segunda-feira, 30 de junho de 2008

Os fins da arte (III)

Carlos Nougué
Comecemos, agora, as precisões e desdobramentos requeridos pela hierarquização da boa arte apresentada ao
final do artigo anterior.

a) Na base está aquela que meramente deleita, compraz ou recreia a alma dentro de justos limites, como dizia
Bach. A única coisa que se requer deste tipo de arte é que, além de contribuir para a formação ética e pois política do indivíduo, não contrarie ou negue em nada o fim último do homem* e da própria arte, o qual é Deus mesmo.

Este tipo de arte abrange uma gama imensa de subtipos. Tomemos a música como exemplo, e veremos que aqui se incluem, de maneira também ascendente:

• A boa música folclórica ou popular, ou seja, aquela que atende aos requisitos dados acima. Má seria a música folclórica ou popular de caráter sensual ou indutor da concupiscência, ou de quaisquer outros vícios ou pecados. (Uma “harmônica” estátua de nu sensual é má arte** porque contraria o fim último do homem, induzindo à apetência de um bem criado em detrimento do Sumo Bem e da lei natural, e porque, afinal, o autêntico belo não é senão a outra face do bem. Voltaremos ao tema ao tratar da bondade ou da maldade intrínsecas da arte.) Por outro lado, não deixa de ser boa, em sua escala, uma música que vise ao mero descanso da mente e do corpo, ou a que vise a fazer dormir um bebê, como qualquer canção de ninar.

• Superior ao subtipo anterior, temos, por exemplo, a música profana dos clássicos Haydn e Mozart, e até o melhor de certos românticos, como o são certas peças de Schubert e os Noturnos de Chopin (embora estes padeçam, por vezes, de certa melancolia exacerbada — a melancolia é, dentro de certa e pequena medida, algo inerente à arte, pelas razões que veremos ao tratar a arte do ângulo de suas características intrínsecas; mas, repito, dentro de certa e pequena medida). Por outro lado, é má, por exemplo, grande parte da obra de um Beethoven, de um Schumann, de um Liszt, e quase toda a de Wagner, pois, sendo produto de homens gnósticos e/ou liberais e revolucionários, já não visa à formação ética (e portanto política) do homem, mas sim, por um lado, à expressão dos dilaceramentos e paixões dos próprios compositores e, por outro, induz os ouvintes a esses mesmos dilaceramentos e paixões. Aliás, a audição continuada desta espécie de música levará o ouvinte a ter a sensibilidade esgarçada, tensionada, tendente à explosão, à violência (exagero? para provar que não, basta a Quinta Sinfonia de Beethoven, tão adequadamente utilizada no terrível e perverso filme Laranja Mecânica) ou à tristeza: o que, indubitavelmente, é porta para vícios da mais variada índole.

• Vem depois a música profana barroca. (Não a confundir com a música renascentista, cujos madrigais são geralmente de uma sensualidade enfermiça, tão enfermiça como a de grande parte da pintura de Leonardo da Vinci e Botticelli. Alguns compositores, como Monteverdi, são já barrocos, mas ainda compõem peças ao estilo renascentista, enquanto, por outro lado, há alguns que se podem dizer pré-barrocos, e bons, como Byrd, Gibbons, Frescobaldi, etc.) O barroco é, de certa maneira, fruto do Concílio de Trento e da atividade dos jesuítas (conquanto se tenha arraigado também firmemente na parte protestante da Europa); veja-se que na pintura e na escultura o barroco é em parte uma questão de panejamentos para cobrir o nu renascentista, como é o caso do belíssimo quadro de Caravaggio A Inspiração de São Mateus. Na música, começa com uma volta à homofonia, mas termina por retomar, em grande estilo, a polifonia. É grande a lista dos bons compositores barrocos, quer católicos, quer protestantes: Corelli, Couperin, Vivaldi, Rameau, Haendel, Telleman, etc., etc. Mas atenção: quase todos esses grandes compositores barrocos também fizeram música não tão boa, sobretudo óperas “em que já não há a presença da graça” (di-lo o Padre Calmel, em seu magnífico Théologie de l’histoire, com respeito a muitas peças de Racine e Cornaille).

