terça-feira, 5 de agosto de 2008

A estrutura da ação humana em sua completude (VI)

Sidney Silveira

(continuação de: 1- A psicologia da ação humana)

b.3) A memória

Após abordarmos no texto anterior o sentido interno da imaginação, chegamos agora ao da memória. E a primeira coisa a observar é a seguinte: o que diferencia as potências sensitivas da imaginação e da memória é que a primeira capta apenas as imagens, e a segunda, as intenções. Vale frisar que ambas se referem à mesma imagem ou “fantasma”, mas de modo distinto. A primeira considera-a em si mesma, quase abstratamente, numa referência à coisa que representa, enquanto a segunda se dirige à imagem reconhecendo-a como algo semelhante ao anteriormente percebido (cf. Santo Tomás, De senso et sensato, Tratactus II, De memoria et reminiscentia, I, III).

Graças à memória percebemos a nossa própria duração no tempo, e reconhecemos as coisas antes percebidas. Mas o Aquinate diz que a memória não apenas situa um fato no tempo, porque, além de recordar a relação temporal entre determinados acontecimentos, recorda também outras coisas, como as características de um lugar, os traços de uma pessoa, etc. Por isto se diz que é possível sentir e recordar a partir de distintas intenções — como de uma semelhança, uma contrariedade, um tipo de proximidade, etc. E o que especifica todas essas recordações é que o recordado se reconhece como antes conhecido. Anotem isto, pois mais à frente, quando em outra série de textos tratarmos da psicologia do pecado, veremos como é possível a psique ser ferida pela recordação de atos maus, ainda quando estes tragam a sua cota de deleite, razão pela qual Aristóteles assinala, em um trecho da Ética a Nicômaco, que o homem, depois que se deprava, não tem mais jeito — ou, noutras palavras: ele será refém das imagens dos atos depravados de que participou ou mesmo que apenas presenciou, imagens essas que retornarão intermitentemente àquilo que alguns psicólogos contemporâneos chamam de estrutura psíquica. [Adendo que vejo agora fazer-se absolutamente necessário: sendo a nossa natureza psíquica ferida por imagens de atos maus e/ou depravados que retornam recorrentemente pela via da imaginação, só mesmo uma causa sobrenatural poderia pôr um freio a este processo — e, como já vimos, cada ente natural individual e também todo o conjunto de entes naturais do universo estão ordenados a algo que está além de todas as naturezas: este a quem, geralmente, chamamos Deus. E, se se é católico, por fé cremos que é pelos Sacramentos, sinais sensíveis da Graça desse Deus — e também causa dela! — que podemos pôr um freio a essas feridas na imaginação, tão mais periogosas quanto mais tragam consigo alguma espécie de deleite]

Mas a memória não só atua quando a coisa recordada está ausente, segundo Santo Tomás, mas também pode funcionar (e a experiência o mostra de forma inequívoca!) mesmo estando a coisa recordada presente, na medida em que a memória também recorda o que está sentindo agora como algo já sentido anteriormente.

b.3.1) A reminiscência (operação particular da memória)

É importante observar que a memória humana não é apenas espontânea, como a dos animais irracionais, a qual “desperta” ante um objeto significativo reconhecido como conveniente ou inconveniente. A memória humana é capaz de uma operação que a memória do animal irracional não possui, em razão da refluência do intelecto sobre a parte sensitiva. Como observa Martín Echavarría, isto é o que Aristóteles chama de anámnesis. Em suma: o homem não possui apenas memória, mas também reminiscência.

