quarta-feira, 27 de maio de 2015

Língua, história, povo


Aos amigos Rodrigo Gurgel, Sergio Pachá e Carlos Nougué

Sidney Silveira 

Quando certas palavras ou expressões caem em completo desuso, é sinal de que algo da história de um povo morreu, pelo menos até este ou aquele escritor de gênio retirá-las do "estado de dicionário", metáfora usada pelo poeta Carlos Drummond de Andrade para designar o crepúsculo circunstancial, o estertor provisório de parte do universo semântico do idioma — que passa a existir virtualmente como possibilidade expressiva, em silêncio pulsante. A propósito, a tradição oral e literária de qualquer nação é feita de pontuais ressurreições lingüísticas, de movimentos pendulares no âmbito de certo modo de ser e de estar no mundo.

O verdadeiro escritor é elo entre gerações, instrumento da posteridade de um país, seja ele poeta, romancista, historiador ou filósofo. Sem a palavra densa, artesanal, polissêmica do escritor, o padrão da cultura vai decaindo, e isto acaba por contaminar os costumes e as instituições. Neste ponto lembremos o seguinte: mesmo entre os povos de línguas ágrafas, ou seja, as que não tiveram a fortuna de conhecer a escrita, houve homens destacados no manejo das idéias, e portanto do idioma no qual veiculavam conceitos. Quem tiver dúvidas neste quesito, leia o clássico “Histoire d’un voyage faict en la terre du Brésil”, do calvinista Jean de Léry, documento importantíssimo para entendermos como as tribos indígenas de diferentes etnias viviam e pensavam no Brasil quinhentista.

A linguagem do escritor genuíno, mesmo quando vulgar, se eleva muito acima do palavreado do vulgo. Quem já leu as poesias fesceninas de Bocage, por exemplo, entende o que aqui se diz: trata-se, invariavelmente, de artesanato dotado do condão de transcender o tempo presente, elevá-lo, sublimá-lo, colocá-lo — aqui e agora — perante o passado e o futuro. Neste sentido, não há nação que não seja devedora de quem, no passado, usou belamente da sua língua comum, razão pela qual o Brasil deve muito mais a Machado de Assis, a Lima Barreto, a Manuel Bandeira, aos Árcades, a Olavo Bilac, a Cecília Meireles, a Leonel Franca, a Otto Maria Carpeaux, a Capistrano de Abreu e a outros, do que poderia dever ao hipotético governante cuja varinha de condão resolvesse todos os problemas econômicos contemporâneos: este nos traria a solução para demandas presentes imediatas; aqueles nos possibilitam um futuro de longo prazo.

Em suma, se alguma dívida histórica realmente existe, é para com os grandes do passado. Somente a partir deles os homens do presente podem erigir uma obra civilizacional em qualquer área do conhecimento, cientes de que, havendo descontinuidades cíclicas, muitas vezes incontornáveis, dadas as vicissitudes do devir histórico, não pode haver rupturas, quebras de identidade acentuadas. Estas costumam ser irreversíveis, como a história é pródiga em nos mostrar, e, para tristeza nossa, o Brasil está no limiar duma fratura dessas que põem em risco o próprio sentido de unidade da nação, a qual se esfacela a olhos vistos, com divergências crescentes entre “tribos” criadas por engenheiros sociais e açuladas por legisladores criminosos. São grupos adestrados para agir como cães pavlovianos, condicionados a ladrar quando às suas débeis consciências são apresentadas algumas palavras mágicas. Nem Huxley nem Orwell viveram para ver, nestas terras, o ponto a que poderia chegar o futuro negro por eles prognosticado para o Ocidente.

A crise brasileira contemporânea é espiritual, intelectual, moral, política e estética — em ordem de importância decrescente. Em todos estes casos, o empobrecimento da linguagem se faz notar de maneira incontestável, acompanhado da degradação dos costumes, da incivilidade aguda, da perda da capacidade de percepção dos matizes sem os quais toda comunidade humana está fadada a autodestruir-se (talvez chegue o dia em que desejar “bom dia” a alguém seja respondido com tiros de bazuca). Frise-se que, no tocante à linguagem, não nos referimos a depauperamento gramatical, pois o conhecimento da gramática, em todos os seus variados âmbitos, é para estudiosos do idioma, mas à perda do senso comum da língua entre nós, coisa que em Portugal não acontece: mesmo entre pessoas iletradas de aldeias multisseculares onde não vive quase ninguém, fala-se um português escorreito, inteligível, rico.

