quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Inchoatio

Sidney Silveira

O intelecto se faz inteligente em ato mediante uma forma (species) inteligível.
SANTO TOMÁS, Super librum De Causis expositio, Lectio III.

Essa curta frase resume toda a gnosiologia realista de Santo Tomás. As espécies inteligíveis, a que se faz alusão acima, são semelhanças das coisas na mente humana (sunt rerum similitudines, como afirma o Angélico numa conhecida passagem do De Veritate). Se isto é assim, somos levados a concluir que há uma preeminência ontológica do ser em relação ao conhecer (humano), assim como também há anterioridade — daí Santo Tomás argutamente enfatizar, no mesmo De Veritate, o seguinte: se não existisse a inteligência humana, ainda assim haveria o ser.

Só a inteligência do Criador pode ser metafisicamente coincidente com as coisas inteligidas, ou seja: as coisas são no mesmo ato e no mesmo instante em que são pensadas pela mente divina. Por isso, como já se disse aqui noutro post, Deus, quando pensa, cria.

Tudo bem: embora não sejamos capazes de criar, em sentido próprio, Deus quis prover-nos de uma inteligência apta a entender as coisas, ainda que por abstração — ou seja, uma inteligência totalmente aberta ao ser, capaz de adentrar-lhe as camadas mais íntimas. E essa aptidão, como se afirma no pequeno trecho de aula abaixo (mais um vídeo do blog), é como que um começo da verdade em nossa inteligência.

É claro que este começo pode não se desenvolver, por incontáveis razões, pode não chegar a assemelhar-se às coisas, pelo ato do conhecimento. Mas essa é uma história para outro post.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A estrutura da ação humana em sua completude (IX)

Sidney Silveira
(continuação de: 1- A psicologia da ação humana)
No último texto desta série, vimos que o intelecto não se subordina às necessidades biológicas, assim como o fato de que as operações imateriais do intelecto representam o grau mais elevado da ação humana. E ainda: o alcance da operação cognoscitiva humana transcende a matéria captada pelas potências sensitivas.

Continuaremos a seguir de perto a Martín Echavarría, cujo livro La praxis de la psicología y sus niveles epistemológicos según Santo Tomás, como já se disse, é simplesmente magistral.

B. Integração de sensação e razão.

1- O intelecto como centro da personalidade. O intelecto é a faculdade que, literalmente, governa a nossa personalidade, pois todas as potências sensitivas — inclusive a memória e a imaginação, que se dirigem a objetos particulares — se submetem ao intelecto, o qual se dirige ao universal, na mesma medida em que as causas particulares se subordinam às causas universais. E isto é comprovável empiricamente, pois qualquer homem pode verificar em si mesmo o influxo do pensamento universal em sua vida afetiva — tanto no movimento das paixões e de crises suscitadas por estas, como nos hábitos adquiridos que configuram o caráter.

Mas de que maneira pode o intelecto ter um lugar central na configuração do caráter? Justamente porque o intelecto capta a razão de fim, que contém em si todos os fins particulares a serem ordenados à ação que visa ao fim universal (por exemplo: para construir um prédio, o engenheiro subordina várias ações intermediárias à consecução do fim último, que é concluir a edificação da forma como ele a projetou). Por isto, diz Echavarría que o intelecto é o princípio estruturante e o ponto de referência operativo do homem. Vemos assim que não há paralelismo entre sentir e entender, embora muitas vezes estas duas formas de apreensão das coisas aconteçam simultaneamente. Isto porque, muito antes de Husserl, Santo Tomás já havia sublinhado a intencionalidade da intelecção, o que a distingue do apetite natural sensitivo.

Santo Tomás concebe o homem como um todo unitário, e nesta visão certamente a afetividade sensitiva está integrada à personalidade humana — com um papel importante, sim, mas subsidiário. Isto porque o homem, no que diz respeito ao seu caráter, pode ir além do temperamento que a sua constituição psicofísica lhe imponha, porque os apetites sensitivos são governáveis pela razão universal. Assim, um homem que tenha forte inclinação física para a satisfação do prazer sexual pode conter essa tendência graças à razão universal alcançada pelo intelecto, que lhe diz que, em várias ocasiões, não é correto dar vazão a essas apetências. Sendo assim, quanto mais perfeitamente o intelecto captar a razão de fim, melhor poderá manter as apetências sensitivas sob o seu império. Por isso, se o espírito é débil ou corrompido, se segue uma maior ou menor desordem na sensibilidade; se o espírito busca a harmonia com a sensibilidade, a personalidade do homem logra então um desenvolvimento cujos frutos serão bastante visíveis no plano ético, no nível da razão prática.