Para Santo Tomás, a reminiscência é uma recordação voluntária. E mais: a reminiscência é um movimento (motus) em direção a um ato da memória. Mas não escapa ao nosso grande filósofo que, às vezes, acontecem certas rememorações involuntárias, porque os sentidos internos — apesar de estar ordenados à operação do intelecto — têm certo grau de autonomia, pois acontece às vezes certas coisas estarem conectadas pela memória, e, sem que um homem queira, elas passem de uma à outra. Tal recorrência involuntária pode dar-se com maior freqüência em determinados temperamentos. Santo Tomás atribui os temperamentos em parte à compleição física, e nunca é demais lembrar que é no corpo que radicam certas paixões. Vejamos o que diz:

“Um sinal de que a reminiscência é certa paixão corporal (...) é que, quando alguns homens querem recordar algo e não conseguem, lhes vêm a ansiedade, pela qual dirigem a mente mais fortemente a recordar. (...) Isto acontece com os melancólicos, que são muito agitados por sua imaginação”. [Santo Tomás, De memoria et reminiscentia – Comentarium)

No próximo post desta série, falaremos da potência cogitativa, último dos chamados sentidos internos e grande auxiliar do intelecto. O caminho, como eu já dissera no começo da série, é longo. Mas prometo que, ao final, ficará evidente toda a complexidade da ação humana, cujos atos formais próprios têm importantíssima conexão com as potências até agora assinaladas.

E veremos o quão superficial é a noção de Ludwig von Mises de “ação humana”. E mais ainda — mas somente quando chegar o momento.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Santo Tomás e os regimes políticos

Carlos Nougué
I) Antes ainda de prosseguir com as séries já começadas, dou abaixo as duas passagens da Suma Teológica em que o Aquinate fala de regimes políticos. Tentei na tradução ser o mais literal possível, e intercalei-a de colchetes em que ponho diversas coisas, especialmente algumas imprescindíveis remissões à obra mais diretamente política do Santo, De Regno.

Por que o faço? Para mostrar quão equivocadas são as interpretações que querem fazer de Santo Tomás um democrata moderno avant la lettre. (Tampouco, com efeito, me parecem corretas as interpretações que o tornam um monarquista stricto sensu; mas estas, ao menos, têm a seu favor o que se lê em De Regno, obra a que, porém, por excelente que seja, e o é, falta a sistematicidade da Suma Teológica.)

E notem, nos textos abaixo, que para o Aquinate:

a) todo e qualquer regime deve ser segundo a virtude e visar ao bem comum, sob pena de iniqüidade;

b) o melhor regime é o “misto”;

c) o modelo desse regime misto se encontra... no Antigo Testamento!

À leitura, pois.

• “Em terceiro lugar, é da razão da lei ser instituída por quem governa a comunidade cívica, como já se disse (q. 90, a. 3). E, de acordo com isso, as leis humanas se distinguem conforme as diversas formas de regime civil. Assim, a primeira dessas formas, como diz o Filósofo em Polít. III, é o reino [que podemos chamar também de ‘monarquia’], no qual, com efeito, a cidade [ou pólis, ou ‘Estado’, etc.] é governada por um só [em vista do bem comum; ver De Regno], e neste caso se fala em constituições dos príncipes [grifo nosso]. Outra forma de regime é a aristocracia, na qual assumem o governo os melhores ou nobres [em vista do bem comum; ver De Regno], e se fala então em respostas dos prudentes [ou ‘sábios’] e também em decretos senatoriais [ou ‘senado-consultas’; grifo nosso]. Outra forma de regime é a oligarquia, ou seja, o governo de poucos homens ricos e poderosos [segundo Aristóteles e o próprio Aquinate em De Regno, a oligarquia é uma degeneração da aristocracia; aqui Santo Tomás parece tratá-la de modo neutro; mas, para que não seja uma mera degeneração, ela deve visar, pelo menos em certo grau, ao bem comum], e neste caso se fala em direito pretório, que também se chama honorário [ou ‘honorífico’; grifos nossos]. Outro regime, ainda, é o do povo, denominado democracia [aqui, pela única vez o Aquinate usa o termo ‘democracia’ de modo ao que parece neutro, ao contrário do que faz em De Regno, onde a ‘democracia’ é dada como a degeneração da politia], e então se fala em plebiscitos [grifo nosso]. Outro regime é o tirânico, que é completamente corrompido, razão por que não comporta nenhuma lei [em De Regno, diz o Aquinate que a tirania ou é uma degeneração da monarquia, ou é o exercício tirânico do governo da maioria]. Existe também um regime constituído pela combinação dos anteriores [ou seja, o ‘misto’], que é o melhor, e neste caso se fala naquela lei ‘que os anciãos e a plebe sancionaram conjuntamente’, como diz Santo Isidoro” (Ia-IIae, q. 95, a. 4, corpus).

