sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O que é a história (I)

Carlos Nougué
Nosso primeiro olhar para a história nos deixa um sabor de indistinção: será ela uma mera coleção de fatos variados, dispersos no tempo e espargidos no espaço? As memórias particulares e as crônicas coletivas têm por certo a sua função, e função insubstituível: fornecer o material a partir do qual podemos elevar o olhar para as causas. Sucede, todavia, que se pode fugir do empirismo por duas vias, uma falsa, a outra verdadeira.

No primeiro caso, em vez de se entregar à sua tarefa como o fizeram os Evangelistas, ou seja, elevando o olhar dos fatos ou eventos para a única Causa que efetiva e derradeiramente os pode explicar, o historiador se entregará ao orgulho de criar sistemas utópicos ou quiméricos, antinaturais e antidivinos. Não que se negue aqui a importância e o valor intrínseco do estudo sistemático da história, o qual, no entanto, não pode dar nascimento a sistemas absolutos de caráter naturalista ou meramente humano. Schelling, Cousin, Thierry, Guizot, Saint-Simon, Fourier, Proudhon, Hegel, Comte, Marx e Engels viram a fonte e o motor da história ou no deus progresso ou no deus Estado, ou num Espírito imanente ou num infinito finito, ou na luta de raças ou na luta de classes — é a história romanceada, ou caricaturada. É a história vista do ângulo dos interesses humanos mais vis ou das seitas mais virulentas, e cujas máscaras ocultam os sonhos mais tresloucados e as ambições mais inconfessáveis.

No segundo caso, tem-se a sã vinculação e submissão dos eventos históricos aos princípios do plano divino e às regras do governo da Providência: abre-se, então, um vastíssimo panorama. Ainda assim, porém, deve-se ter o cuidado de não tentar explicar em história tudo, todos os eventos da humanidade: tem a história, como veremos em outra série, os seus muitos mistérios, as suas obscuridades insondáveis, e temos de considerá-los pressupostos. Como explicar os eventos passados sem a discrição de considerá-los imbricados indissoluvelmente com os segredos mais escondidos da alma humana e, sobretudo, da Vontade divina? Além disso, como é difícil, se não impossível, distinguir a parte que cabe ao individual e a parte que cabe ao coletivo nos eventos nacionais e internacionais! É por isso que já se pôde dizer, brilhantemente: “A história escrita por um homem não é senão o julgamento de Deus em primeira instância”, ou, mais diretamente: “A história do mundo só será conhecida pelo julgamento de Deus” (Staudenmaier).

Mas reconhecer a existência das faces misteriosas da história não deve de modo algum levar-nos a negar-lhe bases sólidas e certas, princípios estáveis e definíveis, tendências principais e razoáveis. São muitas também as suas luzes, e pode o homem compreendê-la, se não como o pode Deus, ou seja, pelo âmago mesmo do seu princípio, motor e fim, ao menos em termos suficientes. Fórmula absoluta, com efeito, nunca a encontraremos para a história; munidos porém da razão fecundada pela fé, podemos defini-la de modo verdadeiro. Façamo-lo por aproximações sucessivas.

Será a história um mero seguir-se de impérios e dinastias, batalhas e conflagrações, reis e capitães, partidos e federações, seja no plano das nações, seja no do planeta inteiro? Já vimos que não, ao rejeitar a miséria do empirismo. E pela mesma razão tampouco será ela o mero desdobrar-se do direito e das instituições políticas ou das artes e das ciências, nem, muito menos, o da indústria e do comércio. No entanto, ela não deixa de abarcar, como globalidade, aquele seguir-se e este desdobrar-se: a história é, nesta primeira aproximação, o quadro da marcha do gênero humano através dos séculos. Dito de outro modo, os diversos movimentos da humanidade — o jurídico, o político, o artístico, o científico, o militar, o econômico — são como que coordenados, ordenados, capitaneados pelo movimento geral, movimento este que não é senão o movimento que vai de um princípio motor para um fim ou termo designado ou planejado. Ou isto, ou se estaria diante do absurdo. Com efeito, se assim não fosse, seria preciso comparar a Terra e os homens que a habitam a um campo onde animais lutam pelo alimento escasso, e onde corujas chirriam no meio da noite entre o nada e a morte.