A liberdade, neste horizonte, seria a liberdade de transcender os objetos particulares e alcançar a verdade universal. E isto se dá graças ao intelecto, que move a vontade apresentando a esta a forma dos bens a serem queridos; e quanto mais perfeitamente a inteligência apresentar os bens (os entes) à vontade, mais livre esta será no exercício do seu ato próprio, a escolha (voltaremos a isto noutro texto). Veja-se aqui a enorme diferença entre a psicologia tomista e a perspectiva freudiana, segundo a qual quem obra propriamente não é o eu, mas forças que transcendem a pessoa humana e, literalmente, a escravizam, ainda que ela não saiba. Daí o pai da psicanálise dizer que o ego é um escravo tiranizado por três senhores: o mundo externo, a libido do id e a severidade do superego.

Em Freud, como diz Echavarría, a mens deixa de ser o centro e princípio reitor da personalidade humana, para converter-se em títere de forças alheias ou ocultas, pelas quais o homem não vive, propriamente, mas (por assim dizer) é vivido. Ora, se a natureza humana é isto, torna-se impossível toda melhora ou aperfeiçoamento moral. Impossível toda virtude.

A propósito, no próximo texto falaremos da virtude, que para Santo Tomás é um hábito operativo bom. Na verdade, um hábito configurador da personalidade bem desenvolvida. E como se anunciou no princípio desta série, se trata de um caminho longo, com o propósito de mostrar se a ação propriamente humana, para de fato não ser corrompida, pode ou não se coadunar com uma teoria econômica que visa sobretudo à multiplicação de bens materiais.

(prossegue)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A Metafísica dos Anjos (curso imperdível!)

Sidney Silveira
É com grande satisfação que divulgo neste espaço o curso “A Metafísica dos Anjos em Tomás de Aquino”, a ser ministrado em Niterói nos próximos dias 03/10, 10/10 e 17/10 pelo meu querido amigo Sergio de Souza Salles, doutor em Filosofia com uma tese sobre o De Potentia Dei, de Santo Tomás — sem dúvida, uma das mais densas obras do Aquinate.

Tratar-se-á de um curso livre (a realizar-se a pedido de alunos do Sergio) semelhante ao que foi ministrado por ele mesmo há dois anos na Academia Brasileira de Filosofia, no Rio, do qual participamos com entusiasmo eu, o Prof. Nougué e o meu nobre amigo Luiz Astorga — tradutor do De Substantiis Separatis para a Sétimo Selo, e que hoje aprofunda os estudos justamente em metafísica dos Anjos, na PUC de Santiago do Chile, onde com certeza se doutorará com louvor. Sem dúvida, aquela foi para nós uma ocasião de grande aprendizado e de fazer novas e genuínas amizades. Aqueles meses ficarão para sempre gravados na minha memória e no meu coração.

O Prof. Sergio Salles informa-nos que o curso está subdividido da seguinte forma:

03/10 – Tomás de Aquino e as disputas medievais sobre os Anjos
10/10 – A via do ser e o conhecimento dos Anjos
17/10 – O ser e a essência dos Anjos

As aulas acontecerão na Av. Visconde do Rio Branco, 633/sala 1008, no Centro de Niterói, bem perto da estação das Barcas. O custo total do curso será de APENAS R$ 60,00. Considerando tratar-se da mais elevada metafísica de Santo Tomás, está mais do que de graça!!!