Devido à macabra abrangência dos nossos problemas, resolver tudo duma só vez é materialmente impossível; mas, se é preciso começar o Brasil de novo, não há promessa de futuro que não passe pela reassimilação da herança do nosso passado. Neste exato ponto, não cabe tergiversações: o Brasil nasceu como Portugal na América — católico, evangelizador, desbravador. A pluralidade de culturas autóctones aqui existentes deu lugar a uma civilização cristã, com uma língua comum e forte sentido de unidade, neste último caso muito distinta da esfacelada América espanhola.

Revisitemos, pois, os nossos clássicos, antes que o país inteiro passe a viver tristemente no “estado de dicionário” poetado por Drummond. 

Antes que caia no limbo da completa ininteligibilidade, geradora da barbárie.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Curso sobre "Os Lusíadas": o homem discreto



Sidney Silveira

Este trecho de aula encerra-se com considerações acerca da língua incorrupta do falecido Santo Antônio de Lisboa e da língua putrefata dos nossos políticos vivos. 

Realmente, sem humor não dá...

sábado, 23 de maio de 2015

Vieira: genialidade e crédula teimosia


Sidney Silveira
Perguntam-me alguns amigos católicos acerca da ortodoxia do Pe. Antônio Vieira, genial orador sacro, imperador da língua portuguesa, autor das páginas mais belas jamais escritas entre nós. A resposta implica dificuldades, pois dá-la exige separar o inigualável sermonista do homem que, a certa altura de sua trajetória intelectual, deu crédito às "profecias" dum sapateiro português da Beira, trovador afamado na vila chamada Trancoso. Seu nome? Gonçalo Annes, o Bandarra. 

Tratava-se de textos escritos mais de um século antes de Vieira debruçar-se sobre eles. Em síntese, eram obras cujo teor messiânico, exaltado pela interpretação retórica do notável jesuíta luso-brasileiro, prognosticava o estabelecimento do Quinto Império (o de Portugal, evidentemente), antes da vinda do Anticristo. Eis o resumo da ópera: o rei D. João IV ressuscitaria para levar a cabo esse Império, o qual duraria mil anos, até o Dia do Juízo.

As trovas de Bandarra tinham claro sabor de milenarismo judaizante, e isto não podia passar ao largo da verruma doutrinária do Santo Ofício. Vieira precisou então se submeter a um duro processo, no momento em que tinha a saúde combalida pelas hemoptises de tísico e pelas febres decorrentes da malária contraída nas missões do Amazonas. Abstraiamos, contudo, estes detalhes para afirmar que quem conhece a doutrina do Magistério da Igreja não pode deixar de dar razão aos inquisidores; chega a ser inconcebível um homem da estatura de Vieira ter descambado numa credulidade tão despropositada.

A Inquisição compeliu inicialmente Vieira a falar do Quinto Império de maneira metafórica, por prudência; ele porém insistiu na interpretação literal: o Império se ergueria na terra, com certeza. Somente quando o Papa condenou as suas proposições, Vieira retratou-se. Mas muito a contragosto, vale destacar, como prova o fato de que, após receber um salvo-conduto de Clemente X, durante o seu exílio em Roma, veio para a Bahia e, mostrando grande pertinácia, continuou a escrever a "Clavis Prophetarum". Não ocasião, o Pe. Antônio já tinha mais de oitenta anos.

Discordo absolutamente de críticos literários como Alfredo Bosi  cujo conhecimento teológico é zero , para quem o processo movido pela Inquisição tinha razões políticas, insufladas pelas discrepâncias entre dominicanos e jesuítas. Basta compulsar o estupendo arrazoado do Santo Ofício, cuja sentença foi lida para Vieira no dia 23 de dezembro de 1667, para constatar que estavam em jogo questões relativas à fé.

