sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Orlando Fedeli, etc.


Vi pessoalmente o Prof. Fedeli apenas uma vez — quando poucos meses antes de morrer pernoitou em minha casa e ficamos a conversar até altas horas da madrugada, após um divertido e agradável jantar com o meu amigo Carlos Nougué e o jovem Guilherme Chenta.

Lembro de lhe ter dito na ocasião o seguinte: "Prof. Orlando, há entre nós divergências tópicas e convergências utópicas". Com relação às primeiras, entre outras coisas referia-me eu ao Papa Bento XVI, sobre cuja atuação pontifícia não é meu propósito escrever aqui.

Antes de dormir, rezamos diante do crucifixo e do belo ícone de Nossa Senhora que tenho em minha sala, e a impressão que me ficou foi a de um homem piedoso, apaixonado, culto, corajoso e conhecedor do Magistério da Igreja.

Ele morreu num dia 9 de junho e foi enterrado no dia 10. Era meu aniversário, porém fiz questão de pegar a primeira ponte aérea que pude e assistir em São Paulo à Missa de corpo presente e ao seu sepultamento, pois tinha para com o falecido uma dívida de gratidão: aprendi com ele a combatividade em defesa da fé — num momento em que a Igreja deixara quase totalmente de lado a apostolicidade — e tive acesso a textos preciosos sobre outras religiões com abordagem salutarmente antiecumênica, a mesma que eu via nos Doutores, filósofos notáveis e grandes teólogos cujas obras extraordinárias tive a felicidade de ler.

Jamais fiz parte da Montfort nem de qualquer grupo católico. Por prudência, desde a minha tardia conversão preferi manter a independência e não ser gregário: optei por tentar extrair o que de bom via aqui e ali, deixando de lado o que não me interessava. E, obviamente, ter vida sacramental e esforçar-me por cumprir os preceitos.

A partir daquela época ouvi fofocas e histórias escabrosas não apenas sobre a Montfort, mas também a respeito da FSSPX brasileira, do Opus Dei, da TFP, das chamadas "comunidades amigas da Tradição" e, por fim, da Administração Apostólica S.J.M. Vianney. Se eu tivesse uma membrana nos ouvidos a fecharia para não ouvir esses presumíveis fatos que não me dizem respeito — nem próxima nem distantemente.

Em breves palavras, estas coisas não me interessam! Ademais, como jamais terei condições de aferir com os próprios olhos a imensa maioria do disse-me-disse que ouvi, há algum tempo peço às pessoas que evitem transmitir-me tais supostos acontecimentos.

Uma coisa é certa — a crise eclesial é gigantesca, ao ponto de hoje posições distintas, não raro conflitantes, serem razoavelmente defensáveis. Em tal contexto, o mínimo que o católico consciencioso deve procurar pôr em prática parece-me o seguinte: mostrar certa caridade nas divergências, saber calar e meditar muito antes de falar. 

Rezemos uns pelos outros e tenhamos a prudência de não emitir publicamente juízos temerários contra pessoas ou grupos, sempre levando em conta o fato de que responderemos por absolutamente tudo — pelo bem e pelo mal que fizermos.

Escrevo este breve texto porque recebi hoje, por conta de uma postagem de Facebook na qual fui citado, mais de 30 mensagens de pessoas contra e a favor do Prof. Fedeli. Eis aqui, portanto, a minha resposta, e se a dou em público é porque o conselho prudencial deste texto parece-me bastante útil para todos nós.

Saudações,
Sidney Silveira

P.S. Uma vez vi-me compelido a reconhecer de público alguns méritos do Prof. Orlando, e lembro-me da comovida resposta que me deu

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Indicação do Prof. Carlos Nougué

Sidney Silveira

Três livros do jurista tomista Ricardo Dip (que atualmente nos honra com sua presença no Curso de Latim Clássico do Instituto Angelicum)

a) "Prudência Notarial", Quinta Editorial;
b) "Segurança Jurídica e Crise Pós-Moderna", Quartier Latin;
c) "A Natureza e os Limites das Normas Judiciárias do Serviço Extrajudicial", Quartier Latin.