Portanto, a quem puder, aconselho entusiasticamente: assista a estas aulas. Trata-se de um CURSO IMPERDÍVEL, ministrado por um professor a meu parecer excepcional.
As inscrições serão feitas diretamente com o Prof. Sergio Salles, pelo email sergio.salles@ucp.br

sábado, 13 de setembro de 2008

Pecado mortal, desgraça para a alma (I)

Sidney Silveira
Inferno, pecado mortal, salvação, juízo final, condenação, bem-aventurança e outras palavras, desgraçadamente, quase não são mais ouvidas nas Missas. Algumas delas parecem proscritas das homilias, e dão cada vez mais lugar a discursos sobre política, honestidade, solidariedade, ecologia, dia das mães, dia dos pais, entre outros assuntos de suma desimportância que não vale mencionar. Assim, os fiéis vão ficando doutrinalmente desorientados, e muitas vezes sequer têm idéia da licitude ou ilicitude de alguns de seus atos — isto sem falar que quase nunca são lembrados de que, de acordo com a doutrina bimilenar da Igreja, pode ir para o inferno mesmo uma pessoa piedosa, pagadora de suas dívidas, fiel ao cônjuge, amante da natureza, politicamente atuante em causas boas para o país, etc. Assim, a imensa maioria vai perdendo a noção da gravidade do pecado, e da urgência de dele nos afastarmos o quanto antes, se por desventura nossa caímos — e sempre por intermédio de uma boa Confissão e da freqüência aos Sacramentos.

Não é ocioso, portanto, destacarmos algumas dessas realidades, sempre de acordo com o parecer de teólogos, de Doutores da Igreja e do Magistério, seja solene ou ordinário. Comecemos pelo pecado mortal, seguindo de perto o Tratado de Teología Moral para Seglares, de Antonio Royo Marín, O.P.

O PECADO MORTAL

DEFINIÇÃO: O pecado mortal é a transgressão voluntária da lei de Deus em matéria grave.
Como diz o Angélico, essa monstruosa desordem espiritual faz do pecador réu da pena eterna. Portanto, o pecado mortal é o inferno em potência, pois um só desses pode levar-nos ao fogo eterno. O pecado mortal é, para Santo Tomás, o maior de todos os males possíveis, porque:

A) COM RELAÇÃO A DEUS, supõe uma gravíssima injustiça contra o Seu supremo domínio. Supõe também um desprezo pela amizade divina, a renovação da causa da morte de Nosso Senhor (como me disse certa vez um experimentado confessor, em cada pecado mortal é como se jogássemos no esgoto o sangue de Cristo) e uma violação do corpo do cristão como templo do Espírito Santo.
B) COM RELAÇÃO AO HOMEM, supõe um suicídio espiritual da alma, que por um só pecado mortal se vê imediatamente privada da Graça divina, fonte da vida sobrenatural. Atenção: POR UM SÓ ela perde os méritos naturais e sobrenaturais contraídos durante toda a sua vida, assim como o direito à Glória eterna. POR UM SÓ ela incorre em reato de pena eterna e na mais odiosa escravidão a Satanás (e aqui, poupo-me de citar exautivamente o Magistério infalível da Igreja, assim como Santo Tomás, quanto a este último ponto).

Condições que o pecado mortal requer

Para que haja pecado mortal, se requerem necessariamente três coisas: a) matéria grave; b) plena advertência por parte da inteligência; c) pleno consentimento por parte da vontade. Vejamo-las:

A MATÉRIA GRAVE
É evidente que nem todos os pecados são iguais. Existe desigualdade essencial entre o pecado mortal e o venial, e também nestas duas categorias de pecado há variados graus. A razão disto é que há distintos graus de desordem objetiva nas coisas más, e distintos graus de maldade subjetiva naquele que as comete.

O pecado mortal sempre requer matéria grave. Os critérios para conhecê-la são os seguintes:

A) A SAGRADA ESCRITURA. “Acaso não sabeis que os injustos não possuirão o Reino de Deus? Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os difamadores, nem os assaltantes possuirão o Reino de Deus”. (Cor. VI, 9-10). Há incontáveis outros textos da Sagrada Escritura que nos orientam sobre a matéria dos pecados mortais, que nos privam do céu.
B) O MAGISTÉRIO DA IGREJA, que determina acerca da licitude ou ilicitude de uma ação, assim como os graus de pecados e o perdão a eles concedido. O fundamento, aqui, é também escriturístico: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu; tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. (Mt. XVIII, 18).
C) A RAZÃO TEOLÓGICA. Esta pode ponderar o que se requer para que uma ação envolva grave desordem em relação a Deus, ou em relação ao próximo ou em relação a nós mesmos. A sentença comum dos maiores doutores e teólogos da Igreja em todos os tempos tem tal peso, que ninguém pode afastar-se dela sem manifesta temeridade.