Não se trata, pois, insistamos, de desconhecer a importância da história política e militar, da história do direito, das ciências ou das artes. O que dizemos é que todas essas histórias dependem, principalmente, da sua relação com a história fundamental da humanidade: a história da sua origem, da sua natureza, do seu destino, e, como já se disse, “do movimento coletivo do mundo moral para o seu fim último”. Essa é a única história verdadeiramente geral, a única que estabelece um laço ou vínculo entre os povos de todos os tempos. Mas como a história que se indica por este laço ou vínculo pode chamar-se geral ou universal? Ela não é uma mera adição de eventos particulares, assim como a mera agregação dos mapas nacionais não constitui o mapa-múndi. Mas esse grande laço que faz perceber o conjunto do mundo moral não une os povos entre si senão com a condição de vinculá-los a um mesmo princípio e a um mesmo fim. Ora, o que religa o mundo ao seu princípio e ao seu fim chama-se religião, “e aí está por que”, como diz Dechamps, “a história religiosa é necessariamente a alma e a unidade viva da história do mundo”.

Em suma, a história religiosa é a alma da história geral porque só ela descreve o arco que vai do seu princípio ao seu fim, e porque só ela, no desenho deste arco e num mesmo movimento global, é capaz de impelir indissociavelmente todos os movimentos parciais do gênero humano em todos os tempos e em todos os espaços. E, ao fazê-lo, influi tão decisivamente sobre eles, determina-lhes tão absolutamente o resultado, que é o grau mesmo em que as diversas sociedades e civilizações resistem a seu impulso ou o aceitam o que as caracteriza essencialmente. Não poderia ser de outro modo: este laço geral é propriamente divino, e a história só é uma marcha global na medida em que é a história do gênero humano sob o governo de Deus.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Liberalismo e maçonaria

Sidney Silveira
No hoje distante ano de 1956, a editora Vozes apresentava ao público brasileiro o livro A Maçonaria no Brasil – orientação para os católicos, de autoria de D. Boaventura Kloppenburg, obra ricamente documentada. Nele são mostrados com meridiana clareza todos os mais importantes fundamentos do Syllabus maçônico, a partir das instruções das principais “lojas” brasileiras e do resultado de encontros como, por exemplo, a Conferência Interamericana da Maçonaria Simbólica, realizada em Montevidéu, em 1947 — entre vários outros documentos. Kloppenburg desce a detalhes e deslinda-nos o materialismo em ciência, o ecumenismo/igualitarismo em religião, o relativismo em moral, a recusa das verdades da metafísica e da fé e, em suma, o liberalismo que abarca todas essas e muitas outras idéias presentes nessas máximas maçônicas. Vejamos agora alguns destes princípios, na formulação de seus próprios artífices:

“A maçonaria não reconhece outras verdades além das fundadas na razão e na ciência, servindo-se somente dos resultados obtidos pela ciência”.

“A tolerância é sua lei fundamental. [A maçonaria] solenemente inscreveu no preâmbulo de sua Constituição Geral [a de Anderson, válida então para a maçonaria brasileira] o respeito a todas as crenças, a todas as idéias, a todas as opiniões (...). [Por isso] não impõe aos seus adeptos nenhum dogma”.

“Não procura a maçonaria as origens das idéias do dever, do bem, do mal e da justiça nem em pretensas revelações divinas nem em concepções da metafísica”.

“Cada cidadão possui o sagrado, inviolável e imprescritível direito de cultuar a Deus e praticar a religião de modo como ele mesmo bem entender, sem nenhuma interferência ou influência alheia. Qualquer intromissão nas idéias religiosas do cidadão é considerada violência, injustiça, tirania, ambição, fanatismo e condenável intolerância”.

“A maçonaria tem no seu programa, como uma de suas finalidades principais, defender, custe o que custar, os direitos do indivíduo e aniquilar, com uma guerra sem tréguas, toda e qualquer pretensão contrária à sua consciência”.

“A maçonaria considera-se protetora e defensora do ideal religioso do indivíduo (sic.) e da liberdade de culto, de crença, de consciência e de pensamento”.

“A maçonaria ensina, defende e propaga que a sociedade, e de modo particularíssimo o Estado, nãonão deve ter oficialmente nenhuma religião, mas deve excluir e eliminar do ambiente público tudo quanto se relacione diretamente com qualquer religião” [A propósito deste princípio, Kloppenburg nos conta que, quando o governo Vargas mandou colocar uma imagem de Cristo nos tribunais do júri, levantaram-se as lideranças maçônicas em peso para protestar em vários documentos dirigidos a todas as “lojas” brasileiras, dando orientação a ser seguida pelos maçons influentes na política. Cristo no júri “espezinhava a Constituição” no que ela tem de mais nobre: a liberdade de pensar (sic.)]

“É objetivo da maçonaria laicizar a sociedade por meio da imprensa”.

Esses textos da maçonaria falam por si. Mas continuemos o roteiro de Kloppenburg que enumera 9 teses maçônicas (algumas já citadas acima, mas agora formuladas com novas proposições), sempre a partir dos próprios textos maçônicos, ou seja, da própria comunicação exotérica dessas sociedades secretas:

1ª tese (livre pensamento): É sagrado e inviolável em todo indivíduo humano o direito de pensar livremente.

