segunda-feira, 25 de julho de 2011

Três em um: aula sobre Husserl; os “santos” palavrões; e alguns avisos

Sidney Silveira


Leiam-se a seguir três textos: a) uma resposta acerca do interessante tema da “intuição das essências”; b) o resultado do concurso “Santo Palavrão”; c) e breves avisos.


Vejamo-los.




Ceci n'est pas un chat.


Lectio:


Sobre a intuição “instantânea” das essências


A filosofia pós-escolástica foi, desde os seus primórdios, pródiga em gerar autores ecléticos, destes que mesclam em sua obra elementos tão díspares e contrários entre si que, no final das contas, produzem escritos repletos de terminologia equívoca e confusão doutrinária. A razão disto será tema para outro texto, mas vale deixar aqui consignadas algumas diferenças entre os grandes filósofos e aquilo que alguns autores medievais chamavam de philosophantes (para nós, filosofastros): os primeiros logram uma síntese superadora de todas as influências das quais beberam; os segundos não conseguem senão realizar esboços a partir de insights isolados — mostrando-se incapazes de alçar-se ao sentido de unidade sistêmica que toda boa filosofia possui. Em suma, uns produzem conhecimento verdadeiramente arquitetônico; outros compõem rebotalhos a partir de idéias estanques entre si, quando não aporéticas em sua raiz.


Nos grandes filósofos, os pontos cardeais da filosofia — ser (metafísica), conhecer (gnosiologia) e agir (moral) — são harmônicos e complementares; nos filosofastros, são caóticos e autofágicos. Na obra dos primeiros se observa um quadro sinóptico extraordinário, pelo qual se vislumbra toda a grandeza do conjunto; na dos segundos vê-se não raro uma massa conceptual difusa — quando não simplesmente amorfa —, que mais confunde o estudioso do que infunde nele algum conteúdo inteligível. A propósito, em alguns casos não é difícil demonstrar que são maus filósofos, o que é bastante evidente (caso de um David Hume, por exemplo); difícil mesmo seria demonstrar que são filósofos, sobretudo se tivermos em mente que é próprio do sábio — ou, no contexto, do filósofo — ordenar as coisas aos seus fins devidos, o que definitivamente inclui ordenar a sua própria formação.


É bem certo que o ecletismo predominante na filosofia ocidental a partir de Descartes não produziu, no decorrer dos séculos, apenas filosofastros como um Voltaire, por exemplo — publicista a quem só mesmo por analogia de atribuição imprópria poderíamos chamar de “filósofo”. Contudo, mesmo entre os melhores da filosofia moderna observamos com bastante freqüência teorias anômalas, incompletas ou aporéticas em seus princípios. E este é justamente o caso de alguns dos mais importantes filósofos de uma linha a que podemos chamar de intuicionista, como apontaram com grande competência autores como G. Manser e Octavio Derisi, além de pensadores de fora da escola tomista que seria ocioso enumerar. Essa tendência ganha enorme impulso com Kierkegaard e Bergson, no século XIX, e tem em Husserl, Heidegger e Xavier Zubiri alguns de seus expoentes, no século XX; e, em Duns Scot, o parentesco distante do século XIV. Em muitos desses autores, a má-compreensão do ato do conhecimento levou à formulação de teses insustentáveis que, ao fim e ao cabo, fizeram derruir boa parte de seu edifício filosófico.


Pois muito bem, a propósito de uma crítica recente recebida a um trecho de aula minha sobre Husserl, pela qual agradeço penhoradamente, tomou-se uma simples imagem analógica usada em sala (à guisa de exemplo para uma platéia bastante heterogênea) com o intuito de mostrar cabalmente que confundia eu ali, ao final das contas, o eidos, quer dizer, a forma inteligível de um ente, com os seus acidentes individuantes. Ou seja: seria eu sujeito tão tapado que sequer saberia distinguir a diferença entre a essência de uma tartaruga e o casco dela que me atiraram na cabeça, tão benevolamente.


Antes de tudo, e para não incorrer na equivocidade que tanto criticamos, definamos alguns termos neste tema gnosiológico em que estamos: “intuir” nada mais é do que “inteligir”, ou, como afirma com acerto Santo Tomás de Aquino, o ato do intuitum não é nada além disto: a união formal do intelecto com a essência da coisa — de qualquer modo que seja: “Intelligere nihil aliud dicit, quam intuitum, qui nihil aliud est, quam praesentia intelligibilis ad intellectum quocumque modo".


Bem, ao afirmar “de qualquer modo que seja” (“quocumque modo”), observamos que o genial filósofo medieval estava apenas referindo-se a um fato demonstrado em sua obra: o de que nós, humanos, não somos os únicos capazes de conhecer a verdade, quer dizer, os únicos aptos a apreender a forma inteligível dos entes. Ensina o mestre (e não é o caso de destrinchar cada uma destas teses, porque mudaríamos o foco):


Ø há o modo divino de conhecer, que é por visão total de tudo a partir de Si mesmo, ou seja: Deus, o Próprio Ser, conhece todos os entes ab intra, contemplando a Si mesmo num só ato que se identifica absolutamente com a Sua própria essência, que é “simplesmente Ser” (esse simpliciter). Noutras palavras, Deus, causa das causas, contemplando-Se, conhece o que é, o que foi, o que era, o que será e o que seria;


Ø o modo angélico de conhecer, que é duplo: ab intra na compreensão das essências — infusas por Deus na inteligência de cada Anjo —, e ab extra para o mero reconhecimento presencial de seus particulares inteligíveis no mundo, mas sem mediação das imagens abstraídas das coisas (às quais Santo Tomás chama de “fantasmas”, ou seja: são aquelas imagens captadas pelos sentidos externos do homem — tato, olfato, visão, audição e paladar — e que ficam impressas nos sentidos internos, senso comum, memória, imaginação e potência cogitativa). Em palavras simples, o Anjo intui a essência dos entes instantanemente, ao passo que nós, não, pois há, como veremos, outra instância necessariamente implicada em nosso processo de conhecimento;


Ø e há o modo humano de conhecer: que é ab extra — ou seja, tem como fonte as próprias coisas que estão “além e fora de nossa mente”, ou seja, o ente extramental — e se dá por abstração dos “fantasmas” acima aludidos. Em resumo, o modo humano de inteligir não tem nenhuma instância totalmente ab intra, como nos casos acima, nem é perfeito — no sentido de que nenhuma inteligência humana é capaz de esgotar a inteligibilidade dos entes. Ademais, nesta vida o conhecimento humano (mesmo quando é aparentemente “instantâneo”, como mostraremos abaixo) nunca ocorre sem o intermédio dessas imagens apreendidas pelos sentidos externos e laboradas pelos sentidos internos.