Em geral, se consideram pecados mortais: a) os que vão diretamente contra Deus ou contra alguma de Suas perfeições (idolatria, desespero, blasfêmia, sacrilégio, etc.; b) os que prejudicam gravemente o próximo, em sua saúde, em sua vida, em sua fortuna ou em sua honra (assassinato, roubo, detração, calúnia, fraude, etc.); c) os que supõem uma desordem contra o próprio pecador, porque subvertem a natureza e o fim buscado por esta (auto-mutilação, masturbação, onanismo, adultério, etc.).

Continuaremos, num próximo post, com a tipificação do pecado mortal, utilíssima como orientação para os fiéis. E façamos uma importantíssima advertência: se alguém (provavelmente um liberal, ainda que enrustido) disser que as classificações da teologia moral são um excesso, e que bastam os 10 mandamentos para orientar-nos em nossa dificílima caminhada rumo ao céu, tenha certeza do seguinte: esta pessoa é não apenas uma péssima influência, mas é alguém que vai induzi-lo a toda sorte de pecados.
(prossegue)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A editora Sétimo Selo

Sidney Silveira
Alguns amigos e conhecidos recentemente manifestaram — pessoalmente e por email — o propósito de ajudar, de alguma maneira, o projeto da pequenina editora Sétimo Selo, cuja linha de publicações é fixa, porque não se amolda aos vaivens ou às oscilações do mercado editorial, razão pela qual não fizemos e jamais faremos pesquisas para saber se há ou não mercado para os livros que ela se propõe publicar. Apenas vamos publicando-os, na medida dos nossos parcos recursos e com a certeza de que o conteúdo de tais livros é um bem inestimável, sobretudo em se tratando do nosso triste Brasil.

Portanto, o sucesso ou o fracasso editorial da Sétimo Selo nós o entregamos a Deus, e a Ele agradeceremos por um ou por outro que vier: pelo improvável sucesso, por saber que terá sido um meio para a consecução de um fim maior, mais elevado: a difusão de bens que são um tesouro de que carecemos deveras, especialmente nos dias atuais; pelo plausível fracasso, para jamais perdermos de vista que os negócios humanos são nada, são “pó sem vento”, como afirma o padre Antônio Vieira num belo sermão.

Esses amigos e conhecidos, talvez tocados pela nobreza dos fins deste pequeno projeto editorial — e dizemos “nobreza dos fins” sem o menor prurido de escrupulosidade, pois sabemos bem a diferença entre a humildade e a falsa modéstia —, querem de alguma maneira ajudar-nos a editar Santo Tomás e outros autores também importantíssimos. Se é assim, aconselho-os: a melhor maneira de fazê-lo é, simplesmente, comprando um livro (um que seja) da Sétimo Selo. Portanto, aos que estão imbuídos desse espírito de ajuda, indicamos a loja virtual da editora, onde se pode comprar pela internet; entregamos em qualquer lugar do Brasil. São eles A Natureza do Bem, de Santo Agostinho, Sobre o Mal, de Santo Tomás, A Inocência do Padre Brown, de Chesterton; Sobre os Anjos (De Substantiis Separatis), de Santo Tomás; e A Política em Aristóteles e Santo Tomás (de Jorge Martínez Barrera).

Adendo do Nougué (ANÚNCIO DE CURSO): Como anunciado em artigo anterior, vamos ministrar uma espécie de “trivium”, com as seguintes matérias: Português, Latim (como subdivisões da Gramática) e Lógica (ficando de fora, pois, a Retórica).

Pois bem, começaremos por volta de março do próximo ano com o curso de Português (vide mais abaixo sua ementa). Será dado como Curso de Pós-graduação lato sensu, com diploma reconhecido pelo MEC, carga horária de 120 horas e mensalidade de cerca de R$ 150,00. A previsão é que seja ministrado em três cidades (São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre). Já está completa a turma de São Paulo, e estamos completando agora a do Rio.

