sexta-feira, 18 de julho de 2008

A estrutura da ação humana em sua completude (II)

Sidney Silveira
(continuação de: 1- A psicologia da ação humana).

No texto anterior, vimos que os sentidos externos já nos fornecem um conhecimento verdadeiro, embora incompleto. Verdadeiro porque pelos sentidos nós já possuímos as coisas com certa imaterialidade, nas palavras de Santo Tomás. Ou seja: na medida em que somos conformados às coisas sensíveis pelas sensações impressas por elas em nossa psique: sentindo o calor, já temos um certo conhecimento do que é quente, embora ainda não saibamos qual é a essência do calor. Incompleto porque o conhecimento intelectivo vai além e abstrai — dessas qüididades sensíveis —, a ratio veri, ou seja, a “razão de verdadeiro”, a essência da coisa, o que ela é, a partir de seus princípios constitutivos, de onde infere as possíveis aplicações dessa forma entis, etc. Se abstraímos as essências das coisas é porque delas não temos a intuição direta, como pensava Husserl. Se a tivéssemos, ao primeiro contato com uma realidade qualquer já teríamos necessariamente a sua species impressa em nossa inteligência, o que não é verdade.

Depois de (em a.1) abordarmos o mais “radical” dos sentidos, que é o tato, pois dele todos os animais compartilham, prossigamos ainda no âmbito dos sentidos externos — depois dos quais passaremos aos sentidos internos.

a.2) Paladar e olfato

Estreitamente unidos e assemelhados ao tato estão os sentidos do paladar e do olfato. O paladar — como já dissemos com Santo Tomás — parece ser uma espécie circunscrita de tato, pois se o tato se refere a qualidades que manifestam de imediato o seu caráter de conveniente ou inconveniente para a própria vida (como o calor e o frio, o cortante e o macio, etc.), o paladar se orienta a conhecer o conveniente ou inconveniente dos alimentos quanto ao sabor. Pelo paladar sentimos algo amargo, mas não sabemos o que é o amargor e nem que alguns remédios amargos são convenientes para a saúde do corpo, pois esta informação só a inteligência pode obter. Quem tem animais domésticos em casa sabe que, para eles tomarem um remédio de gosto amargo ou azedo, muitas vezes é preciso misturá-los com comidas saborosas.

Quanto ao olfato, ainda no já citado De sensu et sensato, diz Santo Tomás que ele é muito semelhante ao tato, pois sente o cheiro de algo agradável ou desagradável — ou seja, conveniente ou inconveniente quanto à forma captada —, embora não alcance a razão de ser dessa forma específica. Mas vale acrescentar que, fisicamente, a potência do alfato tem alcance um pouco maior, pois capta o seu objeto a uma certa distância, ao passo que o tato, para exercer-se, carece do contato com outro corpo.

Observe-se que não estamos analisando, aqui, as células sensoriais que captam essas realidades (no caso do paladar, são as papilas gustativas sob a língua), mas os objetos que especificam essas potências e, também, qual a natureza dessas informações obtidas nessa captação sensorial. A abordagem, portanto, não é biológica, mas metafísica.

No próximo post falaremos da visão e da audição. Mas, antes de a elas chegarmos, vale fazer algumas observações quanto ao que foi visto até aqui, pois o que motivou esses textos foi a crítica ao livro Ação Humana, de Ludwig von Mises.

Uma “praxeologia” — nos termos em que a que define Mises — sem uma sólida metafísica e sem uma antropologia (incluída nesta a psicologia) que lhe dê suporte é, para dizer o mínimo, um reducionismo inconcebível e, o que é pior, conducente a erros tremendos, em se tratando de ações propriamente humanas. Significa desconsiderar, destas últimas, a sua própria essência — até porque agentes todos os entes o são, e não apenas o homem. Explico-me: toda potência tende aos atos que lhe são próprios. Assim, a visão tende a ver, o paladar tende a sentir o gosto, a inteligência tende à verdade, etc. Quando isto acontece, dá-se a ação — o movimento da potência ao ato —, e, assim, fica definido o seguinte: todos os entes compostos de matéria e forma, sem nenhuma exceção, são agentes e, também, pacientes da ação de outrem. Só a matéria prima poderia ser absolutamente passiva (pura potência e, por isso, não agente). Isto “escapou” a Mises, e, quando ele diz, por exemplo, que um bebê recém-nascido não é agente, porque ainda não se desenvolveu, mostra que aplica o termo “ação” de forma absolutamente equívoca, e assim também o termo “humana”, pois o ato propriamente humano é outra coisa: não se distingue apenas por ser ação, mas sim por ser uma ação com características próprias não compartilhadas com nenhum outro animal (e, embora Mises também faça essa distinção em seu texto, na prática acaba por aproximar-nos das ações dos animais, como veremos). Alguém objetará que Mises é economista, e que estes problemas são atinentes à metafísica, ao que respondemos, com Aristóteles: a metafísica é a base de todas as ciências, e sem essa base tendemos a pôr o acessório no lugar essencial. A história da filosofia nos dá mostra inequívocas disto!