Dadas estas premissas, prossigamos com algo fundamental: quando o homem intelige uma essência pela primeira vez, dá-se a aquisição do inteligível por abstração das particularidades materiais individuantes, e nesta abstração o intelecto agente “ilumina” diretamente o “fantasma” (inteligível em potência) sobre a base do intelecto possível (ou seja: dessa tabula rasa que é potência para os inteligíveis, que Temístio, grande comentador de Aristóteles acolhido por Santo Tomás, denominou noûs dynamei ou noûs dynatós, distinguindo-a do noûs pathetikós — presente nominalmente na clássica passagem do De Anima, III, 5). Neste exato instante ocorre o seguinte “milagre”: o intelecto se torna uno com o inteligido em ato, e, nas palavras de Santo Tomás, o ínfimo do supremo (que é Deus) toca o supremo das coisas ínfimas (que somos nós). O erro dos intuicionistas em geral está em conceber o ato do conhecimento desconsiderando a anterioridade de todo este aparato sensitivo. Não se trata, em princípio, apenas de uma anterioridade temporal dos sentidos em relação ao intelecto — conforme apontou o meu crítico e como se fora um erro, o que veremos abaixo se procede —, mas também material-formal.


O quadro acima pode ser ilustrado com o que se disse noutro texto: Deus, quando pensa, cria a coisa pensada; o Anjo, quando pensa, intui a essência da coisa pensada; o homem, quando pensa, abstrai a essência da coisa de seus acidentes individuantes. E abaixo de todos nessa escala, na presunção do meu crítico, decerto há de estar este miserável escriba, arrojado dramaticamente no plano da sensibilidade a ponto de não saber se o chuveiro de sua casa é comestível ou se os sons emitidos pelo seu bichano (chamado “Boécio”) são anagramas seráficos em forma de miado.


Mas retomemos o fio da meada. Diz o meu crítico:


“O ato e reconhecimento instantâneo (grifo meu!) pelo qual o intelecto apreende um gato naquilo que os sentidos lhe apresentam como gato é, precisamente, o que se denomina intuição”.


Bem, a título de informação, esta é, com diferença de palavras e de contexto, exatamente a tese de Xavier Zubiri — expressa, entre vários outros lugares, na obra Los problemas fundamentales de la metafísica ocidental. Em linhas gerais, a tese pressupõe que não há uma anterioridade dos sentidos em relação ao conhecimento, chegando o filósofo basco a dizer, na conhecida formulação recorrente em sua obra, que “sentir e entender não são dois atos distintos, mas uma só apreensão instantânea (grifos meus!) pela inteligência sentinte” (recuso-me a usar o neologismo “senciente”). Esta premissa, ao nosso ver equívoca, embora defendida com vários argumentos pelo espanhol, é constante em toda a trilogia de Zubiri recém-lançada em português pela editora É Realizações, em brilhante tradução do Nougué. A propósito, sobre a intelección sentiente de Zubiri pretendemos falar amiúde noutro artigo**.


Em suma, após inteligida uma essência pela primeira vez, não é necessário abstraí-la sempre e sempre, mas basta-nos um reconhecimento (pela memória), do “fantasma” deste ou daquele particular, para que percebamos que tal ente individual X pertence à essência Y. Assim, pois, quando o meu intelecto apreende um gato reconhecendo-o de imediato como gato, exemplo usado pelo Prof., não se trata de cognição “instantânea”, no sentido de direta, da essência, pois mesmo neste caso o encontro do intelecto com a essência da coisa se dá por intermédio dos “fantasmas” (que lhe apontam uma essência que já havia sido inteligida anteriormente). A propósito da potência sensitiva interna da memória, leia-se este breve texto.


Retenhamos, pois, o seguinte: nem no primeiro contato da inteligência humana com as coisas, nem nos seguintes, há o encontro direito do intelecto com a essência delas sem o intermédio desses “fantasmas” — que lhe mostram diretamente o que nelas há de inteligível em potência. Por isso, é lugar comum da filosofia perene dizer que a intuição direta das essências é o modo de conhecimento propriamente angélico (a conversio ad intelligibilia), e não humano. Portanto, se um bom conhecedor de Aristóteles defende a tese da intuição “instantânea”, das duas uma: ou simplesmente preteriu Aristóteles em favor de Zubiri (ou Husserl, etc., etc., etc.), ou está manifestando o ecletismo que traz consigo uma imprecisão terminológica que acaba por gerar confusões conceptuais. Prefiro acreditar na primeira hipótese, que em si não implica nenhum “crime”, embora a segunda seja também uma possibilidade exponencial.


Demos, porém, o seguinte: alguém pode, com total elasticidade de termos, dizer que o homem intui instantaneamente as essências das coisas, pois o intuir nada mais é do que o ato de inteligir de qualquer modo que seja (“quocumque modo”). Até aí, como dizem, morreu Neves, e "intuem" os homens, os Anjos e Deus. Mas, no caso humano, ainda quando ocorre o “instantâneo” reconhecimento da essência gatesca ao observar-se este ou aquele gato, isto também se dá por intermédio do “fantasma” — o inteligível em potência que é atualizado pelo intelecto agente. Em termos simples: não existe intuição instantânea das essências, ou, nas palavras do meu crítico, “cognição instantânea”, a menos que tal definição se dê, como se disse, com elasticidade total de termos.


Vale neste contexto dizer que é cabal a irredutibilidade da obra gnosiológica de Santo Tomás de Aquino, e por extensão da dos tomistas, a qualquer tese “intuicionista” como a fenomenológica de Husserl, malgrado a tentativa de Edith Stein — importante discípula do autor alemão convertida do judaísmo à fé católica após o contato com a obra do Aquinate — de tentar fazer uma simbiose deste filósofo com o Doutor Comum da Igreja, em alguns aspectos. Essa irredutibilidade foi demonstrada por importantes tomistas do século XX. A bibliografia sobre o tema é densa e extensa.