Como
diz Sidney Silveira, “louvar implica juízo de valor (um ato da potência intelectiva), ao passo que fruir, não — pois, conforme explica Santo Tomás (Suma Teológica, IªIIª, 11, a.2. resp.), desfrutar não é ato da potência que alcança o fim como ordenadora, e sim da potência que alcança o fim como executora, o que é muito diferente. Por isso, a fruição está na potência apetitiva, e não na intelectiva, razão pela qual uma arte que nos leve a fruir sem contemplar é, ontologicamente, inferior àquela que nos leva a contemplar fruindo”. Precisamente por tudo isso, pois, é que o tipo de arte que tratamos aqui é boa, mas, de maneira geral, inferior à que trataremos no post seguinte.

Faça-se porém a seguinte ressalva: parte da música clássica e da barroca profanas já nos leva, em certa medida variada, a contemplar fruindo a Criação e a harmonia do universo. Por seu lado, a música profana de Bach, com a qual começaremos o próximo artigo, é caso único: é já todo um ato de louvor e de contemplação.

* O homem não escolhe o fim último, de acordo com Santo Tomás, mas apenas os fins próximos (electio finis proximi). Ou seja: não “escolho” a Deus, mas simplesmente eu O aceito ou não. O fim último já se preanuncia na retidão do apetite natural do bem — inerente a todas as criaturas racionais —, o qual não poderia repousar senão num bem perfeito e necessário, e não em algo imperfeito e contingente. É certo que a inclinação natural do homem é para a beatitude ou felicidade, que alguém pode até não saber onde se encontra exatamente e onde se concretiza objetivamente. Mas sempre deseja naturalmente. Na escolha dos indivíduos pelos fins próximos pode estar o afastamento do fim último. De toda forma, como diz Santo Tomás, embora as ações sejam dos indivíduos, o primeiro princípio do obrar é da natureza da espécie — e esta, sendo racional, tende a um único fim, que é a imperecibilidade no bem perfeito.
** Não se espante o leitor de ver um julgamento da arte por critérios teleológico-metafísico-teológicos (hoje mais do que nunca inusuais!). Mas o fato é que na ordem de ser — a qual culmina no Próprio Ser Subsistente, como veremos noutra ocasião —, a arte se enquadra, sim, perfeitamente, na categoria da relação, ou seja: pode ser considerada boa e perfeita quanto aos seus objetivos próximos e à sua forma intrínseca, e má e imperfeita enquanto relacionada ao fim último de todos os entes, ou seja enquanto se torna obstáculo para que o ente racional alcance, por seus atos próprios, o seu fim — ao qual esses mesmos atos deveriam conduzir.

domingo, 29 de junho de 2008

O Latim

Sidney Silveira
Assista abaixo ao terceiro pequeno vídeo que postamos no Contra Impugnantes: esta entrevista concedida por Carlos Nougué em um programa da produtora Multirio, que é veiculado na TV Bandeirantes do Rio, em geral aos domingos pela manhã. O tema desta matéria foi a origem do Latim — idioma acerca do qual se falará em algumas ocasiões neste espaço
.

sábado, 28 de junho de 2008

Tomás Luis de Victoria

Sidney Silveira
Como exemplo dessa arte superior quanto ao gênero, de que já falamos anteriormente, postamos a seguir o trecho de uma composição de Tomás Luis de Victoria, gênio da música polifônica, contemporâneo de Santa Teresa de Ávila e de São João da Cruz. Ouçam e se deleitem: é música espiritual das mais elevadas já compostas.

Seja num Officium Defunctorum ou numa Ave Maria, em Victoria há sempre esse movimento ascencional da alma a Deus, contemplativo, piedoso, reverente, de uma lhaneza de que só a fé é capaz. Sugiro que experimentem esse verdadeiro enlevo, e, pouco depois, ouçam algo de Wagner, por exemplo. Observarão, de imediato, as diferentes reações físicas (e psíquicas) que afloram num e noutro caso.

Ocorreu-me agora uma bela frase de Plotino, em uma de suas Enéadas: “A música é persuasão sem conceitos”. Tal idéia sintetiza um bocado do que temos falado aqui: diga-me o que ouves e te direi se procuras a paz de espírito.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

A Arte — as potências da alma humana — e Deus

Sidney Silveira
Do mesmo modo como entre as cinco potências da alma humana não há somente ordenação orgânica de umas às outras, mas sobretudo hierarquia funcional — estando as potências vegetativas, sensitivas, apetitivas e motrizes a serviço do bem inteligível, que é o fim da alma racional, conforme demonstra Santo Tomás na Quaestio Disputata de Anima —, assim também há, analogamente, como ressaltou o Prof. Nougué em seu último texto, hierarquia quanto ao gênero das artes, na medida em que elas nos aproximam, mais ou menos, do nosso fim último, que é Deus (Por ora, deixaremos de lado o problema, de grande importância teológica, de se Deus é também o fim último daqueles que não crêem n’Ele, os ateus, e daqueles que, crendo, d’Ele se afastam pelo pecado ou por não Lhe prestar o culto devido, o que ficará para outro texto).