• “Respondo dizendo que, para uma boa ordenação [ou ‘constituição’] de governo numa cidade ou comunidade civil, é preciso atender a duas coisas. A primeira, que todos tomem alguma parte no governo, porque assim se conserva melhor a paz do povo, e se consegue que todos amem essa ordenação [ou ‘constituição’] e a guardem, como se diz em Polít. II. A segunda diz respeito à espécie de regime ou forma constitucional de governo. Enumera o Filósofo, em Polít. III, várias espécies de regime; mas as principais são a monarquia, na qual um governa segundo a virtude, e a aristocracia, ou poder dos melhores, na qual governam poucos segundo a virtude. Não obstante, a melhor ordenação [ou ‘constituição’] de governo numa cidade ou reino é aquela em que um único governa segundo a virtude e preside a todos; e abaixo dele alguns também tomam parte no governo, sempre segundo a virtude; e, no entanto, tal governo cabe [ou pertence] a todos, na medida em que todos não só podem ser eleitos, mas participam da eleição [como eleitores]. Tal é a melhor politia [ou, aqui, ‘regime’], na qual se combinam o reino [ou ‘monarquia’], na medida em que é um só quem preside; a aristocracia, na medida em que são muitos os que tomam parte no governo segundo a virtude; e a democracia, que é o poder do povo, na medida em que dentre o povo se elegem os governantes, e ao povo cabe [ou ‘pertence’] eleger os governantes. E tal foi o instituído segundo a lei divina. Com efeito, Moisés e seus sucessores governavam o povo como chefes únicos e universais, o que equivalia a uma espécie de reino [ou ‘monarquia’]. Depois eram eleitos setenta e dois anciãos segundo a virtude, como se diz em Dt, I, 15: ‘E eu tomei das vossas tribos homens sábios e nobres, e constituí príncipes’, e isto era aristocrático. Mas democrático era o fato de eles serem eleitos dentre todo o povo; diz-se, com efeito, em Êx, XVIII, 21: ‘Escolhe entre todo o povo varões sábios’, etc., e então eram eleitos pelo povo, segundo Dt, I, 13: ‘Dai-me dentre vós homens sábios’, etc. Donde se vê que a melhor ordenação [ou ‘constituição’] de governo era a que a lei instituiu” (Ia-IIae, q. 105, a. 1, corpus).

II) Logo ofereceremos, neste blog, o vídeo “A Lei e os Regimes Políticos segundo Santo Tomás”, uma das aulas do curso de uma semana que recentemente ministrei em Toledo, Oeste do Paraná, para os jovens e acolhedores membros da Associação Cristo Rei. Agradeço publicamente a eles, aliás, a generosa permissão para a distribuição e venda do vídeo.

domingo, 3 de agosto de 2008

Beethoven ainda (IV e final)

Carlos Nougué
O Padre Labouche diz quase ao final de sua análise da música de Beethoven: “É inegável, entretanto, que há uma lição por tirar dessa sonata propriamente chamada Appassionata: um ritmo desenfreado, sincopado, uma forte tensão harmônica, devida ao emprego de acordes dissonantes repetidos e não resolvidos, e crescendos desmedidos não são sem efeito sobre a sensibilidade e as paixões humanas, porque a sua origem é, precisamente, passional. Instabilidade, frustração, exacerbação são seu término.

“Certamente, um vulcão em erupção oferece um espetáculo cuja grandeza não é sinônimo de fealdade, mas é melhor não nos aproximarmos muito dele!...” (idem).

Concordo integralmente, mas com a seguinte ressalva: se um vulcão em erupção não é sinônimo de fealdade, uma música como a Apassionata é sinônimo de desarmonia, por todas as razões já expostas (com relação a seu fim, a seu efeito sobre o ouvinte e a suas características internas), e o que de qualquer maneira é desarmônico não pode ser integralmente belo; donde, ao fim e ao cabo, o vulcão em erupção que é a Appassionata ter, sim, algo de fealdade.