Não confundimos a teoria da ação de Mises, a praxeologia, com a psicologia, mas apenas estamos afirmando que aquela sem esta não chega sequer a ser conhecimento em sentido estrito (no tocante à essência da ação humana). E que, para chegarmos ao aspecto formal da ação humana, é preciso estudar tudo o que, sobre ela, exerce algum tipo de influxo — como os sentidos, que ora descrevemos.

(Prossegue)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Liberalismo e comunismo – rebentos da mesma raiz (III)

Carlos Nougué
No artigo anterior desta série, vimos que diz Santo Tomás, na Suma contra os Gentios, que “para a contemplação perfeita requer-se a incolumidade do corpo, à qual se ordenam todas as produções do homem necessárias para a sua vida. Requerem-se, também, o apaziguamento das perturbações das paixões, o que se obtém por meio das virtudes morais e da prudência, e o apaziguamento das paixões externas, ao qual se ordena todo o regime da vida civil, de modo que, se considerados retamente, todos os ofícios humanos parecem estar a serviço dos que contemplam a verdade”. Vimos também, ainda segundo o Aquinate, que é “na contemplação da sabedoria que versa sobre as coisas divinas que consiste a suprema felicidade do homem”. E concluímos então que falávamos ali “em termos de pura naturalidade”, sem sair do âmbito dos caracteres próprios do homem, determinados por sua própria natureza. “A contemplação de Deus aqui referida”, dizia-se, “não é a visão beatífica da face ou da essência de Deus que nos anuncia a Revelação; mas é já, como diz ainda o Padre Julio Meinvielle, ‘verdadeira contemplação, posse e fruição de Deus’”.

Resta saber, porém: é possível tal âmbito de pura naturalidade? É possível essa ‘verdadeira contemplação, posse e fruição de Deus’ de que fala o Padre Julio Meinvielle? Em outras palavras, teria o homem dois fins, um natural e um sobrenatural? Para responder a tudo isso, é preciso, mais uma vez, ir com muita calma e paciência, indagando-nos primeiro sobre a possibilidade de o homem alcançar por si mesmo todos aqueles itens que relaciona o Aquinate como pré-condições para a contemplação “natural” de Deus.

Mas, ainda antes disso, deve-se repetir o que dizia Servais Pinckaers O.P. sobre a dificuldade principal de entender o pensamento e a obra de Santo Tomás de Aquino: o fato de que procedem por camadas que se vão superpondo de certa maneira, qual seja, com cada camada superior assimilando o que expressa a anterior, mas conformando-o ao que agora se diz — e assim sucessivamente até a última camada. Em outras palavras, a obra e o pensamento do Aquinate são como uma imensa catedral, e, se, encantados com uma das pedras que a constituem, nos fixarmos nela sem atentar para a pedra superior, perderemos a articulação de conjunto e nunca chegaremos à agulha da catedral que aponta para a Causa das causas de sua mesma construção.

Pois bem, saiamos da camada do pensamento do Aquinate em que ele arrola as pré-condições para a contemplação “natural” de Deus perguntando-nos, como já se disse: São elas de possível consecução? Vejamo-las uma a uma.

1) É possível a perfeita “incolumidade do corpo”, mesmo pressupondo-se uma pólis cuja produção de bens que visem a tal fim seja perfeitamente satisfatória? É claro que não. Primeiro, pela razão mais que evidente de que o nosso corpo morre um dia. Mas, ainda deixando de lado este evento último, todos sabemos que o nosso corpo, mais dia, menos dia, padecerá alguma enfermidade mais ou menos grave, perdendo assim a incolumidade — independentemente, repita-se, do nível de satisfação de suas necessidades pela economia da pólis. O nosso corpo é não só mortal, mas passível (de enfermidades).