Feitos estes esclarecimentos, torna-se evidente até mesmo para um gato (pelo menos para o meu) que o trecho criticado da aula sobre Husserl pressupunha corretamente uma anterioridade temporal dos sentidos sobre a inteligência, mas não apenas esta, como se viu, e que o exemplo citado em sala de aula era apenas uma imagem de ocasião colhida para facilitar a compreensão por parte dos alunos.


De toda forma, agradeço pela crítica, que é sempre bem-vinda, mesmo neste caso discordando eu dela fundamentalmente — tanto na forma, como no conteúdo.


Outra coisa: se porventura o Prof. crê sinceramente haver malícia de minha parte, não me resta senão pedir-lhe que, como cristão, reze por mim.


** Registre-se que a premissa gnosiológica implicada na inteligencia sentiente nada tem a ver com a nossa crítica, iniciada nesta série de artigos, ao modernismo teológico de Zubiri — que o levou não apenas a largar a batina, mas também à excomunhão. A propósito, jamais dissemos que o nosso contendor é o porta-voz desse modernismo teológico, ou de qualquer outra coisa — até porque ele próprio fez questão de frisar, com o seu humor peculiar, que é um abalizado porta-voz de si mesmo.


Em tempo: Quanto às incontáveis imputações por parte do meu adversário de intenções ocultas do meu coração (além de coisas bem mais graves), não me defendi delas até o momento e, a princípio, não pretendo fazê-lo. Meus muitos pecados conhece-os Deus, que vê o oculto, e o meu confessor. Seja como for, dou graças a Deus por tais coisas sucederem, pois se elas acontecem é porque estão incluídas no plano da Divina Providência, que a tudo abarca, naquilo que os grandes teólogos da Igreja chamavam de “vontade divina de beneplácito” — o ato interno da vontade de Deus não manifestado, ou seja, que não nos é dado conhecer.


Dizia acerca disso o grande São Francisco de Sales: “Devemos abandonar-nos confiantemente ao divino beneplácito, certos de que Deus nada quer ou permite que não seja para o bem espiritual dos que O amam” (Tratado do Amor de Deus, I. 8).




Resultado do concurso “Santo Palavrão”


Como já anunciáramos noutro post, o vencedor do concurso “Santo Palavrão” é o leitor J. S. Matos, da cidade de Tubarão (SC), o primeiro a me enviar uma mensagem, e a quem, portanto, serão postados os livros e DVDs descritos na promoção. E digo vencedor pelo seguinte: ao criar a coisa com o intuito de pôr fim a esta chalaça toda, eu já tinha em mente entregar o prêmio ao primeiro sujeito que mandasse uma mensagem para concursosetimoselo@gmail.com (como aliás está no regulamento), caso do leitor acima, cujo email chegou-me ao endereço eletrônico às 9h15 da última quinta-feira (21/07). Mas por uma espécie de benemerência da comissão julgadora (ou seja: eu mesmo!), estava firmemente decidido eu a mandar os livros e DVDs mesmo no caso de não se comprovar a “santa” chulice. E foi o que sucedeu. [ADENDO: é claro que se as obscenidades fossem de fato comprovadas, de acordo com o que diziam as regras — oh, que tirania terrível cumprir regras externas à consciência individual! —, eu apontaria aqui a coisa sem problema algum].


A propósito, as outras duas pessoas que enviaram mensagens o fizeram (sendo uma delas o Prof. Olavo), respectivamente, às 9h17 e 10h44 do mesmo dia — e um deles ainda mandou, por distração, o texto para o meu email pessoal, e não para a caixa postal acima, conforme prescrevia o regulamento da brincadeira. Mas não por esta distração eu acusaria o participante de ser um mau leitor de textos. São coisas que acontecem.


Em síntese, foram apenas três os emails enviados: o do vencedor, às 9h15; outro às 9h17; e um terceiro às 10h44. Todos os três citaram Thomas Morus, mas o vencedor — que o foi por ter sido o primeiro a mandar mensagem, conforme destacou-se acima — mencionou, além de Morus, São Gregório de Nazianzo, numa passagem em que o Santo teria dito o seguinte, durante o Concílio de Constantinopla:


“Vinde todos vós, que cavalgais no vício, escória do gênero humano. Porcos! Vós que vos desafogais, despudorados, arrogantes, alcoolizados, vagabundos, bufões, efeminados, falsos, insolentes, prontos ao perjúrio”.


Bem não há aí obscenidades ou imoralidades, no sentido em que as apontamos anteriormente, mas sim a crítica veemente delas. Quanto a Morus, o item 4 do concurso fazia menção exatamente ao fato de que não valiam santos que receberam a glória dos altares devido ao martírio no final da vida, caso notório de Thomas Morus, que, não obstante o belo exemplo de santidade, foi colocado no Índex dos Livros Proibidos, como mostramos aqui e aqui. Quem lê com atenção o decreto de canonização de Morus (por Pio XI) não tem dúvida de que se trata de um mártir santificado ao final de sua vida, no período em que se pôs frontalmente contra o nefasto Henrique VIII.



Aviso


O Contra Impugnantes entrará em recesso por alguns dias. Entre vários outros motivos, preciso terminar finalmente o trabalho de revisão dos textos de três livros que estão por vir:


Ø A Questão Disputada Sobre a Alma, de Santo Tomás (edição bilíngüe, latim/português);


Ø o Protréptico, de Clemente de Alexandria (edição bilíngüe, grego/português);


Ø e As Heresias de Pedro Abelardo, de São Bernardo (edição bilíngüe, latim/português).


Este último pela pequenina Sétimo Selo, e os dois primeiros pela É Realizações.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Curto aviso

Sidney Silveira

Multam malitiam docuit otiositas. "São muitas as maldades que a ociosidade ensinou", diz São Bernardo num lindo sermão, fazendo referência ao livro do Eclesiástico (XXXIII, 29). Menciono aqui esta passagem da obra do corifeu da ordem cirsterciense somente para dar um brevíssimo aviso:


> Não sou ocioso, e a chance de eu negligenciar compromissos profissionais e familiares — que por estes dias me tomarão boa parte do tempo — é zero (salvo em caso de doença). Portanto, apenas no começo da próxima semana será postado aqui no Contra Impugnantes o resultado deste bem-humorado concurso (bem humorado malgrado as circunstâncias), com uma resposta ilustrativa acerca da presente contenda.


A propósito, a uma pessoa presumivelmente jovem (e ociosa) que me instou ontem a responder de pronto — e de forma irada — ao último texto do meu oponente, eu bem poderia ter dito: "Calma! 'O apressado come cru', filho. E, chegadas as coisas a este ponto, o que está em jogo agora é mais do que a reputação". Volto agora ao trabalho, que me chama.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O concurso "Santo Palavrão" tem um vencedor!