Há ainda, porém, algumas coisas por dizer aqui acerca do excelente texto do Padre Labouche (e pois com respeito a Beethoven e sua obra), porque não quero dar a menor impressão de que o mesmo Padre Labouche concordaria com o que concluo aqui: porque, com efeito, parece que com respeito a pelo menos mais uma coisa, além das já ditas, ele de fato não o faria totalmente. É ela:

Enquanto digo que boa parte da obra de Beethoven padece dos mesmos males de sua Appassionata, diz o Padre, com muito mais condescendência (e admiração): nem “toda a música de Beethoven é desenfreada a esse ponto [o da Appassionata]: seu Concerto para violino e orquestra, seu Quinto Concerto para piano (cujo Adágio é de nobilíssima doçura), seus Quartetos para cordas, bem como muitas outras obras, unem maravilhosamente imaginação criadora e mestria da arte musical, os dois componentes do gênio”. Concordo com grande parte dos exemplos (ou seja, excetuada parte dos Quartetos para cordas, que antecipa parte da música erudita cacofônica moderna), e de fato outros poderiam acrescentar-se; mas sigo dizendo duas coisas centrais.

a) Primeira, que boa parte da obra (de 135 peças) do compositor alemão incorre em pelo menos um dos problemas arrolados no post anterior. Veja-se, uma vez mais: não estou falando da capacidade técnica nem da genialidade de Beethoven. Mas o fato é que os vários problemas de que falo os vemos não só na Appassionata, ou na Quinta Sinfonia, ou na Nona Sinfonia, ou na “Sonata ao Luar”, mas também, por exemplo: no oratório Christus am Oelberg; na Sinfonia da Batalha; em muitas óperas, algumas das quais realmente medíocres (como Rei Estêvão e As Ruínas de Atenas); em Gli uomini di Prometeo; no TripelConcerto em Dó maior para piano, violino, violoncelo e orquestra opus 56; nos Concertos para piano e orquestra no 1, opus 15, e no 2, opus 19; no Quarteto nº 6 em Si bemol maior, opus 18 (melancólico e sombrio); no muitíssimo melancólico lied Adelaide; no furioso Trio para piano e cordas em Dó menor no 3, opus 1; nas patéticas, revoltadas, enervantes Sonatas para piano opus 2 e 10; no trágico Coriolano (aliás, em outros posts veremos o verdadeiro caráter da tragédia); na fúnebre Sonata para piano em Lá bemol maior, opus 26; na III Sinfonia em Mi bemol maior, intitulada Eroica; no Concerto para piano e orquestra no 4 em sol maior, opus 58, cujo segundo movimento inspirou Schopenhauer a dizer que “a arte justifica o sofrimento da vida” (como já vimos, para esse triste filósofo a arte é o sucedâneo da religião, e, como vemos aqui, da própria Cruz); no tonitruante Quarteto para cordas no 3 da série em Fá maior, Mi menor e Dó maior, opus 59, e no explosivo Quarteto da mesma série chamado Rasumovsky; no Trio para piano e cordas em Ré maior no 1, opus 70, chamado Fantasma e mortalmente triste; na dionisíaca VII Sinfonia em Lá maior; na áspera Sonata para piano em Lá maior, opus 101; etc., etc., etc.

b) Mesmo em seus melhores momentos, a música de Beethoven é, com relação aos fins da arte, de gênero inferior não só ao da música de Bach, mas mesmo ao da música barroca como um todo. E insisto: uma coisa é o gênio, e outra, muito diferente, o que se faz com ele.

Em tempo 1: Muito se fala na religiosidade e na fé de Beethoven, sobretudo por sua Missa Solene, por suas Seis Canções Sacras e, sobretudo, pelo movimento lento (“Cântico Sacro de Agradecimento de um Convalescente à Divindade”) do seu Quarteto em Lá menor, opus 132. Mas esclareça-se definitivamente: a sua “fé” era a da filosofia idealista alemã, ou seja, a de Kant e Schiller, e/ou a de Schelling – fé num “inefável”, como diz Otto Maria Carpeaux com a mesma admiração com que o darwinista e anticatólico Aldous Huxley falava da “mística” e do “Deus” de Beethoven.

