quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O latim ainda (III)

Carlos Nougué
Com a queda do Império Romano pelas hordas bárbaras, o latim entrou naquilo que em lingüística se costumou chamar deriva: já sem a civilização que lhe era a alma, tornou-se como um “cadáver”, que logo “se putrefaria” e desfaria numa multidão de dialetos cada vez mais distantes entre si, quer pela assimilação diversamente imperfeita do latim pelas várias tribos invasoras, quer pela influência das línguas destas sobre os falantes do idioma itálico.

Já no século VI, mais ou menos cem anos após aquela queda, chegava a desculpar-se o grande São Gregório de Tours, galo-romano, por seu mau latim. E, se foram precisamente as ordens monásticas e seus copistas que salvaram não só a língua latina, mas a própria herança literário-filosófica da Antiguidade clássica, o latim medieval, porém, tornar-se-ia uma espécie de “língua franca”. Seria usado na liturgia, nos documentos eclesiásticos e nas escolas (e, é claro, nas obras filosóficas e teológicas), mas em âmbito local cada um acabaria por falar o dialeto materno. É assim que Santo Tomás de Aquino se valerá da língua do Lácio no altar, nas cátedras universitárias e em suas obras escritas, mas usará o napolitano no lar e em toda a sua terra natal.

Será verdade, porém, como se diz largamente desde o Humanismo e a Renascença, que o latim escolástico, e em particular o do Aquinate, é bárbaro, pobre, sem brilho? Será ele inferior ao latim clássico de Cícero e Virgílio, ao latim imperial de Sêneca e Tácito, ao latim cristão de São Jerônimo e Santo Agostinho? Será, enfim, uma língua morta? Restrinjamo-nos ao latim do próprio Santo Tomás para provar o absurdo da pretensão.

Antes de tudo, Santo Tomás é autor de algumas das mais belas orações latinas jamais escritas: tão bem escritas, tão belas, tão perfeitamente poéticas, que sua tradução é, em termos estritos, praticamente impossível. Tomemos como exemplo Adoro te devote, cuja autoria a tradição nunca hesitou em atribuir ao Aquinate. (Transcrevemo-la usando acentos agudos para indicar a vogal tônica, os quais não necessariamente indicam som aberto. Ademais, lembre-se que em latim nunca houve acentos gráficos):

1. Adóro te devóte, látens Déitas,
Quae sub his figúris vére látitas;
Tíbi se cor méum tótum súbjicit,
Quía te contémplans tótum déficit
.

2. Vísus, táctus, gústus in te fállitur,
Sed audítu sólo túto credítur:
Crédo quídquid díxit Dei Fílius;
Nil hoc vérbo veritátis vérius
.

3. In crúce latébat sóla Déitas,
At hic látet símul et humánitas:
Ámbo támen crédens átque cónfitens,
Péto quod petívit látro paénitens
.

4. Plágas, sícut Thómas, non intúeor
Deus támen méum te confíteor;
Fac me tíbi sémper mágis crédere,
In te spem habére, te dilígere
.

5. O memoriále mórtis Dómini,
Pánis vívus vítam praéstans hómini,
Praésta méae ménti de te vívere,
Et te ílli sémper dúlce sápere
.

6. Pie pellicáne Jésu Dómine,
Me immúndum múnda túo sánguine,
Cújus una stílla sálvum fácere
Tótum múndum quit ab ómni scélere
.

7. Jésu, quem velátum nunc aspício,
Óro fíat íllud quod tam sítio:
Ut te reveláta cérnens fácie,
Vísu sim beátus túae glóriae. Ámem
.

Eis uma tradução dela ad litteram.

1. Adoro-vos devotamente, Divindade oculta,
Verdadeiramente escondida sob estas figuras;
A Vós meu coração se submete por inteiro,
Porque, contemplando-vos, tudo desfalece.

2. A vista, o tato, o gosto falham quanto a Vós,
Mas basta-me ouvir-vos para crer em tudo:
Creio em tudo quanto disse o Filho de Deus;
Nada mais verdadeiro que esta palavra de verdade.

3. Na cruz, ocultava-se apenas a vossa Divindade,
Mas aqui se oculta também a vossa humanidade:
Eu, porém, crendo em ambas e professando-as,
Peço o mesmo que pediu o ladrão arrependido.

4. Não fito, como Tomé, as vossas chagas,
Mas confesso-vos, meu Senhor e meu Deus;
Faça com que cada vez mais eu creia em Vós,
E em Vós espere, e a Vós vos ame.

5. Ó memorial da morte do Senhor,
Pão vivo que dá vida aos homens,
Fazei com que meu espírito viva de Vós
E lhe seja sempre doce este saber.