2ª tese (autonomia da razão): O homem deve dirigir seus atos e sua vida exclusivamente de acordo com o parecer da própria razão.

3ª tese (liberdade de culto): É o próprio indivíduo que deve regular suas relações com o Ser Supremo.

4ª tese (liberdade de consciência): Qualquer coação ou influência externa, seja de ordem física, seja de ordem moral, no sentido de dirigir ou orientar o pensamento ou a consciência do indivíduo, deve considerar-se como atentado contra um direito natural e sagrado (sic) e, por isso mesmo, deve ser denunciada como violência, ambição e fanatismo.

5ª tese (indiferentismo religioso): O ambiente em que vive e respira o indivíduo deve manter-se rigorosamente neutro, sem hostilizar ou favorecer a nenhuma religião determinada.

6ª tese (o Estado neutro): A sociedade, e mormente o Estado, deve manter-se oficialmente indiferente ou neutra perante qualquer religião concreta.

7ª tese (o ensino leigo): O ensino público, dado e mantido pelo Estado, deve ser absolutamente leigo ou neutro em assuntos religiosos.

8ª tese (moral independente): A moral não deve estar ligada a nenhuma crença religiosa nem fundar-se em pretensas revelações divinas.

9ª tese (a religião “natural” universal): A religião oficial e pública da humanidade deve manter-se nos limites da religião natural, indicados pelas verdades básicas, pacificamente aceitas e comuns a todas as religiões. [Alguma semelhança com a abstrusa tese da "unidade transcendente das religiões", de Frithjof Schuon?)

A maior parte dessas teses maçônicas ganhou o mundo atual, sobretudo no Ocidente. E vale dizer que todas elas se baseiam, direta ou indiretamente, na tese — insustentável, como já mostramos alhures — da autonomia da consciência individual. Mas vejamos adiante se é possível (malgrado esse erro metafísico, antropológico e gnosiológico basilar) sustentá-las racionalmente, sem exclusão de alguma verdade fundamental a que a razão humana possa chegar.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Liberalismo e comunismo – rebentos da mesma raiz (VII)

Carlos Nougué

ESCLARECIMENTO PRÉVIO

Antes de voltarmos a estudar o estado original do homem, é preciso mostrar o erro dos teólogos que, desde o século XIX, mas particularmente a partir de meados do século passado, pretendem negar o monogenismo, ou seja, o descenderem os homens de um único casal: Adão e Eva.

Um dos expoentes de tais teólogos foi De Lubac, que defendia o poligenismo (segundo o qual o nome “Adão”, em verdade, seria uma designação da humanidade, razão por que teria havido mais de um casal na origem do gênero humano); enquanto outros teólogos, entre os quais alguns brasileiros, sustentavam que o poligenismo, pelo menos, não contrariaria a fé. Não obstante esse esforço, porém, tanto aquela posição (a de De Lubac) como esta (a mais mitigada a que acabamos de nos referir) vão não só contra o Antigo e o Novo Testamento, mas também contra o Magistério da Igreja (para não citar a obra dos Doutores católicos, especialmente a do Doutor Comum, Santo Tomás de Aquino) – ou seja, são contrárias à fé.

Deixemos pois falar a Revelação e o Magistério.

I) “E criou Deus o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, e criou-o varão e fêmea. E [...] disse: Crescei e multiplicai-vos, e enchei a Terra” (Gênesis I, 27-28).

II) “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma [pessoa] vivente” (Gênesis II, 7).

III) “Foi ela [a Sabedoria] que guardou o primeiro homem formado por Deus, para ser o pai do gênero humano, tendo sido criado único” (Sabedoria X, 1).

IV) “E de um só [homem] [Deus] fez [sair] todo o gênero humano, para que habitasse sobre toda a face da Terra” (Atos XVII, 26).

V) “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado [original] neste mundo, e pelo pecado a morte, assim também passou a morte a todos os homens [por aquele homem] no qual todos pecaram” (Romanos V, 12).

VI) “Porque, assim como a morte [veio] por um homem, também por um homem [veio] a ressurreição dos mortos. E, assim como todos morreram em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1 Coríntios XV, 21-22).

VII) “o primeiro homem, Adão, transgrediu o mandamento de Deus” (Concílio de Trento, sessão 5, cânon 1).

VIII)Mas, tratando-se de outra hipótese, isto é, a do poligenismo, os filhos da Igreja não gozam da mesma liberdade, pois os fiéis cristãos não podem abraçar a teoria de que depois de Adão tenha havido na terra verdadeiros homens não procedentes do mesmo protoparente por geração natural, ou, ainda, que Adão signifique o conjunto dos primeiros pais; já que não se vê claro de que modo tal afirmação pode harmonizar-se com o que as fontes da verdade revelada e os documentos do magistério da Igreja ensinam acerca do pecado original, que procede do pecado verdadeiramente cometido por um só Adão e que, transmitindo-se a todos os homens pela geração, é próprio de cada um deles” (Pio XII, Humani generis).