Em tempo 2: Já o disse, e repito aqui um pouco mais longamente: as frases ascendentes ou de exaltação em Beethoven são amiúde bruscas, às vezes brutais, e rompem-se de modo bastante atormentado em frases descendentes muito mais longas: estas propriamente se abismam. E isso não pode levar senão o nome de desequilíbrio. Em Bach, ao contrário, a relação entre elas é perfeita, com a curva subindo e descendo em admirável equilíbrio, em proporções quase iguais e em meio a grande serenidade. É que a música de Bach expressa não só a harmonia dos coros angélicos e a harmonia das esferas: expressa também a harmonia de uma alma em seu ofício de louvar a Deus com sua música.

Em tempo 3: Para pensar: em certa catedral gótica, um escultor pôs uma escultura sua em lugar tão alto e escondido, que nenhuma pessoa a pode ver. Só Deus a pode ver.

Ainda a Política em Santo Tomás

Sidney Silveira
Como afirma em seu livro o Professor Barrera (que hoje é um dos mais respeitados especialistas no tema da "Política" em Santo Tomás, no cenário internacional), não se espere de Santo Tomás uma análise política das instâncias do poder, nem da forma das constituições — como o fizera Aristóteles —, mas sim a busca pelo fundamento metafísico da Política, e os corolários necessários que daí se seguem. E isto, como veremos, é o principal.

Para encontrar esse fundamento da Política na obra do Aquinate, é preciso sair um pouco dos manuais de filosofia para iniciantes — que, não raro, são o que eu chamo de Coleção primeiros e últimos passos [definitivos tropeços, na verdade] — e ir também além dos escritos “óbvios” acerca do tema na obra de Santo Tomás (De Regno e Suma Teológica [I-II, questões 90 a 97 – De lege e De iure et iustitia]). É preciso beber na fonte dos seus Comentários à Política e à Física de Aristóteles. Em cada um destes, Tomás de Aquino encontra algo que será importante em sua busca pelo fundamento metafísico da Política. Tanto assim o é, que o seu extenso Comentário à Política começa da seguinte forma: “Como ensina Aristóteles no livro II da Física, a arte imita a natureza. A razão é que, como se encontram entre si os princípios [na natureza], assim também, proporcionalmente, se acham as operações e seus efeitos [na arte]”.

Veremos depois o porquê de o nosso genial autor buscar no conceito de natureza o ponto analogante com que começa o seu comentário à... política! Mas isto depois. Por ora, vale deixar consignadas algumas das mudanças que o redirecionamento axiológico do Cristianismo (que, na obra do Aquinate, encontra uma síntese magistral abarcadora das teorias anteriores no seio da própria Cristandade, com a superação do agostinismo político) não poderá aceitar na doutrina aristotélica. Barrera aponta aspectos relevantes:

