segunda-feira, 31 de março de 2014

Prévia da grande chamada do curso "A Língua Absolvida"





Sidney Silveira

Hoje (31/03) estive com Sergio De Carvalho Pachá na Lagoa Rodrigo de Freitas, zona sul do Rio, para gravar a primeira grande chamada do curso "A Língua Absolvida", do Instituto Angelicum. Todos os que acompanham o blog poderão ver em breve este agradável bate-papo informal sobre coisas elevadas.

A erudição generosa do amigo Pachá tornou a conversa agradabilíssima. A propósito, este será o tom de todo o curso: ele a explanar, e eu ao seu lado, a fazer comentários, perguntas, etc. 

À parte dos vídeos haverá textos da lavra do mestre, que é gramático, dicionarista, lexicógrafo, filólogo, poeta e tradutor.

Nos próximos dias, as novidades!


P.S. Agradecimento especial a Monik Moreth e a Juliana Vieira, que filmaram e tiraram as fotos. Profissionais de primeira linha!

sexta-feira, 28 de março de 2014

Resultado de uma vida intelectual falsa: loucura


Sidney Silveira

Para realizar as coisas mais prosaicas, como levantar da cama e ir escovar os dentes, o homem possui certa capacidade neurológica de captar o ambiente e orientar-se nele de forma adequada, quanto ao espaço e quanto ao tempo. Essa bússola natural é uma espécie de lucidez orgânica da qual o homem é dotado desde sempre, e quando ela apresenta problemas podem surgir dois tipos de patologias já perfeitamente classificadas pelos psiquiatras: 

> DESORIENTAÇÃO CRONOPSÍQUICA: A pessoa perde a referência das datas e a noção do tempo vivido e passa a lidar concomitantemente com duas realidades temporais, a normal e a psicótica — até esta última perverter o mundo da seqüência lógico-temporal dos fatos reais.

> DESORIENTAÇÃO ALOPSÍQUICA: A pessoa aparta-se do ambiente em torno ao ponto de afetar tanto a sua percepção geométrica dos objetos (espaço) como a memória (noção do tempo vivido), chegando às vezes a perder o senso de identidade e a capacidade de reconhecer os dados sensoriais externos. Os acontecimentos psíquicos passam a não coincidir com os acontecimentos reais.

No caso das potências imateriais da alma — inteligência e vontade —, a bússola natural do homem é teleológica, ou seja: diz respeito ao fim a que tendem essas duas faculdades. A inteligência com sua tendência a assimilar intencionalmente a realidade até chegar à sua posse imaterial (que é a verdade, consistente em certa adequação entre a mente e as coisas como são) e a vontade, com sua tendência apetitiva do bem. Aqui, as desordens podem ser muito mais dramáticas, pois afetam o que no homem é mais excelente. 

Uma das maneiras de envenenar essas potências superiores é a pessoa levar uma vida intelectual histriônica, em meio à qual prefere a superfície do aplauso fácil de um público medíocre à riqueza do próprio mundo interior — onde o espírito está em seu verdadeiro habitat. Isto ocorre muito com aspirantes a escritores que sequer têm noção da estatura do seu ofício e, aos primeiros elogios, descambam para o jogo de cena fácil que agrada aos estúpidos.

Quem começa a vida intelectual com este padrão só tem um fim, cedo ou tarde: a soberba, pecado capital que alimenta todos os tipos de desordem do espírito (não raro com vários reflexos orgânicos) e, no final das contas, inocula o pior tipo de loucura que pode haver: a maldade.

Todos os demais distúrbios psíquicos podem ser mais ou menos culpáveis. Mas a maldade é em si injustificável e absolutamente indesculpável. Por isso só Deus a pode remir.

Mais do que problemas de orientação cronotópica — como os dois acima aludidos —, trata-se do direcionamento de toda a pessoa àquilo que é essencialmente contrário à sua humana natureza.

terça-feira, 25 de março de 2014

Sobre mangueiras, mangas e beleza


Sidney Silveira

Em minha aula desta terça-feira (25/03) no curso "A Beleza na História Cultural", do Instituto Angelicum, comecei falando sobre a beleza na perspectiva metafísica e acabei por tentar explicar o seguinte: por que uma mangueira que não dá frutos não pode ser dita bela em sentido pleno. Noutras palavras: por que ela não esgota a razão de beleza ("ratio pulchri"), mesmo se a sua aparência externa não apresenta nenhuma anomalia aparente.