P.S.: Além de tudo, o próprio bom senso repugna a tese do poligenismo. Como uma multidão de casais teria cometido o mesmo pecado original? Se disto não se trata, ou seja, se apenas um dos casais o teria cometido, como então o pecado original teria sido transmitido a toda a humanidade? A não ser que se negue a veracidade tanto do pecado original como de sua transmissão a todos os homens, e então haverá negação da fé sobre negação da fé.

Adendo do Sidney: A Humani generis de Pio XII é um documento do Magistério Ordinário Infalível. Para prová-lo, vejamos o que decretou o Concílio Vaticano I acerca da infalibilidade papal: "O Romano Pontífice, quando fala ex cathedra, isto é, quando, cumprindo o seu cargo de pastor e doutor de todos os cristãos, define por sua suprema autoridade apostólica que uma doutrina sobre fé e costumes deve ser sustentada pela Igreja Universal, pela assistência divina que lhe foi prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro goza daquela infalibilidade de que o Redentor Divino quis que estivesse provista a Igreja na definição da doutrina sobre a fé e os costumes" (Vaticano I, Constituição Dogmática Pastor Aeternus).* Assim, este documento de Pio XII que proíbe aos católicos defender o poligenismo cumpre TODAS as prerrogativas da infalibilidade magisterial: quem fala é Pedro (o Papa), a todo o universo de fiéis da Igreja (por uma Encíclica), definindo que só o monogenismo pode ser católico, na medida em que o poligenismo não pode ser aceito (ou seja: definição de doutrina [com exclusão de outras] sobre fé e costumes). E aqui relembramos — como se lê no texto do link sobre autoridade apostólica, acima — que os teólogos têm um papel importante, mas subsidiário. E se contrariam o Magistério Infalível, não só não devem ser ouvidos e seguidos, mas, para o bem da comunidade dos fiéis (e em prol da salvação das almas), devem ter os seus erros refutados publicamente.

* Romanum Pontificem, cum ex cathedra loquitur, id est, cum omnium Christianorum pastoris et doctoris munere fungens pro suprema sua Apostolica auctoritate doctrinam de fide vel moribus ab universa Ecclesia tenendam definit, per assistentiam divinam ipsi in beato Petro promissam, ea infallibilitate pollere.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Idolatria ao trabalho

Sidney Silveira
Em várias passagens do Evangelho, Jesus critica a excessiva solicitude para com as coisas temporais, em particular com o trabalho, dando-nos, com a sua divina autoridade, a segura orientação de que tudo, no homem, deve estar subordinado ao que nele é espiritual — e o seu espírito, orientado ao fim último para o qual foi criado. Como, por exemplo, em:

“Eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais do que as vestes?” (Mt, VI, 25)

“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua Justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo” (Mt, VI, 33)

Ou ainda, de forma veemente, nesta passagem:

“Estando Jesus em viagem, entrou numa aldeia, onde uma mulher, chamada Marta, o recebeu em sua casa. Tinha ela uma irmã de nome Maria, que se assentou aos pés de Jesus para ouvi-lo falar. Marta, toda preocupada com a lida da casa, veio a Jesus e disse: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude. Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada”. (Lc, X, 38-40).

Juntemos a essas passagens — de mensagem tão simples, direta e objetiva — o fato de que, de acordo com alguns dos maiores doutores da Igreja, assim como do próprio Magistério infalível (e não de acordo com a nossa interpretação pessoal, que nisto absolutamente não a temos), há uma dupla maneira de considerar o trabalho:

1ª. No estado de inocência original, quando Deus confiou a Adão* o governo das coisas criadas. Leia-se, por exemplo, Gn, II, 15: “O Senhor Deus tomou o homem e colocou-o no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo”. Ou então essa outra passagem da Sagrada Escritura: “Vós o fizestes [a Adão] quase igual aos Anjos/De glória e honra o coroastes/Destes-lhe poder sobre as obras de vossas mãos/Vós lhe submetestes todo o universo” (Salmo VIII, 5-7).