Vejam a dica do querido amigo Nougué no link abaixo:
http://estudostomistas.blogspot.com.br/2013/10/o-tomismo-aplicado-ao-direito-tres.html

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Entre opiniões e vagidos


Sidney Silveira
Não me aborrece em absoluto ver pessoas expressarem opiniões diferentes das minhas. Jamais me verão dar chiliques por conta disso!

Já dizia o bom e velho Tomás de Aquino: opinião é o ato do intelecto que se inclina a uma proposição com temor de que a sua contraditória seja verdadeira (cfme. “Suma Teológica”, I, q. 79, art. 9, ad.4). Em síntese, a opinião é justamente o intermezzo entre a dúvida e a certeza: na dúvida o sujeito coloca-se num ponto eqüidistante entre proposições contraditórias ou aparentemente contrárias, sem se decidir por nenhuma, ao passo que na certeza o espírito adere firmemente a uma delas, em detrimento das demais.

O Aquinate distinguia dois tipos de opinião: opinio communis, pautada no bom senso, e a opinio extranea, ou seja, a bizarra, descabida ou extravagante. Esta última pode ser má ao ponto de o grande teólogo identificar-lhe um grave perigo: nalguns casos ela pode destruir os princípios universalíssimos sobre os quais se apóia toda filosofia digna deste nome.

A propósito, rio-me interiormente ao ver liberais democratas natos e hereditários espocarem feito catapora, apenas porque lhes são insuportáveis as opiniões divergentes das suas. Parecem acometidos duma doença auto-imune cujo sintoma é partir para a detração, a murmuração ou o insulto, pelo simples fato de que alguém ousa discordar deles. Em resumo, a sua é a mais tirânica das opiniões: a que se quer verdade absoluta sem deixar de ser opinião. Anômala espécie de “doxa epistêmica”.

Em geral, alguém com este perfil finge escandalizar-se com opiniões que em si não podem ser ditas extravagantes, pois se ancoram em evidências ou em premissas razoáveis. Temos aqui o sinal distintivo de um dos mais letais tipos de má-fé: a afetação — que não é outra coisa senão a falta de naturalidade na ação, algo tão denunciador quanto batom na cueca. Ora, a afetação é irmã siamesa da desonestidade intelectual, e o contato com pessoas com tal deficiência de caráter é perigosíssimo, devido ao fato de que o contágio pode ser rápido e acarretar seqüelas definitivas.

A gradação que vai da ignorância à ciência passa necessariamente pela opinio communis, e não raro pela opinio extranea. Neste último caso, trata-se de algo dialeticamente útil, pois a certeza que não considera objeções e idéias estranhas ou contrárias às suas premissas nunca deixará de ser frágil, ou então falsa. Nunca deixará de ser o signo da atitude covarde de quem precisa do consenso para manter-se protegido, qual criancinha debaixo das saias da mamãe.

Nos casos de flagrante desonestidade, ou então de desonestidade presumivelmente chegada ao limite do incurável, aquela que os cristãos sempre chamaram de “pecado contra o Espírito Santo”, o remédio é afastar-se. Gente com esta doença da alma não tem corriqueiramente opiniões erradas, pois a legítima opinião — mesmo quando errada — precisa do espírito de veracidade para existir, e tais pessoas mentem em nível patológico. 

A propósito, quem mente não opina, tergiversa maldosamente.

Em breves palavras, a opinião temerária ou apoiada em consensos fabricados tangencia a fraude, e um dos critérios para distinguir o opinador honesto do palpiteiro velhaco, cuja tendência é transformar-se em proverbial mentiroso, é levar em conta o nível de extravagância no opinar e também aferir se as opiniões expressadas são a repetição mecânica das idéias de facções ou seitas às quais alguém adere para sentir-se seguro

Nestes dois casos não há opinião em sentido próprio, mas agônicos vagidos.

domingo, 24 de novembro de 2013

Segunda turma do Curso de Latim Clássico do Instituto Angelicum


Sidney Silveira
Com apenas um mês de aulas da primeira turma de Latim Clássico, a procura devida à divulgação boca-a-boca continuou e várias pessoas interessadas em aprender a língua de Cícero nos têm procurado, razão pela qual decidimos abrir a segunda turma — cujas aulas se iniciarão em janeiro de 2014.