Os que se interessarem em fazer o curso no Rio escrevam-me para carlosnougue@hotmail.com. Lembramos que é preciso ter diploma de graduação universitária.
* * *

EMENTA DO CURSO DE PORTUGUÊS

I) Uso e semântica:
1) dos adjetivos e advérbios;
2) dos artigos e pronomes;
3) dos verbos e seus diversos tempos e modos;
4) das preposições e conjunções.

II) As funções sintáticas:
III) Estilística 1:
1) Concordância verbal e nominal e as silepses;
2) Voz passiva sintética e analítica;
3) Colocação dos chamados pronomes átonos;
4) Pontuação.

VI) Estilística 2:
1) Paralelismo sintático;
2) Coordenação e subordinação;
3) Período e parágrafo.

Observação: os diversos itens da ementa poderão ser reordenados de acordo com o desenvolvimento do curso.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O latim ainda (III)

Carlos Nougué
Com a queda do Império Romano pelas hordas bárbaras, o latim entrou naquilo que em lingüística se costumou chamar deriva: já sem a civilização que lhe era a alma, tornou-se como um “cadáver”, que logo “se putrefaria” e desfaria numa multidão de dialetos cada vez mais distantes entre si, quer pela assimilação diversamente imperfeita do latim pelas várias tribos invasoras, quer pela influência das línguas destas sobre os falantes do idioma itálico.

Já no século VI, mais ou menos cem anos após aquela queda, chegava a desculpar-se o grande São Gregório de Tours, galo-romano, por seu mau latim. E, se foram precisamente as ordens monásticas e seus copistas que salvaram não só a língua latina, mas a própria herança literário-filosófica da Antiguidade clássica, o latim medieval, porém, tornar-se-ia uma espécie de “língua franca”. Seria usado na liturgia, nos documentos eclesiásticos e nas escolas (e, é claro, nas obras filosóficas e teológicas), mas em âmbito local cada um acabaria por falar o dialeto materno. É assim que Santo Tomás de Aquino se valerá da língua do Lácio no altar, nas cátedras universitárias e em suas obras escritas, mas usará o napolitano no lar e em toda a sua terra natal.

Será verdade, porém, como se diz largamente desde o Humanismo e a Renascença, que o latim escolástico, e em particular o do Aquinate, é bárbaro, pobre, sem brilho? Será ele inferior ao latim clássico de Cícero e Virgílio, ao latim imperial de Sêneca e Tácito, ao latim cristão de São Jerônimo e Santo Agostinho? Será, enfim, uma língua morta? Restrinjamo-nos ao latim do próprio Santo Tomás para provar o absurdo da pretensão.

Antes de tudo, Santo Tomás é autor de algumas das mais belas orações latinas jamais escritas: tão bem escritas, tão belas, tão perfeitamente poéticas, que sua tradução é, em termos estritos, praticamente impossível. Tomemos como exemplo Adoro te devote, cuja autoria a tradição nunca hesitou em atribuir ao Aquinate. (Transcrevemo-la usando acentos agudos para indicar a vogal tônica, os quais não necessariamente indicam som aberto. Ademais, lembre-se que em latim nunca houve acentos gráficos):

1. Adóro te devóte, látens Déitas,
Quae sub his figúris vére látitas;
Tíbi se cor méum tótum súbjicit,
Quía te contémplans tótum déficit
.

2. Vísus, táctus, gústus in te fállitur,
Sed audítu sólo túto credítur:
Crédo quídquid díxit Dei Fílius;
Nil hoc vérbo veritátis vérius
.

3. In crúce latébat sóla Déitas,
At hic látet símul et humánitas:
Ámbo támen crédens átque cónfitens,
Péto quod petívit látro paénitens
.

4. Plágas, sícut Thómas, non intúeor
Deus támen méum te confíteor;
Fac me tíbi sémper mágis crédere,
In te spem habére, te dilígere
.

5. O memoriále mórtis Dómini,
Pánis vívus vítam praéstans hómini,
Praésta méae ménti de te vívere,
Et te ílli sémper dúlce sápere
.