6. Piedoso pelicano,* Senhor Jesus,
Lavai-me a mim, que sou imundo, em vosso sangue,
Do qual uma só gota pode limpar
De toda iniqüidade o mundo inteiro.

7. Ó Jesus, que velado agora vejo,
Peço se cumpra isto que tanto desejo:
Ante a vossa face claramente revelada,
Ter a beatitude de ver a vossa glória. Amém

* Considerava-se o pelicano um animal especialmente zeloso com seu filhote, a ponto de, não tendo nada mais com que alimentá-lo, dar-lhe de beber seu próprio sangue. Por isso tornou-se um símbolo de Cristo, de seu Sacrifício na Cruz e de seu Sacrifício sacramental.

(Continua.)

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A cegueira da mente, outro fruto da sensibilidade desordenada

Sidney Silveira
Ainda a propósito dos riscos a que o homem pode expor-se,
se a sua sensibilidade se exacerba, vale fazer um apontamento do que é, de acordo com Santo Tomás, a cegueira da mente (caecitas mentis). Nas palavras do Aquinate, ela provém de uma disposição habitual contrária à verdade, fruto da afetividade. Ou seja: é um não querer ver a verdade justamente porque considerá-la traria uma profunda transformação — além da dor psíquica de enxergar o quanto se estava em erro. Alguém nessa situação reprime a verdade e joga-a para um plano quase inconsciente, e, como diz Santo Tomás, raciocina a partir de premissas que se moldam à inclinação das paixões viciosas que, a esta altura, já se tornaram habituais. No plano da teologia moral, a cegueira da mente pode ser muito bem representada pela seguinte situação: o pecador, para continuar pecando, prefere inventar uma teoria qualquer a enxergar os seus atos em toda a dimensão que possuem. Em suma, tornou-se voluntariamente cego para os princípios que movem os seus próprios atos, e por essa cegueira da mente a sua inteligência se encontra impedida de deduzir a verdade segundo os princípios universais captados pela luz natural da mente, como diz Santo Tomás em diferentes passagens da Suma.

Não escapou ao Aquinate que essa verdade reprimida pelos afetos tende ao retorno, porque a
sindérese não pode ser de todo extinta, como tampouco pode ser extinto o seu princípio: essa mesma luz natural (lumen naturalis) da mente, que é imagem da face divina na parte superior da alma humana. Contudo, ocorre que, mesmo sendo inextinguível — por pertencer à natureza específica da alma racional (cf. Suma Teológica, IIªIIª, q. 15, a. 1, resp.) —, a luz natural da mente pode ser impedida de realizar o seu ato formal próprio (conhecer, por abstração das qüididades materiais, a essência das coisas), por causa da imaginação desgovernada pela sensibilidade (e aqui se deve frisar que o homem, para pensar, precisa das imagens dos entes, ou “fantasmas”, como as chamava Santo Tomás). Eis, portanto, a terrível situação do “cego mental”: desorientou-se a respeito das únicas coisas que realmente importam, o que lhe fará acumular pecados atrás de pecados, vícios atrás de vícios. E sem nenhum freio, até a sua consciência jogar a pá-de-cal sobre aquilo que deveria iluminá-la (e não nos esqueçamos de que a consciência pode estar em erro, e, por esta sua potência para a defectibilidade, não pode ser um princípio da ação humana).

Obviamente, para Santo Tomás, a cura da caecitas mentis não se dá por uma regressão em busca da representação da imagem reprimida — como acontece na psicanálise — mas pela contemplação das coisas eternas (a respeito dos modos dessa contemplação, falaremos noutra oportunidade).

Por ora, façamos um test drive teórico-prático: coloquemos essa teoria para uso próprio em vigência no mundo atual, repleto de imagens as mais abstrusas e intrinsecamente más (tão desgraçadamente opostas à contemplação das coisas eternas), imagens essas alcançáveis por um simples click no mouse, um simples toque no controle remoto da televisão, uma simples ida ao cinema, uma simples leitura de um livro com conceitos errados e com imagens terríveis, imagens feias, imagens grotescas, ainda que embelezadas por rastros de beleza quanto à forma com que são expressas ou veiculadas. Seja um site pornográfico, seja um desenho animado em que o malvado vence e tripudia do “bonzinho” (na verdade, um bonzinho fake e estúpido), seja um filme em que não há sequer uma sombra disto a que chamamos "virtude", mas só de graus distintos de malvadezas, seja um poema em que o “eu” lírico do poeta liricamente “empalha” o seu amante em versos metricamente perfeitos, ou então um poema que seja confessadamente, uma ode ao mal, seja, enfim, qualquer coisa grotesca, ainda que artesanalmente composta. O que fazer, nestes casos, se é pela imaginação exacerbada — tornada fetiche — que o homem cai no abismo psíquico e moral? [A propósito, Aristóteles já afirmava que o homem, depois que se deprava, não tem mais saída: será para sempre refém das imagens de seus próprios atos depravados]