O trabalho para com as coisas do universo submetidas ao primeiro homem não o afadigava, dado o seu estado de inocência original e, entre outras coisas, pelos dons preternaturais de que estava revestido. Para não estender por demais este post, poupo-me e poupo-lhes de citar amiúde o que sobre isso disseram lindamente tantos Doutores e Papas (Santo Agostinho, São Gregório Magno, São João Crisóstomo, etc.). Deixo consignada apenas uma coisa que afirma Santo Tomás, em diferentes passagens do segundo tratado de seu Compêndio de Teologia: no estado de inocência original, todo o trabalho do homem estava orientado para servir e honrar a Deus. Perdida, pelo pecado, essa orientação de todas as coisas pelo homem a Deus — para a qual o homem contava com auxílios sobrenaturais —, advirá também a diminuição dos bens da própria natureza, como diz São Beda: o homem foi despojado das coisas gratuitas e também diminuído na própria natureza. A propósito, o mesmo São Beda, ratificado por Santo Tomás (in Suma Teológica, IªIIª, Q. 85, a.3) enfatiza que a nossa natureza traz quatro feridas: debilidade, ignorância, malícia e concupiscência.

2ª. No estado de natureza caída, que é o atual, o trabalho passa a ser penoso em si mesmo e também sujeito a erros tanto quanto aos meios, como em relação aos fins intermediários, e destes com o fim último. O homem caído, fascinado e vencido por paixões que subjugam as suas potências intelectivas, terá mérito ou demérito no trabalho na exata medida em que este o ajude a desenvolver virtudes naturais e a combater os vícios. Ademais, o seu trabalho tornou-se servil, no sentido de que, como biblicamente se diz, o homem dele precisa para ganhar o pão com o suor do seu rosto (cf. Gn, III, 19). Isto sem contar as terríveis palavras da Vulgata Latina: Maledicta terra in opere tuo (“Maldita será a terra em teu trabalho”, Gn, III, 17).

Idolatrar o trabalho (coisa muitíssimo comum em nosso feérico tempo) é, portanto, além de uma agressão ao bom senso, o descumprimento de um conselho evangélico — e também um dar de ombros ao fato de que se trata de um castigo para a humanidade filha de Adão, diferentemente do que era o trabalho no estado de inocência original.

Se se elimina do horizonte a consideração desse estado original, e de sua corrupção após o pecado, nada impede que o trabalho se torne um ídolo, a razão de ser da vida das pessoas, um fim a ser buscado em si e por si.

* A propósito, a Santa Sé acaba de proibir o padre argentino Ariel Álvarez Valdés de exercer qualquer atividade acadêmica, assim como também proibir que publique artigos em revistas, jornais ou mesmo na intranet, além de também proibir que ele dê entrevistas a rádios e a emissoras de TV. O motivo da resolução vaticana (assinada nesta semana pelo Cardeal Bertone): o padre Ariel nega a existência de Adão e Eva, assim como nega a aparição do Anjo da Anunciação à Virgem, que ele considera como "passagens literárias". Colocamos esta informação porque, quanto ao primeiro tópico (Adão e Eva), no próximo artigo do meu amigo Carlos Nougué voltaremos ao tema do poligenismo — colocando-o ao lado do Magistério infalível da Igreja.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A importância da história (II)

Carlos Nougué
Mas note-se que o mero conhecimento dos fatos e datas históricos não é mais que um escalão preliminar do estudo histórico propriamente dito. Para que nos alcemos efetivamente a este, é preciso compreender as causas daqueles fatos e os resultados que eles produziram. De outro modo não serviria a história, como de fato serve, de elemento essencial da educação moral.

Se assim é, tudo vai depender, em história, de saberes que lhe são superiores: a filosofia e a teologia. Ora, a história é, como alguém já disse, um reservatório de onde saem numerosos canais destinados a regar e fecundar a inteligência das novas gerações segundo o conhecimento do passado. Logo, se o reservatório estiver envenenado de falsa filosofia, os canais não verterão senão veneno nas almas.

Por isso dizia no século XIX o Bispo francês Louis Delalle (e seja-nos permitido citá-lo longamente): “Tanto na ordem histórica como na ordem natural, a última palavra, a chave de abóbada da verdadeira ciência, a explicação final e a razão suprema de todos os fenômenos é Deus, Alfa e Ômega, princípio e fim dos [entes] contingentes. Tal é a conclusão que se impõe por uma soberania que não se destronará jamais — a do bom senso. Quem quer que queira subtrair-se a ela cairá, forçosamente, nas aberrações do fatalismo e do panteísmo, porque não quer ver no universo senão uma força cega inerente à matéria cósmica, fazendo-a piruetar de evolução em evolução, da molécula ao átomo, do átomo à condensação desejável, deste agregado progressivo ao surgimento da vida animal, onde a natureza começa a se sentir, e do surgimento desta sensação ao do ente inteligente, no qual a dita natureza começa a se pensar pela revelação do eu.