Sidney Silveira

O bem-humorado Concurso "Santo Palavrão" já tem um vencedor: o leitor J. S. Matos, da Cidade de Tubarão, Santa Catarina (SC), o primeiro a mandar email (às 9h15min da manhã de hoje, conforme será apontado em detalhes aqui no blog). Ele receberá, pois, todos os livros e DVDs a que se fez menção neste post.


Como estou no momento em uma reunião de trabalho, depois, com mais vagar, comentarei o resultado, com alusão a outras mensagens que mencionaram a tal "santa obscenidade". Como eu disse, penso que será deveras pedagógico, instrutivo.


Parabéns ao vencedor!

"O tomismo é a doutrina comum da Igreja", pequeno texto do Nougué

Sidney Silveira

Interessante o texto do Carlos Nougué no blog do SPES, hoje, ao qual fizemos alusão ontem. E um aviso: no próximo dia 24 de setembro, um sábado, realizaremos no Centro de Convenções de um hotel no Rio de Janeiro o Simpósio Santo Tomás de Aquino, com a presença de gente bem interessante, de fora do país.

Darei outras informações mais à frente.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Concurso “Santo palavrão”

Mande-nos qualquer texto com uma só obscenidade escrita por um Santo, e ganhe todos os livros da editora Sétimo Seloassim como os “DVDs” da coleção A Síntese Tomista


Sidney Silveira


[Como há algo verdadeiramente cômico — embora com aspectos um tanto trágicos — na história que suscitou a presente série de textos, resolvi criar um bem-humorado concurso, que, não obstante, é à vera, ou seja: vale de fato se alguém o conseguir vencer]


Cristo disse, entre outras, as seguintes palavras ou expressões: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno?” (Mt. XVIII, 33). Noutras passagens do Evangelho, apenas para dar alguns exemplos, vemos Nosso Senhor usar palavras como “porcos”, "cães" “hipócritas”, “malditos”, “impuros” e outras similares. Com isto, o Messias mostra o seguinte: contra a malícia, não há senão que usar de uma linguagem dura e direta. Mas nunca, jamais, em tempo algum, usou Ele de qualquer obscenidade em seu vocabulário — nem mesmo contra os que O mataram, a quem perdoou na Cruz. Também os Santos, muitas vezes, usaram de linguagem duríssima contra os adversários, com expressões típicas do vulgo, como por exemplo Santo Antônio de Lisboa, contra os cátaros; São Bernardo, contra Abelardo; São João Crisóstomo (o boca de ouro), contra o judaísmo; São Jerônimo, que chamava por nome de animais não só os seus inimigos, mas às vezes até os amigos, como o grande Santo Agostinho, a quem disse certa vez: “Cala a boca, seu burro!”; etc.


Retenhamos, pois, isto: uma coisa é usar de linguagem dura, ou mesmo duríssima e em tom zombeteiro, contra gente maldosa com quem não dá para entabular diálogo; outra, totalmente distinta, é usar de linguagem obscena, recorrendo a imagens sexuais ofensivas, algumas chegando a detalhes grotescos, ironias de baixo calão, alusões injuriosas à vida privada do oponente, metáforas com ofensas imorais à honra dele ou à de sua família, e outras coisas mais. Em suma, é quando a obscenidade e a maledicência dão-se um amplexo cheirando a enxofre e procuram denegrir a pessoa do próximo. Bem diz a Sagrada Escritura desse tipo de linguagem: Não terá duração na Terra a má língua (Sl. 139, 120); Aquele que profere uma linguagem iníqua não pode fugir de Deus; Sua justiça vingadora não o deixará escapar (Sab. I, 8).


Pois bem, feita esta distinção, digamos, conceitual entre a santa dureza e a maldade espiritual — deveras importante, porque muitas vezes a virtude e o vício são muito parecidos — frisemos agora: dizer que a linguagem de qualquer Santo contra os inimigos foi de palavrões (no sentido de jargões obscenos) pode acontecer em dois únicos casos: ou por ignorância, ou por malícia. Para quem conhece bem a história da Igreja e a dos Santos, qualquer terceira hipótese está absolutamente excluída, por evidência cabal — e o evidente, como os principiantes no estudo da lógica sabem perfeitamente bem, não se demonstra; mostra-se.


Demos, a título de procedimento dialético, que alguém, ao buscar o respaldo dos Santos para justificar um palavreado chulamente detratório, aja sem maldade alguma — ou seja, que a sua ação seja movida por “boas intenções” mescladas a uma candente ignorância na matéria. Também demos, ainda como procedimento dialético, que não haja nenhuma má-fé de sua parte, ao fazer insinuações e acusações infames. E, como corolário das premissas anteriores, demos ainda que a malícia é algo que passa longe dessa alma, com a graça do bom Deus. Por fim, arguamos em favor deste arquetípico opositor o seguinte: de acordo com os princípios da Teologia Moral, os pecados por malícia são sempre culpáveis, mas os praticados por ignorância (pressuposição da qual partimos, no caso) são perdoáveis. Isto posto, o enfezado oponente teria uma única e dolorosa culpa ao dizer que os Santos usaram de “palavrões” similares aos dele: uma ignorância, mais ou menos vencível.


Tragamos agora duas definições, extraídas ipsis verbis do Dicionário Aurélio:


Ø “Obsceno: Que fere o pudor. Impuro, desonesto. Diz-se de quem profere ou escreve obscenidades”.


Ø Obscenidade: Qualidade de obsceno. Palavra, gesto, ato ou imagem obscenos”.


Pois bem, dadas estas duas definições, a Sétimo Selo, da qual sou um hoje um mero representante no que tange à linha editorial, estatui o seguinte e breve regulamento do Concurso Santo Palavrão:


Parágrafo 1: O primeiro leitor do Contra Impugnantes que nos enviar um só texto em que haja uma obscenidade escrita (ou dita) por algum Santo contra seus inimigos, receberá de presente um exemplar de cada livro já editado pela Sétimo Selo, assim como um exemplar de cada DVD da coleção A Síntese Tomista até agora lançado. Pago com muito gosto do meu bolso!