2) É possível um perfeito “apaziguamento das perturbações das paixões” “por meio das virtudes morais e da prudência”? Ora, qual de nós, por mais virtuoso e prudente que seja, pode afirmar que apaziguou perfeitamente as perturbações das nossas paixões? Quantas vezes cada um de nós, ainda que sabedores de nossos defeitos, e ainda após ter decidido firmemente, com toda a boa-fé do mundo, combatê-los, e fugir deles, e corrigi-los, não acaba por incorrer novamente neles após um tempo mais ou menos longo? Podemos melhorar, podemos apaziguar em certo grau as perturbações das nossas paixões, podemos até superar grandemente algumas delas? Certamente, também isto cada um de nós já há de ter experimentado. Mas segue o fato inegável de que não conseguimos apaziguar perfeita nem totalmente as perturbações das paixões mediante as virtudes morais e a prudência que naturalmente desenvolvemos.

3) É possível a um regime civil, a um governo apaziguar perfeitamente as “paixões externas”? Pensemos no melhor dos regimes, pensemos no melhor dos governos, pensemos no melhor dos governantes que já passaram pela face da Terra: terá conseguido ele apaziguar perfeitamente as paixões externas? coibir, por exemplo, tudo quanto seja fonte de escândalo para as crianças? impedir, ainda por exemplo, toda e qualquer perturbação da paz social, que é, ao fim e ao cabo, a mais básica, a mais fundamental das finalidades do governante? ou, sempre por exemplo, impedir totalmente leis de algum modo iníquas, ou as feridas à justiça distributiva? Se se pudesse apontar tal regime ou governo, estaríamos não no mundo que nos é dado conhecer desde um princípio, mas num mundo anterior, de cujas características, por razões que veremos mais adiante, nossa única “recordação” é uma espécie de nostálgica melancolia difusa.

P.S.1: E, ainda para aludir a um vínculo entre esta série sobre o liberalismo e o comunismo e a série sobre o belo e a arte, diga-se: tal nostálgica melancolia difusa está presente na arte, é parte integrante dela.

P.S.2: Não há nada mais triste que ver alguém, dizendo-se embora católico, defender que diante da nossa natureza caída se deve recorrer a expedientes resultantes... de nossa natureza caída! É o católico liberal, ou melhor, o liberal que se quer católico. Esquece ele o básico: a único corretivo possível para as impossibilidades tanto individuais como políticas do atual estado do homem ou vem do sobrenatural, ou não virá. Mais ainda: mesmo com esse corretivo, tudo quanto tentemos nesta Terra, por melhor que seja pelo auxílio da Graça, será sempre assintótico — simplesmente porque a “pólis” d’Ele não é deste mundo.

P.S.3: Como dizia o Papa Leão XIII, “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados [...]”. Era o corretivo possível de que falo acima. Mas os liberais que se querem católicos, esses querem instaurar um tempo em que as consciências individuais governem a filosofia do Evangelho...
(Prossegue)

Antes de voltarmos a Mises: a estrutura da ação humana em sua completude (I)

Sidney Silveira
A esta altura da história da filosofia, é impossível falar de ação, ou de agente, sem ter noção do conceito de ato, em Aristóteles, e dos desenvolvimentos que dele se fizeram ao longo dos séculos. A metafísica aristotélica do ato e da potência é uma aquisição definitiva para a história do pensamento, e negligenciá-la é — na melhor das hipóteses, para sermos benevolentes — engolfar-se em problemas já resolvidos satisfatoriamente no passado, ou, se se quer ficar na linguagem filosófica, apoditicamente.

Por isso, antes de prosseguirmos com Ludwig von Mises e com a sua idéia de que é possível analisar a ação humana independentemente de quaisquer circunstâncias (Human Action, capítulo II), o que é, em si, desconhecer a rica abrangência e, sobretudo, a essência do ato propriamente humano, vamos fazer a distinção da ação humana da seguinte forma:

1- A psicologia da ação humana.
2- A metafísica da ação humana.
3- A ontologia da ação humana.