“Esta última fase, em que vemos o homem saído provavelmente do macaco ou do lagarto, não é ainda senão provisória, e deve dar lugar a outra, em que a natureza desarranjará talvez tudo o que ela fez, para recomeçar ainda as suas evoluções: tudo sob a influência do axioma eterno que se pronuncia no ápice luminoso do éter, como diz o filósofo Taine. Daí resulta que, segundo o filósofo Hegel, o ser [...] ainda não existe. Chega-se assim à negação de toda e qualquer verdade absoluta e da concepção mais geral do entendimento, a do Ser, porque não há mais que o devir.

“Em verdade, esta teoria não é senão a de Epicuro, completada por Espinosa e maquiada pela cor científica da sofística contemporânea. E aos homens que repisam essas loucuras os consideramos homens de ciência! E eles dizem-se os pedagogos do gênero humano! [...]

“Tal é o abismo profundo em que se debate o racionalismo com seus sistemas filosóficos e suas teorias históricas, dos quais se eliminou o elemento sobrenatural. O livre-pensamento, na impotência em que se encontra, pelo seu isolamento, de explicar o enigma da origem das coisas e a marcha do gênero humano ao longo dos séculos, é devorado pela Esfinge do ceticismo. Quando a razão humana se insurge contra Deus, que é o seu princípio, cai sob a tirania do sistema e cava o seu próprio túmulo.

“A teoria do naturalismo e do fatalismo panteístico aplicada à história não somente leva a negar, como impossíveis, os fatos da ordem sobrenatural, ou a explicá-los por hipóteses extravagantes, mas degrada a humanidade rebaixando-a ao nível de mera engrenagem que funciona no mecanismo da substância universal. Ela destrói a noção do bem e do mal moral ao negar o livre-arbítrio e a conseqüente responsabilidade; diviniza o evento, que aos seus olhos não passa de evolução irresistível da natureza; anistia todos os crimes que se cometeram e avilta todas as virtudes que sucumbiram, e não reconhece outra moralidade além do triunfo de uma força preponderante. Em suma, o homem existe apenas para esmagar e ser esmagado, sem nenhum mérito nem demérito. Ele não é mais vicioso nem mais virtuoso que o vento que sopra, que o cata-vento que gira, que o alambique que destila o veneno ou o remédio; porque tanto o mal como o bem não são mais que uma força, ou melhor, não há bem nem mal, há tão-somente forças a operar fatalmente as transformações sucessivas que compõem a trama da história do gênero humano, assim como as revoluções materiais do globo que são objeto dos estudos geológicos.

“Tal é a última palavra dessas teorias abjetas e embrutecedoras que se proclamam atuais com um cinismo revoltante, como a fórmula de uma ciência transcendente que deve destronar toda e qualquer idéia religiosa e livrar o gênero humano dos julgamentos e terrores da consciência, minando pela base a ordem moral inteira.

“À vista de tal degradação da inteligência, ou melhor, de tal cretinice, poderíamos crer-nos transportados a um asilo de loucos.

“Por esta exposição, é fácil compreender a enorme influência que a história, verdadeira ou falsa, exerce para o bem ou para o mal nas questões religiosas, filosóficas, políticas e morais, e que parte lhe cabe nos destinos futuros das novas gerações” (Carta do Bispo Louis Delalle ao Doutor Jacquinot acerca do seu opúsculo Philosophie chrétienne et théories rationalistes dans l’étude de l’histoire, apud L’Abbé Rohrbarcher, Paris, Librairie Louis Vivès, 1904, t. 1, pp. 163-164).

E a “mestra da vida” tornou-se, tristemente, em todo o mundo, mestra das mais variadas perversões e corrupções.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A importância da história (I)

Carlos Nougué
Por dois ângulos principais se pode demonstrar a imprescindibilidade da história, ou seja, do seu estudo e ensino, para os homens.

Primeiramente, do ângulo pessoal, é (como já se disse) no colo da mãe que começa para cada um de nós o ensino da história: uma narração impressionante, ou tocante, de um episódio qualquer da história pátria ou mesmo familiar nos insere, já em tenra idade e ao modo de elo, na grande e complexa cadeia da humanidade. Cada um de nós logo se descobre parte de um todo, de um fio temporal que se vem estendendo, sem solução de continuidade, desde a origem do homem. E o robustecimento dessa mesma descoberta, por sua vez, também não sofre interrupção; muito pelo contrário, ganha alicerces cada vez mais firmes ao longo dos sucessivos anos e graus de instrução. Por certo, em maior ou menor medida, cada um de nós terá a sua chave de abóbada deste edifício; alguns se aprofundarão efetivamente no estudo da história, mas todos, inexoravelmente, terão a imaginação tingida de certo colorido histórico, e terão preenchida a memória de fatos mais ou menos marcantes da história de seu povo, de sua nação, do mundo inteiro, enfim. Tudo isso, por conseguinte, propiciará uma base às suas convicções e à sua vida moral inteira. Cícero, o filósofo romano, com toda a justeza chamou a história de “mestra da vida”.