Os interessados devem enviar-nos mensagem pelo seguinte link: 


Se precisarem de outras informações, escrevam para Lissandra Lopes pelo e-mail contato@institutoangelicum.com.br  

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A sedução derrotada


Sidney Silveira
O manipulador experiente é alguém muitíssimo atento às reações das suas vítimas. A partir de reflexos psicológicos e físicos induzidos nos outros por situações artificiosamente criadas, ele vai formando um quadro das preferências, ojerizas, medos e desejos — expressos ou ocultos — daqueles contra quem vai lançar a sua rede de domínio. 

Feito o diagnóstico básico dos principais vetores da psique alheia, o manipulador inicia o seu nefasto trabalho deflagrando simpatias seguras, e isto por um método mais ou menos simples de sedução: é solidário nos medos e nas preferências da vítima; elabora discursos contrários às coisas que ela mais odeia, calculando bem as palavras e o momento certo de dizê-las; insinua-se como facilitador de prazeres; e induz preocupações imaginárias para as quais se apresenta como protetor ou salvador. Com estas e outras ações, vai minando as resistências psicológicas da pessoa que é objeto do seu malefício e consegue ir ganhando, aos poucos, a sua confiança. 

Em síntese, ele faz um sumário bastante preciso das paixões alheias e estuda os mecanismos para despertá-las. Depois disso, dá vazão às tendências (boas e más) identificadas na vítima, e com tal procedimento logra conhecê-la melhor e se arma convenientemente para a sedução que tem em vista. Diga-se neste ponto o seguinte: como consumado hipócrita, o manipulador jamais mostra as suas reais intenções a princípio, pois se o fizesse perderia todo o poder encantatório. Ele só se revela quando o domínio sobre a vontade alheia está em adiantado grau, a ponto de a pessoa ficar a serviço dos seus caprichos quase sem o saber — ou então sabendo, nos casos em que se escraviza totalmente. A propósito, o manipulador despreza a vítima que chega a tão abjeto nível de entrega, razão pela qual destruí-la de uma vez por todas se lhe apresenta como a única opção, pois precisa de combustível e o encontra em novas conquistas. Em breves palavras, nenhum vampiro interessa-se por novamente atacar quem já teve todo o sangue sugado.

Eis o princípio elementar modelador das ações e pensamentos desta maldita criatura: quanto maior é a maldade planejada, mais necessária se torna a capa da hipocrisia. Ora, na escala das maldades, as que matam o mais excelente numa pessoa (a alma, com as ricas potências que nela radicam) são as que mais precisam ocultar-se, pois o inferno não seduz senão a quem já se iniciou no processo de autodestruição, seja moral ou psicológica. O manipulador sabe muito bem disso e todo o seu trabalho de compelir uma pessoa a ir na direção por ele desejada depende de que esse princípio não seja ferido. Daí se presume o quanto ele é capaz de fazer da sedução uma obra de artesanato espiritual às avessas — na qual construir é destruir.

É necessário certo discernimento das almas para identificar o manipulador, ou então experiência adquirida como vítima de algum deles. Sem a menor sombra de dúvida, trata-se de pessoa bastante hábil e conhecedora de algumas tendências universais da psique humana. Mas o nosso arquetípico personagem costuma perder a bússola diante de quem não se deixa levar por consensos e também com pessoas cuja auto-estima se baseia em critérios realistas, objetivos, e não na opinião da maioria ou em devaneios hedonísticos. Não é errôneo dizer que o poder inicial do manipulador será tanto maior quanto menos centrada for a pessoa a quem queira dominar, e tanto menor quanto mais a vítima mantenha o próprio ego em salutar equilíbrio e razoável senso de proporções. Por exemplo: mesmo o mais competente manipulador tem sérias dificuldades com pessoas humildes, e, como estas se encontram entre as que amam verdadeiramente a Deus, deduz-se daí o caráter consciente ou inconscientemente satânico de toda e qualquer manipulação.

Em nossa época, boa parte da cultura e da política é feita de grandes manipulações — repletas de mensagens subliminares e da indução pavloviana de respostas psíquicas padronizadas em larga escala. Mas este admirável mundo novo, escravizante e derrogador da consciência humana, tem o limite prefixado de domínio: a liberdade, que não é outra coisa senão a vontade quando ama.