A propósito, o argumento do economista, nesse mesmo capítulo do seu opus magnum, é o de que a praxeologia busca afirmações que não derivam da experiência, pois ela não se refere ao aspecto material dos atos, mas apenas formal, não obstante diga Mises no mesmo parágrafo que a praxeologia demarca um limite “semelhante ao da experimentação”, no caso das ciências que interpretam eventos físicos e químicos. E, no parágrafo seguinte — depois de haver anteriormente nos informado de que “o erro dos filósofos” (sic) se deve à sua total ignorância em economia (sic), e também a um candente desconhecimento em história (em um post anterior, informamos que, para Mises, a inteligência humana é um dado histórico [as palavras são dele!], pois viemos de... uma ameba!!! [também palavras dele!) —, o economista nos remete novamente ao evolucionismo que ele dá por certeza “científica”, ao dizer que o homem é “descendente de ancestrais não-humanos que não tinham tal capacidade (racional)”. É verdade que Mises nos diz que o homem não é só um animal sujeito a estímulos, mas um ser agente, e a categoria da ação é antecedente aos atos concretos (??). Mas desmontaremos tudo isso com calma, em prol da verdade, e não sem muito trabalho. Portanto, pedimos aos leitores que nos acompanhem devagar.

1- A psicologia da ação humana

O homem é uma unidade psicossomática, na qual se distinguem potências e atos especificados por seus objetos formais. Portanto, antes de chegarmos ao ato propriamente humano, em sua exterioridade atualizada no tempo e no espaço, é fundamental termos noções básicas sobre a relação alma-corpo (psique-soma), e como ela influencia a inteligência e a vontade, no exercício dos seus atos próprios. Seguiremos de perto o Prof. Martín Echavarría, autor do já citado La praxis de la psicologia y sus niveles epistemológicos según Santo Tomás de Aquino, pois a sua síntese é, simplesmente, esplêndida.

a) O conhecimento sensitivo (os sentidos externos)

De acordo com Santo Tomás (e ele está certo, como veremos adiante), todo conhecimento é uma posse imaterial do ente conhecido a partir da essência das coisas materiais (quidditas rei materialis). E, ao passo que os sentidos externos (tato, paladar, olfato, audição e visão), em si mesmos, apreendem não-intencionalmente as coisas (se eu abro os olhos, não há como não ver o que vejo), a inteligência as apreende intencionalmente — daí que todo conhecimento intelectivo é intencional, pois a vontade e a inteligência estão nele implicadas. Mas aqui já temos uma pista de que também os sentidos externos nos trazem um conhecimento verdadeiro, embora ainda incompleto, porque pelos sentidos já possuímos a coisa com certa imaterialidade, ou, como diz Echavarría, com um grau primitivo de imaterialidade.

a.1) O tato

O tato é, em sua instância específica, o mais universal dos sentidos, pois nenhum ente dotado de anima (ou seja: de princípio intrínseco de movimento de corpo) carece dele, nem mesmo um ente unicelular: da ameba evolucionista do texto de Mises ao próprio Mises, todos os animais possuem tato. E, como em todos os demais sentidos há algo do tato — na medida em que, nele, se cumpre o estatuto sensorial elementar —, neste aspecto o tato é o mais importante dos sentidos, como afirma Santo Tomás (em De sensu et sensato, 1, II, nº 21). Ademais, o tato de certa forma não é um só sentido, mas contém alguns outros — ainda que de forma imperfeita. Assim, o paladar parece uma espécie circunscrita de tato (cfme. De sensu et sensato, nº 23), pois se orienta a conhecer o conveniente ou inconveniente para o corpo, a partir de um contato físico.

Ao final desta série, ficará para o leitor evidente não apenas que a ação humana, para ser descrita em seu aspecto formal, não pode deixar de observar todas as instâncias disto que é o homem (como faz Mises), pois na ação humana está implicado todo o seu ato de ser, em graus distintos. E esperamos, de passagem, também mostrar que a tese central de Xavier Zubiri, em sua trilogia Inteligencia Sentiente (de que inteligimos sentindo e sentimos inteligindo) põe, num mesmo plano, potências não apenas distintas quanto ao objeto, mas também quanto à sua dignidade entitativa.

(Prossegue)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A objeção filosófica

Sidney Silveira
Uma pessoa que se tenha dado o trabalho de estudar a fundo o Trivium e o Quadrivium escolásticos, assim como o método prolífico da disputatio medieval, saberá o que é, em sentido próprio (simpliciter), uma objeção. A objeção, para de fato objetar, precisa não apenas referir-se ao âmago da questão em disputa, mas também alcançar o maior número possível de problemas dela derivados — problemas sem cuja resolução ela mesma fica em aberto. E isto sem jamais nos esquecermos de que a disputatio é um combate de argumentos, e não de pessoas, razão pela qual os escolásticos — tanto por respeito, como por sua admirável sabedoria prática, que os fazia evitar bate-bocas estéreis — jamais citavam autores das objeções que ainda estivessem vivos (em geral, os autores de objeções que eram citados estavam mortos já há algum tempo). Tendo, pois, esse elevado modelo à nossa frente, nós também não citaremos nomes de pessoas, a menos que seja para elogiá-las. E só responderemos às idéias contrárias dos nossos adversários — mas não necessariamente inimigos — liberais (postadas em seus sites com menção ao Contra Impugnantes), que:

1º. Tenham mínima base metafísica. Este primeiro tópico é absolutamente eliminatório, ou seja: se o sujeito demonstra não ter a mínima noção do que seja ente, ser, potência (ativa e passiva), ato, existência, objeto (puro, formal, acidental, próprio, lógico, etc.), finalidade (próxima e remota; apetecida intelectivamente pelo homem ou apetecida sensitivamente por entes sem potências intelectivas e, por isso, não dotados de vontade), causalidade (e não apenas as quatro causas aristotélicas, mas a noção de causa instrumental, exemplar, meritória, remota, próxima, causas ordenadas essencial e acidentalmente, etc.), razão, inteligência, lógica, etc., não há conversa, embora possamos deixar um alvitre a esse arquetípico adversário: estude com afinco essas noções elementares — e nem por isso fáceis —, e então esteja à vontade para entrar numa discussão filosófica. Algumas dessas noções nós as explicaremos aqui mesmo no blog. Mas antes de adentrar a arena, faça conforme Santo Tomás aconselha no breve escrito “Sobre o Modo de Estudar” (De Modo Studendi): Silencia, sê tardo no falar (tardiloquum te esse iubeo...). É o primeiro conselho que ele dá aos estudantes: só falem sobre algo quando esse algo se transformar em conhecimento habitual;

2º. Sejam respeitosas (já se disse que, mais à frente, publicaremos uma disputatio sobre se é lícito, numa discussão filosófica, usar de palavras de calão, mesmo que seja contra adversários corrompidos até a medula);

3º. Sejam honestas e tenham como objeto formal próprio, em sua argumentação, apenas a verdade. (Se você ainda não sabe o que é um objeto formal próprio e quais as suas relações com o sujeito que tende a ele ou o apetece, e os modos como é possível dar-se essa tendência e essa apetência, vale o conselho do primeiro tópico: estude);

4º. Estejam dispostas de forma clara, e não em confusionês, que é um idioma largamente praticado em nível mundial, e que se caracteriza, entre outras coisas, pelo fato de as ilações virem antes dos argumentos, o que, além de ser um primor de non sense, é mais ou menos como fazer os sapatos caminhar sem os pés. Outra característica do confusionês é misturar os argumentos e dispô-los nos lugares errados: o argumento lógico, na metafísica; o da metafísica, na física; o ontológico, na gnosiologia; o teológico, no lixo; e o econômico, isolado;

5º. Etc. (E ponha-se "etc." nisso...)
Para termos uma idéia do que verdadeiramente seja uma objeção, e de que esta sempre abarca várias questões correlatas, vale um exemplo. No De Malo, algumas questões enumeradas por Santo Tomás chegam a ter vinte fortes argumentos em contrário, desde a pergunta inicial da primeira questão desta obra-prima, acerca de “se o mal é algo” (Et primo quaeritur an malum sit aliquid ). Por isso o livro é uma arquitetura em que cada argumento, cada pedrinha tem ligação inextricável com a seguinte. Isto dá muito trabalho e requer honestidade, paciência, visão dos meios e dos fins. Sendo assim, imaginemos agora se Santo Tomás respondesse a todas as objeções de iniciantes ou de pessoas que sequer têm conhecimento das precondições para estabelecer-se uma discussão filosófica? Não teria deixado a obra que deixou, e perderia um tempo enorme com bobagens.

Enfim, repetimos uma vez mais: este é um espaço de combate contra a cosmovisão liberal — e não contra pessoas liberais (entre as quais, como já se disse, temos amigos a quem queremos muito bem). E essa cosmovisão, como também já se disse várias vezes, tem, entre as suas principais características:

1- Crença na autonomia da consciência individual (autonomia que é uma impossibilidade ontológica, como já mostramos);
2- Noção equívoca de liberdade (a qual não radica no ato de escolha, como também já mostramos em vários posts) ;
3- Antagonismo entre Estado e indivíduos;
4- Noção equívoca e inconsistente de “indivíduo” (a qual já desnudamos aqui em vários textos, e muitos outros ainda virão);
5- Falta de uma antropologia filosófica elementar (ou seja: o que é o homem, quais os seus atos próprios, etc).
6- Perda do sentido transcendental de finalidade, de telos (a praxeologia de Mises é um exemplo do qual falaremos noutro texto; assim como o argumento de que as questões econômicas são independentes das questões metafísicas, das teológicas e das religiosas, porque visam a alguns meios específicos [essa tese ainda será largamente revisitada por aqui]);