Parágrafo 2: Para tanto, o leitor deverá enviar-nos a referência bibliográfica da obra em questão, dando-nos o direito de exigir, caso julguemos o índice catalográfico insatisfatório, que nos mande pelo Correio o exemplar físico do livro onde está o presumível dito obsceno do Santo. Comprometo-me, de público, a restituir o exemplar, juntamente com o prêmio, caso se comprove, de fato, a santa obscenidade.


Os produtos são os seguintes:


Ø “A Natureza do Bem” (De Natura Boni contra Maniqueus), de Santo Agostinho, edição bilíngüe (latim / português);


Ø “Sobre o Mal” (De Malo), Tomo I, de Santo Tomás, edição bilíngüe (latim / português);


Ø “A Inocência do Padre Brown”, de Chesterton;


Ø “A Política em Aristóteles e Santo Tomás de Aquino”, do filósofo argentino Jorge Martínez Barrera;


Ø “Sobre os Anjos” (Tratactus De Substantiis Separatis), de Santo Tomás, edição bilíngüe (latim / português);


Ø “Atualidade do Tomismo”, coletânea de artigos;


Ø “Raimundo Lúlio e As Cruzadas”, três obras do escritor catalão, numa edição trilíngüe (latim/catalão medieval/português);


Ø “A Candeia Debaixo do Alqueire”, do Pe. Álvaro Calderón, da FSSPX;


Ø O Êxtase da Intimidade, do filósofo espanhol Juan Cruz Cruz;


Ø DVD da coleção A Síntese Tomista – Tomo I. Aspectos da Gnosiologia e da Metafísica de Santo Tomás de Aquino, com este miserável escriba;


Ø DVD da coleção A Síntese Tomista – Tomo II. O Tempo e a Eternidade em Santo Tomás de Aquino, com o Nougué;


Ø DVD Bach e a Harmonia das Esferas, com o Nougué.


Parágrafo 3: A citação com as informações indicadas no item 2 devem ser enviadas para o email concursosetimoselo@gmail.com.


PARÁGRAFO 4: Obviamente, não valem as obscenidades ditas antes da conversão, ou o caso de mártires que só se santificaram exatamente com a sua morte.


PARÁGRAFO 5: A promoção é válida até o final de agosto.



APÊNDICE


Um gnosiólogo em ato.


Pois bem, feita esta brincadeira editorial — que não deixará de ser pedagógica —, transcrevo a seguir a fala do Prof. Olavo de Carvalho no seu talk show da noite desta quarta-feira (20/07), em que, num tom de surpreendente urbanidade, embora sem deixar de lado certa sarcástica maledicêndia (que, em vista dos espetáculos anteriores de zanga e feérico impetus detrationis, considero uma verdadeira maravilha) faz referência a esta aula minha, em que cito Husserl. Bem, como rir não é pecado, confesso que cheguei a chorar de tanto rir. O homem, quando quer, é um humorista de primeira! [trata-se aqui de um sincero elogio!]


Abaixo, eis o trecho da fala do Prof. Olavo. Perdoem-me se houver algum erro de digitação, mas não sou taquígrafo e fui simplesmente transcrevendo-a conforme ouvia, e preciso dormir daqui a pouco.


Os itálicos — a ser comentados depois — são meus:


Ao contestar que possamos conhecer a essência de um objeto por intuição, ele [ou seja, eu] proclama que nada sabemos ao certo antes que o intelecto intervenha e classifica o que foi apreendido pelos sentidos. Com isso, ele dá um sentido de seqüência temporal ao que é com toda a evidência a hierarquia lógica e interna de um ato de cognição instantânea. É obvio que os sentidos não nos dão por si a essência de nada; apreender a essência é tarefa do intelecto, mas isto não quer dizer que entre a captação pelos sentidos e a entrada do intelecto em cena, decorra um intervalo de tempo, muito menos uma separação material, e não apenas formal, entre ver um gato e perceber que é um gato. O ato e reconhecimento instantâneo pelo qual o intelecto apreende um gato naquilo que os sentidos lhe apresentam como gato, é precisamente o que se denomina intuição. Então do que ele está falando? Prova suplementar da sua fulgurante inépcia, ele nos dá em seguida, ao fornecer como exemplo da impossibilidade de apreensão intuitiva de essências, o fato de que, se alguém, em segredo, depositasse um veneno no seu copo, ele não teria a apreensão intuitiva do copo envenenado. Raramente vi um professor de filosofia mesmo de ginásio descer tão baixo. De um lado, ninguém pode ter a intuição de algo que não chegou ao seu conhecimento nem pelos sentidos, nem por qualquer outra via de informação. Se o Sr. Silveira não tem a intuição do que se passou, não é por deficiência da faculdade intuitiva, mas por ausência do objeto. Qualquer criança de 5 anos entende isto num relance, mas na platéia do Sr. Silveira não havia aparentemente ninguém com a experiência e a erudição de uma criança de 5 anos, e por isso ninguém o contestou. Todos continuaram ouvindo a patacoada em respeitoso silêncio (...). Em segundo lugar, conter ou não conter veneno não faz parte da essência de nenhum copo; é um acidente. O cara não sabe distinguir uma essência dum acidente, meu Deus do céu. A intuição reconhece imediatamente um copo como copo, mas não distingue necessariamente a substância que o preenche, aliás pelo simples fato de que diferentes líquidos não se distinguem tão claramente uns dos outros pela sua simples forma visível, como objetos sólidos e espécies diversas, diferentes nesses e semelhantes naquele. Todo líquido tem a forma visível de líquido, não é? Não é como você distinguir um gato duma tartaruga, duma mesa, duma casa, tá certo? A objeção do Sr. Silveira à eficácia da faculdade intuitiva consiste apenas em alegar que ela não percebe no mesmo instante todos os acidentes, o que é o mesmo que não dizer absolutamente nada. Em terceiro lugar, um veneno depositado num copo com fins homicidas é por definição uma substância sem aparência distintiva que permita identificá-lo como tal. (...) O Sr. Silveira acredita que não tem intuição das essências porque não enxerga o invisível. Com toda a evidência o que lhe falta não é a apreensão intuitiva das essências, mas aquele mínimo de capacidade raciocinante que ele precisa ter para ser um mecânico de automóveis ou um caixa de banco, motivo pelo qual ele resolver escolher a profissão de porta-voz do magistério infalível. Por que desejaria eu conferir o estatuto de adversário filosófico meu a um sujeito tão obviamente despreparado e burro? Se à burrice e ao despreparo ele soma ainda a língua dupla e o hábito das insinuações veladas, pretendendo subir na vida na base da difamação e da intriga, que outro confronto posso ter eu com ele senão o de ordem jurídico-policial? (...) Nada mais sábio do que fugir ao vexame colossal de apanhar de um velho!”.