1- O aprofundamento da análise aristotélica da política por Santo Tomás, na medida que neste há mais uma filosofia política do que uma ciência política. Ou melhor, o que se chama habitualmente de scientia civilis é, em Santo Tomás, uma philosophia civitatis;
2- Diferenças quanto à discutibilidade de algumas teses aristotélicas, como por exemplo o conceito de natureza do autor grego — literalmente corrigido por Santo Tomás — contraposto ao conceito de natureza do próprio Aquinate, o qual terá alcance político em sua teoria;
3- A inaceitabilidade de algumas teses de Aristóteles, como a idéia de que a comunidade política é o âmbito supremo das realizações humanas (tese cujo milenarismo ou promessa de felicidade terrena Santo Tomás não pode, em hipótese alguma, aceitar); a exclusividade étnica na pólis; e a defesa da eugenia ou aborto eugênico. Diz Barrera, com muita propriedade: “(...) quando Aristóteles descarrega sua munição grossa contra bárbaros, escravos, crianças defeituosas, ou quando expõe seu malthusianismo avant la lettre, o Aquinate encontra uma contradição demasiado ofensiva contra a tradição católica (...)”.
4- O papel da religião na pólis. Aqui há outra diferença capital, e Barrera observa, muito a propósito, que a religião tem papel fundamental para todos os pensadores políticos importantes (duas das quatro partes do Leviatã de Hobbes, só para dar um exemplo, são sobre religião). De fato, lembra-nos Barrera que Aristóteles afirma o seguinte na Política: de todas as funções de que a cidade deve ocupar-se, a principal é o culto aos deuses (mas o nosso autor aponta brilhantemente a tensão não-resolvida, em toda a obra de Aristóteles, entre essa idéia e o seu conceito de religião, e mais ainda: o desprezo que o Estagirita expressa por religiosos e teólogos, que ele chama de mitólogos). Isto para não falar que o seu Deus-Primeiro-Motor-Imóvel sequer pensa nos homens, pois se pensasse perderia dignidade. Já em Santo Tomás, sendo a religião uma virtude moral — e não intelectual nem infusa, no que ele é contundente — e a principal de todas as virtudes políticas, o princípio será levado harmoniosamente às últimas conseqüências: TODA a sociedade deve estar sob a lei divina. Só para dar um exemplo, tirado da Questão 97 da I-II da Suma. “A lei humana, para ser correta, deve estar em consonância com as leis natural e divina, pois do contrário não estaria em harmonia com a religião, nem seria conveniente para a disciplina (...). Mas nenhum homem pode dispensar-se das leis natural e divina (...)”. Voltaremos a isto noutro post.

O livro de Barrera traz uma rica e atualizada bibliografia sobre o tema, com autores que dedicaram toda uma vida intelectual especificamente ao estudo da filosofia política, nas principais universidades da Europa e dos EUA. O ótimo retorno que tivemos até o momento, pelo email da editora Sétimo Selo, de professores de filosofia política (de orientações as mais díspares) que leram o livro, nos dá a certeza do bom serviço prestado, com esta edição.

É como me disse um amigo, grande professor: "Vocês na editora estão indo muito além dos manuais bolorentos que, nas mãos de gente apressada e pseudo-intelectualizada, apenas cauterizam os erros". Agradeço, nobre amigo! E acato humildemente o seu elogio.

sábado, 2 de agosto de 2008

O pecado de malícia, alguns remédios, etc.

Sidney Silveira
É clássica a divisão geral dos pecados por ignorância (defeito no entendimento), paixão (defeito no apetite sensitivo) e malícia (defeito na vontade). E aqui, surge uma questão teológica de grande importância: a da remissibilidade do pecado de malícia, em razão do seu dolo (veja-se a questão 78 da IªIIª da Suma Teológica). Dolo cuja gravidade é proporcional à matéria a que se refere — sendo o dolo em matéria religiosa o mais difícil de remir.

Santo Tomás, na já citada questão 78, diz que o pecado de verdadeira malícia se dá quando a vontade se move a um mal, o que pode acontecer de dois modos: por uma disposição corrompida transformada em hábito; e pela remoção de algo que impeça, formal ou materialmente, a ação maléfica, como no caso de alguém que deixa de pecar não porque isto desagrade a Deus, mas porque tem medo do inferno, e, neste caso, quando cai no desespero (que é a perda da esperança na salvação), o homem torna-se um malicioso desenfreado. Veja-se que até o motivo que nos faz evitar o pecado importa, e muito.

Ora, que o pecado de malícia é de difícil remissão se deve ao fato de que a malícia impede o arrependimento, condição indispensável para o perdão divino. As palavras de Santo Tomás, neste caso, servem para nos deixar alertas, pois são terríveis: A malícia torna-se uma qualidade permanente na alma. Mas, ainda para estes casos, há remédio, como veremos.

Alguns dos principais, para o católico, são: oração, freqüência aos Sacramentos, confissão habitual (duas vezes por mês seria ótimo, de acordo com alguns experimentados diretores espirituais), pequenas mortificações do corpo com intenção sobrenatural, jejum. E, na oração, pedir o principal, que é o Reino de Deus, pois tudo o mais nos será dado por acréscimo (cf. Lucas, XII, 31); ou, nos casos de pedidos relativos a coisas contingentes, subordiná-las ao fim último — como por exemplo alguém que peça alguma coisa material para poder servir melhor a Deus, como um estudante de filosofia ou de Teologia que peça uma bolsa de estudos para servir à fé (pois a Igreja, em todos os tempos históricos, sempre precisa de quem o faça, pois a messe é grande e os trabalhadores são poucos [cf. Mateus, IX, 37], razão pela qual o próprio Cristo nos aconselha a pedir a Deus que mande mais trabalhadores para a messe).