Em segundo lugar, do ponto de vista social, o gênero humano, assim como o indivíduo humano, não pode de modo algum prescindir da memória, e memória de si mesmo. É uma exigência, uma necessidade, uma imperiosidade moral, e sem ela a humanidade se veria reduzida a perpétuo estado de ressurgimento, não renascendo incessantemente senão para tornar a cair no nada. Como poderia haver a filosofia, as artes, as ciências, as tábuas das leis, as instituições políticas, a própria religião, ou seja, toda a trama do tecido social, sem tal memória? Sábia, sumamente sábia é a Providência, que faz sucederem-se no tempo as eras e as idades, impedindo assim a ruptura da continuidade do homem. A história, ou seja, o seu estudo e ensino, é, ainda segundo Cícero, a testemunha dos tempos: a partir do efêmero presente, ela estende uma ponte entre o passado e o futuro, e garante assim a permanência da civilização.

Neste sentido, a história é tradição — é a embarcação segura em que a humanidade navega no tempo, singrando-lhe as ondas freqüentemente revoltas e as correntes sempre muito fortes e contrapostas. E como não atestar, facilmente, que uma grande ignorância ou esquecimento da história provoca inevitavelmente num espírito a turvação e em toda uma sociedade o caos? Não se afirma com isso que é necessário a todo e qualquer indivíduo um estudo muito aprofundado da história, ou à sociedade um grande número de historiadores altamente capazes; o que se afirma é que sem certa quantidade de alimento para a memória, isto é, sem um mínimo de conhecimento da própria humanidade — que, como já vimos, ou é histórica, ou não seria nada —, qualquer indivíduo e qualquer povo tende a afogar-se no pântano de seu próprio esquecimento.

Ouçamos ainda a Cícero: “A história é a luz dos tempos, a contemporânea de todo o gênero humano, a depositária dos acontecimentos, a testemunha da verdade, a alma das lembranças, a grande conselheira e oráculo da vida humana, a mensageira e intérprete dos séculos passados. É meditando-a que se alcança a fonte dos sábios desígnios e da prudência, e que se descobre a regra da boa conduta e dos costumes. Sem ela permanecemos circunscritos aos limites estreitos do tempo e do lugar em que estamos, e vivemos numa vergonhosa ignorância de tudo o que nos precedeu e de tudo o que nos rodeia. E isso não é senão uma puerilidade eterna, que faz de nós crianças e estranhos a todo o restante do universo” (De Oratore, liv. XVIII ).

E a Bossuet, quando tentava fazer entender ao Delfim “quão vergonhoso seria, não somente a um príncipe, mas, em geral, a qualquer homem honesto, ignorar o gênero humano. [...] A Religião e o governo político são os dois pontos sobre os quais rolam as coisas humanas: descobrir-lhes toda a ordem e toda a seqüência é compreender [...] tudo o que há de grande entre os homens, e possuir, por assim dizer, o fio de todos os assuntos do universo. Ora, aí reside o grande ensinamento da história: por ele, tudo se vos tornará proveitoso. Não se passará nenhum fato de cujas conseqüências não vos apercebereis. Admirareis em seguida os conselhos de Deus nos assuntos da religião: vereis assim o encadeamento das coisas humanas, e por isso conhecereis com quanta reflexão e previsão elas devem ser governadas” (em Discurso sobre a história Universal).*

* Não se deduza desta citação que sejamos admiradores sem reservas de Bossuet. Por grande que seja, e de fato o é, pesa contra ele, sobretudo, o fato de ter sido galicano, ou seja, um defensor da independência administrativa da Igreja nacional com relação ao Papado. Nunca é demais lembrar que o rei francês Francisco I quase tomara o mesmo caminho do inglês Henrique VIII, e que o galicanismo não era de todo estranho a esse clima.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A estrutura da ação humana em sua completude (VIII)

Sidney Silveira
(continuação de: 1- A psicologia da ação humana)

A. As potências superiores da alma

Após descrever todas as nossas potências sensitivas — externas e internas —, vamos dar um passo decisivo na psicologia e na gnosiologia tomistas (já que uma implica a outra) e abordar as potências superiores da psique humana, segundo o Aquinate.