Repito a indagação: o que fazer, amigos? Pois bem: vejamos a receita que nos dá o liberal: Nós devemos escolher as coisas boas e BOICOTAR as coisas más, mas isto sem jamais reprimir a liberdade da consciência individual, o que seria uma "tirania". Ora, tal resposta seria válida se a pura e simples contemplação de coisas más, em si mesma, não afetasse o âmago da nossa dinâmica psíquica... Mas afeta! E afeta na exata medida em que cria uma imagem nova — e uma imagem nova em nossa psique é, literalmente, uma nova possibilidade de pensamento e de ação. Por isso, os Padres do Deserto e alguns dos maiores doutores da Igreja de todos os tempos, assim como o
Magistério infalível, tantas vezes nos advertiram do seguinte: não demos asas à imaginação, mas antes busquemos a continência desta, pois o demônio precisa de imagens para seduzir e enganar o homem (já que não pode enganar um anjo, que possui, como ele, a intuição direta das essências, a captação imediata das verdades sobre os entes). Sendo assim, a liberdade que busca o liberal é, literalmente, a liberdade para escolher o pecado e o mal, o que é frontalmente contrário ao fim para o qual o homem foi criado por Deus.

Portanto, amigos, bastante cuidado com liberais que andam escrevendo por aí, em livros e em sites, por exemplo, que é preciso levar a imaginação às raias do impensável; com liberais que andam por aí divulgando obras de autores e “filósofos” que são verdadeiros encantadores de serpentes; com liberais que inventam teorias não apenas para justificar os próprios vícios (o que neste caso só importaria apenas a eles e a Deus), mas pior: justificá-los difundindo teorias que impugnam verdades fundamentais; com liberais que põem satanistas em destaque. Cuidado: a cegueira da mente desses homens é contagiosa.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

O mistério da história (II e final)

Carlos Nougué
Assim como, na Terra, a Igreja nunca se verá totalmente desembaraçada de pecadores e traidores (as varas da videira que não dão fruto, como se lê em João XV, 1-2), nem nunca poderá depor a Cruz do Esposo, assim também nunca tornará a haver um paraíso terrestre, porque, como quer que seja, em maior ou menor medida, as cidades morredouras sempre acabam por contagiar-se de peçonhas diabólicas. Só a Igreja, enquanto tem por cabeça a Cristo mesmo e enquanto o Lavrador acaba sempre por lançar-lhe ao fogo as varas estéreis e secas (João XV, 6), é isenta de tal contágio, a mesma Igreja que, todavia, conquanto sabedora da perecibilidade das cidades carnais, sempre buscou trazê-las para as fileiras do Senhor dos Exércitos.

Se porém tal é fato, por que, então, a sucessão dos séculos e a própria perecibilidade das civilizações? Porque é justamente no interior da sucessão dos séculos, tornada plenitude irreversível dos tempos, e mediante os esforços e provações dos movidos pelo Espírito, que se vai formando o corpo da Igreja triunfante — para a maior glória de Deus e para o bem do mundo que Ele tanto amou, o mundo dos eleitos. E como se completará o número dos membros da Igreja triunfante? Sempre pela graça e pelo mérito de Cristo, e em meio às tribulações e sofrimentos inauditos do fim dos séculos. Será então que, fazendo cessar a história, Cristo introduzirá a Esposa na Jerusalém celeste e lançará para sempre Satã e os demais demônios no lago eterno de fogo e enxofre, o lugar da segunda e definitiva morte (Apocalipse XXI e XXII).

Por certo — e devemos precaver-nos de um falso desprezo do mundo, dado que o desprezo do mundo ou será católico e místico, ou será uma contrafação — há ainda a finalidade terrestre da sucessão dos tempos, a saber, “permitir à natureza humana desdobrar as suas virtualidades na obra de civilização” (R.-Th. Calmel O.P., Théologie de l’histoire, p. 12); mas tal finalidade permanecerá sempre secundária e terá sempre caráter de meio, uma vez que a finalidade suprema e última da história não é temporal, não é secular — “é a manifestação, pela Igreja, da glória de Cristo e da virtude da sua cruz em todos os santos e em todos os bem-aventurados” (idem), ou seja, por outro ângulo, a já referida completação do número dos eleitos. Tudo o mais a isto se subordina, inapelavelmente.