Não por outro motivo, os santos são os homens menos manipuláveis que pode haver, pois a sua sanidade psicológica e espiritual bebe da fonte suprema do ser, Deus, instância de amor inalcançável pelo mal. Portanto, quanto mais um homem toma os santos por modelo, e quanto mais procura conhecer-lhes a vida e a obra, menos chance tem de ser manietado pelo príncipe deste mundo.

Ou por seus disciplinados soldados.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Não me venham com a problemática política, pois não vejo a "solucionática"


Sidney Silveira

Parodio o folclórico ex-jogador de futebol Dadá Maravilha para dizer o seguinte: tenho recebido e-mails e também mensagens "inbox" no Facebook exortando-me a integrar este ou aquele grupo político (e/ou também religioso).

Minha resposta, simples e direta, é a seguinte: 

Por ora, não! Muito obrigado.

Não me julgo ungido pelos céus para apresentar ou propor fórmulas de ação política para o Brasil — mesmo porque creio firmemente não haver solução possível para uma sociedade chegada a tão elevado grau de corrupção moral, em todos os seus estratos e substratos.

Os círculos concêntricos abismais fecham-se em ritmo alucinante, e, não havendo autoridades espirituais com poder (nem vontade) de inocular vestígios de sanidade no corpo político, a tendência de eclosão dos mais diversos tipos de conflitos anticivilizacionais está decisivamente configurada

Perdoem-me, amigos: entre o arremedo de direita liberal nascente e o cardápio das esquerdopatias que dominam o cenário brasileiro, no momento para mim não existe ponto de tangência. 

A direita nunca, jamais, em tempo algum foi a solução contra os abusos da esquerda, mas no máximo o contraveneno que cura uma enfermidade cujo risco de morte é iminente para substituí-la por outra, de morte lenta — exatamente aquela que serviu de pano de fundo para chegar-se às calamidades atuais.

Meu olhar baseia-se numa premissa elementar: o comunismo e os socialismos de todos os matizes são filhos bastardos paridos no século XIX pelo liberalismo revolucionário que pulverizou de vez o sentido de unidade das nações — e as afastou da sombra benemerente das verdades evangélicas custodiadas pela Igreja. São efeitos próximos de uma causa comum.

Com relação a esta minha posição vale dizer que não a vejo como absenteísmo político, mas sim como o fruto maduro de um senso de realidade adquirido pela contemplação continuada do cenário contemporâneo à luz de alguns princípios universais colhidos da obra de três filósofos, em particular: Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino.

Quem assistiu ao minicurso "Manifesto das Sombras" — por mim ministrado em setembro deste ano —, sabe que ali propus três eras sequenciais e procurei inserir o quadro brasileiro num contexto histórico muitíssimo mais amplo: a Era da Perda da Fé (que vai do século XIV ao XVIII); a Era da Perda da Esperança (séculos XIX e XX, até o Concílio Vaticano II); e a Era da Perda da Caridade (do final do século XX em diante). E procurei explicar o vetor e os pontos de referência de cada um desses períodos históricos. 

Um movimento declinante específico atravessou esses ciclos: o paulatino apartamento entre a política e os princípios espirituais que lhe dão real sentido tinha inexoravelmente de chegar ao atual momento — de agonia e sufocamento das possibilidades de cura social. O bem comum político divorciou-se do bem comum espiritual

O caso brasileiro tem agravantes particulares, é verdade, mas se insere no contexto da nova ordem mundial dominada por elites globalistas bilionárias, ou seja: as diferenças são de grau, não de substância.

Sendo assim, em escala bastante modesta — superlativamente modesta! —, e sem quaisquer pretensões políticas megalômanas (que geralmente servem apenas para catalisar dinheiro de ricaços engambeláveis e iludir incautos milenaristas políticos), atuo na divulgação do pensamento medieval naquilo que nele vejo de atual, são, benéfico, seja espiritual ou politicamente.

E ponto.

Fazer diferente seria ferir a minha própria consciência.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Tomás de Aquino e o Vaticano II

O Flautista de Hamelin

“O Concílio Vaticano II é Prometeu no ato do seu latrocínio”

Pe. Álvaro Calderón
(A Religião do Homem)
Sidney Silveira
Com a declarada intenção de não querer impor dogmaticamente nenhuma doutrina, o Concílio Vaticano II fez chegar aos ouvidos dos fiéis católicos não a voz firme e inequívoca do Bom Pastor, mas o som encantatório do Flautista de Hamelin. E, de maneira semelhante ao que sucedeu às malfadadas crianças do famoso conto medieval, as ovelhas do rebanho se precipitaram no rio e morreram — afogaram-se nas águas tormentosas do pluralismo teológico. A deliberada ambigüidade dos textos conciliares transformou em norma o diálogo entre a luz e as trevas, com funestas conseqüências para a Igreja e o mundo.