É evidente que tudo o que falamos aqui, com relação às precondições para uma discussão verdadeira e profícua, vale também para nós mesmos. Por isso, aconselhamos às muitas pessoas que têm navegado por este blog, o qual tem apenas um mês — as mensagens são muitas e a elas agradecemos, eu e o Prof. Nougué! — que não leiam os textos isoladamente, mas abram os links que há neles, onde em geral há o argumento anterior que sustenta a proposição. E pedimos também paciência, pois certos temas — que requerem maiores desenvolvimentos — ficarão claros apenas no decorrer dos textos publicados.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Noções preliminares sobre o "belo"

Sidney Silveira
Postamos a seguir o sétimo pequeno vídeo do blog: uma outra parte da entrevista concedida por Carlos Nougué ao Prof. Marcos Cotrim, da Universidade Católica de Anápolis. Como diz muito bem Nougué nesse trecho, falar em música, em arte, pressupõe falar em belo, ou seja: sem uma concepção sobre o que seja a beleza em si, não há como dizer com segurança que tal ou qual coisa seja bonita. Para se ter idéia de quão espinhoso é o problema, o diálogo de Platão que aborda o tema (o Hípias Maior) é considerado aporético, isto é, inconcluso, e termina com a admissão, por parte de Sócrates, de que o belo é uma coisa difícil.

Beethoven ainda (I)

Carlos Nougué
O que vou escrever neste e nos próximos três posts está mais desenvolvido na entrevista que dei ao Professor Cotrim, cujo vídeo logo estará disponível, na íntegra; será muito mais desenvolvido no estudo de maior escopo de que já falei; e, ainda que em menor escala, também aparecerá com algum desenvolvimento na última série sobre o belo e a música que postarei neste blog.

Se ainda insisto aqui no tema “Beethoven”, é para desfazer alguns mal-entendidos, sobretudo este: Quer dizer então que, ao afirmar que boa parte da música de Beethoven não expressa nenhuma harmonia, mas antes alguma desarmonia da própria alma ou a da revolução, estarei dizendo que o compositor alemão não conhecia “harmonia” ou não a dominava?

Obviamente que não. Lembre-se que começo por dizer, em “Gênios e gênios”, que Beethoven era um gênio da música, e para ser tal é impossível não dominar perfeitamente a arte e ciência da harmonia, ou seja: aquela que tem por objeto a formação e o encadeamento dos acordes segundo as leis da tonalidade e do cromatismo. O compositor alemão foi, indubitavelmente, um dos maiores conhecedores dessa arte e ciência; mais: foi um gênio, tinha a chispa da genialidade. O que disse e digo é que, em boa parte de sua obra, usava tanto aquele conhecimento como esta genialidade para um objetivo mau, e que por isso mesmo essa parte de sua música era em si mesma música má, pelos menos não integralmente bela. Vejamo-lo algo detidamente.

Em grande parte do que direi aqui, remeto-me ao magnífico artigo do Padre Bertrand Labouche Bach et Pink Floyd – Petite étude comparative de la musique classique et de la musique rock, publicado na não menos magnífica revista Le Sel de la Terre, Avrillé, no 58, Automne 2006. Mas as conclusões que tirarei aqui, conquanto me pareçam próximas das do Padre Labouche (que além de tudo é músico e profundo conhecedor de sua arte), são de minha inteira responsabilidade. Vejamos, pois, à guisa de exemplo, o que se pode dizer aqui da Sonata para piano no 23, a Appassionata, opus 57, de Beethoven.

Nesta peça, composta em 1805, Beethoven “abandona as categorias estéticas em vigor e troca a beleza tradicional por um novo tipo de expressão” (Ulrich Michels, p. 403, apud Padre Labuche, Bach et Pink Floyd...). A estrutura da peça, é verdade, ainda “é a de uma sonata clássica (exposição – desenvolvimento – recapitulação – coda), mas ‘massas sonoras de intensidade máxima irrompem bruscamente: na nuança f f [fortissimo], sobre um ritmo sincopado, acordes maciços de fá menor, em movimento ascendente, rompem brutalmente a linha temática e a atmosfera [...], mas este episódio prepara ao mesmo tempo a chegada do segundo tema ascendente, em lá bemol maior [...], a melodia nobre indicada como pp dolce’” (Padre Labouche, ibid.).