Ora, “o estilo é o homem”, dizia Buffon. Pois bem, assim que eu tiver um tempinho (se possível amanhã), vale passar um pequeno bisturi dialético no que vai acima.


Outra coisa engraçada no talk show desta noite: o Prof. Olavo usar daquilo que os medievais chamavam de argumento de autoridade (ou seria “otoridade”?) para dizer que o Nougué fugiu ao debate. “Eu publiquei tantas obras, e o Nougué não publicou nada, portanto, etc.”.


Muito boa! Isto me deu uma idéia de escrever no Contra Impugnantes, um pouco mais à frente, algo sobre o que seja o “argumento de autoridade”, e qual o seu real valor filosófico... Deixo por ora apenas uma frase de Sto. Tomás de Aquino, que tomo como parâmetro para os meus estudos:


“Não importa quem diz, mas a validade do que se diz”.


E depois chega, porque todos temos mais o que fazer!

Belo texto do Nougué

Sidney Silveira

Belo texto do Carlos Nougué, hoje, no blog SPES. Esse artigo havia sido anteriormente publicado por aqui — mas agora está ampliado e melhorado. Outra coisa anuncio desde logo: amanhã remeteremos os leitores a outro texto no blog do SPES: uma resposta (a meu ver definitiva!) a alguns que nos acusam de fazer do tomismo um "dogma".

terça-feira, 19 de julho de 2011

Mártires tomistas argentinos (texto ampliado)

Carlos A. Sacheri


Jordán Bruno Genta


Sidney Silveira


No último domingo, tive enorme gosto em conhecer dois jovens argentinos estudiosos da obra de Santo Tomás que estavam a passeio pelo Rio de Janeiro. A agradável conversa girou em torno da forte tradição do tomismo na Argentina, que criou para o Catolicismo do país vizinho alguns anticorpos ao vírus letal do mordernismo que tomou conta da Igreja, com o Concílio Vaticano II. Na ocasião, eles me falaram sobre dois tomistas argentinos bastante combativos que foram assassinados por guerrilheiros de esquerda, no começo da década de 70: Carlos A. Sacheri e Jordán Bruno Genta, mortos em odium fidei por marxistas ensandecidos, no final 1974. Dois mártires. Sacheri foi alvejado por uma metralhadora quando fazia o sinal da cruz, ao sair da Missa ao lado de sua esposa e de seus sete filhos; Genta foi atingido por um balaço no momento em que saía de casa para ir à Missa, também diante da família.


A história de vida desses dois filósofos nos remete a qual é o papel do verdadeiro professor — sobretudo nos momentos de grande crise civilizacional: a de homem contemplativo e de ação, ao mesmo tempo. Mas com um detalhe: em se tratando de católicos, no que tange às atividades pedagógicas e filosóficas tem-se como vetor tanto as verdades assimiláveis pela luz da razão natural, por meio da qual se constrói a filosofia, como as verdades reveladas, fora das quais ninguém pode salvar-se. É, pois, totalmente equivocada a idéia (de cariz liberal, condenada de forma solene pela Igreja [e não por nós, pobres zé-ninguéns]) de que o católico pode ser uma espécie de livre-pensador que, em suas especulações solitárias de gabinete, erige uma obra filosófica à margem de qualquer verdade da fé, e apenas reza para não se afastar do Magistério. Para usar pedagogicamente de uma caricatura, seria como um pai levar o filho ao bordel para ensinar-lhe que a luxúria é pecado, rezando para o moleque não cair em tentação.


Depois do vendaval conciliar, passou a caber aos teólogos e filósofos católicos que não se deixaram levar pela entronização do modernismo uma dupla e inglória função: defender a Autoridade do Magistério e da Tradição contra as autoridades eclesiásticas, nas várias ocasiões em que estas tomam medidas contrárias à fé, apelando para o instituto do estado de necessidade, contemplado no Código de Direito Canônico; e apontar os erros filosóficos que, levados às últimas conseqüências, representam a demolição dos preambula fidei, ou seja, dos elementos de credibilidade dos quais sempre se valeu a Igreja — sabedora de que a fé, sem a razão, descamba no pietismo; e a razão, sem a fé, cai no orgulho suicida que leva as almas à perdição. Este último papel, até meados dos anos 60, cabia à hierarquia, que se valia instrumentalmente dos teólogos e Doutores como mestres auxiliares nesta defesa magisterial. Que tempos os nossos, Deus do céu!


Neste contexto, os tomistas Jordán Bruno Genta e Carlos Sacheri são exemplos notáveis do que seja o trabalho filosófico, para um católico: Genta, quando jovem, foi um marxista considerado como “grande promessa do ateísmo cultural argentino”, até converter-se a certa altura de sua trajetória intelectual e, depois disto, transformar-se no grande acicate da homicida ideologia comunista na Argentina, no plano das idéias, assim como do liberalismo — essa hidra de mil cabeças que rosna contra a Santa Madre Igreja há tempos, sob variadas formas e em distintas frentes de ação, algumas das quais levadas a cabo, nos últimos 200 anos, por grupos esotéricos ou secretos os mais doidos que se possa imaginar. Tentaram suborná-lo com o oferecimento de cátedras fora do país, mas Genta não se deixou levar por cantos de sereia e promessas de sucesso profissional, preferindo ficar na Argentina e combater.


Sacheri, por sua vez, começou como discípulo do Padre Júlio Meinvielle e teve ação efetiva como filósofo tomista e homem de luta no campo das idéias, em defesa da fé. Foi professor da Universidad Católica Argentina (UCA), convidado por seu fundador, o grande Octavio Nicolás Derisi, muito citado em vários de nossos textos; participou da Ação Católica naquele país; foi secretário da Sociedad Tomista Argentina, em um momento de grande revolução doutrinal e litúrgica da Igreja. É autor do livro El orden natural, que fala sobre a doutrina social da Igreja, obra que espero adquirir em breve.


Sacheri e Genta são apenas dois dentre tantos mártires assassinados pela fúria comunista no começo da década de 70. Quem tiver interesse em saber um pouco o que foi aquele dramático momento em nosso país vizinho, para os católicos, pode ler o livro Cuatro Mártires Argentinos de los 70, que possui alguns pequenos extratos encontráveis na intenet.