Obrigado a todos os alunos pela participação com perguntas inteligentes e bem a propósito do tema em questão.

Depois decidi-me a tomar um suco de manga e repousar na idéia de que a beleza é, acima de tudo, uma vitória da inteligência sobre os sentidos na apreensão dos entes...

Vocação metafísica à beleza



Sidney Silveira

"Dotado de faculdades intelectivo-volitivas, o homem é naturalmente vocacionado à beleza — definida por Santo Alberto Magno na obra De Pulchro et Bono como fulgor comunicado pela forma às partes quantitativas da matéria.[1] A beleza desperta o amor, ato sublime da vontade, e aguça a inteligência na inquirição do mundo real. Diante de algo objetivamente belo, assimilado e compreendido da maneira adequada pelas potências superiores de sua alma, o homem alcança um particular tipo de êxtase abarcador de contrários: saciedade e apetite, contemplação e ação, repouso e ardor. Convém chamá-lo por seu nome próprio — felicidade.[2]

Ressalte-se que a noção metafísica de beleza aqui aludida está para muito além da dimensão estética, e portanto sensitiva, a que os modernos desde Baumgarten nos acostumaram, ao confundir o problema do belo com o da arte. Noutras palavras, o caráter fugidio dos dados sensitivos deveria ser a cabal evidência de que a felicidade não pode estar em nenhum tipo de prazer que se fixe no âmbito dos sentidos.[3] Em suma, ser feliz é ato próprio da inteligência, que assimila imaterialmente os transcendentais do ser, entre os quais se encontra o Belo. Quanto mais a inteligência adensa a sua apreensão intencional dos entes, mais cresce no entendimento da escala de belezas que há na realidade, até perceber o seguinte: desde a matéria primeira até Deus, as coisas são gradativamente belas, em linha ascendente".

(...)


[Trecho inicial d
o texto preparado para ser comentado em minha aula desta terça-feira, 25/03, no curso "A Beleza na História Cultural", do Instituto Angelicum].

P.S. Fotos tiradas do meu celular no bairro de Santa Teresa, no Rio, em fevereiro deste ano.
P.S.2 Há algumas vagas, para quem ainda quiser inscrever-se no site do Instituto, em : 

__________________________
1- Alberto Magno. “De Pulchro et Bono”, Q. 1, Art. 2. Por muito tempo se pensou que este opúsculo fosse de Santo Tomás, por haver nele o autógrafo do Doutor Angélico. Hoje, após o minucioso trabalho do padre italiano Roberto Busa — grande idealizador do léxico da obra de Tomás de Aquino no século XX —, é consenso entre os especialistas que, em verdade, se trata de um comentário de Santo Alberto Magno ao livro “Sobre os Nomes Divinos”, do Pseudo Dionísio Areopagita. O texto latino encontra-se na Opera Omnia do Aquinate mantida na internet pelo Prof. Enrique Alarcón, no seguinte link: http://www.corpusthomisticum.org/xdp.html
2- A felicidade, como veremos, é um conceito analógico. Na definição de Santo Tomás, trata-se do “bem perfeito das naturezas intelectivas” (“bonum perfectum intellectualis naturae”, cfme. “Suma Teológica”, I, q. 26, art.1). Em resumo, sendo a operação mais perfeita das criaturas dotadas de inteligência, a felicidade é também uma literal imersão na beleza — uma das propriedades transcendentais do ser. No caso, imersão na beleza d'Aquele em quem reside a suprema “ratio pulchri”: Deus.
3- Cfme. Tomás de Aquino. “Suma Teológica”, IªIIª, q. 2, art. 5 e 6..

domingo, 23 de março de 2014

Cornelio Fabro


Sidney Silveira
"Introdução a Santo Tomás — A Metafísica Tomista e o Pensamento Moderno", do padre italiano Cornelio Fabro,  é certamente uma das grandes sínteses feitas por autores tomistas do século XX a respeito da obra do mestre medieval.

