terça-feira, 29 de julho de 2014

Conjecturas infernais


Sidney Silveira
Compor e dividir raciocínios — que é o modo propriamente humano de inteligir — traz consigo, em estado germinal, a capacidade de prever alguns eventos. Não por outro motivo a ciência, ao estabelecer-se como vitoriosa inquirição da verdade nalgum tópico de um campo de pesquisa, dá-nos a presciência de certos fatos futuros. Assim, quem conhece o Princípio de Arquimedes, famoso pela fórmula I = gVp, é capaz de antever, por exemplo, os movimentos de determinado corpo imerso n’água, considerando-se a massa e o volume do corpo, a densidade do fluido, a força de impulsão, a aceleração da gravidade, entre outros fatores cujo influxo causal esteja devidamente considerado no cálculo.
À luz deste caráter raciocinante da inteligência do homem, podemos dizer o seguinte:
Futuro NECESSÁRIO é o que se infere do pleno conhecimento de causas essencialmente ordenadas.
Futuro CONJECTURAL é quando as causas apontam predominantemente para um vetor, porém sem se fechar de todo a outras possibilidades.
Futuro LIVRE é o que radica nas escolhas humanas.
O primeiro é próprio das ciências axiomáticas, que estatuem normas universais a partir de elevados graus de abstração; o segundo, das ciências empírico-esquemáticas, assim como das chamadas "ciências humanas"; o terceiro é contingente e incerto ao ponto de não ser decifrado por nenhuma ciência, porque lida com a radical imponderabilidade da vontade no exercício dos seus atos livres. É, portanto, possível prever o movimento de um corpo imerso num fluido líquido ou gasoso, mas não se um menino de quatro anos será jogador de futebol ou engenheiro; se escolherá isto ou aquilo a determinada altura de sua trajetória existencial.
Com relação ao que aqui chamamos de “futuro livre”, afirme-se: nem mesmo uma inteligência intuitiva, que chegasse à verdade sem passar pelos escolhos do plano sensitivo, ou seja, sem abstrair os conceitos das notas individuantes da matéria, poderia prever os futuros contingentes, não obstante pudesse ter deles notável estimativa — pois quanto mais universal é a causa conhecida, e quanto mais perfeito é o modo de inteligir, maior número de efeitos o sujeito cognoscente vislumbra. Por isso diz Santo Tomás que o demônio, entidade espiritual que está na posse de elevadíssimas espécies inteligíveis, não pode conhecer os futuros provenientes de causas absolutamente acidentais, embora tenha capacidade dedutiva e indutiva de deixar qualquer lógico de quatro, a mastigar alfafa.
Só Deus, cuja inteligência causa o ser dos entes, pode dizer “Eureca!” com relação ao que poderia ser ou não ser.
Pois muito bem. Quanto ao futuro de uma nação, a certeza possível será sempre de natureza conjectural, numa escala que pode ir da abstrusa opinião contrária às evidências históricas à probabilidade mais elevada e argutamente vislumbrada, em meio a variantes de difícil interpretação. No caso brasileiro, uma análise básica dos elementos educacionais, sociais, morais, econômicos e políticos contemporâneos nos capacita a conjecturar o seguinte: se a curto ou médio prazo não emergir uma merda ainda mais fenomenal do que a convulsão coletiva vigente, geradora de cinqüenta mil assassinatos por ano, é porque ou um poderoso e inusitado elemento entrou em cena, de maneira abrupta e avassaladora, ou um milagre se deu.
Ora, não é necessário ter luzes proféticas para saber que Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, fenótipo literário do “homo brasilianus modernus”, não pode virar Aristóteles num passe de mágica, a menos que desenvolvesse faculdades metapsíquicas nunca antes vistas em wonderland; que o caos não é dotado de potências intrínsecas, nem inclinação natural, para a ordem; que a cupidez imoralista dos nossos parlamentares e dos homens do Poder Executivo em geral, expressão eloqüente da corrupção média oriunda do atávico "jeitinho" brasileiro, não se transmutará em altruísmo — como se num belo dia cada senador, cada deputado, cada vereador, cada prefeito, cada governador virasse um Péricles, um Carlos Magno, um São Luís de França ou qualquer outro personagem político imbuído de elevado sentido do bem comum.
Ex nihilo nihil fit”.
Seja como for, para o que interessa apontar neste breve texto, chamo “conjectura infernal” não àquela que acerta na previsão de fatos potencialmente contidos na massa pluriforme e indomável em que se transformou a sociedade brasileira. Mas àquela que, contemplando a realidade, conclui adocicada ou estupidamente com o espírito do Dr. Pangloss, de Pollyana ou do insuportável Fernão Capelo Gaivota.
Quem faz isso é gente acometida duma cegueira mais ou menos voluntária. Gente que ri o riso fátuo das almas automutiladas.