O Concílio cita Santo Tomás de Aquino, assim como o magistério de Paulo VI e o de João Paulo II também o fazem. Porém misturam numa estranha alquimia elementos irredutíveis uns aos outros, com o seguinte detalhe metodológico na disseminação do caos: aspectos tradicionais tópicos vêm acompanhados de novidades até então nunca vistas,[1] o que abre as fórmulas conciliares à possibilidade de interpretações sem fim. A propósito, a pregação contemporânea acerca da necessidade de se buscar o “verdadeiro Concílio” é a evidência maior da ambivalência dos textos — legíveis à luz de hermenêuticas excludentes entre si. Nunca um documento eclesiástico gerou materialmente tantas dúvidas a respeito do seu próprio conteúdo. E é pelos frutos que se conhece a árvore.

Nos textos do Vaticano II vêem-se vestígios da doutrina tradicional católica ao lado de teses no mínimo estranhas, como a pitoresca idéia de que a Igreja é “edificada e vivificada” por elementos exteriores a ela, contra o Magistério anterior e os Doutores, que frisaram enfaticamente a impossibilidade de sequer haver fé fora da Igreja. Diz Unitatis Redintegratio (n.3):

“Entre os elementos ou bens com que, tomados em conjunto, a própria Igreja é edificada e vivificada, alguns e até muitos e muito importantes podem existir fora do âmbito da Igreja católica: a palavra de Deus escrita, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade e outros dons interiores do Espírito Santo e elementos visíveis”.
Aqui, além da inaudita e errônea circunstância teológica de se colocarem as três virtudes teologais como existentes fora da Igreja, ainda que potencialmente,[2] vale dizer: trata-se da primeira e única edificação da história sustentada em algo exterior a ela própria! Nem o arquiteto Oscar Niemeyer — famoso por conceber espaços que às vezes precisavam ser redesenhados por sugestão de engenheiros calculistas — imaginaria pôr de pé uma obra com tão bizarras características... Existem incontáveis outras imprecisões, ambigüidades e equívocos similares esparzidos entre os dezesseis documentos promulgados pelo Concílio Vaticano II. Não é intenção deste breve texto sumariá-los, seja com lupa, seja com água benta.

Apenas no tocante ao exemplo acima mencionado, cabe apontar a correção: a Igreja é vivificada em Cristo e edificada sobre Pedro (Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam), em quem repousa a suprema autoridade apostólica, assim como o sumo carisma magisterial, e não em elementos presumivelmente exteriores ao Corpo Místico. A propósito, com relação à falta de autoridade magisterial dos textos do Concílio Vaticano II, indicamos entusiasticamente a leitura do mais importante livro escrito nas últimas décadas: A Candeia Debaixo do Alqueire – Questão Disputada Sobre a Autoridade Doutrinal do Magistério Eclesiástico a partir do CVII, do Pe. Álvaro Calderón.

Pois muito bem.

No esforço de revestir a ambigüidade de autoridade, há anos neoteólogos de diferentes matizes tentam associar Tomás de Aquino ao Concílio Vaticano II, apoiando-se nas passageiras citações ao Aquinate num ou noutro documento conciliar, assim como em parte do magistério que se lhe seguiu — caso da famosa Encíclica Fides et Ratio, de João Paulo II.[3] Esta, infelizmente, toma o Aquinate não como a autoridade doutrinal cuja filosofia e teologia devam ser preferidas em detrimento do pensamento moderno (como diferentes Papas expressamente mandaram),[4] e sim como exemplo de audácia e liberdade de espírito, ou como “precursor do novo rumo da filosofia e da cultura universal” (hã?). Tudo a fim de “conciliar a secularidade do mundo com as exigências radicais do Evangelho”.[5] Diga-se neste ponto o mínimo: a intenção de frei Tomás jamais foi essa conciliação simpliciter, mas sim enfatizar a subordinação das coisas do mundo às celestes. Em resumo, a valorização daquelas só se pode dar em ordem a estas; tal é o conceito de contemptus mundi.