Como se vê, dar uma resposta categórica à indagação mencionada no começo deste breve texto é algo temerário. Meu conselho é filtrarmos a pitoresca espécie de sebastianismo de Vieira e ficarmos com o que, em sua obra, não derroga a fé.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Curso "O Soneto"



Sidney Silveira

Mais um lembrete: AS INSCRIÇÕES CONTINUAM ABERTAS em: 


O Prof. Sergio Pachá preparou um material de primeira para contar a história do soneto.

As aulas do curso estarão disponíveis a partir de 15/06.

Até lá, inscrevam-se, amigos do C.I.!

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Aspas... “anathema sit”?


Sidney Silveira
A Sergio Pachá

Tenho relido gramáticas que há tempos não compulsava: algumas antigas e consagradas com justiça, outras recentes e não menos dignas de louvor — isto além de ter passado os olhos detidamente nos originais da "Suma Gramatical" do amigo Carlos Nougué, a qual em breve ganhará formato de livro. Para mim, estava fazendo falta revisitar estes mestres da língua pátria, deixar-me novamente entranhar por seus textos, vislumbrar o porquê de alguns desacordos pontuais entre eles.

Todo hábito que se adquire está sujeito a tornar-se vicioso com o tempo, no sentido de cristalizar soluções úteis nalguns casos, porém deletérias noutros. Com a escrita não poderia ser diferente, e nela o vício é a repetição, incongruente com a índole do idioma, de fórmulas que o padrão da norma culta não aceita. Escritores entre nós consagrados, como Lima Barreto, por exemplo, deram mostras de que tais escorregadelas podem suceder mesmo a homens de talento absolutamente senhores dos recursos expressivos do idioma.[1] Ora, ainda mais podem fazer tropeçar redatores de boa vontade, como este escriba!

Feito o preâmbulo, detenho-me no tópico relativo ao uso das aspas, criticado por um número não desprezível de pessoas como algo empobrecedor e sempre dispensável. Advirto que não é bem assim, e para tanto valho-me da copiosíssima "Gramática da Língua Portuguesa Padrão", de Amini Boainain Hauy, a qual é enriquecida por vasto exemplário e comentários especiosos, além de estar abonada por referências extraídas duma respeitável bibliografia de estudiosos das questões vernáculas entre nós. 

Mencionarei apenas alguns casos em que as aspas são convenientemente usadas:

1- Para marcar o termo fundamental de um aposto subentendido. Exemplo: "Reformaram a 'Luz'". (estação da);
2- Para realçar palavras ou expressões estranhas à língua culta, tais como gírias e expressões populares, neologismos, arcaísmos, estrangeirismos, bem como formas de expressão peculiares ou desabonadas, com as quais o comunicador não concorda, seguidas estas últimas geralmente da fórmula latina sic. Alguns exemplos: "Ele só gosta do 'dolce far niente'". "Diziam preferir 'mais' (sic) a tortura à traição";
3- Para destacar, como recurso estilístico, em sentido figurado, uma palavra ou expressão empregada com sentido distinto do usual. Exemplo: "Ela era uma 'máquina'";
4- Para marcar, nos diálogos, a mudança de interlocutor;
5- Para destacar um termo ou expressão qualquer, com o intuito de acentuar, no texto, sua importância ou valor significativo. Exemplo: "O reconhecimento da liberdade dos índios, mesmo quando se tratasse de liberdade 'tutelada' ou 'protegida' (...)". [Sérgio Buarque de Holanda];
6- Para assinalar capítulos ou títulos de obras.

O que está dito acima por Amini Boainain é referendado por gramáticos como Napoleão Mendes de Almeida, Said Ali, Celso Cunha, Gladstone Chaves de Melo e outros, os quais — em diferentes obras — mencionam os casos em que as aspas podem ser substituídas por grifo, negrito ou itálico, ou então simplesmente dispensadas, sem que isto acarrete problema quanto à compreensão do texto ou quanto à intenção de realce semântico do autor.

Não sejam jogadas, pois, as pobres aspas no limbo. Antes de alguém perpetrar o “aspicídio”, convém ter à mão, como antídoto contra um ímpeto desta natureza, duas ou três gramáticas (aconselho a “Gramática do Português Contemporâneo”, de Celso Cunha e Lindley Cintra; a “Gramática Metódica da Língua Portuguesa”, de Napoleão Mendes de Almeida”; e quaisquer obras de Said Ali, Mário Barreto, Adriano da Gama Kury e Gladstone Chaves de Melo).