Rezemos, pois, para não cairmos jamais em tal estado de pecado grave de malícia, e, depois, por aqueles que por desventura já estiverem nele — para que recebam Graças atuais em abundância. E rezemos com confiança, tendo à nossa frente a bela definição que nos legou o Angélico Doutor: Confiança é uma esperança fortalecida por inabalável convicção (Suma Teológica, IIª-IIª, q. 129, a.6, ad3.). Esta é a convicção da fé, sem a qual não somos capazes de encontrar os remédios certos para os dramas da nossa própria alma, nem de suportar com espírito cristão os dramas alheios — como sejam, por exemplo, o das pessoas que nos odeiam.

Em tempo: Agradecemos ao apoio das inúmeras pessoas que vêm lendo o blog diariamente. Com certeza, continuaremos o trabalho, que de quixotesco nada tem — dada a clareza e objetividade dos temas tratados. Quixotesco é buscar a felicidade longe de Deus.
Em tempo 2: A essas pessoas amigas, aviso: a pequenina editora Sétimo Selo — de cuja linha de publicações muito me orgulho de ser o responsável — apresentará mais dois novos livros, ainda neste ano. Com a Graça de Deus.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Caminhemos com outro pequeno vídeo...

Sidney Silveira
Postamos a seguir mais um pequeno trecho de vídeo do lançamento do último livro da editora Sétimo Selo, no final do ano passado, no Centro Cultural Banco do Brasil — CCBB (Rio de Janeiro): A Política em Aristóteles e Santo Tomás, do nosso amigo Jorge Martínez Barrera, diretor da Faculdade de Filosofia da PUC de Santiago do Chile, que naquela ocasião gentilmente veio ao Rio para a apresentação de sua obra ao público brasileiro, a meu convite (no trecho escolhido, ele fala da perda da noção de bem comum, e uma frase sua, em particular, colocarei em negrito, pois a ela voltaremos noutro post: Esquecer a noção de bem comum é esquecer o objetivo principal da política, o seu fim principal). Além de mim, do Nougué e do Barrera, o outro palestrante que aparece no vídeo é o meu estimadíssimo amigo Paulo Faitanin, tomista de truz, como se dizia antigamente (responsável pela Aquinate, revista eletrônica de estudos tomistas). O livro de Barrera é, a propósito, não menos que excepcional, pois, entre outras coisas, mostra de forma claríssima os pontos em que Santo Tomás superou e corrigiu a Aristóteles, com relação à teoria política (digo isto sem o menor prurido, como alguns tomistas hoje parecem ter quando evitam falar da superioridade filosófica do Doutor Angélico, mesmo nos pontos em que ela é flagrante). Quem quiser adquirir o livro diretamente comigo, com 30% de desconto (estados do Rio, São Paulo e Minas) ou 20% (restante do Brasil), basta mandar um email para curso@edsetimoselo.com.br.

Antes de prosseguir...

Carlos Nougué
... com as séries já iniciadas (“Beethoven ainda”, “Liberalismo e comunismo – rebentos da mesma raiz” e “O latim ainda”), vejo-me obrigado a esclarecer várias coisas não só a meu respeito, mas a respeito deste mesmo blog e do que somos Sidney Silveira e eu. E vejo-me obrigado a fazê-lo porque as críticas que nos foram dirigidas publicamente o foram de maneira velada, ou insinuadora, ou mais propriamente velada e insinuadora ao mesmo tempo. Pois bem, seguindo embora, como já estabelecido, sem citar nomes de pessoas vivas senão para elogiar, falarei porém abertamente de mim e de nós mesmos, ao que parece com todo o direito...