A tais pessoas poderíamos dizer: desventurosos os que não choram, quando deveriam chorar, porque não terão nem mesmo a verdade como consolo.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

O "comunismo" dos infantes

Sidney Silveira
AO COMENTAR uma passagem da "Política" de Aristóteles, Tomás de Aquino frisa que o homem afastado das coisas da Pólis é:

> INSOCIAL, porque não consegue estabelecer verdadeiros vínculos de amizade;
> ILEGAL (ou anômico), porque não consegue sujeitar-se de maneira nenhuma aos ditames da lei; e
> INFELIZ, porque não se rege pela regra da reta razão, e sim por paixões desgovernadas.

Poderíamos acrescentar que, em contrapartida, o meter-se na política sem mínima base intelectual e moral — e também sem a maturidade que só a idade e a experiência acumulada podem trazer — também é catastrófico, pois implica reunir, em sumo grau, a insociabilidade, a aversão à lei e a infelicidade. 

Se esses jovens que têm a fada Sininho como líder carismática (no sentido mais canhestro do termo) fossem sabatinados por verdadeiros intelectuais, a sua total incompreensão acerca do que seja a natureza da política seria desnudada, e eles perderiam parte da projeção que hoje possuem. 

A propósito, tal projeção retrata o quanto a nossa vaca está atolada no brejo das almas, mugindo num idioleto maluco que do português guarda certas semelhanças sintáticas, mas possui um vocabulário limitado e, por conseguinte, conceitos mentais paupérrimos repetidos como um mantra narcótico.

A nossa vocação metafísica para o fundo do poço civilizacional atualiza-se a cada dia. Quem duvida, ouça a musiquinha entoada ao final deste vídeo pelos novos "heróis" nacionais.

Enquanto isso, na falta de cicuta, vou ali tomar um arsênico.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Achado e promoção!


Sidney Silveira

Ao fazer uma limpeza em casa, achei nada menos que 60 exemplares do esgotadíssimo livro de Santo Agostinho sobre a natureza do bem, escrito contra maniqueus, lançado em edição bilíngüe em 2005 (os exemplares são da reimpressão feita por nós em 2006).

Os interessados em adquirir a obra devem enviar e-mail para:


Na mensagem, devem indicar nome e endereço completo (para calcularmos o frete). Responderemos dando o número da conta para depósito.

A PROMOÇÃO É: 

Compre o livro de Agostinho por apenas R$ 40,00, ou pague R$ 70 e adquira também um exemplar de "A Inocência do Padre Brown" — edição luxuosa desta obra de Chesterton magistralmente traduzida por Carlos Nougué.

Neste último caso, cada livro sai por R$ 35.

O frete é por conta do Instituto Angelicum. 

Por favor, informem no e-mail se pretendem adquirir ambas as obras ou apenas uma.

P.S. Estamos, enfim, preparando a edição do livro "As Heresias de Pedro Abelardo", de São Bernardo de Claraval. Em breve darei notícias desta retomada editorial do Instituto Angelicum.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Aonde vai a zona de sombrada contemporaneidade?


Sidney Silveira

Na acepção do termo, épocas são períodos históricos diferenciáveis entre si, conforme frisa Erwin Panofsky em seu hoje clássico Arquitetura Gótica e Escolástica. Mas para que, de fato, as épocas se diferenciem é preciso haver vetores de unidade e de identidade distintos a lhes dar esta ou aquela forma predominante. Seja como for, um historiador só pode aferir tais traços demarcadores de distintas etapas históricas comparando-as em seus principais tópicos: religião, artes em geral, filosofia, política, ciência, arquitetura, etc. 

Em sociedades que perderam totalmente o sentido de unidade e de identidade, como as contemporâneas, o historiador e o cientista político são literalmente esmagados pela multiplicidade indomável de fontes colidentes entre si. Precisam ser quase profetas a buscar luzes para além do perímetro da sociedade que estudam — cuja inteligibilidade, em seu conjunto, dá-se antes pelos vestígios da grandeza perdida do que pelo caos demarcador do seu epitáfio.

Assim são as épocas se transição: zonas de sombra potencialmente moldáveis a várias formas

A zona de sombra deste começo de século XXI, em particular, caracteriza-se pela abrangência dos tentáculos em luta pelo poder (sobretudo islamismo, globalismo ocidental e eurasianismo), como também pela tentativa artificiosa de destruição das diferenças, sem as quais nenhum genuíno vetor de unidade ou de identidade é possível. 