EM TEMPO: Não duvido nada que o nosso contendor, a quem dei um salvo-conduto para me xingar por meses (prazo que, a propósito, estendo para toda a vida, se assim lhe aprouver) insinue que estamos querendo passar por "mártires", apenas porque mencionamos os dois belos exemplos acima... Tudo é possível para uma alma tão grandemente apaixonada, e pelo seguinte e "nobre" motivo: porque teve um trecho de uma obra sua criticada nominalmente, e no tocante a um tópico em particular.


Pois bem, quanto ao filósofo boca-suja, que tanto parece tê-lo deixado "magoado", a ponto de o sujeito dizer claramente, por escrito e em vídeo, que o engoliu a seco e em silêncio por dois anos, digo o seguinte: tratou-se de um bem-humorado exercício dialético, e a respeito de uma questão nada desprezível (a saber, de que linguagem deve fazer uso um filósofo, em seu ofício?). Texto no qual, no entanto, ficou demonstrada a força que tinha a disputatio — o extraodinário procedimento levado por Santo Tomás de Aquino a uma inaudita perfeição. Quanto aos demais textos em que o caro Prof. "pescou" no Contra Impugnantes alusões à sua obra (mostrando-se um atentíssimo leitor deste miserável blog), na verdade apenas apontam para uma posição doutrinária consagrada pelo Magistério bimilenar da Igreja. Somente isso. Ocorre o seguinte: alguma dessas objeções foi respondida a não ser com palavrões, acusações e detrações ferinas? Aqui, relembro o seguinte: no caso do "boca-suja", não se tratava de um texto sobre o uso do palavrão em todos os casos, mas sim de sua absoluta ineficácia como instrumento filosófico, pelas várias razões apontadas: gnosiológicas, antropológicas, metafísicas, morais e escriturísticas (estas últimas, no SED CONTRA). A propósito, para quem não leu o texto, o seu título é: QUESTÃO DISPUTADA SOBRE O USO DE PALAVRAS TORPES POR PARTE DO FILÓSOFO).


Será que o nobre Prof. considera que o uso de palavrões propugnado por ele é matéria não-opinável? Doutrina revelada? Lembro que a "matéria opinável', do ponto de vista da teologia católica, é aquela acerca da qual o Magistério não se pronunciou solenemente, ainda que alguns santos ou Doutores o tenham feito. Ora, tenha santa paciência!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Nougué responde com brevidade

Sidney Silveira


O amigo Carlos Nougué, irmão na fé e companheiro de várias atividades ligadas à difusão da obra de Santo Tomás de Aquino no Brasil, responde — com profilática brevidade — ao Prof. Olavo de Carvalho, aqui no blog do SPES.

domingo, 17 de julho de 2011

O limite moral das contendas (e alguns avisos)

O vangloriar-se que causa a contenda não é outra coisa senão a defesa indevida, desmesurada, do próprio parecer”.


Sidney Silveira


Para ser lícita e não degenerar em ódio interior — e nos atos exteriores maus que se lhe seguem —, toda divergência deve ter como critério a busca sincera da verdade, sem a qual irá gerar contendas, rixas, escândalos, detrações. Quando digo aqui a palavra verdade, tomando-a como critério inalienável das divergências levadas a cabo de forma justa e honesta, não a estou usando em abstrato, ou seja, referindo-me ao conceito de verdade, e sim fazendo alusão às verdades objetivas implicadas na divergência mesma. Um pequeno desvio no que tange a essas verdades, e a divergência se transforma em ações injustificáveis contra o próximo; no habitat espiritual propício para os acusadores de má-fé, que fazem do vale-tudo imoral uma espécie de tática desesperada, que diz mais deles próprios do que de seus adversários.


O fato é que se nós, humanos, tivéssemos a intuição direta das essências das coisas, como imaginava Husserl, não haveria divergências nem disputas: a verdade assimilada por todos num flash intuitivo se imporia como esteio da paz social — sendo possível divergir apenas por malícia proveniente de uma corrupção na vontade. Este é, a propósito, o caso de Lúcifer e dos seus desgraçados anjos: neles a verdade apreendida pela inteligência não pode ser o pilar da paz apenas porque a sua vontade obstinou-se, quer dizer, perverteu-se irreversivelmente, mas isto não implica dizer que, numa situação em que não haja essa obstinação perfeita (a qual só se dá nos demônios), a verdade não seja vínculo da paz entre as criaturas inteligentes, ou seja, os entes dotados de potência para os inteligíveis. Em suma, como o nosso acesso aos inteligíveis é dificultoso, dada a humana forma de conhecer, que é a partir da essência das coisas materiais (quidditas rei materialis), é natural que, no transcurso da vida, nos vejamos em situações propícias a ocasionar contendas, controvérsias, querelas.


Isto postulado, podemos dizer que há duas formas principais de considerar moralmente uma contenda. Mas, antes de tudo, o que seria uma contenda? Sabemos, com Santo Tomás, que a contenda é uma das filhas da vanglória, e mais ainda: nas palavras precisas deste grande gênio filosófico, o vangloriar-se que causa a contenda não é outra coisa senão a defesa indevida, desmesurada, do próprio parecer. Noutras palavras: é quando o que é buscado na ação é apenas prevalecer sobre os demais, ser visto como “melhor” aos olhos dos demais (algo parecido com a insustentável teoria do desejo mimético, de René Girard).


Seja como for, uma coisa é certa: tal situação espiritual gera uma quantidade infindável de conflitos, seja de uma pessoa com outras, seja dela consigo mesma. Neste último caso, porque até mesmo uma consciência narcotizada pela vanglória — a qual faz um homem perder totalmente o senso de perspectiva — em algum momento acusará o golpe, pois a sindérese (o hábito inato da captação dos primeiros princípios da razão prática) é infalível em nós. Ou seja: nesta vida ou na outra, haverá o momento em que cada um de nós se deparará com as próprias ações, diante do espelho da consciência (termo que os liberais de todas as colorações, como já mostramos em vários artigos do blog, usam de forma absolutamente equívoca). Ocorre que, para a consciência estar de fato iluminada, ou seja, para rebrilhar em nossas ações pelo selo da reta razão, é preciso evitar a todo custo a vanglória, o que se pode fazer de várias maneiras (mas não é o caso de abordá-las aqui). Fiquemos, por ora, com o seguinte: o vanglorioso será necessariamente um detrator, assim como também um praticante da contumélia, que nasce da ira.