Na prática, os ventos de modernidade do Concílio Vaticano II interromperam os frutos que a escola neotomista vinha dando desde o chamado de Leão XIII na Encíclica Aeterni Patris. Basta vermos a abissal diferença de nível entre os tomistas mais atuantes nos períodos anteriores e nos posteriores ao Concílio, a saber: entre Pierre Mandonnet, M.D. Roland-Gosselin, Garrigou-Lagrange, Gallus Manser, Cornelio Fabro, Santiago Ramírez, Édouard Hugon e Josef Gredt, de um lado, e Abelardo Lobato, Miguel Ángel Gonzalez, Marie-Dominique Chenu e Jean-Pierre Torrel, de outro. Chega a ser covardia. Há exceções entre estudiosos que atravessaram o período do Concílio e têm ótimos trabalhos (como Josef Pieper e Battista Mondin), mas é quase na virada do século XX para o XXI que o tomismo começa a readquirir maior viço, sobretudo em comunidades tradicionais como a FSSPX e os dominicanos de Avrillé. Na universidade, vale citar nomes contemporâneos com importantes trabalhos publicados no espírito da escola tomista, como Martín Echavarría e Jorge Martínez Barrera, para aludir a apenas dois.

Voltemos no tempo para ressaltar o seguinte: se se trata de estímulo ao estudo da obra de Santo Tomás de Aquino, nenhum Concílio pode comparar-se a Trento. Ali a Suma Teológica foi simplesmente posta ao lado da Bíblia na proclamação dos Dogmas, e, numa passagem sobre a Eucaristia (seção XXI do Concílio), os Padres chegaram a reexaminar um ponto importante apenas porque certa passagem parecia contrariar Tomás. Por sua influência em Trento, o Aquinate chegou a ser chamado de patrum Concillii Tridentini oraculum! Ora, maior estímulo aos estudos tomistas não poderia haver do que este reconhecimento notório da autoridade do Doutor Comum justamente no Concílio que deu substância doutrinal à Contra Reforma — de maneira tão solene, magistral, catedrática, enfática e impositiva, não obstante este último adjetivo fira os delicados ouvidos do católico liberal, para quem a dicotomia autoridade/liberdade é irresolvível.

Em contrapartida, Tomás de Aquino e o Concílio Vaticano II são elementos que não se podem misturar sem acarretar sérios problemas. O motivo é simples: incontáveis textos do Concílio contrariam a letra e/ou o espírito da obra de Santo Tomás — seja em questões ecumenistas fundadoras do indiferentismo religioso hoje imperante, seja em questões políticas que defendem a separação formal entre a Igreja e o Estado, seja em questões eclesiológicas instauradoras da colegialidade, etc.

Vejamos dois brevíssimos exemplos, por meras razões de economia de texto:

       > Lumen Gentium (n. 16):

O desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos, que professam seguir a fé de Abraão, e conosco adoram o Deus único e misericordioso, que há de julgar os homens no último dia”.

Santo Tomás, em clave totalmente contrária a esta, deixa em primeiro lugar claro na Suma Contra os Gentios ser impossível crer nas proposições do Corão sem elevado grau de consciência culpável — tão contrárias são algumas suras à lei natural. E ali diz mais o Doutor Comum: Maomé deturpou os textos do Antigo e do Novo Testamento, entremeando-os de histórias legendárias, razão pela qual os sarracenos não podem, ao contrário do que diz o texto conciliar, professar "seguir a mesma fé de Abraão”. E ainda: Maomé fez a sua religião crescer no gume da espada e com promessas de prazeres carnais, nesta vida e na outra.[6] Isto sem falar no fato  — acrescentemos nós! — de que os muçulmanos não adoram o Deus único e misericordioso, visto não crerem na divindade de Cristo nem na Trindade! Ora, se Cristo, que é Deus na Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, vai julgar os homens no último dia, como se depreende de Jo., V, 22, e os muçulmanos não crêem na divindade de Cristo, logo, o que eles adoram não é patrimônio comum dos católicos, pois não é Deus mas um ídolo, visto que Deus é  essencialmente trinitário.