6. Pie pellicáne Jésu Dómine,
Me immúndum múnda túo sánguine,
Cújus una stílla sálvum fácere
Tótum múndum quit ab ómni scélere
.

7. Jésu, quem velátum nunc aspício,
Óro fíat íllud quod tam sítio:
Ut te reveláta cérnens fácie,
Vísu sim beátus túae glóriae. Ámem
.

Eis uma tradução dela ad litteram.

1. Adoro-vos devotamente, Divindade oculta,
Verdadeiramente escondida sob estas figuras;
A Vós meu coração se submete por inteiro,
Porque, contemplando-vos, tudo desfalece.

2. A vista, o tato, o gosto falham quanto a Vós,
Mas basta-me ouvir-vos para crer em tudo:
Creio em tudo quanto disse o Filho de Deus;
Nada mais verdadeiro que esta palavra de verdade.

3. Na cruz, ocultava-se apenas a vossa Divindade,
Mas aqui se oculta também a vossa humanidade:
Eu, porém, crendo em ambas e professando-as,
Peço o mesmo que pediu o ladrão arrependido.

4. Não fito, como Tomé, as vossas chagas,
Mas confesso-vos, meu Senhor e meu Deus;
Faça com que cada vez mais eu creia em Vós,
E em Vós espere, e a Vós vos ame.

5. Ó memorial da morte do Senhor,
Pão vivo que dá vida aos homens,
Fazei com que meu espírito viva de Vós
E lhe seja sempre doce este saber.

6. Piedoso pelicano,* Senhor Jesus,
Lavai-me a mim, que sou imundo, em vosso sangue,
Do qual uma só gota pode limpar
De toda iniqüidade o mundo inteiro.

7. Ó Jesus, que velado agora vejo,
Peço se cumpra isto que tanto desejo:
Ante a vossa face claramente revelada,
Ter a beatitude de ver a vossa glória. Amém

* Considerava-se o pelicano um animal especialmente zeloso com seu filhote, a ponto de, não tendo nada mais com que alimentá-lo, dar-lhe de beber seu próprio sangue. Por isso tornou-se um símbolo de Cristo, de seu Sacrifício na Cruz e de seu Sacrifício sacramental.

(Continua.)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A cegueira da mente, outro fruto da sensibilidade desordenada

Sidney Silveira
Ainda a propósito dos riscos a que o homem pode expor-se,
se a sua sensibilidade se exacerba, vale fazer um apontamento do que é, de acordo com Santo Tomás, a cegueira da mente (caecitas mentis). Nas palavras do Aquinate, ela provém de uma disposição habitual contrária à verdade, fruto da afetividade. Ou seja: é um não querer ver a verdade justamente porque considerá-la traria uma profunda transformação — além da dor psíquica de enxergar o quanto se estava em erro. Alguém nessa situação reprime a verdade e joga-a para um plano quase inconsciente, e, como diz Santo Tomás, raciocina a partir de premissas que se moldam à inclinação das paixões viciosas que, a esta altura, já se tornaram habituais. No plano da teologia moral, a cegueira da mente pode ser muito bem representada pela seguinte situação: o pecador, para continuar pecando, prefere inventar uma teoria qualquer a enxergar os seus atos em toda a dimensão que possuem. Em suma, tornou-se voluntariamente cego para os princípios que movem os seus próprios atos, e por essa cegueira da mente a sua inteligência se encontra impedida de deduzir a verdade segundo os princípios universais captados pela luz natural da mente, como diz Santo Tomás em diferentes passagens da Suma.

