantes mais radicais promoveram uma marcha pelo centro da cidade que passaria diante da Catedral. Um grupo de rapazes católicos postou-se no átrio da igreja para defendê-la de possíveis atentados (como de fato já tinha havido em manifestações semelhantes).

O bispo local tentou convencer os moços a não permanecer ali, mas não conseguiu, e, quando a passeata chegou, com gritos histéricos e blasfemos, propriamente diabólicos, os rapazes passaram a rezar, em voz alta, impavidamente, o rosário.

As feministas, além de alguns homens, entregaram-se a uma orgia de atos agressivos e soezes, lançando contra os jovens e a Igreja as mais baixas injúrias e cusparadas. Os católicos, porém, certamente movidos pela Graça, ignoraram as provocações e seguiram rezando com aquela firmeza e serenidade que nos acostumamos a ler nas histórias dos mártires, até que a polícia se interpôs entre eles e as feministas, que acabaram por ir-se, esgotadas de sua própria infâmia e aturdidas diante da manifestação de santidade contra a qual tinham acabado de se chocar sem, no entanto, compreendê-la.

Tudo isso, e mais, se verá perfeitamente no vídeo a que se tem acesso pelo seguinte link:
http://www.youtube.com/watch?v=FK40LwQfy7c . E os objetivos do tal "Encuentro" podem ser vistos em http://www.youtube.com/watch?v=LaFiPFFNqo8&feature=related, além de outras imagens da manifestação anticatólica, as quais mostram pichações ofensivas à Igreja.

Assim temos de atuar os católicos, sobretudo hoje, quando o príncipe deste mundo está à solta: contra gritos e cusparadas, contra ameaças e agressões, contra sarcasmos e impugnações, defender a Igreja, defender o magistério de sempre – defender a Cristo –, serenamente, armados de oração e doutrina, mas inabalavelmente, com a rigidez e a nervura das rochas.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

A música e a teoria dos transcendentais

Sidney Silveira
Posto a seguir mais um trecho da
entrevista concedida pelo Nougué ao Prof. Marcos Cotrin Barcellos, da Faculdade Católica de Anápolis, como encerramento da VIII Semana de Filosofia Prática, realizada em março deste ano.

Na parte selecionada em mais este vídeo do blog, trata-se da teoria dos transcendentais — aplicada à música —, assim como de um breve histórico da música pós-barroca. A propósito, uma das caracterísicas da arte pós-barroca (e não apenas na música, diga-se) é que o belo e o bem se dissociam. E há outra coisa facilmente identificável: a tendência ao sensualismo será crescente, o que não seria nenhum problema se a sensualitas, quando exacerbada, não afetasse as potências superiores da alma humana: a inteligência e a vontade.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Laicismo, o nada bendito fruto da teoria liberal

Sidney Silveira
Vimos noutra ocasião que, entre as nove teses maçônicas elencadas no hoje esquecido livro A Maçonaria no Brasil – orientação para os católicos, de D. Boaventura Kloppenburg, está a do Estado neutro em assuntos religiosos. Diz ela: “O Estado deve manter-se neutro ou indiferente perante qualquer religião concreta”.

Essa tese maçônico-liberal foi, na prática, o cavalo de Tróia do laicismo no Ocidente, e com ela inaugura-se uma nova fase civilizacional na história do mundo: a do Estado cego à transcendência. Uma rápida pesquisa histórica nos mostra que, desde a mais remota Antiguidade até o atual ocaso da Cristandade, as civilizações se ergueram e se desenvolveram reportando-se aos deuses (não entrarei, por ora, na questão das falsas e da verdadeira religião, e na distinção entre deuses pagãos e Deus verdadeiro, uno e trino). Não é por acaso, a propósito, que logo na primeira frase do diálogo outonal de Platão, As Leis, afirma-se que a legislação provém dos deuses. Ora, um grego, de uma maneira geral, jamais suporia o contrário sem cair no ridículo — assim como também um egípcio, um romano, um sumério, um cristão...

O sentido de unidade e, sobretudo, de permanência de uma cultura, de uma nação — a qual não exclui o Estado, a não ser para um liberal — sempre teve a sua fonte, o seu poder estruturador, o seu pólo dinamizador, a sua virtude unificadora em algo supra ou meta humano. Mesmo entre os pagãos. Em geral as sociedades começam a se destruir justamente quando perdem a referência religiosa. É o caso da nossa, com o agravante de que se trata de uma sociedade “global”, o que nos faz presumir o tamanho da destruição.

Os liberais que defendem a tese do Estado laico nos dias de hoje — os quais têm mais medo do “Estado” (nomenclatura na qual eles colocam tudo o que lhes convém) do que o diabo da cruz — fingem não ver que esta é a forma mais eficiente de fortalecer o Estado, de absolutizá-lo: torná-lo independente de Deus. Sem a lei eterna, sem algo imutável a lhe pôr uma amarra, o Estado será, na melhor das hipóteses, uma barafunda de legislações autofágicas e contraditórias entre si — representativa da babel de vontades cegas no seio de uma sociedade sem um porto seguro de valores, onde ancorar. E a história se repete, tediosamente: onde não se precisa obedecer a Deus, cai-se numa obediência às vontades mais comezinhas, mais mesquinhas.

O pior de tudo é que a tese maçônico-liberal do Estado religiosamente indiferente parte de um sofisma satânico: o de que a consciência individual é autônoma e, assim sendo, não deve ser “coagida” por nada externo a ela. Já mostramos aqui que os termos “consciência”, “indivíduo” e “autonomia” são usados maliciosamente de forma equívoca pelos defensores da tese. Ou seja: entre o conceito mental, o nome e a coisa nomeada não há a mais remota identidade. Mas não adianta trazer argumentos para o espírito de negação, tão essencialmente integrante do liberalismo, que, mais do que um non serviam, é formalmente um sevire conscientiam meam.

Com grande sabedoria, dizia Leão XIII — uma das glórias do Magistério da Igreja —, na Encíclica Libertas Praestantissimum, que, sendo Deus o princípio e o fim de todas as sociedades humanas, repugnaria à majestade da Sua providência que os Estados se desinteressassem da lei eterna, ou então fossem contra ela.

O fato é que, em suma, terminado o Estado confessional, acabamos por cair no Estado dos pecados “inconfessáveis”.

sábado, 20 de setembro de 2008

Enquanto isso...

Carlos Nougué
Assoberbado que estou de trabalho, mesclado com um estado de saúde não muito “confiável”, há cerca de uma semana não escrevo nada para o blog. Mas já voltarei a fazê-lo, para dar continuidade à série “Liberalismo e comunismo – rebentos da mesma raiz”.

Enquanto porém não o volto a fazer efetivamente, fiquem com o plano do final da série:

1) O que era o estado de justiça original
2) Por que foi perdido e as conseqüências dessa perda
3) A história da salvação e a Igreja
4) A lei (eterna, natural, humana positiva e divina positiva, e a lex fomitis)
5) O que é a pólis
6) Se não tivesse havido o pecado original, teria havido pólis?
7) A cidade cristã e a desigualdade enquanto natural e querida por Deus
8) Um nom serviam começado já na Idade Média
9) O que é a liberdade
10) A democracia liberal é uma ideologia
11) A democracia liberal é uma negação
12) A democracia liberal, em sentido estrito, não existe
13) A democracia liberal como moral: o liberalismo
14) A democracia liberal como sociedade anônima: o homem econômico
16) O comunismo, remate lógico da igualdade antinatural
17) Leviatã, o rei dos filhos do orgulho

Ou seja, esta série me ocupará por muito, muito tempo.

Até a volta.