Assim, na tradicional visão católica, a felicidade tem alcance litúrgico, quer dizer, de culto, e não somente para os que receberam o sacramento da Ordem, isto é, os padres, mas para todos os fiéis. Pois se Deus é o fim último de todas as criaturas sem nenhuma exceção, e o fim se identifica com o bem, é patente que não poderemos ser felizes autonomamente, ou seja, se os nossos atos formais próprios da inteligência e da vontade — aqui, no caso, referidos às artes — se afastarem desse fim, ou então se buscarem fins intermediários em detrimento do fim último.

Tenhamos, pois, a plena certeza de que os coros angélicos não entoam nenhum funk para dançarinas estroboscópicas exibirem movimentos frenéticos, os quais exacerbam a sensualitas, mas com arte louvam a ordenação universal de todas as criaturas a Deus, na medida em que, sendo dotados de uma elevada inteligência intuitiva, compreendem e se deleitam maximamente nessa compreensão, pois sabem que tal harmonia e tal ordem provêm de uma inteligência ordenante: o próprio Deus, artista soberano, supremo inteligível e sumo amável. Por isso a arte dos anjos é puro louvor. E aqui vale lembrar o seguinte: louvar implica juízo de valor (um ato da potência intelectiva), ao passo que fruir, não — pois, conforme explica Santo Tomás (Suma Teológica, IªIIª, 11, a.2. resp.), desfrutar não é ato da potência que alcança o fim como ordenadora, e sim da potência que alcança o fim como executora, o que é muito diferente. Por isso, a fruição está na potência apetitiva, e não na intelectiva, razão pela qual uma arte que nos leve a fruir sem contemplar é, ontologicamente, inferior àquela que nos leva a contemplar fruindo. E não me venham com essa história de que sentidos e inteligência estão como que num mesmo plano, como insinua o filósofo basco Xavier Zubiri na trilogia de sua famosa Inteligencia Sentiente e no livro Sobre el Sentimiento y la Volición. De tal tese nos ocuparemos noutra hora.


Por conseguinte, entre a ars cujo objeto é Deus e qualquer ars que vise a outro bem há diferença de gênero. A primeira dessas artes maximiza as potências superiores da alma, sem as quais sequer somos capazes de chegar à idéia de Deus — inalcançável pelas nossas potências intermediárias e instrumentais. Quanto mais louvá-Lo! Daí que, por exemplo, as reações psicofísicas suscitadas pela ars de uma Missa de Giovanni Perluigi da Palestrina e pela “ars” de um funk sejam absolutamente distintas. Uma facilita o estado de contemplação, e contemplação elevadíssima por referir-se a Deus — na qual o corpo é instrumento, apenas; a outra abrasa apetências nas quais o corpo, embora seja também instrumento, não conduz ao fim inteligível da alma racional, mas a uma deleitação anímica de muito menor alcance. Ou seja: esta última nos torna menos humanos — é claro que não quanto ao ser, mas quanto ao operar.

Finalizando: é óbvio que quem acredita na falácia da autonomia da consciência individual está impossibilitado para aceitar tal critério objetivo (de cunho espiritual) com relação às artes, e acaba por cair num frágil subjetivismo — ainda que sob máscaras sofisticadas. Os porquês disso veremos em outros textos.

Os fins da arte (II)

Carlos Nougué
(Ao contrário do anunciado ao final do último texto, ainda não trataremos aqui da questão de “se são verdadeiramente belas obras como Tristão e Isolda e quaisquer ‘flores do mal’”, a qual ficará para um próximo post.)

A conclusão de nosso artigo anterior — qual seja, a de que “o fim da obra de arte não é fazer o belo, não é fazer coisas belas (o que implicaria uma clara tautologia), mas sim, fazendo o belo, fazendo coisas belas, deleitar ou comprazer o homem” — encerra a questão sobre os fins das artes?