Mas voltemos à contenda, deixando consignada outra definição que toca o aspecto prático da questão: contenda é a divergência conceitual transformada em rixa pessoal. E vamos às duas formas — a que se fez alusão acima — de avaliar a contenda no tocante ao aspecto moral:


Ø Se a contenda é instrumento da impugnação da verdade, será moralmente má. Acontece que alguém pode impugnar a verdade por erro ou ignorância na ação, e neste caso a contenda será má, sim, mas desculpável em algum grau; e também pode impugná-la de caso pensado, e então a contenda será não apenas má, mas verdadeiramente abominável. Este é, literalmente, o pecado contra o Espírito Santo, cuja remissibilidade, de acordo com o grande tomista Santiago Ramírez, é um dos maiores milagres que pode haver;


Ø Se a contenda é instrumento da impugnação da mentira ou de erros, será lícita, mas isto não quer dizer que o seja em todos os casos. Um exemplo: se da disputa com o contendor se presume uma conseqüência nefanda para ele, como por exemplo o induzi-lo ao ódio espiritual, que é sempre pecado, então até mesmo a contenda justa deve ser evitada. Aqui, ela só será moralmente lícita se for levada a cabo em legítima defesa. É aquela história que contava a minha avó: dá-se um boi para não entrar numa briga, mas, dependendo das circunstâncias, dá-se uma boiada inteira para não sair dela. É quando a situação obriga à ação, e depor as armas se transforma em omissão grandemente culpável.


Em resumo, em toda contenda há um limite moral, pois a vitória justa não se consegue com táticas escusas, e muito menos deixando prevalecer as paixões do apetite irascível, o que a propósito ocorre deveras quando o ambiente da contenda é de palavrões, insultos, ironias infames, xingamentos e coisas que tais (e não o da boa ironia da maiêutica socrática, é claro).


No caso de um inimigo desleal que acuse de forma insana o seu oponente, inventando teorias sofisticadíssimas sobre as suas supostas más intenções do coração (pelo amor de Deus, nem mesmo a Igreja julga o foro íntimo!), a coisa é tremenda, e o conselho prudencial é o seguinte: jamais usar dos mesmos expedientes, para não sucumbir à contenda má — que é um verdadeiro preâmbulo do inferno nesta vida.


Pois muito bem, não sou professor de malícia. Mas isto não implica dizer que não tenha a clara visão dela, quando se apresenta à minha frente, num espetáculo aterrador. Portanto, digo algumas coisas a propósito da discussão recente que gerou este texto:


1ª. Ela não se transformará em contenda má, simplesmente porque não vou deixar, ainda que a outra parte espume de raiva, invoque os demônios para fazer uma infestação local aqui em casa, etc. Para tanto, peço uma modesta contribuição a pessoas que (talvez por simpatia para comigo) me têm mandado mensagens com conteúdos das “lições” recentes do professor acerca da minha minúscula pessoa: não façam isto! Entre outras coisas, porque o seu “apostolado dos palavrões” (atividade chulíssima para a qual apresentou um padroeiro oficial, no vídeo em que faz carícias no meu ego, com insultos) interessa-me tanto quanto as conseqüências deletérias da eructação dos cangurus australianos para a camada de ozônio. Repito: o meu interesse por esses conteúdos e por qualquer opinião sobre a minha pessoa é, matematicamente, o seguinte: zero menos nada. Até porque prefiro confiar na Providência Divina, em lugar dos estratagemas humanos.


2ª. Por um desses emails fiquei sabendo que sou um “pérfido inconsciente”, conceito autocontraditório com o qual fui agraciado, idéia que, por decoro, prefiro não destrinchar por aqui. Basta apenas dizer que a perfídia, conforme aprendi numa prova cabal extraída da obra do Aquinate, pressupõe a plena consciência do malefício na ação. Logo, um pérfido inconsciente é algo tão possível quanto um círculo quadrado. Seria melhor, portanto, chamar-me de “homem dos infernos”, “pérfido diabólico” ou de coisa até pior, mas não disso aí — que é uma impossibilidade lógica e ontológica, e eu não me sinto nem um pouco lisonjeado por ser chamado de uma coisa que não existe. Ademais, nada disso me interessa, portanto não enviem mais esses conteúdos “filosóficos” para mim. Não vivo disso, tenho mais o que fazer, várias atividades profissionais que me tomam tempo, pessoas que dependem de mim, etc. E não tenho o menor interesse em obter informação de qualquer ordem sobre a vida ou as atividades desse professor, a quem pessoalmente não desejo nenhum mal. E não tenho o menor interesse sobretudo depois da forma desleal, mesquinha, feia, desproporcional e tola como agiu comigo. Por isso reitero: não me mandem mais essas coisas! Se não as indico a outras pessoas, por que eu mesmo iria contemplá-las?


3ª. Continuaremos o modesto trabalho do Contra Impugnantes; da editora Sétimo Selo (que acabou de lançar seu último livro, e está finalizando o próximo); do Instituto Angelicum (com os DVDs); do SPES; etc. E não digo “modesto” por falsa modéstia, mas porque é isso mesmo: um quase nada que oferecemos como uma espécie de serviço teológico, neste momento de crise eclesiástica. Se é de fato um trabalho bom ou ruim, meritório ou demeritório, entregamos ao julgamento do Pai do céu.



4ª. Quem espera que façamos um circo deste lamentabilíssimo episódio, se decepcionará muito. É claro que as acusações amalucadas ou insustentáveis (como a da tal “perfídia inconsciente”) serão respondidas devidamente, no tempo e na forma que julgarmos adequados. No mais, continuaremos mostrando a obra de Santo Tomás de Aquino com cursos, aulas e livros editados de uma forma que faça jus a este grande Doutor da Igreja (como por exemplo o primeiro volume do De Malo e o Tratactus De Substantiis Separatis, em edições bilíngües, latim/português). Por fim, vale dizer que, quando eu tiver um tempo maior para escrever, os leitores em breve verão por aqui: a) a continuação da série de textos sobre Xavier Zubiri; b) mais um artigo para mostrar como tomismo e neotomismo possuem uma contiuidade harmônica, uma complementaridade estupenda, e que não se pode jamais tomar a Jacques Maritain como seu representante máximo no século XX, sob nenhum aspecto; c) informação sobre os novos DVDs da série A Síntese Tomista, que em breve apresentaremos por aqui.