Não obstante o pendor de Fabro pela terminologia obscura e o fato de ele ter cometido algumas falhas relevantes como intérprete do Aquinate, trata-se sem a menor sombra de dúvida de um notabilíssimo metafísico, responsável pelo resgate do conceito de "ato de ser" na obra de Tomás, assim como pelo esclarecimento de tópicos importantes da doutrina da participação do Doutor Angélico.

Leitura obrigatória para todo aspirante a tomista.

Sílvio Romero x Machado de Assis

Sidney Silveira

UM DOS ÓDIOS mais persistentes da história da literatura brasileira foi o de Sílvio Romero por Machado de Assis. O autor sergipano jamais perdoou a Machado a crítica que, na juventude, este lhe fizera referente a uns versos muito mal ajambrados — saídos da pena do medíocre poeta que era. Desde então, perseguiu implacavelmente o grande escritor fluminense, mas, ao ver que ele ia angariando em vida os aplausos dos confrades e dos leitores, a certa altura tentou minimizar os ataques num livro intitulado "Machado de Assis", com o intuito de reduzir a vergonha da opinião claramente injusta. 

Ocorre que Sílvio não conseguiu vencer o sentimento de "vendetta" de que era feita a sua pobre alma, e, em meio a elogios claramente constrangidos e insinceros, saíam-lhe da pena textos vexatórios como o seguinte: 

"O estilo de Machado não se distingue pelo colorido, pela força imaginativa da representação sensível, pela movimentação, pela abundância, ou pela variedade do vocabulário. (...) O período não lhe sai forte, amplo, vibrante, como em Alexandre Herculano; variegado, longo, cheio, como em Latino Coelho; imaginoso, fluente, cantante, como em Alencar; seguro, articulado, movimentado, como em Salles Torres Homem; terso e transparente, como em João Francisco Lisboa; abundante, corrente, colorido, marchetado, como em Rui Barbosa. (...) 

O estilo de Machado de Assis, sem ter grande originalidade, sem ser notado por um forte cunho pessoal, é a fotografia exata do seu espírito, de sua índole psicológica indecisa. Correto e maneiroso, não é vivaz, nem rútilo, nem grandioso, nem eloqüente. É plácido e igual, uniforme e compassado. Sente-se que o autor não dispõe profusamente, espontaneamente do vocabulário e da frase. Vê-se que ele apalpa e tropeça, que sofre de uma perturbação qualquer nos órgãos da palavra. Sente-se o esforço, a luta. 'Ele gagueja no estilo, na palavra escrita, como fazem outros na palavra falada', disse-me certa vez não sei que desabusado num momento de expansão, sem saber destarte que me dava uma verdadeira e admirável notação crítica. (...) 

Realmente, Machado repisa, repete, torce, retorce tanto suas idéias e as palavras que as vestem que nos deixa a impressão dum perpétuo tartamudear". 

POBRE DIABO! Enquanto Machado ocupa lugar especial em nossas letras, como romancista e contista notável, Sílvio Romero — o autor do perfeito retrato de inveja e despeito acima —, não obstante o seu trabalho de etnógrafo, folclorista, historiador da literatura, etc., é uma nota de rodapé. 

O Salieri da literatura brasileira com que o Bruxo do Cosme Velho teve de lidar ao longo de quase toda a sua vida de escritor...

sexta-feira, 21 de março de 2014

A Língua Absolvida - Questões Vernáculas do Português

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Sidney Silveira

Curso imperdível! 

"A LÍNGUA ABSOLVIDA - QUESTÕES VERNÁCULAS DO PORTUGUÊS"

Posto um brevíssimo anúncio do curso que, logo, o querido amigo Sergio De Carvalho Pachá ministrará pelo Instituto Angelicum.

Será uma iniciativa útil PARA TODOS, independentemente de profissão, credo político ou religioso, etc. 

Aguardem: na próxima semana daremos o detalhamento do curso.