Ou vocês acham factível que, por decreto da ONU, sobrevenha uma sociedade global a um só tempo ecumênica, pancristã, transnacional, atéia, islâmica, judaica, abortista, socialista, pacifista, plurissexual, pedófila e multiculturalista?

Apertem os cintos. O piloto do avião sumiu e pouca gente é capaz de dar testemunho desse sumiço.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Leal ao céu, veraz na terra


Sidney Silveira

A LEALDADE é filha da veracidade.

Quem não é veraz jamais conseguirá ser leal. Noutras palavras, alguém que não tenha a verdade como critério pode, no máximo, ser leal a uma causa — nunca a uma pessoa. Ocorre que essa lealdade a grupos em detrimento dos indivíduos objetivamente considerados é tão falsa quanto uma nota de três dólares, pois não se funda na amizade, que tende à perdurabilidade, e sim no interesse, que tende à inconstância.

Em suma, não é lícito ser desleal nem mesmo para com os inimigos, pelo simples fato de que a deslealdade é balizada pela simulação de veracidade à qual chamamos hipocrisia. Sendo assim, ainda que o inimigo seja um "demônio", nenhuma justificativa há para jogar sujo com ele, pois quem assim procede acaba assemelhando-se ao que de pior tem o inimigo. O melhor é enfrentá-lo face a face, mas sem expedientes escusos, ou afastar-se levando n'alma o aprendizado possível. E aqui não confundamos estratagemas com vale-tudo maquiavélico: existem limites morais nas contendas, ultrapassados os quais é melhor perder que vencer. Sabemos disso desde Sócrates.

Como a veracidade decorre da virtude cardeal da justiça, o homem leal, sendo verdadeiro, "a fortiori" precisa também ser minimamente justo. Mas não pode ser justo quem substitui as amizades reais por ações programáticas em prol de um suposto objetivo coletivo, pois o ato próprio da justiça é dar a cada um conforme os seus merecimentos, e não dobrar-se — numa espécie de "amém" cego — aos projetos de um grupo, qualquer que seja, e por presumivelmente bom que seja. Quem faz isso, cedo ou tarde, acaba por cometer perjúrio contra o próximo para demonstrar lealdade ao grupo.

A pessoa que conjuga demasiada e artificialmente o "nós", acaba por desprezar o "eu" e o "tu", retirando das costas, por meio de justificativas mil, as responsabilidades pessoais para lançá-las sobre o primeiro bode expiatório que estiver à mão.

No momento em que o Facebook e outras redes sociais servem para fomentar atos totalmente contrários à lealdade, nos parâmetros aqui explicitados — ou seja, como o salutar hábito de fidelidade à verdade —, nunca é demais lembrar que, de uma maneira ou de outra, acabamos ainda nesta vida por pagar o elevado preço dos atos perpetrados sem o critério da veracidade, que, como dissemos, é a mãe da lealdade.

Seja como for, apenas quem crê em Deus entende o alcance da proposição "não devemos ser desleais nem mesmo com os nossos inimigos", pois o pressuposto dela é o dever de lealdade para com Aquele de quem procedem todas as verdades.

Ou isso, ou a trôpega e vertiginosa descida pelos degraus da demagogia. Ou isso, ou os acordos obscuros em vista de objetivos em geral funestos, como seja, por exemplo, o de destruir a honra alheia, direta ou indiretamente, ainda que buscando explicações sofisticadas para as mais vergonhosas ações.

Umas vezes, ser leal é a conquista do homem em luta titânica contra as suas próprias fraquezas. Outras vezes, é dádiva do céu. Dádiva que, se ainda não recebemos, podemos e devemos pedir em súplice oração. 

Porque a genuína lealdade de um homem em relação ao seu próximo — seja amigo ou inimigo — é o prêmio da confiança em Deus.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Santo Agostinho e a Beleza


Sidney Silveira
"PERCEPÇÃO DA ORDEM NO MOVIMENTO"

Trecho de uma das aulas do curso "A Beleza na História Cultural", do Instituto Angelicum, que tenho a honra de ministrar conjuntamente com o meu irmão, Prof. Ricardo da Costa, da UFES — atividade que voltou do recesso da Copa na noite desta terça-feira (15/07).

Muito obrigado aos alunos cuja participação é essencial para prosseguirmos com os projetos do Angelicum.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

I Simpósio de Cultura e Letras Latinas


Sidney Silveira

A realizar-se entre 23 e 24 de agosto. 