Parece que sim, porque, negado o fim tautológico da arte pela arte, e apontada a ordenação dela a certo deleite do homem (o deleite com o belo), demos-lhe um fim suficiente, por tratar-se de um fim espiritual humano, superior em si a qualquer fim corporal humano. É a isso que se referia Bach ao dizer que “a música serve para recrear a alma dentro de justos limites”. Mas, em sentido contrário, pode-se dizer que, se por sua vez o próprio homem tem um fim que lhe é exterior (qual seja, Deus), todo e qualquer produto espiritual seu tem de ordenar-se a Ele, o que também diz Bach ao afirmar que “a música serve para louvar a Deus”. Ter-se-ia, então, uma contradição na própria afirmação de Bach que lemos em “Música e beleza (I)”.

Deve-se responder a isso dizendo, antes de tudo, que o homem não é um animal solitário. Ele é naturalmente social ou político, e toda e qualquer ação sua é, a princípio, uma ação também política, razão por que a própria formação ética do indivíduo, como dizia Aristóteles, visa a (e é coroada por) uma atuação na pólis ordenada ao bem da multidão. (Isso, diga-se, é todo o contrário da visão maquiavélico-liberal, para a qual a ética é assunto de foro íntimo individual, e a política, uma questão de alcançar ou manter-se no poder, donde ter a lei mero caráter de arbitração ou mediação no conflito entre os indivíduos e entre o indivíduo e o Estado – tema que trataremos proximamente).

Sucede porém que, como dizia Santo Tomás de Aquino:

• a pólis ou Estado é apenas um fim intermediário do homem, fim que assume caráter de meio com relação ao fim último dele, que é Deus mesmo;

• além disso, o fim da multidão ou Estado não pode ser diferente do fim de cada indivíduo que o compõe, razão por que o fim do próprio Estado também é Deus mesmo;

• nem tudo o que de propriamente humano faz o homem (ou seja, os atos da vontade e da inteligência: querer e entender) é meritório ou demeritório com relação ao Estado, mas o é, sim, com relação a Deus, motivo por que, se a princípio deve o homem atuar politicamente, pode, quando chamado a isto por Deus mesmo, deixar de atuar e de viver politicamente (como um São João Batista ou os Padres do deserto) para servir diretamente a Deus — sendo este obrar superior àquele não em espécie, mas em gênero.

Ora, tal escala e tal ordenação de fins hão de ser, analogicamente, também as da arte, da seguinte maneira:

• ao deleitar ou comprazer o homem criando coisas belas, a boa arte contribui — como dizia Platão com relação à música (na República e nas Leis) e Aristóteles com relação à música (na última parte da Política) e a diversas artes (na Poética) —, a boa arte contribui para a formação do caráter e da sensibilidade dos indivíduos, e portanto para a sua formação ética;

• ao contribuir para a formação ética do indivíduo, a arte já serve à própria pólis ou Estado, uma vez que a ética se ordena à política, sendo esta, como é, coroação daquela;

• mas deve a arte servir sempre, de algum modo, ao fim último do homem, ou seja, Deus, o que quer dizer que o fim último da arte também é Deus mesmo.

Pode-se hierarquizar a boa arte, portanto, da seguinte maneira geral.

a) Na base está aquela que meramente deleita, compraz ou recreia a alma dentro de justos limites, como dizia Bach.

b) No meio está aquela que serve diretamente para louvar a Deus, mas não liturgicamente.

c) No topo está aquela que serve a Deus liturgicamente.

Essa hierarquização, porém, requer muitas precisões e desdobramentos, que se farão nos próximos posts.

P.S. 1: Alguém já disse: “Deus nos deu a música e o vinho para mais facilmente podermos carregar a nossa cruz”. Seria ocioso dizer que, mais que para a música, isso de “justos limites” vale para o vinho, embora seja imperioso dizer: tampouco a arte, incluída a música, pode ser um sucedâneo para a religião, ao contrário do que propugnava, com tanta infelicidade, Schopenhauer.