Em síntese: trata-se sobretudo de escrever bem na língua portuguesa.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Artesanato da canalhice: da fraude ao auto-engano

Sidney Silveira

O charme do canalha está em que a sua pertinácia é instintivamente assimétrica, maleável, táctil. Noutras palavras, o autêntico cafajeste nunca é tedioso porque não costuma percorrer o mesmo caminho duas vezes: muda-o de acordo com as conveniências do momento, até alcançar o sucesso em seus inescrupulosos planos. Afinal, ele precisa conhecer bem os incautos que escolhe a dedo e agir de maneira a não revelar jamais as suas verdadeiras intenções, embora as insinue para confundi-los com uma ambigüidade manejada psicologicamente com maestria. A sua arte é transformar em atraente mistério a duvida quanto à natureza do seu próprio caráter. 

Esta cordialidade perene e sedutora do genuíno embusteiro é, porém, certo indício de que a sua alma está devotada ao malogro. Ele tempera o cinismo com imaculada simpatia, é prestativo, cortês e não costuma mostrar-se contrariado, pois isto denota fraqueza. Neste exato ponto é importante advertir o seguinte: serpenteante e criativo quando se põe a fraudar alguém, em contrapartida este inato sacripanta reage monocordicamente ao ser pego em flagrante delito, ou quando alguém o tem sob suspeita. Nestas ocasiões, com grande lábia ele tergiversa usando de palavras escorregadias, entredentes, se acaso pairam dúvidas sobre a sua conduta; ou nega tudo com total descaro, se por desgraça as evidências dos seus contos-do-vigário simplesmente o soterram. Negar sempre, eis o seu lema.

A hipocrisia com que age o típico canalha aponta para o fato de que ele ainda não ultrapassou a última barreira da moral, pois algo em sua alma ainda faz com que queira parecer bom — ao contrário do sujeito desavergonhado, o qual perdeu a noção de honra e também o filtro do pudor natural que impedia a degenerescência total do caráter. Este resquício de dignidade torna o canalha capaz de, eventualmente, verter lágrimas sinceras de compaixão, sentimento de que porém não se deixa impregnar, não obstante lhe dê certa vertigem de bondade, em doses homeopáticas suficientes para tornar a sua consciência leve. 

A possibilidade de uma boa ação totalmente desinteressada lhe dá nojo, é absurda e surreal como a imagem de unicórnios voadores. Mas a maldade em estado de pureza também o incomoda, razão pela qual tempera os malefícios com apaziguadoras auto-justificativas e usa da cordialidade como escudo psicológico protetor, para crer que não seria capaz de ultrapassar certos limites. Ora, um sujeito tão afável e educado não há de ser tão mau...

O problema maior do canalha está exatamente neste lastimável ponto de tangência: as suas habituais fraudes acabam por levá-lo a acreditar nas mentiras que, com ardilosa sutileza, passa a contar a si mesmo, ao ponto de embelezar retroativamente as más intenções e projetar sobre elas algo que, no futuro, as torne menos tangíveis e, portanto, melhor suportáveis. Assim vive o canalha até perder totalmente a bússola do senso de proporções, sem a qual a maldade transforma-se em loucura.

Quando numa sociedade — como a brasileira — o número desse tipo de malucos cresce em progressão geométrica, tenhamos a certeza de que a fraude, o furto e a mentira política acabarão, cedo ou tarde, consagrando-se na forma da lei.

Para apaziguar a consciência dos sem-consciência.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Dois braços do mesmo monstro


Sidney Silveira
SEPARAR CRESCENTEMENTE AS RAZÕES DE ESTADO da "virtus" cristã foi a tragédia política da modernidade — geradora dos maiores genocídios de que se tem notícia, sobretudo a partir do momento em que a revolução francesa guilhotinava as cabeças dos desafetos, afogava crianças e mulheres camponesas nos rios e praticava atos de antropofagia à luz do dia, entre outras benemerências dos novos cidadãos para com o povo. A propósito, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, serviu para empilhar tantos mortos que a França naquela ocasião deixou de ser a nação mais populosa da Europa, dando então lugar à Alemanha...

Após séculos de luta intestina do poder material por desvencilhar-se completamente de qualquer princípio espiritual superior (gestada desde o final da Idade Média), a definitiva recusa da Cruz apresentada pela Igreja militante ao mundo, ao final do século XVIII, logo levou as sociedades ocidentais ao patíbulo do liberalismo, quimera individualista baseada numa falsa noção de liberdade. E do liberalismo, em todas as suas configurações, ao comunismo, ao fascismo e ao nazismo, quimeras coletivistas totalitárias.