Entre os palestrantes, os amigos Luiz Astorga, Sergio Pachá e William Botazzini — entre outros

Eis a ordem das palestras:

Sidney Silveira
Tema: A ORDEM PRÓPRIA DA BELEZA E A DEBILIDADE DA LINGUAGEM HUMANA
Jornalista e estudioso da obra de Santo Tomás de Aquino

Adriano Scatolin
Tema: RETÓRICA E ORATÓRIA NA REPÚBLICA ROMANA
Doutor em Língua e Literatura Latina pela Universidade de São Paulo

Prof. Ms. Sérgio de Carvalho Pachá 
O TIBRE DESÁGUA NO TEJO: COMO O LATIM PODE ENRIQUECER O PORTUGUÊS.
Mestre em Língua Portuguesa e Ex-Lexicógrafo-Chefe da Academia Brasileira de Letras

Prof. Guilherme Campos
O LATIM NAS ACADEMIAS 
Bacharel em Letras Latim pela Universidade Federal de Minas Gerais

Prof. William Botazzini
BREVE HISTÓRIA DO ENSINO DO LATIM
Licenciado em História pelo Centro Universitário Claretiano e estudioso de Língua Latina

Prof. Dr. Luiz Astorga 
CRITÉRIOS NA TRADUÇÃO DE TEXTOS FILOSÓFICOS MEDIEVAIS.
Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidad Católica de Chile

Agradeço a quem puder divulgar o evento!

OUTRAS INFORMAÇÕES E INSCRIÇÕES NO site

A importância da IIª-IIª da "Suma Teológica"


"VIRTUOSO NÃO É QUEM mais luta para conseguir agir bem, mas justamente o contrário: é quem — por ter a virtude já formada, quer dizer, certa conaturalidade [psíquica] com o bem — possui menor dificuldade para agir retamente".

Martín Federico Echavarría, filósofo e psicólogo tomista

Sidney Silveira

O Prof. Martín Echavarría — ao comentar o modo de superioridade da temperança em relação à continência, no livro "La Formación del Carácter por las Virtudes" — refere-se a uma passagem de Santo Tomás na IIªIIª da "Suma Teológica. 

Em síntese, uma virtude é principal (no caso, cardeal) não em razão da matéria de que trata, nem do seu sujeito, mas do modo de ordenar os atos humanos em vista do bem. Cada virtude cardeal abarca virtudes auxiliares ou partes potenciais de uma mesma virtude. 

Não por outro motivo, a TEMPERANÇA tem subordinadas a si, entre outras: 

> a MANSIDÃO, moderadora do apetite de vingança
> a CLEMÊNCIA, moderadora do apetite de aplicação dos castigos, ainda que sejam justos; 
> a ESTUDIOSIDADE, moderadora do apetite de saber, no sentido de que este não se desordene nem se desvie para temas inúteis e nocivos, como geralmente ocorre com o mero curioso imiscuído nas coisas filosóficas;
> a MODÉSTIA, moderadora de atos exteriores relacionados ao corpo;
> a EUTRAPELIA, moderadora das ações levadas a termo no tempo livre, relativas a jogos e distrações em geral, virtude que preserva o homem de qualquer tendência aos excessos (como, a propósito, ocorre com o Brasil inteiro quando se trata de Copa, ocasiões em que imperam o destempero e a desrazão);
> etc.

Costumo dizer o seguinte: quem se dedica há tempos ao estudo da filosofia e não leu, não releu e não meditou os textos da IIª-IIª da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino, é um sujeito atual ou potencialmente estúpido, e desconhece de maneira cabal o que seja o animal homem. 

E que, por isso, logo perderá a queda de braço contra as suas próprias debilidades.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Lições de Metafísica, por Ruben Calderón Bouchet


Sidney Silveira
"Esta tendência irrefreável [de parte da ciência moderna] a matematizar as coisas faz com que as coisas sofram, de alguma maneira, uma amputação fundamental em sua realidade".
(Calderón Bouchet)

Tira-gosto da palestra do grande escritor argentino Calderón Bouchet, pai do notável tomista Álvaro Calderón.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

A virtude, o tempo e o vento

Sidney Silveira
Por serem uma força espiritual que se realiza num dado percurso de vida e estarem hierarquizadas pelos graus de abrangência do influxo sobre as potências superiores da alma — inteligência e vontade —, as virtudes requerem esforço e visão para deitar as suas benéficas raízes no caráter de uma pessoa. Em breves palavras, virtudes não espocam como bolhas epidérmicas de catapora, pois exigem planificação, ordem em vista de um fim ao qual, preliminarmente, chamaremos felicidade. Neste contexto, frise-se desde logo que nenhuma virtude é a justaposição ocasional de boas ações, ainda que estas sejam inumeráveis, mas o hábito predisponente ao agir bem. Como dizia o filósofo alemão Josef Pieper, a virtude não se define pela honradez ou probidade de ações isoladas. 