P.S. 2: Antecipando algo do próximo artigo: naturalmente, a boa arte que serve diretamente a Deus não deixa de contribuir, muito pelo contrário, para a formação do indivíduo e da pólis – porque, quanto melhor se serve a um fim ulterior, melhor se servirá a um fim anterior, assim como a graça, conformando a si a natureza, não a destrói, mas a melhora.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Husserl e quejandos

Sidney Silveira
O fato de existir filosofia — ou seja: de que usemos as nossas potências intelectivas para alcançar certas verdades — já deveria ser-nos a evidência absoluta de que, ao contrário do que pensava Husserl, não temos a intuição direta das essências. Primeiro: se a tivéssemos, jamais haveria dissensões acerca da verdade, porque todos conheceriam as essências diretamente e, portanto, ninguém se enganaria acerca de nada. Tão logo contemplássemos um ente e... plaft!, nesse ato prosaico o compreenderíamos imediatamente. Mas a realidade é bem outra: há coisas sobre as quais homens de gabarito divergem há milênios, e, se o próprio Husserl não estivesse empenhado em construir uma filosofia “essencialmente nova” (são palavras dele, na apresentação do livro Idéias para uma fenomenologia pura e uma ciência fenomenológica), talvez deixasse de lado esse afã de novidade e partisse da seguinte premissa, na realidade bastante óbvia: se temos a intuição direta das essências, não precisamos de nenhum método para provar que temos a intuição direta das essências.

Assim, ter criado um método já é, ipso facto, a contraprova do erro implicado na chamada redução eidética husserliana, pois não é necessário provar, pela longa exposição de uma doutrina (compondo e dividindo, como diz Santo Tomás), o que já se sabe por intuição direta, pois o que se mostra não se demonstra. Assim, se a essência de um ente já se mostra pré-intelectivamente à nossa inteligência (tese a que também voltaremos, noutro texto), não precisamos demonstrá-la, pois tal procedimento seria, no mínimo, antieconômico. A propósito, ao final da vida o próprio Husserl confessou ao seu grande amigo e discípulo Eugene Fink que havia um erro capital na base de toda a sua teoria, mas era tarde demais para consertá-lo. Esse erro, logo nos primeiros capítulos do Idéias, é patente: uma sofisticadíssima confusão entre abstração e intuição.

A atitude de Husserl é bastante encontradiça em toda a filosofia moderna, pós-cartesiana: reinventar a roda e desqualificar o que foi feito pelos grandes do passado. Descartes, por exemplo, nos diz que a filosofia precisa partir de idéias claras e distintas (dando por pressuposto que, até ele, não havia idéias claras e distintas). Do seu famoso Cogito trataremos noutro post. Já David Hume pontifica que a sua filosofia representa algo semelhante ao que Newton fez para a física; Kant, que acordou do “sonho dogmático” lendo Hume, afirma estar fazendo uma revolução semelhante à de Copérnico; Nietzsche demole tudo para trás, e se diz portador solitário de uma verdade que os homens do seu tempo não estão aptos a enxergar; e Heidegger “descobre” que, desde os pré-socráticos até ele próprio, a metafísica tratou do ente e se esqueceu do ser. Quanta modéstia!

A propósito, há muitos outros exemplos dessa “humildade” espalhados pela história da filosofia, nos últimos 400 anos. Comparemos tal atitude com o respeito aos pensadores do passado e a santa paciência de Tomás de Aquino. Entre outras coisas por ser cheia de alusões a homens de outras épocas, só a Suma Teológica tem 512 questões, subdivididas em 2.669 artigos, sendo estes também repartidos em objeções e respostas incontáveis — no prolífico método dialético da disputatio. E assim é também em obras como De Malo, De Veritate, De Potentia Dei e outras questões disputadas. Nelas, não se pulam etapas, pois cada prova metafísica é encadeada à seguinte. E, no que concerne propriamente à consciência — da qual já mostramos que não é a sede da liberdade; não é uma superestrutura da alma; não é autônoma; não é potência, mas ato; etc. —, repito, no que concerne à consciência, no monumental De Veritate Santo Tomás resolve várias questões correlatas, sem as quais o problema de definir a essência disto a que chamamos “consciência” fica por resolver, como por exemplo a questão sobre a razão inferior e a superior (q. 15).

Voltaremos ao assunto, com o intuito de aduzir outros dados que mostrarão a impossibilidade de a consciência individual ser autônoma, como querem alguns liberais.

Os fins da arte (I)

Carlos Nougué
Uma das doutrinas sobre a arte que desde há alguns séculos mais curso têm, e que é assumida, ainda que com muitas sutilezas, até por filósofos que se reivindicam do tomismo, é aquela segundo a qual a arte tem por fim fazer coisas belas, ou antes, fazer o belo. Em outras palavras: a arte tem por fim a ela mesma. Ordena-se a si mesma. É a arte pela arte. Se uma obra de arte for bela, alcançou seu fim. Não importa se tal beleza se dá num canto gregoriano ou em Tristão e Isolda, numa Paixão de Bach ou em quaisquer tipos de “flores do mal”.