Não escapou ao Aquinate que essa verdade reprimida pelos afetos tende ao retorno, porque a
sindérese não pode ser de todo extinta, como tampouco pode ser extinto o seu princípio: essa mesma luz natural (lumen naturalis) da mente, que é imagem da face divina na parte superior da alma humana. Contudo, ocorre que, mesmo sendo inextinguível — por pertencer à natureza específica da alma racional (cf. Suma Teológica, IIªIIª, q. 15, a. 1, resp.) —, a luz natural da mente pode ser impedida de realizar o seu ato formal próprio (conhecer, por abstração das qüididades materiais, a essência das coisas), por causa da imaginação desgovernada pela sensibilidade (e aqui se deve frisar que o homem, para pensar, precisa das imagens dos entes, ou “fantasmas”, como as chamava Santo Tomás). Eis, portanto, a terrível situação do “cego mental”: desorientou-se a respeito das únicas coisas que realmente importam, o que lhe fará acumular pecados atrás de pecados, vícios atrás de vícios. E sem nenhum freio, até a sua consciência jogar a pá-de-cal sobre aquilo que deveria iluminá-la (e não nos esqueçamos de que a consciência pode estar em erro, e, por esta sua potência para a defectibilidade, não pode ser um princípio da ação humana).

Obviamente, para Santo Tomás, a cura da caecitas mentis não se dá por uma regressão em busca da representação da imagem reprimida — como acontece na psicanálise — mas pela contemplação das coisas eternas (a respeito dos modos dessa contemplação, falaremos noutra oportunidade).

Por ora, façamos um test drive teórico-prático: coloquemos essa teoria para uso próprio em vigência no mundo atual, repleto de imagens as mais abstrusas e intrinsecamente más (tão desgraçadamente opostas à contemplação das coisas eternas), imagens essas alcançáveis por um simples click no mouse, um simples toque no controle remoto da televisão, uma simples ida ao cinema, uma simples leitura de um livro com conceitos errados e com imagens terríveis, imagens feias, imagens grotescas, ainda que embelezadas por rastros de beleza quanto à forma com que são expressas ou veiculadas. Seja um site pornográfico, seja um desenho animado em que o malvado vence e tripudia do “bonzinho” (na verdade, um bonzinho fake e estúpido), seja um filme em que não há sequer uma sombra disto a que chamamos "virtude", mas só de graus distintos de malvadezas, seja um poema em que o “eu” lírico do poeta liricamente “empalha” o seu amante em versos metricamente perfeitos, ou então um poema que seja confessadamente, uma ode ao mal, seja, enfim, qualquer coisa grotesca, ainda que artesanalmente composta. O que fazer, nestes casos, se é pela imaginação exacerbada — tornada fetiche — que o homem cai no abismo psíquico e moral? [A propósito, Aristóteles já afirmava que o homem, depois que se deprava, não tem mais saída: será para sempre refém das imagens de seus próprios atos depravados]

Repito a indagação: o que fazer, amigos? Pois bem: vejamos a receita que nos dá o liberal: Nós devemos escolher as coisas boas e BOICOTAR as coisas más, mas isto sem jamais reprimir a liberdade da consciência individual, o que seria uma "tirania". Ora, tal resposta seria válida se a pura e simples contemplação de coisas más, em si mesma, não afetasse o âmago da nossa dinâmica psíquica... Mas afeta! E afeta na exata medida em que cria uma imagem nova — e uma imagem nova em nossa psique é, literalmente, uma nova possibilidade de pensamento e de ação. Por isso, os Padres do Deserto e alguns dos maiores doutores da Igreja de todos os tempos, assim como o
Magistério infalível, tantas vezes nos advertiram do seguinte: não demos asas à imaginação, mas antes busquemos a continência desta, pois o demônio precisa de imagens para seduzir e enganar o homem (já que não pode enganar um anjo, que possui, como ele, a intuição direta das essências, a captação imediata das verdades sobre os entes). Sendo assim, a liberdade que busca o liberal é, literalmente, a liberdade para escolher o pecado e o mal, o que é frontalmente contrário ao fim para o qual o homem foi criado por Deus.

Portanto, amigos, bastante cuidado com liberais que andam escrevendo por aí, em livros e em sites, por exemplo, que é preciso levar a imaginação às raias do impensável; com liberais que andam por aí divulgando obras de autores e “filósofos” que são verdadeiros encantadores de serpentes; com liberais que inventam teorias não apenas para justificar os próprios vícios (o que neste caso só importaria apenas a eles e a Deus), mas pior: justificá-los difundindo teorias que impugnam verdades fundamentais; com liberais que põem satanistas em destaque. Cuidado: a cegueira da mente desses homens é contagiosa.