O próprio compositor relacionava esta sonata à peça de Shakespeare A Tempestade, e, com efeito, como diz o Padre Labouche, a sonata “evoca [...] uma verdadeira tempestade por seus martelamentos e rompimentos rítmicos acompanhados de violentos contrastes harmônicos” (idem). Convenhamos, porém, que não se trata aqui, como tampouco na peça de Shakespeare, de um evento atmosférico, mas de uma tempestade da alma. Chegou-se a ver nesta peça “o coroamento da vida espiritual de Beethoven, a luta contra o destino (tema que se encontra em sua Quinta Sinfonia: sol-sol-sol-mi: o destino que bate à porta...), e depois a aceitação e o sentimento religioso que disso deriva, notadamente no segundo movimento, andante con moto, antes da explosão final” (idem).

Convenhamos ainda, antes de prosseguir com as palavras do Padre, que algo já se pode dizer sem hesitação desta peça musical e da parte da obra de Beethoven que a ela se assemelha: a) trata-se de um rompimento com as categorias estéticas tradicionais, que como vimos foram maximamente desenvolvidas por Bach, mas se mantiveram de alguma maneira nos clássicos Haydn e Mozart; b) como a beleza artística é uma expressão do belo transcendental e das harmonias celestes, cósmicas, sociais, humanas, etc., ela tem caráter objetivo, razão por que romper (romper, não desenvolver, o que seria outra coisa) com as categorias que sempre a sustentaram implica, pelo menos, a substituição da função original (a expressão do belo e harmônico) por outra (que logo veremos qual seja); c) assim como a expressão artística do belo e harmônico tem características análogas às do que expressa (do mesmo modo que a palavra “catraca” tem em si algo, o som, semelhante ao objeto que ela significa), assim também o “novo tipo de expressão” beethoveniano há de ter características análogas às do que expressa.

Mais ainda: o “sentimento religioso” que deriva daquela aceitação referida, ou seja, do seu destino, não é o sentimento católico, e isso, caríssimos, o sabemos histórica e biograficamente. O sentimento religioso que se pode conceder a Beethoven é precisamente o resultante do rebaixamento — típico do pré-romantismo e do romantismo — da religião a um sentimento, a uma emotividade, a uma vivência pessoal, a qualquer coisa assim muito inferior à verdadeira religiosidade, que ou dependerá das virtudes teologais infundidas por Deus mesmo e da moção da Sua graça, ou não será.

Mas será que se dá mesmo aquele sentimento religioso na peça musical de que estamos tratando (e em boa parte da obra do compositor)? É o que veremos no próximo post.

Essa gente bem-falante

Sidney Silveira
Já se disse aqui que o liberal, quando é letrado, consegue na melhor das hipóteses ser um esteta, um sujeito hipnotizado pela casca de beleza que há na forma de uma composição artística qualquer. Isto porque, nessa auto-idolatria camuflada — que é a crença na consciência individual autônoma —, ele desvirtua uma de suas tendências fundamentais, que é a sindérese, hábito natural que capta os primeiros princípios da razão prática. Querendo-se “autônomo”, no ato ele já deforma a sua própria consciência.

Assim, não lhe peçamos para ter a clara noção de uma hierarquia de valores objetivos que sejam a expressão das coisas reais, isto é, encontrem nestas últimas a sua correspondência ontológica, pois, como o bem e o mal “dependem” unicamente da percepção da sua consciência individual, certamente “bom” e “mau” serão conceitos “relativos”, salvo em casos extremos, talvez em situações de risco de vida. Daí que liberalismo e relativismo moral sejam, pois, irmãos siameses. Para o liberal, uma organização ocultista-satanista e um clube de xadrez são, ambas, instituições aprioristicamente legítimas, pois as pessoas que lá estão escolheram livremente lá estar (e uma vez mais: já mostramos que a liberdade não radica no ato da escolha). Pois bem: se o liberal crê realmente nessas premissas (às vezes nos custa acreditar!), falar bem ou mal de alguém ou de alguma instituição pode virar para ele um esporte, um lazer sardônico. Algo engraçado (se é contra os outros, e a favor dele mesmo) ou enfadonho (se é contra um dos seus “valores” individuais).