Há pois duas questões por resolver: primeira, se é verdade que o fim da obra de arte é fazer o belo; segunda, se não o for, se são verdadeiramente belas obras como Tristão e Isolda e quaisquer “flores do mal”.

Quanto à primeira, parece que sim, que o fim da obra de arte é fazer o belo, é fazer coisas belas. Porque, assim como o fim da sapataria é fazer sapatos, o fim da arte é fazer obras de arte, ou seja, obras belas. Mas, em sentido contrário, pode-se dizer que, se aquela visa à utilidade do homem e ao conforto de seus pés, esta também tem de ordenar-se a um fim que lhe seja exterior: por exemplo, comprazer, deleitar o homem, recrear sua alma.

E isto já é um início de solução da questão. Mas é preciso avançar, porque, assim como para atingir o seu fim a sapataria tem de obrar por modo e meios adequados a ele (como o é a técnica de fazer sapatos confortáveis, que aliviem o esforço dos pés e os protejam dos acidentes dos caminhos), assim também a arte, para atingir o seu fim, tem de obrar por modos e meios adequados a ele — como o são as técnicas de fazer o belo, de fazer coisas belas, harmoniosas, proporcionais que, por isso mesmo, deleitem ou comprazam o homem.

O homem, ao contrário dos animais, deleita-se com o belo, com o harmonioso, com o proporcional, e para o belo e harmonioso há critérios tão objetivos como o número de ouro (que estudaremos em outra oportunidade). E o fato mesmo de que o homem se deleite com o belo faz com que interrompamos neste ponto a analogia entre a sapataria e a arte, porque a sapataria visa a um fim corporal (a proteção e o conforto dos pés), e porque tudo o que é espiritual é superior a tudo quanto é corporal — ainda que o deleite com o belo não implique apenas as faculdades superiores de nossa alma (a inteligência e a vontade), mas também a potência cogitativa, que, segundo Santo Tomás, é um dos quatro sentidos interiores. (Note-se porém que a cogitativa, cujo correlato nos animais é a estimativa, é no homem regida diretamente pelo intelecto).

Digamos tudo isso de modo conciso e conducente à solução da primeira questão:

• Todos os entes, todas as criaturas e todas as suas operações e produções têm de ordenar-se a um fim exterior a eles próprios.

• O fim, por exemplo, da sapataria é o conforto de uma parte do corpo humano, enquanto o fim da arte é uma espécie de deleite do homem, o deleite com o belo.

• Um sapato desconfortável é resultado de uma sapataria falha, ainda que ele seja harmonioso, proporcional, belo em si (dentro dos limites em que o pode ser um sapato). Uma obra de arte que seja não-harmoniosa, desproporcional, feia em si é resultado de uma arte falha, e, se deleita a alguém, é porque este alguém é um apreciador ou receptor falho, que por uma razão qualquer perdeu a capacidade de apreciação do belo.

• Mas a arte é superior à sapataria e diversa dela na mesma medida em que tudo quanto é espiritual o é com relação a tudo quanto seja corporal, e na mesma medida em que um fim espiritual é sempre superior a qualquer fim corporal.

Logo, o fim da obra de arte não é fazer o belo, não é fazer coisas belas (o que implicaria uma clara tautologia), mas sim, fazendo o belo, fazendo coisas belas, deleitar ou comprazer o homem, o qual, porém, deve ter intacta a sua capacidade de apreciar o belo e rejeitar o feio.

Em tempo 1: Uma sociedade capaz de apreciar a “música” de um Pink Floyd, de um Miles Davis, de um Schoenberg, com todas as suas cacofonias e desarmonias e estridências, é uma sociedade, digamos, esteticamente enferma. Perdeu o senso da proporção, o senso do belo – o senso mesmo da forma. É já, em verdade, uma sociedade em estado “terminal”: o apreciar tais tipos de música pressupõe pelo menos os estertores do intelecto. “A inteligência está em perigo de morte”, dizia com razões de sobra Marcel de Corte.

Em tempo 2: No próximo post veremos a solução da segunda questão enunciada mais acima, a qual, por sua vez, se desdobrará em algumas outras.