• Antes de tudo, sou um mero católico, só muito tardiamente reconvertido, que porém já abjurou publicamente, por diversos meios, de todos os erros cometidos e cridos no passado — no terreno das idéias e da ação prática delas decorrente. E ser um mero católico quer dizer algumas coisas, como: a) não sou membro de nenhum grupo, embora tenha as minhas claras simpatias dentro do inegável caleidoscópio de correntes católicas atuais; b) o “grupo” que Sidney e eu constituímos para fazer este blog só foi constituído porque temos os dois, além de profunda amizade, visões muito próximas (quando não coincidentes) de quase tudo o que importa, incluídos naturalmente o tomismo e o liberalismo, justamente as causas mais próximas de fazermos o “Contra Impugnantes”; c) como leigo, não devo exercer o papel público de crítico e juiz da hierarquia da Igreja, mas tenho, sim, o dever de estado de criticar e julgar publicamente o liberalismo, o comunismo, o nazismo, o fascismo, o maurrasianismo (oh!), o escotismo, o cartesianismo, o kantismo, o maritainismo, o modernismo, o relativismo (e especialmente o relativismo no campo da religião), os ataques à Fé, ao Magistério bimilenar da Igreja e à Cristandade e suas instituições; etc.

• Entrando mais no campo do propriamente político (e como se poderá ver, claramente, ao longo da série “Liberalismo e comunismo – rebentos da mesma raiz”), não fazemos parte Sidney e eu de nenhum movimento monarquista, nem queremos criar um; e nem sequer digo que a monarquia seja o melhor dos regimes, mas digo, sim, com Santo Tomás, que o melhor dos regimes é o que ele mesmo chamava de “misto”. Tampouco, porém, propugnamos aqui a constituição de um partido pelo regime misto, nem, muito menos, a tentativa de sua real implantação – até pelo simples fato de que, obviamente, não teríamos força para isto, nem nós nem ninguém. Não obstante, como se verá detidamente na referida série, digo com todas as letras: Santo Tomás de Aquino rejeitaria a democracia moderna, que, se moderna é, já não se enquadra sequer no que o Santo chamava de democracia, ou seja, a degeneração do que ele chamava de politia (termo que, na falta de nome melhor, muitos traduzem por “república”). Mas também com todas as letras ecôo, aqui, especialmente a Chesterton: a democracia moderna é uma partidocracia a serviço de uma plutocracia (ou governo dos ricos em benefício próprio); para confirmá-lo, basta observar atentamente as nossas próximas eleições municipais e seus horários televisivos. E o que proponho para substituí-la? NADA, até porque antes de tudo sei o que é uma correlação de forças... Quanto à justeza de atuar ou não no interior da democracia moderna, ou quanto a votar neste ou naquele partido ou candidato, isso já entra no campo da prudência ou frónesis, e não se encontrará aqui nenhuma resposta a esse respeito: tampouco nos arvoramos em líderes, de nenhuma espécie. Mas podemos, sim, dar exemplos históricos de prudência política, como o de São Pio X, que, apesar de saber precisamente o que era a Action Française de Charles Maurras (como já disse, veremos aqui, criticamente, o seu caráter preciso, aparentado, por certo ângulo, ao do fascismo), sabia também que tê-la como aliada temporal da Igreja poderia evitar o êxito imediato de seus inimigos mais virulentos. Aliás, que isto sirva para os católicos que, infelizmente, costumam tachar de “integristas” os adversários “internos” (assim como o mundo nos tacha a todos de “fascistas”): antes de fazê-lo, vejam bem se não estão tachando, por tabela, também um Papa santo como Pio X... Além disso, por que esse amor a certos rótulos, tão em voga desde que a revolução liberal francesa os colou numa multidão de cabeças guilhotinadas?

• Fomos acusados, igualmente, de não citar o Magistério atual da Igreja, apenas o antigo. Que nos responda quem nos acusou: há dois Magistérios na Igreja?

• Finalmente: se Deus quiser, em breve oferecerei uma espécie de “trivium”, com cursos de Lógica, Latim e Português. Logo darei mais detalhes.
(Agora, voltemos, nos próximos posts, àquilo a que desde o início nos propusemos.)