Para o católico, a coisa é diferente. A Igreja é uma instituição absolutamente perfeita quanto à doutrina sublime (ensinada pelo próprio Deus, na Pessoa do Cristo), quanto aos fins (a salvação das almas) e quanto aos meios (os sacramentos, que são sinais sensíveis da Graça, sem a qual o homem não pode salvar-se). Na visão católica, as gradações de bem e de mal nas coisas humanas — obras de arte, política, economia, etc. — são configuradas de acordo com que nos aproximem ou nos distanciem desse bem espiritual absoluto que é a doutrina do Evangelho, assim como dos meios pelos quais nos mantemos ordenados a esse fim sobrenatural beatífico. Vale dizer que também não serão boas caso nos distraiam dos valores fundamentais, fazendo-nos cair numa inércia hedonística — típica entre liberais, que hoje se interessam por uma bobagem, amanhã por outra —, inércia na qual o espírito se dissipa, amolece, se desviriliza, torna-se propenso a ser acometido de toda a sorte de paixões. E aqui, de passagem, não custa deixar registrada a definição de “paixão” que Santo Tomás acolhe do grande São João Damasceno, pois adiante voltaremos ao assunto: Paixão é o movimento do apetite sensitivo pela imaginação de um bem ou de um mal. Anotem, por favor, e aguardem.

São Paulo já nos dera a medida do bom combate: percorrer o caminho até o final, guardar a fé — o que implica também defendê-la contra idéias errôneas e maliciosas. Sendo assim, de fato, uma das formas de ser construtivo é destruir o que é destrutivo; quando isso é possível, torna-se obrigação moral, e não levá-la a cabo é nada menos que omissão. Diz o mesmo Santo Tomás que é dupla a função do detentor de algum saber: ordenar as coisas aos fins que lhes são próprios e combater os erros, pois uma implica a outra. Por isso, não há bom-mocismo no caminho de quem busca a sabedoria, e principalmente no de quem pretende manter-se sob a luz da fé, pois um só pecado mortal retira-nos a Graça atual e, assim, um só desses tem o condão de levar-nos ao inferno, se não buscamos remédio! Odiar o que é odiável, destruir o que destrói o que temos de mais digno é, por tudo isso, uma coisa altamente edificante, pois visa ao duplo bem das almas: ao bem inteligível, que é o fim da alma racional, pois todas as suas potências estão ordenadas a ele; e ao bem supra naturam, que é a beatitude perfeita, que sobreeleva a natureza pela Graça. Esse é o caminho dos Santos de todos os tempos.

Deixo aqui, a propósito, um exemplo prático de que o combate aos erros é um dos mais instrutivos e positivos combates: um trecho do parágrafo final do esplêndido livro De unitate intellectus contra Averroistas, de Santo Tomás. Lá vai:

“Eis, em suma, o que redigimos para destruir os erros referidos (destructionem predicti erroris), mas não servindo-nos dos dogmas da fé, e sim dos argumentos e das afirmações dos próprios filósofos. Se alguém, gloriando-se do falso nome da ciência [ou de “cientista”, diríamos], quiser dizer alguma coisa contra o que acabamos de escrever, que não fale pelos cantos (non loquatur in angulis) nem à frente dos jovens que não sabem julgar dos assuntos árduos (nec coram pueris qui nesciunt de tam arduis iuidicare). Em vez disso, escreva respondendo a esta obra, se tiver coragem (si audet)”.

Santo Tomás aí estava invocado! E não por uma mera questão filosófica — o erro dos filósofos averroístas, para os quais havia um só intelecto possível [não dá para aprofundar isto agora] —, mas porque, sabendo que, sem a razão íntegra, a fé descamba em pietismo ou em superstições, era seu dever refutar esse erro publicamente. Em prol de todos.

Ah, se o Aquinate lesse o que escrevem alguns bem-falantes liberais de hoje, capazes de mencionar, num mesmo texto, um satanista (de forma “neutra”) e um doutor da Igreja, ele daria murros na mesa! Sobretudo porque os meios de difusão de erros e de pecados contra o Espírito Santo são, hoje, incomensuráveis — entram em nossa casa pela Internet. Portanto, se você conhece uma dessas pessoas bem-falantes e lhe tem apreço, reze ainda hoje por ela, rogando a Deus que lhe dê Graças atuais, para que se arrependa. Reze amanhã. E depois. E depois. Reze sempre. Ofereça por ela pequenas mortificações, no silêncio da oração mental ou contemplativa. Isto é amá-la, mas não com amor natural, pois se dependesse só da natureza você talvez quisesse dar-lhe uns sopapos. É amá-la em Cristo.

Este era também um dos ensinamentos de São Francisco de Sales.