Quem vos diz isso é pessoa que muitas vezes, depois de reler um texto autoral, vê incorreções e faz a emenda. Não por outro motivo, quando um amigo disse-me que estava na hora de eu enfeixar em livro alguns artigos de metafísica tomista deste “Contra Impugnantes”, respondi:

— Antes eles teriam de passar por grande revisão. Muitos foram escritos enquanto eu estava no trabalho ou no intervalo de alguma atividade, para responder a indagações de amigos e conhecidos. 

Volto às aspas apenas para lembrar um adágio cabível no caso delas: "O abuso não tolhe o uso". Portanto, se há situações em que elas são mal empregadas, não quer dizer que nunca se deva usá-las.

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1- Lima Barreto tinha o vezo de empregar o pronome "se" como sujeito de verbo em modo finito. Frases do tipo "Roubar é praxe tolerada entre os políticos e, que eu saiba, nunca SE A PUNIU" são encontráveis em Lima. Não se trata, aqui, de uso inútil — ou, na irônica expressão de Napoleão Mendes de Almeida, “verruciforme” — do referido pronome, como em construções do tipo “é preciso pensar-se nisso”, mas apenas de construção contrária à índole da língua portuguesa. Não pegou, apesar da consagração de Lima Barreto como escritor de gênio. 

terça-feira, 19 de maio de 2015

O encosto facebookiano


Sidney Silveira

Onde reina a dissipação mental, asnos pontificam — não raro com ar afetado de circunspecção, indigerível para qualquer pessoa com dois dedos de miolos e um pouco de bom senso. Assim é o Facebook: com volúpia opiniática imparável, verdadeiras cavalgaduras desembestam certezas sobre os mais variados assuntos, com o entusiasmo insano de quem atirasse blocos de granito à cabeça de inimigos imaginários. Não conseguem apresentar os seus argumentos sem denegrir outras pessoas, e aqui se vê a nota distintiva do caráter desses indivíduos audazes: se ninguém os lisonjeia, eles próprios encarregam-se de fazê-lo, sem qualquer sinal detectável de pudor.

Por trás do teclado dos computadores de onde reinventam a roda e o mundo, são Hércules invencíveis; pessoalmente, costumam ser libélulas a esvoaçar tímidas em torno do próprio ego. De longe, atroam; de perto, esganiçam. Começam por fazer alusões maldosas em postagens enigmáticas, depois passam à detração enviesada, até que, flagrados em delito de inveja ou de ódio, são impelidos a mostrar o estado tétrico de suas almas.

Quando porém se trata de julgar moralmente as atitudes alheias, sob a proteção reconfortante proporcionada pelo evanescente universo virtual, essas libélulas tornam-se carniceiras, agem como urubus esfomeados. Julgam-se no direito de cobrar condutas de pessoas cujas motivações nem de longe vislumbram. Trombeteiam juízos definitivos que, de alguma maneira, mancham a honra alheia, o que pouco se lhes dá; a reputação do próximo é um conceito abstrato inalcançável para quem chafurdar transformou-se em ofício.

O Facebook é hoje a tribuna das susceptibilidades eriçadas, dos ataques enraivecidos, do desnudamento involuntário de vaidades letais, do entretenimento de sádicos e psicóticos, da incivilidade ostentada como coragem.

Quem nele entra para ver e fazer coisas boas, aprenda a ser seletivo e tenha cuidado: a péssima companhia virtual tem o condão de se fazer virtualmente onipresente. 

Em tais casos, não tem pé-de-pato-mangalô-três-vezes que dê jeito. 

Só Deus pode afastar o encosto!

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Uga-muga no reino do zap-zap

Sidney Silveira
Expressar os próprios estados de espírito com clareza e objetividade, descrever a realidade exterior de maneira compreensível, manifestar as emoções com critérios que não as embaralhem, explicar os fatos sem prolixidade, falar ou escrever não dando margem a mal-entendidos. Todas essas coisas são mais relevantes do que possa imaginar o vulgo, pois a linguagem verbal humana não é utensílio para uso adventício, episódico, fortuito: ela é o ponto de inflexão a partir do qual temos acesso ao universo das formas inteligíveis — portadoras de ricos matizes semânticos, susceptíveis de gradações sutis, indicadoras de aspectos do ser inalienáveis e insubstituíveis, representativas de horizontes simbólicos capazes de levar uma pessoa a sublimes estados contemplativos.