E eis que o próprio Senhor nos quis dar luzes sobre os derradeiros dias deste mundo e sua figura, sobre tal misterioso remate da história: ainda que inauditamente tremendos, medonhos e estranhos, os últimos anos do definitivo declínio terão algo em comum com todos os milênios que os terão precedido e preparado desde a Anunciação, desde a Encarnação, desde o Calvário, desde Pentecostes. Eles se inserirão, como os demais, justamente na plenitude dos tempos, que não é senão, por tudo quanto já vimos, um dom do Verbo encarnado ao mundo dos eleitos. Nunca perderá o Filho o poder de que o investiu o Pai, e nunca deixará de percorrer vitorioso a Terra sobre o seu corcel branco. (“Depois vi o céu aberto, e eis um cavalo branco, e o que estava montado chamava-se o Fiel e Verdadeiro, que julga com justiça, e combate. E os seus olhos eram como uma chama de fogo, e ele tinha sobre a cabeça muitos diademas, e um nome escrito, que ninguém senão ele mesmo conhece. E vestia uma roupa salpicada de sangue; e o seu nome é Verbo de Deus” [Apocalipse XIX, 11-13].)

“É por um desígnio de amor que o Senhor quer que Sua Esposa, a santa Igreja, seja configurada à Sua Paixão; que ela faça em certa medida a experiência das trevas e do desamparo do Jardim das Oliveiras. Ela deve ressentir à sua medida o alcance misterioso deste ‘Sinit usque huc’ (Lucas XXII, 51) que Jesus pronunciou em sua santa agonia. Se o Senhor quis para Sua Esposa, em certas épocas, uma experiência mais profunda das dores da Sexta-Feira Santa, é porque quis dar-lhe também provas ainda mais profundas da eficácia de Seu Poder e da intensidade de Seu Amor” (idem).

Assim é: todo o mistério da história se resolve no Amor efusivo do Criador, este Amor cuja grandeza é sem medida, e cuja onipotência e onipresença são um seio sempre providencial e beatífico.

Em tempo: “É muitíssimo verdadeiro que em nossos dias as nações rugiram e os povos meditaram projetos insensatos contra o Criador (Salmo 2); eles gritaram com voz quase unânime: Retirai-vos daqui (Jó XXI, 14). Daí, em grandíssimo número, o desaparecimento completo do respeito ao Deus eterno; daí os hábitos da vida privada e pública que fazem total abstração da sua soberania; muito mais ainda, esforçam-se por todos os meios e com toda a astúcia possível para fazer desaparecer absolutamente a lembrança de Deus e até a sua noção. Quem considera essas coisas não poderá evitar o temor de que tal perversão dos espíritos seja como que um antegosto e prelúdio dos males que devem sobrevir no fim dos séculos, e de que o filho da perdição de que fala o Apóstolo já esteja em ação sobre a terra (II Epístola aos Tessalonicenses II, 3), de tão extraordinários que são a audácia e o furor do assalto generalizado contra a piedade e a religião, os ataques contra os dogmas da fé revelada, a obstinação em pôr fim a todo e qualquer dever religioso ” (São Pio X, Encíclica E Supremi Apostolatus Cathedra).

domingo, 7 de setembro de 2008

A sensibilidade e seus riscos

Sidney Silveira
Vimos noutras ocasiões que o objeto formal de uma potência sensitiva — nesse composto psicossomático que é o homem — é um sensível, ou seja: um ente que se apresenta a um dos nossos sentidos na forma exata como a potência sensitiva o pode captar. Assim, não cabe ao olho resolver um problema de matemática, mas apenas ver determinada equação escrita no papel ou numa tela de computador, pois o ato a que o olho tende é limitado por sua própria potência, que é potência para ver, apenas*. E assim também ocorre com os nossos demais sentidos, internos ou externos. Como todos os demais entes, eles estão limitados pelas potências inscritas em suas próprias formas.

Dado que os sentidos se limitam a captar, em maior ou menor grau, a materialidade dos entes, isto lhes traz outra limitação, que é física. Santo Tomás exemplifica muito bem isto ao dizer, em diferentes ocasiões (como no seu magnífico comentário ao Liber de Causis), que a excelência de um objeto sensível corrompe o sentido que o capta: o excessivamente luminoso nos cega, o excessivamente quente nos queima, o excessivamente sonoro nos ensurdece e assim por diante. Mas o mesmo não ocorre com os inteligíveis: a sobreexcelência do sumo inteligível que é Deus, embora este jamais possa vir a ser entendido exatamente como é pelo homem (para Santo Tomás, nem mesmo na visão beatífica, quando os bem-aventurados verão a Deus face a face), não só não corrompe a inteligência do homem, mas torna-a incomensuravelmente melhor. E assim também com os demais inteligíveis, razão pela qual quanto mais entendemos, melhor entendemos. Mas o mesmo não se dá com os sentidos, com os quais ocorre o contrário: um excesso de sentir, uma hipertrofia na sensibilidade acaba funestamente trazendo um déficit no entendimento das coisas. Às vezes até impossibilita-o de todo, nos casos de paixões ou patologias mais graves.