Podemos, pois, dizer com total segurança:

> Ninguém é subitamente virtuoso.
> Ninguém é circunstancialmente virtuoso.
> Ninguém é involuntariamente virtuoso.
> Ninguém é seletivamente virtuoso.
> Ninguém é inconscientemente virtuoso.
> Ninguém é topicamente virtuoso.

A virtude é um projeto. E aqui não nos custa lembrar que o vocábulo “projeto” tem o seguinte étimo: vem do latim projectus, cujo significado é “ação de se lançar para diante, de se estender”. Daí dizermos nós que a virtude é o projetar-se sobre as situações da vida sob a luz da sabedoria. E esta, por sua vez, caracteriza-se pela clara visão do sentido de unidade dos saberes a partir duma ordenação hierárquica — a qual leva em conta os princípios que um saber toma de empréstimo de outro. Quem entende, por exemplo, as razões por que a perspectiva depende da geometria, a nutrição da biologia, a lógica da metafísica e a música da aritmética não terá nenhuma dificuldade para compreender a natureza arquitetônica da sabedoria. “La sagesse c’est architectonique”, dizia com acerto um tomista canadense.

Quando pensamos com mínima argúcia, logo concluímos que, para o homem, não existe melhor e mais inteligente projeto de vida que o de buscar a virtude, ou seja, vetorizar a alma pela excelência, não obstante tal projeto esteja fadado ao malogro nalgum grau — pois, nesta vida, a virtude perfeita é, material e formalmente, inexeqüível. Mas, neste ponto, seja feita com ditosa contundência a seguinte ressalva: a curto e médio prazos, pouco ou nada importa o êxito prático da empreitada; o simples colocar-se a caminho já pressupõe a entrada numa espiral de conceitos e hábitos que, de maneira assintótica e paulatina, fortalecerá o espírito e moldará o temperamento às exigências e à dinâmica da vida cotidiana.

Como ficou dito, uma virtude é tanto mais excelente quanto maior é a abrangência do seu influxo sobre as potências superiores da alma. Daí também estarem elas hierarquizadas. Por exemplo, no tocante à razão prática, as chamadas virtudes cardeais possuem precedência ontológica sobre as demais por abarcarem-nas, mas também devido ao fato de que o seu selo indelével é muito mais decisivo. Como se pode deduzir, existe uma imbricação metafísica e gnosiológica entre todas as virtudes, por isso Santo Tomás indica incontáveis vezes em sua monumental obra que vícios e virtudes nunca andam desacompanhados.

Vamos em frente. Sem prudência, que é virtude principal no âmbito do agir humano, é impossível a uma pessoa adquirir o hábito da justiça, pois o justo não é o sujeito que realiza uma boa ação como quem, por sorte, ganha na loteria; sem justiça, a fortaleza acaba por se transformar num trampolim para a maldade, espécie de fraqueza anabolizada, disfarçada por todos os tipos de bravatas. E assim ocorre com todas as demais virtudes, que se vão engendrando e retroalimentando com notável funcionalidade, até definirem o norte da alma: fazerem com que o homem seja habitualmente inclinado ao bem, a ponto de defendê-lo mesmo quando, por conta disso, sofra funestas conseqüências. 

No começo deste breve artigo, falou-se da felicidade como o fim das virtudes. Agora, em vista do esclarecimento da virtude como inclinação habitual da alma ao bem, é possível entender as gradações de felicidade a partir da perenidade dos bens adquiridos. Em resumo: quanto mais imateriais são os bens possuídos intencionalmente pela alma, mais inexpugnável é a felicidade, quer dizer, menos tendente a mudar por conta das intempéries e dos contratempos da vida. “Felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça, pois deles é o reino dos céus”, disse Cristo.

Podemos resumir a trajetória humana por este vale de infortúnios e injustiças por um breve raciocínio disjuntivo: ou o homem busca a virtude, ou toda a sua vida é um tempo vão

Vão como um vento maligno que sopra sempre na direção da agonia.

P.S. O livro que ilustra esta postagem, “La Formación del Carácter por Las Virtudes” — Vol. I: Templanza e intemperancia, propuestas terapêuticas y educativas”, foi coordenado pelo amigo Martín Echavarría, a meu ver o psicólogo tomista mais importante da atualidade. 

Leitura utilíssima para quem queira compreender a importância das virtudes para uma vida bem vivida.