Diante do Teorema de Fermat ou do de Pitágoras, perante uma página de Vieira ou qualquer polifonia de Tomás de Victoria, o gato mia, o cão ladra e o homem... extasia-se ao perceber a harmonia entre as formas inteligíveis! Ou melhor: ele é capaz de extasiar-se, ou seja, sair de si com a inteligência embevecida e a vontade pletórica de amor, mas isto se por desventura não tiver sofrido graves fraturas estéticas ou gnosiológicas. Neste ponto, diga-se que tais fraturas passam, necessariamente, pelo depauperamento da linguagem verbal, cujas palavras são signo das afecções da alma em contato com o mundo, como ensinara o velho Aristóteles numa imortal lição. 

O verbum mentis, ou conceito (conceptum), é o instrumento por meio do qual se descortina o ser para nós, pobres criaturas humanas. Ele é anterior à palavra manifestada — que indica, pela voz ou pela escrita, algo existente com anterioridade na mente. Noutras palavras: a linguagem, que se aproxima do ser de maneira assintótica, nunca o abarcando por completo, ou pode ser precisa a ponto de servir ao conhecimento cada vez mais aprofundado das coisas, ou pode ser confusa e impedir que uma pessoa se relacione consigo mesma e com as demais com o mínimo de proficiência. Para os indivíduos naufragados neste último caso, a tendência funesta é de que as palavras sejam sopro inútil, falatório empobrecido. Em suma, flatus vocis, vagidos tênues saídos de almas opacas.

Entre jovens brasileiros contemporâneos, é crescente a dificuldade de comunicar — oralmente ou por escrito — o que quer que seja. A linguagem escrita desce ao nível onomatopaico quando não precisa. São “kkkkk”, “hehehehe”, “hahahaha” e outras maneiras infantis de expressar algo análogo ao contentamento, que, utilizadas por pessoas de certa idade, chegam a soar ridículas. Com a linguagem falada não é diferente: são simplesmente lançados às urtigas verbos, preposições, advérbios, conjunções, pronomes, apostos explicativos, concordâncias nominais e outros fatos relativos à índole da língua portuguesa, como se esta não tivesse história. Advirta-se, neste contexto, o seguinte: não se trata de jogar palavras ao léu, usar mal da língua, não ter conteúdo. Trata-se da imanência dolorosa de gente amputada do veículo básico de comunicação, a língua mesma, substituída por sestros de todos os tipos. 

A continuarmos neste compasso, adotaremos a mímica como idioma nacional. Com um detalhe: não se tratará duma linguagem de sinais análoga à dos surdos-mudos, a qual busca apreender a realidade de alguma maneira, mas de gestos animalescos trocados entre pessoas exiladas do reino da beleza e, por conseguinte, da civilização. 

Perto destas criaturas inermes, os índios canibais que devoraram o bispo Sardinha eram gênios de compreensão, tanto que foram cristianizados pelos jesuítas e aprenderam que comer gente não é bom, pois atenta contra a lei natural.

Se os nossos jovens hoje se matam uns aos outros — as estatísticas são verdadeiramente assombrosas —, tenhamos a certeza de que isto não é por acaso. 

sábado, 16 de maio de 2015

Curso "O Soneto": inscrições abertas + promoção

Sidney Silveira

Estão abertas as inscrições para o curso "O Soneto", com o Prof. Sergio Pachá e comigo. O módico valor total é de R$ 90,00 (neste caso, o aluno terá acesso às 12 horas de aulas ao longo de TRÊS MESES). 

Informações mais detalhadas estão no texto da página de vendas, no link abaixo:


PROMOÇÃO "FACEBOOK"

Quem quiser pagar APENAS R$ 15,00 e ter acesso às quatro aulas do curso "O Soneto" ao longo de UM MÊS — período durante o qual poderá assisti-las quantas vezes achar por bem —, deve realizar dois procedimentos:

1- Compartilhar publicamente em sua Linha do Tempo do Facebook o evento "O Soneto (Promoção)", cujo link é este:


2- Estando na referida página, clicar em "participar".