O liberal — sobretudo se se diz católico — está impossibilitado de compreender a dimensão dessa fratura nascida do laicismo que serviu como um dos motores da revolução francesa, a qual vê com culpável benevolência. Não por outro motivo, a sua análise da luta pelo poder global dos dias de hoje, por sofisticada que seja, está amputada da premissa maior. Por sua vez, comunistas, fascistas e neonazistas sequer a vêem. 

Entre míopes voluntários e cegos hereditários está o destino do mundo contemporâneo.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Inabarcabilidade conceptual do ser

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Sidney Silveira

2013 foi um ano dificílimo para mim: o pós-cirúrgico de minha operação cardíaca mostrou-se bastante problemático e a capacidade de trabalho — que era grande — reduziu-se, por questões de saúde. Além de várias outras coisas que não me cabe enumerar.

Por conta disso, alguns projetos foram interrompidos ou adiados. Um dos que me vi na contingência de parar (quando estava quase chegando ao fim!) foi o curso "Ascese e Filosofia à Luz do Tomismo", pelo site do amigo Marcel Assunção Barboza, da Associação Santo Tomás.

Pois bem, a boa notícia para os inscritos naquele curso é que entregarei, em partes, a aula que ficara faltando. O Marcel já reorganizou a área do seu site na qual estava o curso e agora estou apenas revendo o material que eu havia gravado — o qual precisarei comparar com todas as aulas anteriormente disponibilizadas, para ter absoluta certeza de não enviar nada que já estivesse por lá.

Assim que isto estiver feito, darei notícia aos inscritos sobre os novos conteúdos ali disponíveis para eles. Enquanto isso, posto aqui um pequeno trecho duma das aulas, na qual eu falava sobre o caráter indefinível do ser, na doutrina de Santo Tomás.

Saudações a todos.

domingo, 16 de março de 2014

Sérgio de Carvalho Pachá fala sobre Jorge de Sena

Sidney Silveira
Todos os interessados em literatura luso-brasileira devem ver esta entrevista do meu nobre amigo Sérgio Pachá, lexicógrafo, filólogo, professor de literatura, tradutor e poeta — que em breve ministrará cursos de grande interesse pelo Instituto Angelicum.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Curso "A Beleza na História Cultural": está chegando a hora!


"A beleza é quando entender e amar identificam-se formalmente com o ser"

Sidney Silveira

As inscrições para este curso de extensão internacional continuam no site do Instituto Angelicum, onde há todas as informações referentes à ementa, certificado, cronograma de aulas, mensalidade, etc.:

quarta-feira, 12 de março de 2014

Corrosão da personalidade, sintoma de morte da inteligência


Sidney Silveira

Todo processo de despersonalização implica uma corrupção maior ou menor do ato próprio da inteligência: conhecer. Em síntese, quanto menos uma pessoa conhece de si mesma e do mundo à sua volta, mais o caráter torna-se híbrido, mais a sua personalidade esfuma-se e mais se reduz a possibilidade de que enxergue a dimensão dos seus próprios atos. Por conseguinte, decai ao mínimo a chance de arrepender-se do que quer que seja. 

A razão é simples: o arrependimento não é outra coisa senão a luz da inteligência que põe a nu os erros cometidos no passado. Mas há precondições psicológicas e espirituais para que ele se dê, sendo a primeira delas a inteligência não estar depauperada por conceitos obscuros ou errôneos nem a vontade desgovernada por paixões sem freio, sobretudo as que afetam as instâncias superiores da alma — como o desespero e o medo, por exemplo.

A realidade que os cristãos sempre chamaram de “pecado contra o Espírito Santo” é o signo eloqüente de que a inteligência se perdeu decisivamente e só um verdadeiro milagre poderá restaurá-la, pois, chegada este ponto dramático, a sua tendência é cair numa espiral interminável de autojustificações. E mais: ambientada ao novo estado mental criado de maneira artificiosa e culpável, a inteligência há de tornar-se crescentemente maliciosa — ao ponto de projetar em tudo a maldade à qual sucumbe. Afogou-se no mundo das mentiras em que escolheu acreditar.