Em síntese, Tomás de Aquino e o Vaticano II não podem andar de mãos dadas por um breve caminho sem se arranharem mutuamente durante o percurso.

       >  Dignitatis Humanae (n. 2):

    “Este Concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta liberdade consiste no seguinte: todos os homens devem estar livres de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo ela, em privado e em público, só ou associado com outros, dentro dos devidos limites”.

     Aqui estamos diante de uma das pedras de toque da neoteologia católica: o “dogma” liberal da intocabilidade das consciências individuais. Não entremos no mérito desta tese, já abordada à exaustão no Contra Impuganantes, mas apenas mostremos que ela não pode coadunar-se com Santo Tomas, pois este afirma não menos que o seguinte: judeus e muçulmanos devem ser coagidos no sentido de não colocarem obstáculos de nenhuma ordem à fé católica; hereges e cismáticos, por sua vez, devem ser coagidos — ou até “forçados fisicamente” (corporaliter compelendi) — a cumprir o que prometeram no batismo e a manter o que uma vez aceitaram.[7]

     Concordemos ou não com esta gravíssima opinião do grande Doutor medieval, o fato é que entre Tomás de Aquino e o Vaticano II não há harmonia possível.

       Normalmente, quando um diz “A” o outro diz “B”.

Eis o trabalho que, a propósito, está para ser escrito: um catecismo das teses de Santo Tomás frontalmente contrárias aos textos conciliares. Não tive tempo de levar adiante uma empreitada desta magnitude, embora conheça de cor inúmeros pontos da divergência radical aqui aludida (os tópicos acima são modestíssimas amostras). Ocorre que escrever com organicidade é coisa que demanda tempo, saúde e disposição; e de nada disso hoje disponho como gostaria.

Um vídeo no horizonte
Este breve texto foi motivado pelo vídeo recentemente divulgado pelo Pe. Paulo Ricardo em que se diz o seguinte: “De alguma forma, o Concílio Vaticano II fez pelos estudos de Santo Tomás mais do que qualquer outro Concílio”. Para corroborar esta opinião, o atuante sacerdote brasileiro menciona as citações ao Aquinate feitas em Optatam totius (3) e Gravissimum educacionis (1), dois documentos conciliares.

No tocante a este parecer, reiteremos agora com outras palavras algo do que ficou dito acima: no contexto e na forma como estão enunciadas, estas breves e vagas recomendações (ter a Tomás como mestre dos estudos filosóficos e teológicos, etc., coisa já naquela altura dos acontecimentos arqui-sabida e reiterada por mais de 600 anos de magistério, com muito maior ênfase e detalhes do que nestas modestas passagens concilares) não poderiam ter senão o efeito prático que tiveram, a saber: nenhum! As incontáveis novidades gritaram muitísimo mais alto, e se a coisa não desandou de todo foi porque a Providência Divina deu coragem e armas espirituais a um bispo para combater em meio à tormenta: D. Marcel Lefebvre.

Entre outros fatores, indica de maneira grandiloqüente o que estamos a dizer — ou seja, o efeito nulo daquelas recomendações conciliares — o próprio ponto de partida do vídeo do Pe. Paulo Ricardo: o enorme preconceito contra o Aquinate nos seminários católicos, a ponto de o sacerdote mesmo confessar que procurou estudar com maior interesse a obra do Doutor Comum da Igreja há pouco tempo, depois de haver sido ordenado.

Não se escandalizem os amigos católicos com este texto: trata-se de matéria teologicamente opinável (a saber, se o Concílio Vaticano II ajudou ou não aos estudos tomistas), na qual é lícito a quem quer que seja — do mais simples fiel ao Papa — defender um ponto de vista, apresentar suas razões corroborantes, evidências, indícios, etc. Aliás, divergir sobre pontos acerca dos quais pairam incertezas e discutir à exaustão com o intuito de aclará-los foram as atitudes que construíram a grandeza filosófica e teológica do cristianismo. Portanto, não venham os fofoqueiros profissionais, os maledicentes contumazes, os engraçadinhos medíocres e os idiotas natos destilar o seu veneno! Nem para cima de mim, nem nos ouvidos do Pe. Paulo Ricardo.