A pessoa que assim proceder receberá, em mensagem reservada do Facebook, instruções para realizar sua inscrição.

OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: 
Esta promoção valerá apenas entre 16/05 (hoje) e 25/05/2015.

P.S. Agradeço aos amigos nos dois casos: no dos que desejam participar com desconto e ter acesso ao curso completo durante um mês, e no dos que já estão comprando o curso fora da promoção. Realmente, R$ 90,00 pelas 12 horas de aula significam o seguinte, na prática: cada hora/aula do mestre Sergio Pachá está saindo por R$ 7,5.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

O Soneto



Sidney Silveira
(Novo curso do Instituto Angelicum)

Comigo e com o prof. Sergio Pachá. 

Esta é a primeira apresentação. Em breve divulgaremos os procedimentos de inscrição aos interessados. 

O valor total do curso sairá pela pechincha de R$ 90,00.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Gramática, ciência serviçal



Sidney Silveira

Celso Cunha, Lindley Cintra, Said Ali, Mário Barreto, Adriano da Gama Kury e Mattoso Câmara Jr. estão entre os autores que habitualmente indico, quando me indagam a respeito de estudos gramaticais de língua portuguesa. Destes, conheci Mário Barreto graças ao querido amigo Sergio Pachá, ao longo das aulas do curso “A Língua Absolvida” — por ele ministrado ano passado no Instituto Angelicum, o qual está agora na segunda turma.

Não são santos da minha predileção, embora eu não deixe de lhes reconhecer a erudição e os méritos, o citadíssimo Napoleão Mendes de Almeida e Evanildo Bechara, o gramático de madeixas tingidas da cor acaju, hoje quase nonagenário. O primeiro porque algumas vezes, numa volúpia irrefragável de estatuir regras e preceitos, semelhante à do velho Cândido de Figueiredo, mistura questões de estilística com problemas de gramática normativa; o segundo porque me parece confuso e, ocasionalmente, até contraditório ao explicar os fatos da linguagem.

Mencionei acima apenas um autor português, entre vários brasileiros: Luís Filipe Lindley Cintra. Isto porque entre nós os livros dos portugueses são encontráveis quiçá entre alfarrabistas calejados, um pouco mais cultos. Mas frise-se que conhecer pelo menos um pouco da história da gramática em terras lusitanas, desde o quinhentista Fernão Dias até os dias atuais, é fundamental, sobretudo para quem queira entender o seu âmbito e ver que se trata duma ciência cujo objeto material são fatos anteriores a ela. Pois menciono agora outro português — este contemporâneo —, para não ficarmos apenas com Cintra: o ex-sacerdote Mário Augusto do Quinteiro Vilela, filólogo, lexicologista e sintaticista, autor de trabalhos como “A Antonímia como Relação Semântica Lexical” e “Definição nos Dicionários de Português”, que me chegaram às mãos há alguns anos.

Digamos agora sem tergiversações amenizadoras: o gramático não é uma espécie de pontífice que tenha o poder de proferir anátemas “ex cathedra”, como fazia Cândido de Figueiredo em seu pomposo consultório popular de enfermidades da linguagem (nos famosos, e muitas vezes abstrusos, tópicos de “O que se não deve dizer”), mas um serviçal proficiente do idioma. Um estudioso que, antes e acima de tudo, está em busca dos elementos consubstanciais da língua, como afirmava o mencionado Joaquim Mattoso Câmara Jr.; não o sujeito com a palmatória em riste na direção do perímetro glúteo de pessoas desavisadas, paranoicamente à cata de desvios normativos ou de supostos barbarismos. Um exemplo? O Dr. Castro Lopes, médico, polígrafo e poetastro novilatino, autor do engraçadíssimo “Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis”.

Castro Lopes eriçava os próprios pêlos até a púbis ao ouvir, ou ler, palavras oriundas do francês, como menu, massagem, turista, galochas, abajur e outras. Para combatê-las, qual Quixote enfurecido perante moinhos de vento, talvez por ver nelas elementos alienígenas ao português — e certamente por não compreender o fenômeno multimilenar da apropriação da linguagem —, o feérico Dr. Lopes criava monstros apátridas, muitas vezes compostos de pedaços avulsos de palavras gregas e latinas. 