Ora, crer nas próprias mentiras é apenas o ponto intermédio de uma personalidade que perdeu a bússola da luz do intelecto natural, como chamava Santo Tomás ao conhecimento espontâneo dos primeiros princípios da razão especulativa. Daí às patologias mais graves é um salto automático, pois a alma vai perdendo o sentido de unidade e se pulveriza em átomos dispersos pelos quais a leitura dos dados provenientes do mundo real se torna problemática, ou mesmo impossível. O homem então vê o que quer, e não o que é: entre o seu universo psicológico interior e o mundo exterior criou-se um abismo, e o primeiro efeito disso é ele tornar-se incapaz de dar testemunho seguro de si mesmo, ou seja, enxergar os motores dos seus próprios atos. 

A isto chamamos corrosão da personalidade, geradora de transtornos os mais aflitivos. O indivíduo chegado a este estágio despersonaliza-se porque se tornou incapaz de contemplar-se no espelho da consciência. O drama desta doença pode ser mensurável pelo seguinte: fazer o caminho de ida às coisas e volta a si mesma é a propriedade básica de toda inteligência sã — a “reditio completa” pela qual o homem orienta-se à transcendência e retorna enriquecido à imanência do seu próprio ato de ser. É, em sentido análogo, como o “torna-te o que tu és” do poeta grego Píndaro, repto no qual vem embutida a premissa de que conhecer a si próprio e conhecer o mundo, no caso do homem, são realidades simultâneas e complementares. 

Ocorre que o doente do espírito ao qual este breve texto faz referência perdeu a capacidade de descrever-se com mínimo realismo, assim como de descrever o que está à sua volta. Toda a sua vida a partir deste ponto implicará uma espécie de forçosa auto-santificação e de demonização das demais pessoas, tendo por causa central a corrupção da inteligência. 

O fato de que esta doença do espírito hoje seja coletiva — e esteja espraiada indiscriminadamente pelo mundo ocidental — indica-nos o seguinte: a inteligência não está mais em perigo de morte, como escrevera o filósofo belga Marcel De Corte no último quartel do século XX. Ela está morta à espera da ressurreição, e se esta ainda for possível passará necessariamente pelo tesouro da filosofia de Tomás de Aquino. 

Filosofia esta que não é outra coisa senão o melhor anticorpo para preservar o senso comum imune aos ataques mais insanos de doutrinas filosóficas  indignas deste nome.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Como validar no Brasil o certificado internacional do Curso de Extensão "A Beleza na História Cultural"


EXPLICAÇÃO INSTITUCIONAL 

Aos que perguntaram no Instituto Angelicum como revalidar o certificado do curso "A Beleza na História Cultural" que será emitido com o selo de IVITRA (Institut Virtual Internacional de Traducció, da Universitat d'Alacant, UA), é simples. 

O aluno interessado na convalidação e que esteja ainda na sua graduação deve entrar com um pedido na secretaria de seu curso, munido da ementa (com o programa e a bibliografia, disponíveis no site do Instituto). O chefe do Colegiado do curso do aluno analisa o pedido, emite um parecer que depois é votado em reunião departamental. Esse é o mesmo procedimento do aluno que faz uma disciplina de outro curso e quer que ela seja "contabilizada" em seu histórico escolar.

Como a carga horária de nosso curso é maior (90h) que uma disciplina "normal" na universidade brasileira (60h) e IVITRA é, por sua vez, um projeto de excelência (DIGICOTRAM) aprovado pela União Europeia — vocês podem consultar essas informações em http://www.ivitra.ua.es — e, por fim, os proponentes acadêmicos são os Profs. Drs. Vicent Martines (UA) e Ricardo da Costa (UFES) — este que vos escreve — não creio que os respectivos colegiados das graduações dos estudantes inscritos em nosso curso criem empecilhos para isso. 

Para dar um "peso" ao pedido, além do programa, podem anexar o meu currículo — disponível em http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=B727344

Verão que gosto de trabalhar. 

Espero que tenha esclarecido todas as dúvidas institucionais. 