Esta verdade antropológica foi trazida à luz por grandes pensadores de todos os tempos. Em suma, é preciso haver circunstâncias extrínsecas favoráveis para não exacerbarmos a nossa sensibilidade; quando não as há, ou seja, quando as circunstâncias extrínsecas não apenas não permitem o recolhimento interior, mas além disso excitam os sentidos de forma exagerada, as energias do espírito se esgotam dramaticamente, a ponto de as verdades mais elevadas sobre os entes se tornarem vedadas, por completo. Como dizia o padre Leonel Franca, a intemperança tem uma ação dissolvente sobre as energias psíquicas. Por isso, sem uma ascese que propicie a temperança na sensibilidade, jamais um homem poderá sequer aspirar a conhecer as verdades mais altas. Vejamos o que nos lembra o mesmo Leonel Franca, num trecho de seu formidável A Psicologia da Fé:

“Já Pitágoras submetia os seus discípulos a um longo tirocínio de virtudes que os preparassem à visão clara da sabedoria. Um ascetério era o vestíbulo da escola. (...) Platão desenvolveu muito mais amplamente a necessidade de purificação da vida para as ascensões do espírito. Todos conhecem o itinerário por ele traçado à inteligência para elevar-se das coisas sensíveis à contemplação das verdades invisíveis e principalmente à Idéia do Bem. Essa felicidade suprema é essencialmente condicionada pelo esforço de uma purificação completa. (...) O neopitagorismo, com sua disciplina ascética, e o estoicismo, com a predominância de suas preocupações morais, desenvolveram e ampliaram as idéias de Platão. (...) Mas foi sobretudo a escola neoplatônica [com Plotino] a que mais acentuou esta necessidade de uma preparação moral para o conhecimento das mais altas verdades (...)”.

O cristianismo deu a todas essas práticas ascéticas o equilíbrio necessário (e perfeito, já que proveniente de uma fonte sobrenatural divina). O resultado foi a resolução teórica e prática do problema das relações entre alma e corpo, sentidos e inteligência. Não nos deteremos nessa resolução teórica e prática — limito-me, no momento, a indicar a todos a leitura dos tratados da IªIIª e da IIªIIª da Suma Teológica, onde há uma condensação das soluções para o problema que nos ocupa. E fiquemos, por ora, apenas com a certeza de que é preciso praticar a continência na sensibilidade (sobretudo se considerarmos, como católicos, que a nossa natureza é decaída em razão do pecado original, e, por isto, tendente a toda a sorte de erros e corrupções).

Reiteremos aos leitores do blog: guardem bem isto, porque a série que começaremos em breve, sobre o cinema, partirá desta certeza (a qual tem como base uma bem-estruturada antropologia, baseada por sua vez em premissas metafísicas sem as quais, como já se disse, não se progride no estudo da filosofia): a necessidade de não exacerbarmos a nossa sensibilidade com imagens que podem obliterar a inteligência, desorientar o espírito, cauterizar a consciência e, enfim, arrojar-nos num abismo moral sem fundo.

* Que nos aguarde Xavier Zubiri, filósofo para quem sentimos entendendo e entendemos sentindo. Dessa sua tese, de indisfarçada inspiração fenomenológica, nos ocuparemos noutra oportunidade.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

O mistério da história (I)

Carlos Nougué
“Cremos que uma das vindas [de Cristo] mais inauditas, e mais consoladoras, será a conversão do povo de que Ele procedeu segundo a carne, o povo judeu [...]. Nós somos advertidos pela Escritura de que o Senhor o reconduzirá. Ignoramos as modalidades desta reintegração [...]. O que importa é apressar pela nossa prece a conversão de Israel, o povo de que o Filho de Deus se originou segundo a carne, o povo da Virgem Imaculada e dos doze Apóstolos. Que o Senhor, em cada Missa, digne-se lembrar do nosso pai Abraão, que Lhe ofereceu como figura o sacrifício que nós oferecemos realmente; e que Ele reconduza a Si a descendência carnal do primeiro patriarca. Supra quæ propitio ac sereno vultu respicere digneris...

Vinde, Senhor Jesus. E temos certeza de que vireis. Seja resplandecente a vossa visita ou permaneça oculta no seio da noite — vireis infalivelmente. Nunca rejeitais a prece de vossa Esposa; nunca lhe frustrais a espera. — Quando não concedeis exatamente o que pedimos, concedeis o que preferiríamos se já tivéssemos sido admitidos na contemplação face a face de Vós. O Senhor está perto de todos os que O invocam, de todos os que O invocam com sinceridade (Salmo 144).

Vinde, Senhor Jesus. — Sim, venho depressa” (R.-Th. Calmel O.P., Théologie de l’histoire, pp. 109-110).