Não reduzam uma divergência conceptual, de si lícita, à altura da sua própria incapacidade de pensar fora dos grupelhos — pois estes, ao fim e ao cabo, dão o fiel retrato de mentes medrosas e débeis, para as quais o eco dos pequenos murmúrios coletivos e das detrações de bastidor tem valor de argumento probante.

Ao Pe. Paulo Ricardo, na certeza da divergência e na convicção da caridade cristã, peço a bênção e orações por minha pessoa.



1- Como o malfadado “subsist in”, por exemplo.
2- Nem a vida da graça, nem as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade são bens que possam propriamente existir “fora do âmbito da Igreja”. Aqui, o erro vem acompanhado da formulação equívoca, dúbia. Em verdade, o hábito da fé faz o intelecto submeter-se ao império da vontade deificada: é assim que o homem confessa a Cristo como Deus e Senhor (e não apenas como pessoa bem intencionada com dons e talentos excepcionais) e dá assentimento aos preceitos evangélicos; é assim que o homem confessa a esperança no Cristo ressuscitado, pilar de toda verdadeira espera cristã; é assim que o homem ama as criaturas e a si mesmo por amor a Deus, compreendendo que o amor é pelos bens criados, e não pelo que neles falha. Daí Santo Tomás dizer na Questão Disputada sobre a Caridade: devemos amar nos homens o que é de Deus, e odiar neles o que é alheio a Deus. Isto é caridade, e ela, como as demais virtudes teologais, pressupõe a anuência do intelecto prático ao fiel depósito custodiado pela Igreja. Afirmar que essas virtudes podem dar-se “fora do âmbito da Igreja” é, se quisermos ser eufemísticos, uma formulação grandemente imprecisa. O muçulmano e o judeu, por exemplo, não têm fé porque não crêem no Evangelho; não têm esperança porque não esperam no Ressuscitado; não têm caridade porque não aceitam a Cruz redentora. Por sua vez, o herege e o cismático (nossos irmãozinhos separados, de acordo com a atual Hierarquia católica) não têm fé porque não aceitam parte da doutrina, seja deturpando-a, caso dos hereges, seja derrogando-a, caso de cismáticos como os ortodoxos, por exemplo, os quais não aceitam o Primado de Pedro.  Isto para não falar nos “evangélicos”. Também não têm esperança porque procurar a Cristo fora da Igreja é uma das piores formas de não esperar n’Ele, ou seja, desobedecendo àqueles a quem Nosso Senhor conferiu o poder de ligar e desligar, assim como o carisma de ensinar; e a desobediência, como sabemos desde Lúcifer, é pecado grave. E por fim lhes falta caridade, a virtude teologal que dá forma às demais, por motivos análogos ao que acontece com judeus e muçulmanos, pois, para tornar mais leve a Cruz de confessar perante o mundo a fé católica integralmente, preferem acomodá-la às próprias paixões e a interesses menores. Ora, desde São Paulo sabemos (por fé!) que não aceitar um só ponto da doutrina — e o modo como a Igreja magisterialmente a ensina —, implica perda da fé.
3- É imprescindível a leitura do “Comentário à Encíclica Fides et Ratio”, do Pe. Álvaro Calderón, que editamos no Brasil como apêndice à Candeia Debaixo do Alqueire. Esse texto destrói qualquer possível tentativa de fazer da referida Encíclica um documento “tomista”, próxima ou distantemente.
4- Em sentido totalmente oposto, Fides et Ratio diz que “a Igreja não propõe uma filosofia própria nem canoniza uma filosofia particular em detrimento de outras” (n.49).
5- João Paulo II. Fides et Ratio, n.43
6- Cfme. Tomas de Aquino. Suma Contra os Gentios, I, cap.6, n.7
7- Tomas de Aquino. Suma Teológica, II-II, q.X, art.8, resp.

Nova turma de latim!



Sidney Silveira

Ainda não chegamos ao final do primeiro mês do Curso de Latim Clássico e já temos fila de espera para novas turmas. Isto em parte graças à chamada divulgação "boca a boca".

Quem não quiser perder o lugar nesta segunda turma de latim, garanta-o desde já: envie e-mail para contato@institutoangelicum.com.br

Lissandra Lopes de Oliveira dará todas as informações. 

Aguardem novidades em breve: outros cursos e livros à vista!