Atenciosamente,
Prof. Dr. Ricardo da Costa (www.ricardocosta.com)

P.S. As inscrições para este curso continuam abertas no link abaixo, onde há todas as informações referentes a ele:



domingo, 9 de março de 2014

Só a inteligência vê o Belo


"A beleza é tanto mais bela quanto maior é a vitória da inteligência sobre os sentidos, da forma sobre a matéria, da alma sobre o corpo, da contemplação sobre a captação sensitiva". (Sidney Silveira)

Curso de Extensão Internacional "A BELEZA NA HISTÓRIA CULTURAL".

TÁ CHEGANDO A HORA, PESSOAL! 
As inscrições continuam abertas no link abaixo:

sexta-feira, 7 de março de 2014

Os grupos secretos que agiram na Igreja antes do Vaticano II


Sidney Silveira

PARA AQUILATAR o caráter insidioso do modernismo condenado por São Pio X na Encíclica Pascendi, cujas premissas teológicas e filosóficas foram literalmente consagradas no Concílio Vaticano II, convém ler o documento posterior a ela intitulado Sacrorum Antistitum, de 1º de setembro de 1910, no qual se lêem as seguintes palavras do grande Papa Giuseppe Sarto: 

"Com efeito, estas pessoas não cessaram de buscar e reunir em associação SECRETA novos adeptos, e de inocular com eles, nas veias da sociedade cristã, o veneno das suas opiniões".

A organização notável desses grupos denunciados pela autoridade máxima da Igreja, como diz o teólogo e historiador italiano Ernesto Buonaiuti no livro Il modernismo cattolico, teve por objetivo programático transformar a Igreja num protestantismo gradual. Para tanto, era necessária a melhor camuflagem possível e uma triste capacidade de agir duplamente: minimizar a posição diante das autoridades, porém exacerbá-la nos encontros secretos (ou discretos).

A coisa foi urdida de maneira planificada até os mínimos detalhes. Roberto de Matteitraz à luz, em seu fundamental livro "O Concílio Vaticano II - Uma História Nunca Escrita", uma confissão do ex-beneditino francês Albert Houtin, que revela sem o menor constrangimento o seguinte: o objetivo do modernismo previa que os inovadores não saíssem da Igreja mesmo se perdessem a fé, a fim de disseminar as suas idéias no decorrer das décadas seguintes à época da Pascendi.

E conseguiram. Mas sabemos que não venceram a guerra.

P.S. Na imagem que ilustra esta postagem, entre outros encontram-se sentados Henri De Lubac, Urs von Balthazar, Yves Congar, Jean Daniélou, Maurice Blondel, Alfred Loisy e Teilhard de Chardin...

As Tábuas da Lei, espelho da natureza humana


Sidney Silveira

Os 10 Mandamentos encerram todos os princípios universalíssimos da moral natural. Não obstante a fórmula proibitiva de algumas dessas leis entregues por Deus a Moisés no Sinai ("Não matarás", "Não roubarás", etc.), o pressuposto delas é algo atinente à essência de todas naturezas intelectivo-volitivas, ou seja: diz respeito às suas tendências e aptidões mais fundamentais. Noutras palavras, são indicativas do bem e do mal nas ações praticadas pelas criaturas dotadas inteligência e vontade, e também preceptivas, ou seja, contêm a proibição do mal e o mandato do bem.

Não por outro motivo, Vásquez, estudioso da obra de Santo Tomás pertencente ao Século de Ouro espanhol, dizia que a lei natural tem o fundamento de sua força obrigatória na própria natureza humana.

Vamos a um exemplo do que se está a dizer:

"Homem, és constituído de tal forma, que não matarás"; 
"Homem, és constituído de tal forma, que não roubarás";
"Homem, és constituído de tal forma, que  não prestarás falso testemunho"; etc.

Ou seja, exatamente por ser capaz de discernir o bem e o mal nos seus próprios atos — o que, em si, já é um extraordinário bem —, tudo o que o homem faça de mal contraria a sua natureza intelectivo-volitiva.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Procedimento apofático de investigação do belo





Sidney Silveira

O que a beleza NÃO É

> Ela NÃO É um conceito arbitrário da inteligência;
> Ela NÃO É produto da vontade;
> Ela NÃO É fruto da imaginação;
> Ela NÃO É um acaso na natureza;
> Ela NÃO É a forma exterior dos entes;
> Ela NÃO É algo sem finalidade tangível.