Que é, teologicamente, um mistério? Antes de tudo, não confundamos este tipo de mistério com enigma. Enigma pode ser, correntemente: uma questão proposta em termos obscuros, ambíguos, para ser interpretada ou adivinhada por alguém; qualquer enunciado ambíguo ou velado; coisa inexplicável, aquilo que não se pode compreender. Mistério, por seu turno, nos termos que nos interessam aqui, é o objeto — objeto de fé, dado pela Revelação — que possuímos, sim, intelectualmente, embora nunca lhe possamos esgotar o conhecimento: é multifacetado ao infinito. Suas faces são como as páginas do livro de areia que inventou, em sua ficção, o agnóstico escritor argentino Jorge Luis Borges, as quais, quanto mais se viram, mais se multiplicam. O mistério, todavia, nós, os católicos, o queremos possuir e possuir pela fé, ao contrário do que sucede com o personagem borgiano: não suportando a visão de tal livro, acaba por livrar-se dele. A fé, que nos é infundida por Deus mesmo, e que tem por sede ou vaso a razão, é-nos dada justamente para nos possibilitar aquele querer e aquela efetiva posse.

Também a história é, de muitos modos, um mistério, igualmente multifacetado. E a face mais superficial deste mistério é talvez o fato de que todos os intentos dos diversos povos invariavelmente malogram, quando muito, no instante mesmo em que estes parecem mais seguros de suas rédeas. Trata-se de uma evidência, e nem a necessitaríamos exemplificar com os casos sem fim de civilizações e povos pagãos cujo ápice foi a sua própria ruína. O Império de Alexandre? O Império Romano? O Império britânico? Basta-nos o caso mais decisivo, e tão diretamente concernente a nós, os católicos: a Civilização Cristã, cujos alicerces começam a fender no momento mesmo (século XIII) em que ela atinge o zênite com as esguias torres de suas catedrais e do tomismo.

Pois bem, falar nesta face mais superficial do mistério da história é falar, já, em outra, muito mais profunda e tenebrosa: “O mistério da iniqüidade está em ação desde o presente”, escrevia São Paulo aos Tessalonicenses já no momento mesmo em que surgia a Igreja fundada por Cristo. Ora, falar no mistério do mal é tocar imediatamente o mistério da permissão do mal pelo Altíssimo, o Qual, no entanto, é a própria Bondade, razão por que, se o permite, é necessariamente por um bem infinitamente superior.

Além do mais, o Verbo — o Filho unigênito de Deus — se fez carne e habitou entre nós, e eis-nos perante uma face capital do mistério da história: o termos entrado na plenitude dos tempos precisamente quando começava o tempo “maior” da Redenção (vide Gálatas IV e Efésios I, 10). “O Pai amou tanto o mundo, que chegou a lhe dar o seu próprio Filho único e com Ele todos os bens [...]”, escreve o Padre Calmel; “por outro lado, a Igreja sempre santa fundou-se para sempre, com os seus poderes hierárquicos definidos e indestrutíveis, para nos fazer participar dos tesouros inefáveis de sabedoria e de graça que estão ocultos no coração do Senhor Jesus” (ibid., pp. 9-10). E, se saber esta verdade misteriosa, ou seja, que estamos desde Cristo na plenitude dos tempos, impede a adesão às teses modernistas segundo as quais a Igreja há de ser ultrapassada por uma “Supra-igreja”,* sabê-la é também, por outro lado, ferir de morte todo e qualquer milenarismo, como veremos no próximo artigo.

* “São Paulo sem dúvida libertou do Judaísmo a Igreja nascente, mas o fez para permitir à Igreja afirmar-se tal qual é: Igreja de Jesus e da nova lei, não igreja da lei mosaica, que terminou para sempre desde o dia da Páscoa e de Pentecostes. Seria pois uma sinistra facécia reclamar-se por exemplo de São Paulo para pretender libertar a Igreja de não sei que sobrevivências arcaicas, quando se sabe que estas sobrevivências não são senão as estruturas da Igreja queridas pelo Senhor: doutrinas definidas e sacramentos determinados. Tal facécia sinistra [pretende livrar] a Igreja do peso de vinte séculos de tradições, e [ultrapassar] vinte Concílios dogmáticos. [...] Ultrapassagem que é um embuste” (R.-Th. Calmel O.P., op. cit., p. 10).