A primeira observação a fazer (partindo da premissa, já destacada aqui, de que todas as potências sensitivas estão a serviço das potências intelectivas) é que o intelecto não se subordina às necessidades biológicas. Em segundo lugar, as operações do intelecto representam o grau mais elevado da ação vital humana, pois a vida humana em sua plenitude implica necessariamente a intelecção. Sendo assim, o nosso entender não pode reduzir-se a uma mera adaptação ao ambiente, nem a uma simples ação vital. E é justamente por ser capaz de conhecer a dimensão mais profunda da realidade — o caráter de ente e suas diferenças essenciais — que a ação humana transcende as necessidades vitais do organismo. E aqui lembramos que, para várias psicologias contemporâneas (de forte sabor psicanalítico), o entender é considerado uma pulsão vital, uma satisfação de necessidades congênitas. Isto é, diametralmente, o oposto da concepção de Santo Tomás, para quem o entender é um acidente imaterial de nossa potência intelectiva. Ou, noutros termos: não entendemos por necessidade vital, orgânica, mas intencionalmente. E, em terceiro lugar, destacamos que entender é um dos signos da liberdade humana (ainda voltaremos ao tema da liberdade e veremos que esta não pode fundar-se numa autodeterminação da vontade, como pensava Duns Scot. Mas isto em outro post).

Mas há limites nesse modo humano de conhecer. A começar pelo insumo do nosso pensar, que é a essência das coisas materiais (quidditas rei materialis). Ora, a experiência demonstra, exaustivamente, que o conhecimento começa pelos sentidos, que captam o aspecto sensível da realidade e o gravam — na forma de imagem — em nossa potência sensitiva interna. Assim, toda vez que entendemos algo, é dessas imagens que nos servimos. Ao apreendê-las por nosso aparato sensitivo, tais imagens são inteligíveis em potência, e se tornam inteligidas em ato pela ação do chamado intelecto agente — do qual não falaremos neste texto, para não estendê-lo por demais. Deixaremos apenas registrado que, para Santo Tomás, o intelecto agente é a luz natural da mente, o princípio ativo de toda a vida do espírito. Entendemos graças a essa luz do intelecto agente, como diz o Angélico em várias passagens de seu magistral De Veritate, ao referir-se ao modo como as imagens da realidade se tornam inteligíveis para nós. Se tais imagens se apresentarem de forma confusa, a intelecção será prejudicada ou impedida.

Uma coisa é ainda importante destacar: se queremos cogitar outra possibilidade para o modo humano de conhecer, temos de propor a seguinte disjunção: ou conhecemos por abstração as coisas (como na premissa acima) ou por intuição direta de suas essências. Tertium non datur. Mas a suposição do conhecimento por intuição direta — proposta por Husserl — tem contra si as evidências já apontadas noutro texto, e a seu favor, nenhuma evidência ou experiência. Ademais, se conhecêssemos por intuição direta, não seria necessário nenhum método para provar que conhecemos por intuição direta (no caso de Husserl, o método é a chamada redução eidética). Na prática, pressupor a intuição direta da essência das coisas é igualar-nos aos anjos, literalmente, pois estes conhecem por intuição direta justamente porque vêem, num só ato, o princípio e os atributos da coisa contemplada pela inteligência, já que não têm, como nós, limitações de ordem material. Muito a propósito, Cornelio Fabro lembra-nos o seguinte, em seu Introduzione a San Tommaso – la metafisica tomista & il pensiero moderno:

1- Deus, quando pensa, cria a realidade pensada.
2- O anjo, quando pensa, intui a realidade pensada.
3- O homem, quando pensa, abstrai a realidade pensada.
4- (Acrescento): O animal irracional não pensa justamente porque está arrojado ao mundo da sensibilidade, ou seja: não transcende a imagem sensível captada por algum órgão corporal.

Em suma, de acordo com Santo Tomás, o conhecer humano não é ato de nenhuma potência corporal (cf. Suma Teológica, I, q. 85, a.1). Demos um exemplo: numa sala com 50 alunos, apenas um entendeu certo teorema de matemática pura explicado pelo professor. Todos ali têm cérebro, mas apenas um entendeu, o que mostra de início que o cérebro, embora seja uma certa causa instrumental do entender, não é a causa formal e muito menos causa final do ato do entendimento. Na mesma questão acima citada, diz Santo Tomás que conhecer é uma faculdade da alma que, por sua vez, é forma substancial de um corpo.

O desenho da ação humana em sua completude começa a fazer-se, na medida em que todas as potências da forma entis humana vão sendo descritas. Alguns textos adiante, veremos qual é o alcance da operação cognoscitiva humana, para depois mostrar que uma teoria econômica como a de Ludwig von Mises, que tem como suporte uma tão frágil psicologia — pois não foi à toa que, no seu calhamaço Human Action, o autor liberal descreveu primeiramente e de forma prolixa a sua “psicologia”, para servir de base para a sua teoria econômica —, nos subsume a um horizonte materialista altamente daninho.

Mas devagar com o andor, que o santo é (literalmente!) de barro...

(Prossegue)