Estas proposições implicam premissas metafísicas, gnosiológicas e psicológicas a serem apresentadas durante o curso “A BELEZA NA HISTÓRIA CULTURAL”, a ser ministrado por mim e pelo Prof. Ricardo da Costa, cujas inscrições continuam abertas no link do Instituto Angelicum, a seguir:

quarta-feira, 5 de março de 2014

O esplendor dos sentidos: as primeiras noções de beleza na Grécia Antiga

Sidney Silveira
CURSO DE EXTENSÃO INTERNACIONAL "A Beleza na História Cultural" 
(a partir de 18 de março)

"O belo, já nos cantos homéricos, como também no dos poetas líricos, indica o gostoso prazer das impressões sensoriais, sem maiores aprofundamentos. Bela é a figura de Helena, bela é a de Pandora, bela é a de Eros; belos são os sorrisos de Mnemósine, as madeixas de Afrodite, os olhos das cárites (...). Nada aqui comporta ordem, finalidade. 

(...)
O que enche os olhos também incita o desejo, daí que, desde os tempos mais remotos, sobretudo nos poetas líricos, se destaca o aspecto erótico da beleza"

EDGARD DE BRUYNE
("Histoire de la Esthétique")

VAMOS LÁ PESSOAL: As inscrições continuam abertas para este curso no site do Instituto Angelicum, em:


Quem puder, COMPARTILHE! Eu e o Prof. Ricardo da Costa agradecemos penhoradamente.

terça-feira, 4 de março de 2014

Paralisia do bem, pressuposto do maquiavelismo




"A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar".

(Sun Tzu)

Sidney Silveira

QUE O CENÁRIO POLÍTICO INTERNACIONAL hoje apresenta forças antagônicas a digladiar-se entre si pelo poder global, é fato que grandes estudiosos do mundo inteiro corroboram com farta documentação. Primavera árabe, bloco socialista crescente na América Latina, atlantismo, eurasianismo, sionismo, etc., cada qual com o seu suporte político-militar-financeiro, são movimentos geopolíticos alicerçados por doutrinas díspares quanto aos princípios, porém coincidentes num ponto fulcral: ganhar o poder em bloco. 

Filósofos, sociólogos e cientistas políticos podem especializar-se na compreensão de cada um desses movimentos internacionais, assim como no entendimento das premissas que regem a luta intestina entre eles, mas se não colocarem no tabuleiro desse xadrez diabólico a participação da alta hierarquia da Igreja Católica ao longo de cinco décadas — seja por omissão grandemente culpável, seja por documentos magisteriais que contribuem para a preparação do reinado mundial do Anticristo, contrariando dois milênios de seus próprios ensinamentos —, a análise será parcial, ou seja, incompleta no que diz respeito a uma das peças mais importantes em jogo.

Não por outro motivo, diz enfaticamente Santo Tomás em seu "Comentário a Tessalonicenses" que a Igreja receberá o Anticristo de braços abertos. Acrescentemos nós, nesta mesma linha: o crescimento da maldade no mundo, até a conflagração final, tem por pressuposto que a lei evangélica deixe de pairar sobre as consciências, de educar as nações. Não pode haver sequer sombra dela. 

A estratégia é velha como o demônio: neutralize o inimigo antes de tomar de assalto o poder. Confunda intelectualmente as melhores cabeças e depois apresente bens aparentes (no caso, políticos, como a falsa noção liberal de "liberdade") até escravizar totalmente as vontades. Assim, a resistência se atomizará e perderá força — e aos sobreviventes morais desta verdadeira hecatombe espiritual e política restará ou o martírio ou o silêncio. 

É a hora da fé, é a hora da verdade. Os bons que restarem serão provados como ouro no fogo, entregando-se confiantemente à Providência Divina. Eles não acreditarão em nenhum profeta do Apocalipse que apresente fórmulas de resolução mágicas totalmente desconectadas da doutrina sapiencial que preconiza a subordinação das coisas temporais às espirituais. 

Da mesma maneira como o corpo subordina-se às potências superiores da alma.