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O que é a história (III e final)

Carlos Nougué
Chamamos sociais aos eventos para sublinhar que, aqui, só se trata dos eventos que importam para as sociedades, para as nações, para as civilizações. Por outro lado, dizemos que os eventos sociais se cumprem pela Providência através do livre-arbítrio do homem, o que é noção teológica básica: Deus não governa as sociedades e o homem sem o concurso pessoal deste. Ele não lhe tira a capacidade de mover e de automover-se como causa segunda. Fazendo-o, o soberano Criador nada aliena da sua soberania absoluta; apenas o governa e move sem lhe violentar a natureza de pessoa (ausência de violência que, aliás, é verdadeira até com respeito aos corpos inferiores: cf. o Capítulo LXXXV do Livro I da Suma contra os Gentios, de Santo Tomás de Aquino: “A vontade divina não tira a contingência das coisas nem lhes impõe necessidade absoluta”). Segundo uma ousada expressão, “somos livremente escravos sob a Sua mão todo-poderosa”. Deve-se, porém, dizer mais: não só Deus é, mediante a Sua providência, o criador que conduz a seu fim todos os aspectos da atividade humana, mas também, como autor da graça, é o agente causador de todos os bens que se ordenam à salvação do homem, uma vez que o homem não opera estes bens senão enquanto movido pela graça divina.

Por fim, falamos em consecução dos destinos sobrenaturais da humanidade, e é preciso explicá-lo algo detidamente. Antes de tudo, obviamente não se trata aqui da humanidade endeusada que governa os sistemas históricos do panteísmo ou do neopaganismo moderno, mas sim do conjunto de indivíduos, famílias e nações que se mantiveram ou mantêm sob o governo direto do Senhor, quer, antes de Cristo e ao modo de preparação, no seio do povo judeu, quer, depois de Cristo, no seio da Igreja. Ora, o homem possui (ou pode possuir) dois elementos muitíssimo diversos: a natureza e a graça, entendendo-se a natureza como o seu corpo e alma unidos complementarmente, e entendendo-se a graça como o dom gratuito de Deus à natureza criada por Ele próprio — como a comunicação de uma operação infinita ao ente finito para elevá-lo sobrenaturalmente, sem que se diminua a divindade ao comunicar-se, nem se destrua a natureza do ente finito. Mas “como posso, Senhor, conter o Infinito no pequeno vaso do meu coração?”, perguntava-se o Padre Pio. Tal é possível porque “[...] na alma humana, como em qualquer criatura, [há] dois tipos de potência passiva, uma com relação ao agente natural, e a outra com relação ao agente primeiro, [potência esta] que pode levar uma criatura qualquer a algum ato mais elevado que o ato a que é levada pelo agente natural; e a [este segundo tipo de potência passiva] se costumou chamar potência obediencial da criatura” (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 11, a. 1, corpus; destaques nossos).

E, com efeito, na atual e derradeira etapa da economia da salvação, necessita o homem de três tipos de sociedade: dois naturais, a família e o Estado, e um formalmente sobrenatural, a Igreja, devendo-se ordenar aqueles a esta. Necessita da família para o aprendizado ético; do Estado pelo que suas instituições e leis lhe proporcionam, para ajudá-lo a adquirir e conservar os bens que lhe competem segundo a sua própria natureza; e da Igreja pelo seu magistério, pelas suas próprias leis, e sobretudo pelos seus sacramentos, que são causa da graça. Ora, a graça permite ao homem um saber infinitamente mais alto e virtudes imensamente mais elevadas, ou seja, o mais excelente viver, em que não só se é maximamente homem, mas, muito mais que isso, pode o homem, pela fé e com sua natureza conformada ao sobrenatural, ter incoada já aqui na Terra a vida eterna. E é justamente por isso que o estudioso da história pode, ao traçar os eventos sucedidos sob o governo de Deus e sob a ação da graça, relacionar a vida dos indivíduos, das famílias e dos Estados aos destinos sobrenaturais da humanidade.

O mais, ou seja, todos os sistemas históricos quiméricos preparados no caldeirão do anticristianismo, não visa senão a um triplo esquecimento: do Altíssimo, da Igreja e da lei natural. É a enfermidade que, cada vez mais aguda ao longo de séculos de voluntarismo, nominalismo e humanismo, se torna crônica com as escuras luzes dos anos de sangue e guilhotina. Daí é só um passo para que sobrevenham, qual monstros nascidos daquele monturo de sombras e terror, o super-homem, e o homem econômico, e o Estado e as corporações totais — o “admirável mundo novo” da multidão dos sem-fé e dos indiferentistas religiosos.

P.S. 1: O mérito humano em ordem à salvação não reside em nada que façamos por nós mesmos, mas no que faz Deus através de nós.

P.S. 2
: Muitos hão de se perguntar: onde estará a liberdade do homem, se Deus não só o criou para fazer o bem, mas também é quem o leva a fazer cada bem em ordem à sua salvação? Se o perguntam, é porque estão impregnados da noção de liberdade que, a começar com Pelágio e passando, séculos depois, pelo voluntarismo de Duns Scott, acabou por tornar-se amplamente dominante. Quem mais livre que Deus? E por que o é tão superior e unicamente? Porque tudo quanto há lhe é incomensuravelmente inferior, e é incapaz, portanto, de afetá-Lo. E quem são os mais livres dos homens? Os santos, porque nada do que está abaixo de Deus e dos anjos pode afetar-lhes o espírito, que, movido e moldado pela graça divina, é perfeitamente ordenado a Ele mesmo. É por isso que podia dizer o Padre Pio: “Os santos amam mais do que as pessoas apegadas ao mundo”. Em verdade, são o ápice do mundo visível.