Eis algumas das suas façanhas:

Galochas = anidropodoteca
Chalé = Casteleste
Claque = Venaplauso
Nuança = Ancenúbio
Abajur = Lucivelo
Pincenê = Nasóculos
Turista = Ludâmbulo

Este nosso Policarpo Quaresma da gramática não conseguia sequer enxergar que, para combater neologismos de origem francesa, estava criando, no ato, neologismos greco-romanos. A propósito, um primo espiritual de Castro Lopes, o Sr. Silva Túlio, outro aspirante a pontífice do idioma, brindou-nos com o livro “Estudinhos da Língua Pátria”, obra hoje infelizmente difícil de encontrar, a qual fora indicada por decreto, no longínquo ano de 1894, como bibliografia básica em língua portuguesa a ser consultada por quem quisesse participar de concursos públicos em nosso país. Seja como for, a quem pretenda desanuviar a alma e divertir-se um bocado com as estripulias castrolopinas, informo haver uma edição mais recente de “Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis” na Estante Virtual.

Este foi o tema duma palestra ministrada no último sábado, 09/05/15, por mim e pelo prof. Sergio Pachá para amigos aqui do Rio, à qual demos o nome de “Língua e Liberdade” — com o intuito de mostrar a importância do domínio da norma culta e, ao mesmo tempo, fazer ver que a plasticidade expressiva do nosso idioma não está ao arbítrio deste ou daquele gramático, isolado da tradição na qual se insere, quer queira, quer não. 

P.S. Por favor, não digam “caramba, por que o Sr. não nos avisou?”, pois este evento foi realizado a convite de amigos, em ambiente com espaço para um número restrito de pessoas. Quem quiser organizar o seu grupo e convidar-nos, sinta-se à vontade, desde que apenas nos remunere o transporte de ida e volta.
P.S.2. Em breve, o Instituto Angelicum anunciará dois cursos: "O Soneto", com o Prof. Sergio Pachá; e "Retórica", com o Prof. Carlos Nougué. Ambos com a participação deste que agora vos escreve.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Castigo predito em Fátima prestes a realizar-se?



Sidney Silveira

Tenho recebido inúmeras mensagens de amigos que me indagam acerca de um vídeo recém-veiculado no Youtube, no qual o Pe. Nicholas Gruner, falecido há poucos dias, revela em carta que teria recebido do famoso exorcista Gabriele Amorth uma mensagem cujo teor é tremendo: o castigo profetizado por Nossa Senhora em Fátima estaria prestes a realizar-se — A PARTIR DE OUTUBRO DESTE ANO —, caso as autoridades vaticanas, até o referido mês, não consagrem, enfim, a Rússia ao Imaculado Coração de Maria.

Manda a boa metodologia que, antes de tudo, se verifique a existência da tal carta, e, caso isto se confirme, indague-se do Pe. Amorth acerca do conteúdo dela. Qualquer opinião sem que estes procedimentos se dêem é, para dizer o mínimo, açodada.

Se a carta de Gruner e a mensagem Amorth forem verídicas, cabe-nos redobrar a vigilância espiritual, pois Fátima foi o grande evento profético do século XX (as predições da Virgem confirmadas de maneira extraordinária pelos fatos históricos não nos deixam mentir). Ademais, a situação da Igreja e do mundo não são de molde a nos deixar otimistas quanto a encontrar-se uma saída para a entropia em que a civilização ocidental se meteu culpavelmente.

O conteúdo da carta do Pe. Gruner está no link abaixo (não posto o vídeo porque escrevo do celular e não estou conseguindo abrir o Youtube nele agora):


P.S. Não tenho como não lembrar, neste momento, de D. Estêvão Bettencourt (praticante dum funesto naturalismo teológico e que agora é — incrivelmente — candidato a beato): em diferentes ocasiões, por escrito e oralmente, o monge beneditino chegou a ironizar Fátima e até a dizer que a visão do inferno anunciada pelos pastorinhos era "infantil"...
P.S.2. Prudência é a palavra-chave neste momento: não nos apressemos em concluir nada, mas estejamos atentos.
P.S.3. Nenhum estudioso sério engole a pantomima anunciada pelo Cardeal Bertone há alguns anos como sendo o Terceiro Segredo na íntegra...