P.S. 3: Falamos acima de sistemas históricos quiméricos, e de fato mostraremos, na série “Liberalismo e comunismo ― rebentos da mesma raiz”, que tanto o comunismo como a democracia liberal são, em sentido estrito, impossíveis. Além de monstruosos, que é o outro sentido da palavra “quimérico”.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Pré-categorias elementares

Sidney Silveira
Em sua instigante Filosofia Concreta, que possui alguns capítulos literalmente idênticos aos do livro Tratactus de Primo Principio, de Duns Scot (obra esta já traduzida para a Sétimo Selo, e que aguarda para ser editada com uma apresentação crítica), Mario Ferreira dos Santos nos diz que a analogia é a “síntese da semelhança e da diferença”. Ou seja: quando se usa um termo de forma análoga, está-se no ato demarcando uma semelhança e uma diferença entre as palavras e os conceitos mentais a que elas se referem. Semelhança imperfeita, acrescentemos, pois não chega a ser igualdade nem identidade. [Já falamos noutra ocasião das distinções metafísicas básicas entre “idêntico”, “semelhante” e “igual”.]

O fato é que as predicações equívoca, unívoca e análoga são pré-categorias fundamentais, ou seja: verdadeiras precondições para a classificação das coisas por nossa inteligência discursiva, e, portanto, para o próprio múnus da filosofia, se esta porventura pretende distinguir-se da opinião do vulgo, do diletante ou ainda do esteta (a propósito, peçamos a Deus que nos livre da presença entre nós do esteta metido a filósofo ou ensaísta, pois ele é altamente daninho, para si mesmo e para quem lhe dá trela). Assim, quem pula essas noções elementares, mas nem por isso fáceis — que o diga o nosso Padre Penido em seu Le rôle de l’analogie en théologie dogmatique, um tratado infelizmente tão pouco conhecido e estudado entre nós —, jamais crescerá no estudo sério da filosofia, pois fará uso das palavras e conceitos sem o necessário conhecimento técnico para o seu manejo filosófico. No final das contas, tal sujeito terá para com as palavras uma relação, no melhor dos casos, epidérmica, para não dizer esquizofrênica.

Não se trata de expor amiúde, neste espaço, todos os casos em que se dá a predicação por analogia, cujo conhecimento é uma chave extraordinária para a resolução dos principais problemas gnosiológicos. Preferimos, por ora, indicar o estudo introdutório — mas denso — do Prof. Jesús García López, intitulado La analogía em general, no seguinte endereço eletrônico:

http://dspace.unav.es/dspace/bitstream/10171/1882/1/05.%20Jes%C3%BAs%20GARC%C3%8DA%20L%C3%93PEZ,%20La%20analog%C3%ADa%20en%20general.pdf

Nesse texto, vemos muito bem explicados os principais casos de uso de termos de forma análoga, de acordo com a doutrina de Santo Tomás. Indicamos firmemente a sua leitura!

Com o domínio das pré-categorias da analogia, da equivocidade e da univocidade, adquirimos um antídoto contra a sedução por pessoas que escrevem com notável loquacidade sobre quaisquer assuntos (arte, política, religião, etc.), com grande talento retórico mas pouca ou nenhuma profundidade conceitual, usando e abusando da equivocidade, por ignorância ou, em alguns casos mais dramáticos, por uma muito mal-disfarçada malícia.

Portanto, aos amigos que nos têm honrado com a sua visita cotidiana ao blog, peço: leiam o escrito do Prof. Jesús García López, disponível no link acima e indicado por um grande amigo, jovem estudioso da obra de Santo Tomás, pois adiante comentaremos algumas de suas passagens mais importantes.
Em tempo. E para os amigos que lêem em francês, indico o bom estudo de Bernard Montagnes, O.P. (o livro La doctrine de l'analogie de l'être après saint Thomas d'Aquin, um clássico da década de 60), não sem deixar de advertir para uma certa confusão terminológica, encontrável em alguns tomistas franceses, entre ser (être) e ente (étant). Mesmo tomistas da melhor cepa, como o padre Garrigou-Lagrange (em La Synthèse Thomiste e noutros trabalhos), assim como o próprio Maritain, escorregaram nessa distinção — acreditamos que por uma questão meramente relativa à escrita francesa, pois custa-nos crer que ignorassem tratar-se de conceitos absolutamente distintos na obra do Aquinate.